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segunda-feira, 9 de abril de 2012

DISCURSO PROFERIDO PELO PROF. LUIS ARRUDA FURTADO - 2ª PARTE


DISCURSO PROFERIDO PELO PROF.  LUIS ARRUDA FURTADO EM 21/08/1977 POR OCASIÃO DA FESTA COMEMORATIVA DO  CINQUENTENÁRIO  DE FUNDAÇÃO DA ESCOLA APOSTÓLICA DOS PADRES JESUITAS, EM BATURITÉ. 2ª PARTE

 
Prof. Luis Arruda Furtado
Aqui estão presentes os nossos dois primeiros diretores. O Pe. José Celestino, de porte imponente, mas de alma boníssima; o Pe. Luiz Baecher, que, embora sendo alemão, não possuia a altivez típica de seu povo; o Pe. Pinheiro, o ecônomo da casa; o nosso inesquecível e querido Pe. Teixeira, prefeito por muitos anos, o responsável por nossa formação, o nosso orientador, o sacerdote que permanecia continuamente entre nós, o que substituia o pai de cada um. Para tornar nossas férias mais amenas, lia-nos, como somente ele sabia ler, à sombra de frondosas árvores, livros como Tom Playfair, Percy Wynn, Fabíola e tantos outros; o Pe. Artur Redondo, nosso diretor espiritual e professor de inglês e francês, sacerdote reconhecidamente virtuoso, que exhalava de si um ar sobrenatural e em quem se podia notar uma auréola de santo a circundar-lhe a fronte; o nosso inolvidável e querido Pe. Alexandrino Monteiro, escritor, poeta, e compositor, que acompanhava ao harmônio os hinos religiosos. Foi nosso professor de português, latim e grego, sacerdote a quem muito devo e cujo método de ensino adotei, com absoluto êxito, durante 35 anos de magistério; o nosso primeiro Mestre de Noviços, o Pe. Charles Coppex, homem de uma cultura polimorfa e de profunda devoção ao Coração de Jesus. Costumava dizer que, para se ser feliz, era necessário se ter paz de consciência e sossego de espírito e acrescentava, e tino prático; o Pe. Pacheco, que ao ser transferido para Belém despediu-se de nós, que nos achávamos na Caridade, através do sinal Morse, transmitido por lâmpada elétrica; o Pe. Peixoto, nosso professor de latim e grego no segundo ano de Noviciado; o Pe. Veloso, o Pe. Pequito, o Pe. Cheseaux, o Pe. Viellendents, o Pe. Rocha e todos os que sucederam. Entre os irmãos coadjutores, o nosso enfermeiro, Irmão Bosco; o Irmão Fernandes, motorista e encarregado da carpintaria; o Irmão Rodrigues, porteiro e o Irmão  Oliveira, nosso cosinheiro. A todos o nosso preito de saudade e gratidão. Desejo fazer menção especial a dois Irmãos que ainda residem nesta Escola, o Irmão Silva e o Irmão Fibeiro, que foi meu colega de noviciado.

Continua na terceira parte. Aguardem...

domingo, 8 de abril de 2012

DISCURSO PROFERIDO PELO PROF. LUIS ARRUDA FURTADO - 1ª PARTE

Luis Arruda Furtado é o primeiro da frente da Esquerda pra Direita. Foto tirada na Escola Apostólica dos padres Jesuitas, em Baturité, em 1927.

Prof. Luis Arruda Furtado



DISCURSO PROFERIDO PELO PROF.  LUIS ARRUDA FURTADO EM 21/08/1977 POR OCASIÃO DA FESTA COMEMORATIVA DO  CINQUENTENÁRIO  DE FUNDAÇÃO DA ESCOLA APOSTÓLICA DOS PADRES JESUITAS, EM BATURITÉ.

