A humanidade muito lhe deve. Para homenageá-lo, uma de suas monografias.
DIVAGAÇÕES
SOBRE A VELHICE
José Rosemberg (x)
Agradeço sensibilizado a deferência
do convite para participar desse importante evento. Congratulo-me com a
Professora Dra. Suzana Madeiros, Coordenadora do Programa de Estudos de
Pós-Graduação em Gerontologia e com todos os professores organizadores desta IV
Semana de Gerontologia. Foi-me solicitado falar sobre a velhice, minhas
atividades e convivência com o envelhecimento.
Direi de saída que com os meus 91
anos “bien sonnés” como dizem os franceses, pertenço a uma pequena coorte de
cerca de 5,5 milhões, constituindo apenas 3.2% do total de brasileiros, segundo
o IBGE 2000.
Acima dos
90 anos, existem 24.576 pessoas das quais 60% mulheres.É um minúsculo
contingente que vem conseguindo permanecer neste mundo de competições,
sofrimentos, agruras, decepções e fracassos, felizmente mesclados com amor,
felicidade, confraternização, amizade e algumas realizações exitosas.
Minha vida
foi ensinar e pesquisar na área biomédica, com incursões em outros ramos da
atividade intelectual. Leciono desde os meus tempos acadêmicos quando estudante
de Farmácia e depois de Medicina. Minha primeira aula universitária foi como
livre docente na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Sou Professor Titular de Tuberculose e Pneumologia, fundador da
Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba. Ali, proferi a primeira aula, em 27
de Março de 1955. Fui Diretor da Faculdade durante 13 anos. Criei o Centro de
Pesquisas Médicas e Biológicas. Essa Instituição era agregada à nossa PUC. Foi
longa a luta pela sua integração definitiva nesta prestigiosa Universidade.
Felizmente, o Grão Chanceler Don Paulo Evaristo Arns e a Reitoria, aceitaram
meus argumentos não obstante à posição contrária de setores que temiam os
custos de uma Escola de Medicina. Ganhou esta pelo status de pertencer à uma
das mais consagradas Universidades e ganhou a PUC por contar com uma
Instituição de Ciências da Saúde, beneficiando vasta área de população sofrida,
atendendo assim, à sua missão como Universidade Pontifícia Católica.
(X) Prof. Titular de Tuberculose e Pneumologia da Faculdade
de Ciências Médicas de Sorocaba, da Pontifícia Universidade Católica de S.
Paulo.
Fui membro do
Conselho Universitário por 18 anos. Assisti de perto ao vandalismo de que foi vítima esta sede por elementos
retrógrados da repressão. Sou o único Professor fundador da Faculdade em
atividade. Quase todos os professores e assistentes desta, foram meus alunos.
Passaram pela disciplina que dirijo 3852 alunos, hoje médicos espalhados pelo
Brasil, muitos em altas funções universitárias e em cargos de Saúde Pública.
Creio ser um dos mais antigos docentes em exercício da PUC. Felizmente, esta
não tem a obsoleta figura da aposentadoria compulsória, o que me permitirá
trabalhar e ensinar enquanto as forças e os neurônios me ajudarem. Os Césares
romanos morriam em pé. Doentes no leito, exigiam ser levantados para morrer.
Como não sou César romano, sou apenas o que os roceiros de S. José dos Campos
me diziam: “burro bom morre arreado”.
São duas
as linhas de trabalho que escolhi como padrão:
A tuberculose, desde os bancos acadêmicos e o tabagismo, no
qual me embrenhei há 30 anos. Ocupei cargos científicos e administrativos
oficiais de tuberculose. Pertenci ao quadro de peritos da Organização Mundial
de Saúde. Publiquei 204 trabalhos e 12 livros.
Tenho obras laureadas pela Academia Nacional de Medicina e Associação
Paulista de Medicina.
Fui
agraciado com a Comenda PALME ACADEMIQUE, pelo governo francês sob a
presidência de Charles De Gaulle, pelos meus estudos sobre a vacina BCG na
tuberculose e hanseníase.
