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sábado, 26 de janeiro de 2013

MAIO DE 68 NA FRANÇA



Dia 1 de maio de 2012 -  Boulevard Saint Michel - Quartier Latin - Paris
Ana Margarida - junho de 2012 - Paris
                  Por:  Ana Margarida Arruda Rosemberg

 O dia ficou borrado na memória, mas o mês e o ano nítidos para sempre. 

Era maio de 2012, primavera em Paris. Cedinho, desci os degraus velhos e desgastados do prédio da Rue de Lombards, 58, no 1er arrondissement. 

Ao abrir a pesada porta que dava acesso à rua, um frio gostoso invadiu a minh’alma. Com uma sensação de leveza, liberdade e segurança dobrei a esquina e cai em uma das 13 bocas da estação Châtelet Les Halles, na Place Sainte Opoortune, da fantástica rede de metrô de Paris. 

Em busca da linha 1, cruzei com dezenas de pessoas num vai e vem sem parar. Na bifurcação dos dois sentidos, La Défense e Château de Vincennes, uma jovem extraía das cordas de seu violino sons melodiosos. 

Ao entrar no vagão do metrô, observei que as pessoas liam jornais e livros, com sede de informação e saber. Pensei em Monteiro Lobato e em sua célebre frase: “Um País se faz com homens e livros”. Foi assim que a França se fez. 

Desci na estação Franklin  Roosevelt em busca da linha 9. Ao emergir em Trocadero meu olhar se voltou para a Tour Eiffel. Quanta majestade ostenta a “Dama Rendada”! 

Em cinco minutos estava na Rue de Longchamp, para mais uma aula teórica de História da França (Une conférence d'histoire de France). 

O curso de História da Arte, da France Langue, que frequentava em Paris, era complementado com aulas teóricas sobre História da França. 

O tema da aula do dia era “Maio de 68”.  

Sempre ouvi falar da revolução encabeçada pelos estudantes da Sorbonne, em maio de 68, em Paris, mas nunca imaginei a profundidade e a força da mesma. 

Daniel Cohn-Bendit, estudante de sociologia da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, iniciou o movimento quando liderou um protesto que exaltava o direito das pessoas à felicidade e criticava a sociedade consumista. 

Os grupos de esquerda: trotskistas, maoístas e anarquistas se uniram e, no dia 27 de março, cem estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre. 

O movimento desaguou na Sorbonne e, no dia 3 de maio, a mesma foi ocupada pela polícia resultando em cem feridos e seiscentos presos. 

No dia 6 de maio, houve confronto no Quartier Latin com um saldo de novecentos feridos e quatrocentos presos. 

No dia 7 de maio, 30.000 estudantes marcharam sobre a Champs Elysées

A noite de 10 de maio passou para a história como “A Noite das Barricadas”, pois 20 mil estudantes enfrentaram a polícia sob uma chuva de pedras, gás lacrimogênio, cocktel molotov, fumaça de carros incendiados etc. 

No dia 13 de maio, estudantes e trabalhadores se uniram e decretaram uma greve geral de 24h, em Paris, em protesto contra as políticas do General De Gaule. 

No dia 20 de maio, Paris amanheceu sem metrô, ônibus e outros serviços. Cerca de 6 milhões de grevistas ocuparam as 300 fábricas da França. 

No dia 30 de maio, o movimento tornou-se vultoso quando 2/3 dos trabalhadores franceses aderiram ao movimento e 1 milhão de franceses marcharam sobre a Champs Elysées

A Universidade de Sorbonne, ocupada pelos estudantes, iniciou uma batalha cuja as armas foram frases ousadas: “A imaginação ao poder”, "É proibido proibir", "Abaixo a universidade" e "Abaixo a sociedade espetacular mercantil".  Os estudantes franceses se mobilizaram para mostrar ao mundo os novos tempos, a liberdade e a rebeldia. 

A França dos anos de 1960, sob o comando do General Charles De Gaulle, era uma sociedade culturalmente conservadora e fechada. A juventude ansiava por mais liberdade, rejeitando a ordem estabelecida e a sociedade de consumo. 

O Maio de 68 mudou profundamente as relações entre raças, sexos e gerações na França, e, em seguida, no restante da Europa. 

No decorrer das décadas, as manifestações ajudaram o Ocidente a fundar idéias como as das liberdades civis democráticas, dos direitos das minorias, e da igualdade entre homens e mulheres, brancos e negros e heterossexuais e homossexuais. 