Revmo. Pe. Hugo Furtado                                                                                                     
DD Diretor desta Escola                                                                                        
Revmo. Pe. José Teles Arruda                                                                                  
Meus senhores                                                                                                             
Minhas senhoras                                                                                                           
Caros Ex-Apostólicos


Ao ser convidado a falar nesta solenidade comemorativa do cinquentenário de fundação de nossa querida Escola Apostólica, vieram-me à mente as primeiras palavras do poema dedicado à Nossa Senhora e escrito pelo Pe. José de Anchieta nas areias de Iperoíg: “Eloquar an Sileam?” Seria aconselhável tomar a segunda opção, de vez que aqui se encontram muitos ex-apostólicos que, melhor do que eu, poderiam se desempenhar desta incumbência. Mas, como fui um dos cinco baturiteenses que fundaram esta Escola, em agosto de 1927, não me ficaria bem recusar tão amável convite.  
Minhas palavras são dirigidas especialmente aos ex-apostólicos e, de modo particular, àqueles que foram meus contemporâneos de 18 de agosto de 1927 a 23 de setembro de 1933. Não usarei o tratamento convencional dos discursos, mas o tratamento amistoso de “você”, com que nos tratávamos aqui antigamente.
Esta festa é para mim, mais de recordações e de nostalgia, do que propriamente de alegria. Aqui passei a minha adolescência e parte de minha meninice, e não estou bem seguro de mim de poder continuar falando, porque eu sinto uma grande, uma enorme, uma vasta saudade a devastar-me a alma.
Ainda há pouco, quando passei por entre as duas palmeiras imperiais que ladeiam a entrada deste prédio, denominadas pelo Pe. Alexandrino Monteiro de São Pedro e São Paulo, as Sentinelas de Escola, senti, não sei se foi ilusão minha ou excesso de emoção de minhalma agradecida, senti como se elas me reconhecessem e vissem em mim o menino que há cinquenta anos passou entre elas – na época também pequenas – com a alma imbuida dos melhores propósitos para dar entrada nesta casa.
Pela crença na comunhão dos Santos, acredito, estar presente aqui o extraordinário Pe. Antônio Pinto, idealizador, propugnador e fundador desta Escola, sacerdote, que percorreu o Brasil inteiro e alguns países de Europa à cata de donativos para a construção deste prédio. O Comendador Ananias Arruda, com seus 91 anos bem vividos, e que muito contribuiu para esta Escola, é testemunha do esforço, do trabalho, do sacrifício  e das dificuldades superadas para que esta casa se tornasse realidade. 

Continua na segunda parte...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A ESCOLA APOSTÓLICA DOS PADRES JESUÍTAS DE BATURITÉ

                                                    
 
fachada do mosteiro dos jesuítas  -  foto: ana margarida arruda rosemberg
fachada lateral do mosteiro dos jesuítas  -  foto : ana margarida arruda rosemberg


foto da internet

                    A ESCOLA APOSTÓLICA DOS PADRES JESUÍTAS DE BATURITÉ
           
            Desde a mais tenra idade, acostumei-me a vê-la imponente e majestosa, encravada no cimo da serra, envolta em suas palmeiras imperiais. 

Era o cartão postal da cidade! 

Aquela imensa construção de três andares com seus blocos de pedras me encantava, pois estava sempre lá, repousando no pico da serra, aparentemente tão perto, mas ao mesmo tempo longe e inacessível. 

Finalmente, naquele sábado, iria conhecê-la.

Acordamos cedinho e fomos (eu, Goretti, Lúcia, Maninha e Edna) com Dona Noemi, Sr. Edmundo e as filhas: Maria, Vanda, Ceição e Fafá, subir a serra em uma aventura inesquecível. 

Dona Noemi e Sr. Edmundo visitavam freqüentemente os filhos, Edmundo e Titico, que lá estudavam e resolveram, daquela vez, levar-nos também.
 
Que felicidade!

Subimos a rua 7 de Setembro, a Av. Proença e chegamos à praça da Matriz quando os seus sinos repicavam chamando os fiéis para a Santa Missa. 

Dobramos à esquerda na rua atrás da Igreja e novamente à direita. Logo estávamos em frente à Via Sacra. Desta vez não escalamos, como de costume, seus 365 degraus e a pé fomos galgando a estreita estrada lateral, de pedras, que dava acesso aos Jesuítas, como era conhecida a Escola Apostólica.

Dona Noemi sempre cuidadosa comigo e com a Goretti, pois éramos as menores do grupo, amarrou em nossas cabeças um lenço para nos proteger da friagem. 

Aos poucos, fomos subindo aquela fantástica serra verdejante e admirando a cidadezinha lá embaixo, que cada vez mais se distanciava de nós. 

Identificávamos nossa rua 7 de Setembro, a rua 15 de Novembro, a Matriz, a Prefeitura, a Cadeia Pública, o Cemitério, a Igreja Santa Luzia, as pracinhas e tudo mais que nossa vista alcançasse.