A OMS me conferiu a medalha TABACO E SAÚDE pelas pesquisas
sobre tabaco e luta contra o tabagismo. A câmara municipal de S. Paulo
conferiu-me o título de Cidadão Paulistano. Estou citado na Grande Enciclopédia
Larousse Cultural e na Enciclopédia
Delta Larousse. Evidente que esses frutos foram colhidos com muito mais transpiração
do que inspiração.
DEMOROU MUITO PARA O MUNDO SE TORNAR GRISALHO
Foi lento o
aumento da expectativa de vida no mundo. Entre os romanos, a vida média era
apenas de 26 anos. Galileu com 68 anos e uns poucos outros, foram exceções. Na
Europa, entre os séculos 17 e 18, subiu para 35 e 40 anos. Voltaire com 64 anos
e mais umas oito dezenas de portentos passaram dos 70. A aceleração da expectativa de vida deu-se no
século20. Em 1950, os com 60 e mais anos constituíam 8.1% da população mundial,
subindo a 10% em 2000, e a estimativa
para 2050 é de 22.1%, isto é, o dobro em 50 anos.
No Brasil, na
década de 90, houve um aumento médio de 2.6 anos. Em 1950 a média era 43 anos
dando um salto em 2000 para 68.6 anos.
As mulheres
em todas as latitudes têm mais longa expectativa de vida. No Brasil, na
atualidade ela é de 72.6 anos e 64.8 anos para os homens. A relação, idoso - criança em 1970, era de 10.5
subindo em 2000 para 19.8.
No geral, a
expectativa de vida sempre foi maior nos países ricos em comparação com os pobres
A POBREZA É INIMIGA DA VELHICE
O aumento
progressivo da esperança de vida está intimamente vinculado à sua melhor
qualidade, decorrente essencialmente das conquistas sociais e do progresso
técnico biomédico, com sua aplicação à saúde pública. Esse contexto reflete-se
no mundo rico, onde a expectativa de vida é acima de 80 anos, havendo países
com 88. Em contraste, no continente
africano, notadamente nos países ao sul do Sahara, onde as condições sócio-econômicas
são as mais baixas, com mais de 40% infectados com o vírus HIV (AIDS), dos
quais mais de 20% co-infectados com o bacilo da tuberculose, a expectativa de
vida está entre 35 e 45 anos.
No Brasil
temos boa demonstração da vinculação da expectativa de vida com os quadros
econômicos sociais. Segundo o IBGE, no ano 2000, nas macrorregiões Sudeste e
Sul, a esperança de vida está entre 71.3 e 71.6 anos. Já na macrorregião Nordeste, cai a 63.2 e 64.4 anos. A relação
adulto-criança é bem menor nas macrorregiões Norte e Nordeste, respectivamente
9.8 e 14.3 que nas, Sul e Sudeste, respectivamente 22.7 e 23.9; isto é, em
relação às crianças e jovens há menos idosos naquelas macrorregiões que nestas
últimas.
Há um fosso
profundo quanto ao prolongamento da vida nas áreas desenvolvidas do mundo em confronto com as em desenvolvimento e
sub-desenvolvidas. Além das baixas condições sócio-econômicas dessas últimas,
grandes contingentes da população têm menor ou nenhum acesso às atenções de
saúde, e são muito mais assoladas por
doenças transmissíveis endêmico-epidêmicas. Para citar apenas um só exemplo entre centenas, temos a
tuberculose com 95% do total dos doentes, concentrados nos países em
desenvolvimento, e com 98.8% do total de sua mortalidade. É grave como esse
fosso entre as duas áreas ricas e pobres está se aprofundando. Força é
reconhecer que o modelo econômico vigente no mundo é incapaz e inclusive
desinteressado de sequer minorar essa discrepância. A Humanidade está a braços
com este lastimável problema.