Segundo o historiador francês Michel Winock, autor do livro "La fièvre hexagonale: les grandes crises politiques de 1871 à 1968", houve na França, em Maio de 68, uma emancipação social. 

Winock diz que desde a Revolução Francesa (1789), há um culto à revolução. A França bate recordes mundiais de manifestações. 

Só em Paris há mais de mil por ano. Isso é uma herança da história. Para muitos filósofos e historiadores, o Maio de 68 foi o acontecimento revolucionário mais importante do século XX,  porque foi uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Fortaleza, 16 de julho de 2012.
Texto publicado na Antologia da SOBRAMES-CE-2012 "Murmúrios Literários"

terça-feira, 6 de março de 2012

UM DIA EM PARIS – Passeio nº 4


Ana Margarida

Nilze Costa e Silva


Depois do Jardin de Luxembourg, Panthéon e Notre Dame, a nossa quarta parada, naquele 19 de setembro de 2008, era Montmartre.    Eu carregava sacolas com livros (como pesam!) e a Nilze, sacolas com roupas, que havia comprado no Boulevard Saint Michel. Por isso, achamos melhor apanhar um taxi, passar em nosso hotel - que ficava no meio do caminho - deixar as sacolas, e prosseguir no mesmo taxi. Assim, ganharíamos tempo, pois à noite iríamos encontrar o grupo para jantar na Tour Eiffel e passear de barco no Sena.
Montmartre (monte martre) deve seu nome aos cristãos (mártires) que foram torturados e mortos na referida colina. Isto, provavelmente, no ano 250 d.C., quando a religião cristã ainda não era aceita. Na Idade Média, tornou-se um local de peregrinação.  Em 1133 d.C., os monges beneditinos tomaram posse do local e passaram a cultivar uvas para a produção de vinho. Durante a revolução francesas eles foram massacrados.
Para escalar a colina de Montmartre é preciso fôlego. A escadaria que nos leva até a Basílica de Sacré Coeur (Sagrado Coração), a 129 metros de altitude (parte mais alta da colina), tem 237 degraus.  A deslumbrante Basílica é um dos templos mais lindos de Paris. Construida com mármore travertino, que lhe dá uma tonalidade branca, tem a forma de uma cruz grega. Com sua arquitetura romana bizantina ela ostenta quatro cúpulas e uma torre, que abriga um campanário com um sino de três metros de diâmetro e dezenove toneladas.  
A promessa de erguer a Basílica surgiu durante a guerra Franco-Prussiana, em 1870, caso a França sobrevivesse ao conflito.  
Feita por Alexandre Legentil e Hubert Rohault de Fleury a referida promessa  foi cumprida. A construção teve inicio, em 1875, e só foi concluida, em 1914.  Sua consagração só ocorreu após a Primeira Guerra Mundial, em 1919.
Depois de contemplarmos, do alto da escadaria, a magnífica vista de Paris, adentramos a Basílica.  Duas estátuas equestres de bronze, uma de São Luis e outra Joana d’Arc adornam a entrada. O deslumbrante mosaico, representando um imenso Cristo, um dos maiores do mundo, encontra-se no interior.
Após visitar a Basílica fomos até a pitoresca Place du Tertre que fica à poucos metros da mesma e ao lado da Igreja Saint Pierre de Montmartre. Conhecida como a praça dos boêmios, pois no final do século XIX e começo do XX era frequentada pela boemia parisiense, estava regurgitada de pintores e turistas. Ao passar em frente ao restaurante Mère Catherine  - de 1793 - lembrei-me do Rose que me contou a seguinte curiosidade: a palavra “bistrô” está ligada ao restaurante Mère Catherine, pois, em 1814, era o local preferido pelos cossacos russos que tinham o costume de bater nas mesas e gritar: “bistrô” (rápido, em russo). Não tivemos tempo de visitar o museu Salvador Dalí, alí pertinho, pois tínhamos que voltar ao hotel para o nosso quinto e último passeio do dia: a torre Eiffel. 


Ana Margarida Arruda Rosemberg                                             
 Fortaleza, 6 de março de 2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

O DIÁRIO DE HÉLÈNE BERR - Um Relato da Ocupação Nazista de Paris -RESENHA


Capa do livro

Hélèle Berr - Aubergenville, 11 de abril de 1942.