Felizes e em perfeita harmonia com a natureza, íamos descobrindo com nossa curiosidade infantil os encantos daquela serra. 

O cheiro de terra molhada, a mata virgem, a fragrância que emanava das flores silvestres, o orvalho nas folhas qual lágrimas brilhantes, o friozinho da serra, as borboletas coloridas, os passarinhos, o ar puro, a água límpida e fresquinha que descia entre as pedras nos chamados “olhos d’água”.

Com uma concha, feita com nossas mãos, bebíamos aquela água reconfortante e pura matando nossa sede. 

As mangueiras carregadas eram uma atração com seus galhos pendentes repletos de mangas quase beijando o chão de tão pesados. 

Íamos catando as que encontrávamos e solvendo seu néctar adocicado. 

Aqui e acolá: cajueiros, pitombeiras, goiabeiras, bananeiras e sirigueleiras.

O cantar das águas e o gorjear dos pássaros prediziam a aproximação da cachoeira e do poço da moça com sua lenda. 

Da margem da estrada admirávamos fascinadas a queda d’água e procurávamos desvendar os mistérios daquele poço encantado. 

De repente, a visão gigantesca do Colégio Jesuítas, por entre as copas das árvores, que a cada curva aumentava de tamanho

Prosseguindo chegamos à ponte.  Enfim, o rio! Lá paramos para um descanso e para admirar o rolar das águas que desciam da serra por entre as pedras de tamanhos variados. 

Olhando pra cima admirávamos a imponente construção se agigantando diante de nossos olhos e sabíamos que estávamos bem perto de alcançá-la. 

Mais algumas voltas e fomos recompensadas pela visão esplendorosa daquele imenso prédio de pedras envolto por palmeiras imperiais, da casa de hóspedes onde iríamos pernoitar e da vista magnífica que se descortinava do alto da serra.

No sopé, Baturité entre outras serras azuladas. No horizonte, Aracoiaba, a Serra do Tamanco e a Pedra Aguda. 

A gruta onde as meninas diziam que havia a Branca de Neve e os sete anões completava o fascínio daquele lugar. 

Depois de nos alojarmos na casa de hóspedes fomos conhecer a Escola e visitar o Titico e Edmundo. 

A entrada principal ficava na lateral, ao lado da capela.
Subimos correndo as escadarias que davam acesso à uma saleta (parlatório) com suas cadeiras de palhinha, uma mesinha com uma quartinha de água fresca e uma caneca. 

A porta de madeira talhada e pesada que separava o parlatório do interior da Escola tinha uma portinhola na parte superior que nos proporcionava uma visão limitada do pátio interno. 

Fazíamos fila para olhar através dela. A Vanda e a Maria nos colocaram (eu e a Goretti) em seus braços para que também, como elas, vislumbrássemos o claustro com seu jardim, seu roseiral multicolorido e perfumado e a fonte com uma imagem de Nossa Senhora. 

Era tudo o que podíamos ver, pois a clausura vetava às mulheres o acesso interno. Somente os homens podiam adentrar o magnífico colégio.

A capela!  

Uma escadaria dava acesso à mesma. Seus afrescos retratando o naufrágio de um navio com os padres jesuítas morrendo afogados, mas com suas almas conduzidas ao paraíso, impressionavam. 

À direita havia o altar privilegiado que abrigava a pedra d’ara com relíquias de mártires.   

Podia-se conseguir indulgências rezando nesse altar e todas nós, de joelhos, rezamos para recebê-las.

Desvendamos, em seguida, todos os recantos em torno do Colégio. A barragem Tijuquinha do rio Aracoiaba que abastecia a cidade e que havia sido inaugurada pelo governador Raul Barbosa, em 19 de Março de 1954, na administração do então prefeito, Miguel Edgy Távora Arruda; a imensa piscina de cimento, atrás da Escola; o campo de futebol; o bananal; o bambusal; as trilhas e as casas dos moradores.

A Casa de Retiros Fechados São José, no sítio Caridade, no alto da serra, era totalmente inacessível e jamais fomos lá. 

Somente os padres e alunos tinham esse privilégio. O almoço fornecido pelos jesuítas e compartilhado por todos, inclusive pelos Titico e Edmundo tinha um sabor de piquenique. 

À noite, em nossas redes, dormimos cansadas da caminhada, mas completamente felizes. 

ana margarida arruda rosemberg