Jean Morawiecki e Hélèle Berr  - Paris, 15 de agosto de 1942

Hélèle Berr e amigas - Paris, 8 de abril de 1942

Hélèle Berr e crianças orfãs - Paris, 12 de novembro de 1943


Hélène Berr, uma jovem judia parisiense, de 21 anos, culta, estudante de literatura inglesa da Sorbonne, que sonhava com um futuro promissor ao lado de Jean Morawiecki, seu namorado, começou a escrever um diário, em abril de 1942, interrompendo-o em 8 de março de 1944, quando foi deportada para Auschwitz, com seus pais.
Esses manuscritos, confiados por Hélène à sua cozinheira, para entregá-los ao namorado, permaneceram guardados por seus familiares, durante 50 anos, como um intocável tesouro, até que foram doados ao Memorial da Shoah em Paris.
O nazismo, a segunda guerra mundial e as leis contra os judeus, de Vichy, mudaram tragicamente o destino desta jovem, interrompendo sua vida, cruelmente, no campo de concentração de Bergen-Belsen, em março de 1945.
Mais um depoimento histórico sobre as atrocidades perpetradas pelos nazistas, Hélène Berr Journal, lançado na França, pela editora Tallandier, em 2008, foi comercializado com 85 mil exemplares e vendeu 26 mil, em apenas três dias. Permaneceu durante três meses na lista dos mais vendidos, foi aclamado pelos jornais Liberation e Figaro e teve seus direitos vendidos para mais de 15 países.
Lançado no Brasil pela editora Objetiva, em 2008, “O diário de Hélène Berr” nos toca profundamente por ser um relato surpreendente de uma judia, nascida em 1921, filha de Raymond Berr, vice-presidente da empresa química Kuhlmann, que morreu envenenado pelo médico na enfermaria de Auschwitz e de Antoinette Berr que foi assassinada ao chegar a Auschwitz.
Hélène, além de estudante de música clássica e de literatura inglesa, era bibliotecária voluntária e fazia trabalhos sociais de assistência a crianças judias desamparadas. Lia Paul Valéry, Thomas Hardy, Elizabeth Goudge, entre outros. Em seu diário cita Shelley e Shakespeare e conta que costumava reunir-se com um grupo de amigos para tocar peças de Beethoven, Schubert e Bach, ao violino.
Descreve a vida em Paris, a rotina na universidade com seus amigos, seu romance com Jean, viagens de férias no campo e a simplicidade do amanhecer, no texto escrito em 11 de abril de 1942. “O júbilo que acompanha a ascensão triunfante do sol matinal, a alegria, a cada momento renovada, de uma descoberta, o perfume sutil dos buxos em flor, o zumbido das abelhas, o surgimento repentino de uma borboleta em voo hesitante e um pouco incerto. Fiquei no banco lá em cima sonhando, deixando-me acariciar por essa atmosfera tão suave que fazia meu coração derreter como cera”.
No entanto, aos poucos, a ocupação nazista começou a impregnar sua felicidade. Hélène Berr nos descreve a transformação de sua vida e o desvanecimento de seus sonhos. O namorado deixou Paris para fazer parte da Resistência francesa, seu pai foi detido pelos nazistas, famílias judias foram esfaceladas e suas amigas deportadas.
Mesclado de sua experiência diária, repleto de esperança e desespero, seu texto, de qualidade literária excepcional, nos prende e emociona do começo ao fim. Porém, o verdadeiro inferno vivido por Hélène não pôde ser relatado, pois sua pena foi confiscada pelos nazistas.
De Auschwitz, Hélène Berr foi conduzida, na famosa “marcha da morte”, para Bergen-Belsen, quando quinze mil pessoas morreram ao longo do caminho. Ao liberarem o campo de concentração, em 13 de abril de 1945, os soldados ingleses encontraram dez mil cadáveres e trinta e oito mil pessoas agonizantes. Hélène Berr, Anne Frank e a irmã, Margot, morreram de tifo e maus tratos, poucos dias antes da redenção.

                       Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
                                              São Paulo, 8 de setembro de 2009


Este texto foi publicado no livro "TEMPOS DE GUERRA E DE PAZ - Ensaios da Vida" - Organizado por Marcelo Gurgel Carlos da Silva e editado pela Ed. UECE, Fortaleza-CE, 2010.

Foi postado no site:  http://www.nehscfortaleza.com/

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

UM DIA EM PARIS - Passeio nº. 3

Ana Margarida. Paris, 19 de setembro de 2008.

Ana Margarida. Paris, 19 de setembro de 2008.

                                         UM DIA EM PARIS - Passeio nº. 3

            Nossa terceira parada era a Catedral de Notre-Dame, mas, antes, eu precisava passar na livraria. Saimos do Panthéon, descemos o Boulevard Saint Michel, também conhecido como Boulemiche, em direção ao Sena. 
    Construído pelo Barão de Haussmann, em 1864, no Quartier Latin, o referido boulevard ficou famoso pelos cafés literários. Hoje, está repleto de livrarias e lojas de roupas. Cruzamos a Rue des Écoles e, ao passarmos pertinho da Sorbonne, lembrei-me de maio de 1968, e do famoso enfrentamento entre a polícia e os estudantes, ali, no Boulemiche.
            Seguimos em frente e paramos rapidamente ao lado do Musée Cluny, Museu Nacional da Idade Média, construído em uma mansão medieval com ruínas galo-romanas. Tantas vezes estive lá com o Rose, mas, infelizmente, por falta de tempo, não poderia mostrá-lo à Nilze. Lembrei-me da Yone, medievalista, minha professora da PUC, que, em sua primeira visita ao museu, ficou  emocionada e não conseguiu adentrá-lo. Dentre sua bela coleção de arte e objetos medievais podemos apreciar a famosa série de 6 tapeçarias, tecidas no final do século XV, chamada “Mulher com o Unicórnio”. Porém, seu ponto alto são as ruinas das termas galo-romanas, construídas em 200 a.C.
            De repente, estávamos no cruzamento mais famoso do Quartier Latin. O Boulevard Saint Germain com o Boulevard Saint Michel. Atravessamos a avenida e fomos à livraria Gibert Jeune. Como a Nilze estava querendo comprar um xale para ir ao Moulin Rouge e eu querendo comprar livros para o meu neto, marcamos um reencontro, em frente à livraria, dentro de meia hora.  
            Com ansiedade fui até o último andar para ver os livros infantis. No meio de tantos consegui selecionar 13. Entre os do Pepê, um para a Beatriz, netinha da Ângela Brito e outro para a Fátima Assunção. Como gostaria de poder ficar o resto do dia lá, lendo, manuseando e comprando livros de História! O tempo foi curto e sai quase correndo.
            Difícil foi escolher um restaurante naquelas ruelas do Quartier Latin. Eram tantos! Finalmente encontramos um que nos agradou. Pedi uma sopa de cebola, que os franceses chamam de soupe à l’oignon e a Nilze, na falta de um baião de dois, um spagetti. Ali pertinho estava a Igreja Saint Severin, uma das mais antigas de Paris, mas não havia tempo para uma visita.
            Sua construção foi iniciada no século XIII e, somente após 300 anos, foi concluída. Seu nome homenageia o eremita, Severin, que viveu no local. Com seu gótico flamboyant, suas gárgulas e seus vitrais é uma das mais lindas Igrejas de Paris. Lá estivemos várias vezes, eu e o Rose, e ouvimos, certa ocasião, o som celestial de seu órgão, que foi importado da Alemanha pela sobrinha de Rei Luis XIV, a Grande Mademoiselle.
            Saímos do restaurante, atravessamos uma ruela, caímos no Quai Saint Michel, seguimos em frente e passamos ao lado do restaurante Notre-Dame (que na noite anterior abrigou uma parte do grupo, depois de uma longa caminhada), viramos à esquerda na Petit Pont e vislumbramos, mais de perto, a majestosa catedral.  Situada na Île de la Cité, o coração de Paris, ela se queda imponente e bela, em sua parte posterior, beirando o Sena.
            Nem podíamos acreditar que estávamos pisando naquela ilha, com formato de um barco, que deu origem à cidade de Paris. Habitada por tribos celtas, há mais de 2 mil anos, a referida  ilha oferecia um ponto de cruzamento do rio Sena entre o norte e o sul da região chamada Gália. Parisii, que deu o nome a cidade de Paris, era uma dessas tribos que habitaram a ilha, na época uma aldeia chamada de Lutécia.  
            Na Praça Parvis Notre-Dame tiramos fotos pegando o melhor ângulo para enquadrar a Catedral.  À esquerda, contemplamos o Hotel Dieu, a Santa Casa de Paris, que foi erguida sobre um orfanato que funcionou de 1866 a 1878. O Hotel Dieu original, construído no século XII, atravessava a ilha de lado a lado, mas foi demolido, no século XIX, pelo Barão de Haussmann. Atravessamos a Praça Parvis em direção a Catedral. Pensei na Crypte Archéologique abaixo de nossos pés, numa faixa subterrânea de 80 metros, que exibe alicerces e paredes da época da Aldeia Lutécia, centenas de anos mais antigos do que a catedral.
            Notre Dame é uma magnífica obra prima gótica. O local da mesma tem uma forte história ao culto religioso, pois os celtas ali celebravam suas cerimônias, os romanos construíram um templo ao deus Júpiter e a primeira Igreja do cristianismo de Paris, a Basílica de Saint-Etienne, projetada por volta de 528 d.C., também, foi erguida lá. Em 1163, após a demolição da Basílica, o Papa Alexandre III lançou a primeira pedra da Catedral. Após 170 anos de trabalho de milhares de arquitetos e artesãos medievais a mesma foi concluída. Em sua fachada principal admiramos, abaixo de suas duas torres, a “Rosácea Oeste”, a fantástica “Galeria dos Reis”, com 28 estátuas dos Reis de Judá, e os três grandes portais.
            Ao contemplar seu interior, veio, como sempre, o choque visual, causado pela beleza estonteante da alta abóbada de sua nave central, cortada por um imenso transepto. No fundo, visualizei o coro com os entalhes de Jean Ravy e, atrás do altar principal, a Pietá, de Nicolas Cousteau, sobre um pedestal dourado, esculpido por François Girardon. Sem perder muito tempo, fomos até o transepto para admirar as rosáceas com seus vitrais coloridos. A “Rosácea Norte”, no extremo norte do transepto, mostra Maria cercada de personagens do velho testamento. A “Rosácea Sul”, do lado oposto, mostra Cristo cercado por virgens, santos e os 12 apóstolos. Contornamos a Catedral pelo lado direito e passamos em frente ao museu, anexo, que abriga preciosidades religiosas, como manuscritos e relicários antigos. Lembrei-me de minhas irmãs, Goretti, Fátima e Carminha que estiveram comigo visitando o museu, em 2006.        Na parte posterior da Catedral, visualizamos sua maquete. Tiramos fotos, comprei uma medalha para minha amiga Cidinha e saímos sem subir os 387 degraus que levam ao topo da torre norte, onde se pode apreciar as famosas gárgulas e a magnífica vista de Paris. Também não tivemos tempo de contornar a Catedral para apreciar seus espetaculares arcobotantes e sua torre agulha que ergue-se a uma altura de 90 metros.
            Lembrei-me que aquela Catedral foi cenário majestoso para a coroação de tantos reis e imperadores, inclusive Napoleão, que coroou Josefina e a si próprio, em 2 de dezembro de 1804, como podemos constatar na magnífica tela de Jacques Louis Davi que encontra-se no Museu do Louvre.
            Notre-Dame, também, foi palco de violência quando os revolucionários a saquearam, aboliram a religião e a transformaram em um templo ao culto da razão e, depois, em um depósito de vinho. Em 1804, Napoleão restaurou a religião e, em 1831, Victor Hugo escreveu o famoso romance “O Corcunda de Notre-Dame”, tendo como pano de fundo a Catedral, durante a Idade Média.
            Finalmente, deixamos, com certa nostalgia, Notre-Dame em busca de nossa quarta parada, Montmartre.
  
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

SAMPA, 19 de outubro de 2008.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

UM DIA EM PARIS - Passeio nº. 2


Ana Margarida - Panthéon - Paris

Atendendo ao pedido da minha querida afilhada Danielle, estou postando mais um texto de Paris.

UM DIA EM PARIS - Passeio nº2
            Saímos do Jardin du Luxembourg, cruzamos o Boulevard Saint Michel e subimos a Rue Soufflot em direção ao majestoso Panthéon, nossa segunda parada.
            A história da Panthéon remonta a 1764, quando o rei Luís XV, após recuperar-se de uma grave doença, ordenou ao arquiteto Soufflot que construísse uma igreja em tributo a Santa Genoveva, padroeira de Paris. Concluída em 1790, a mesma foi transformada em Panteão Nacional, pelos revolucionários burgueses.
            Situado no alto do monte de Santa Genoveva, no 5º arrondissement, em pleno quartier latin, este monumento, em estilo neoclássico, tem 110 metros de comprimento e 84 de largura. Inspirado no panteão romano, sua fachada é decorada com 22 colunas de estilo coríntio e em seu frontão podemos ler a seguinte frase:Aux grands hommes, la patrie reconnaissante”. Acima, admiramos o baixo-relevo de David D’Angers que mostra a França, mãe pátria, concedendo lauréis a seus grandes homens.
            Aproveitamos para tirar fotos, inclusive, da prefeitura do arrondissement, que fica ao lado. Havia uma propaganda da mostra alusiva a Émile Zola, na entrada do Panthéon. Sem mais tempo para fotos, compramos os ingressos e adentramos o santuário.
            O interior do Panthéon tem quatro corredores em forma de cruz e no centro ergue-se a grande cúpula. A primeira coisa que nos chamou a atenção foi um imenso pêndulo, fixado na referida cúpula. O “Pêndulo de Foucault”, que leva este nome em homenagem ao físico, Jean Bernard Léon Foucault (1819-1868), está no Panthéon desde 1851. Ele foi concebido para demonstrar a rotação da terra.
            No altar principal admiramos a escultura que retrata a Convention  Nationale,  alusiva a Revolução Francesa. Depois de algumas fotos, e sem nos determos nas pinturas de artistas famosos, descemos até a cripta que ocupa toda  área sob o prédio.       
    Dividida em galerias, a mesma guarda os restos mortais de 70 personagens da história francesa como: cientistas, escritores, generais e políticos. Dentre os mais famosos estão: Voltaire, Jean Jacques Rousseau, Victor Hugo e Émile Zola. Em frente ao túmulo de Voltaire  vê-se uma estátua do mesmo. Tiramos fotos diante dela para homenagear um dos inspiradores da revolução francesa. François Marie Arouet (1694-1778), seu verdadeiro nome, foi escritor prolífico e filósofo iluminista. Severo crítico da Igreja católica, das instituições francesas e dos abusos do Antigo Regime, contribuiu com suas ideias, juntamente com John Locke, Thomas Hobbes e Rousseau  para o desencadeamento da Revolução Francesa.
            Caminhamos até a galeria principal para apreciar a mostra sobre Émile Zola (1840-1902). Recheada de fotos, cartazes, objetos pessoais, exemplar de sua obra “Germinal”, ela se mostrava atrativa. Infelizmente não tínhamos tempo para apreciar com calma aquela maravilha, mas vimos o artigo original, “J’accuse”, que tanta polêmica causou na França no finalzinho do século XIX.
            Saindo em defesa do judeu Alfred Dreyfus, que foi vítima de um processo fraudulento, Zola tornou-se uma importante figura libertária da França. Sua carta aberta, “J’accuse”, dirigida ao Presidente da França, publicada na primeira página do jornal L’Aurore, acusava o governo francês de anti-semitismo, por julgar e condenar por traição, sem provas, o capitão Alfred Dreyfus, em 1894.
            Na saída ainda tivemos tempo de admirar o túmulo de Rousseau, que fica em frente ao de Voltaire. Jean Jacques Rousseau (1712-1778), o meu iluminista preferido, foi filósofo, político, escritor e uma das figuras mais marcantes de sua época. A célebre frase “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe", resume o pensamento deste grande filósofo.
            Saímos do Panthéon, quase meio dia e resolvemos almoçar em um dos restaurantes do quartier latin, mas antes era preciso ir à livraria “Gibert Jeune”, no Boulevard Saint Michel, a fim de comprar livros infantis para o meu neto, Pepê.      Lembrei-me que pertinho do Panthéon, ficava a Igreja Saint-Étienne-du-Mont, a biblioteca de Santa Genoveva e a Sorbonne, Universidade de Paris-I. Pensei no Rose e no nosso Hotel Sully-Saint-Germain, na Rue des Écoles, na mesma rua da Sorbonne, onde tantas vezes nos hospedamos. Como não tínhamos mais tempo, descemos pela Rue Soufflot, cruzamos a Rue Saint Jacques, a mais antiga de Paris, e viramos à direita no Boulevard Saint Michel, em direção à nossa terceira parada, a Catedral de Notre Dame.  

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
SAMPA, 11 de outubro de 2008

sábado, 10 de dezembro de 2011

UM DIA EM PARIS – Passeio nº. 1

Ana Margarida - Jardin du Luxembourg - Paris -19/09/2008.

  UM DIA EM PARIS
O dia era 19 de setembro de 2008, aniversário de nascimento do Rose, que se vivo fosse estaria completando 99 primaveras. Era, também, o nosso último dia em Paris e o último de nosso giro, durante 13 dias, pela Europa. Depois de Budapeste, Praga e Viena, Paris se apresentava, para mim, como o ápice da viagem.
Acordamos cedo, eu e a Nilze, e resolvemos nos desligar do grupo - que já havia contratado uma guia brasileira - para que nós duas tivéssemos uma programação bem mais produtiva. Afinal, estávamos em Paris e cada segundo era precioso. O dia estava lindo e o céu de um azul muito límpido nos atraía ao Jardin du Luxembourg. Pegamos a linha 8 do metrô, em frente ao nosso Hotel Brebant, e, depois, a linha 4. Saltamos em St. Sulpice e, sem tempo para apreciarmos a famosa Igreja do filme “O Código Da Vinci”, pegamos a Rue Bonaparte e a Rue de Vaugirard, caindo, assim, no tão almejado jardim. Depois de atravessarmos o Boulevard Saint Michel para equipar a câmera fotográfica com pilhas, voltamos quase voando e ganhamos o jardim, um verdadeiro oásis de 25 hectares na margem esquerda do Rio Sena. A temperatura estava agréable e o colorido das rosas enchia nossos olhos naquela manhã de outono.
No fundo do jardim, o Palais du Luxembourg, imponente, majestoso parecia nos dizer que desafiava o tempo. Em frente ao palácio o grande lago octogonal, grand bassin, nos convidada para contorná-lo tirando fotos e mais fotos. Sentamos nas cadeiras de ferro que circundam a grama bem tratada e rodeada de flores de todos os tipos, perfumes e matizes.
O Palais du Luxembourg é, atualmente, sede do senado francês. No século XVI, François de Piney (duque de Luxembourg) construiu um hotel que foi comprado pela rainha Maria de Médicis, viúva de Henrique IV, em 1612, e que mandou construir em seu local o palácio. Daí ter herdado o nome de Luxembourg.
Muitas estátuas contornam o jardim. No seu lado direito apreciamos estátuas de várias rainhas, santas - como Genoveva  padroeira de Paris - e mulheres do povo. Contemplando o lado oposto ao palácio a visão é totalmente preenchida pela tour  Montparnasse.
Comentei com a Nilze que Sartre e Beauvoir estavam enterrados no cemitério de Montparnasse, logo atrás do jardim. Como não tínhamos tempo de ir até lá, deixei minha imaginação voar e me vi, novamente, ao lado do Rose visitando o referido cemitério. Ele foi construído por Napoleão, no século XIX, fora das muralhas da cidade para desafogar os pequenos cemitérios que eram verdadeiras ameaças à saúde dos franceses. Inaugurado em 1824, tornou-se famoso, pois lá repousam muitos parisienses ilustres como: Baudelaire, Guy de Maupassant, Alfred Dreyfus, Auguste Bartholdi (escultor de estátua da liberdade de Nova York), André Citroën e muitos outros. Porém, o jazigo mais famoso é o de Sartre e Simone de Beauvoir, talvez pela simplicidade do mesmo em contraste com a grandeza dos filósofos. A Rue Emile Richard corta o cemitério em duas partes: le Grand Cimetière et le Petit Cimetière.
Voltando ao jardim, nossa vontade era a de ficar o dia todo lá, mas ainda tínhamos uma longa jornada pela frente. Saímos com a sensação de leveza, imaginando que Sartre e Simone de Beauvoir frequentavam aqueles bancos e lá filosofavam. Lembrei-me dos meus passeios de braços dados com o Rose e da famosa foto com meu filho Daniel, sentados nas cadeiras de ferro e de costas para a câmera do Rose.
Saímos do jardim, cruzamos o Boulevard Saint Michel e subimos a Rue Soufflot em direção ao majestoso Panthéon, nossa segunda parada.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
SAMPA, 29/09/2008.