Na recente
reunião da Organização Internacional do Comércio foi informado que nos últimos
30 anos o PIB no mundo cresceu em média 2.3% ao ano, cerca
de 10% no período, enquanto a pobreza multiplicou-se por 10. ou seja
cerca de 1000%. Na reunião na Dinamarca, do chamado grupo dos setenta e sete,
que engloba 132 países em desenvolvimento, declarou-se que há no mundo um
bilhão e cem milhões (20% do total da
população mundial) de pessoas na situação de indigência sem acesso a qualquer recurso.
Informou-se mais, que nos últimos 20 anos os ricos dobraram e os pobres
multiplicaram-se. O governo brasileiro informou na ocasião, que temos 17
milhões de indigentes sem qualquer tipo de amparo, e outros 25 milhões são
pobres com acesso à comida, porém sem às outras necessidades básicas.
Um terço da
humanidade, dois bilhões, vivem com um dólar por dia. Quatro bilhões e
quatrocentos milhões vivem no mundo em desenvolvimento, dos quais 60% sem
saneamento básico, 25% sem moradia, 30% sem água limpa e 20% sem acesso à saúde
pública.
Para essa imensa maioria confinada no
mundo pobre, a velhice está distante e é uma proeza passar dos 50 anos.
O SONHO DE PROLONGAR A VIDA
Viver! Viver o maior tempo possível tem sido
aspiração universal. Os alquimistas medievais empenharam-se, em vão, na busca
do elixir da longa vida. Modernamente, essa esperança se reacende com o advento
da biologia molecular e mais recentemente, com a decifração do genoma humano.
Algumas proteínas sugerem que podem favorecer o prolongamento do metabolismo
com suas funções vitais. Em alguns seres inferiores, identificaram-se genes que
aumentam o tempo de sua vida. Na mosca drosófila descobriu-se um gene que
prolonga sua longevidade. Ainda não se decodificou gene do DNA capaz de dilatar
a existência do ser humano. Ao contrário, recentemente, identificou-se um gene
(denominado klotho), muito comum nos recém nascidos e pouco freqüentes nos
idosos, que poderia reduzir o tempo de vida. Pessoas com duas cópias desse gene
teriam maior risco de morrer aos 65 anos.
Esticar a vida sem a plenitude que
faculte um desempenho eficaz, não é compensatório. Filósofos do século
XIX, argumentavam que se a morte é uma
fatalidade biológica, pelo menos, se deveria conseguir morrer jovem, o mais
tarde possível. Biólogos otimistas afirmam que, com os recursos técnicos hoje
disponíveis, poder-se-á atingir os 115 e
até os 120 anos com as funções fisiológicas e mentais normais. Surgem
perspectivas de se atingir idades ainda mais avançadas. Espera-se conseguir a
desaceleração, geneticamente, dos processos bioquímicos responsáveis pela
deteriorização das células, retardando seu envelhecimento, sendo, por exemplo,
que 20 anos atuais correspondam a 5 anos futuramente.
Aos que
indagam, por que não aspirar a vida eterna, Freud argumentou que viver
eternamente com atividade mental seria insuportável pelo acúmulo dos complexos.
Bernard Shaw com seu conhecido humor relatou o inconveniente da vida eterna em
sua obra teatral “Back to Mathusalem”. Os homens conseguiram isolar e aumentar a expressão do gene da
eternidade, com a firme decisão de não aceitar a morte, gene este que se
transmitia pelas gerações. Aos 300 anos de idade, as pessoas são crianças
entretidas nos seus brinquedos. Aos 900 anos ficam adultas, não envelhecem e
tornam-se perpetuas. Surge então séria complicação. A esperança, tão importante
para os mortais, de usufruir uma vida longa, desapareceu com a certeza da
eternidade.A existência tornou-se insípida. A eternidade levou ao marasmo e
tornou-se insuportável.
Na realidade,
a incerteza do amanhã é um dos maiores estímulos da vida. Esses se esvaem nos idosos, porque a certeza
do fim é inexoravelmente mais próxima a cada dia que passa.
FISIOLOGIA DO ENVELHECIMENTO
São múltiplas
as transformações orgânicas do envelhecimento, cuja velocidade e intensidade
nas pessoas é altamente variável. Dos fatores intercorrentes pinçamos apenas os
mais notórios. O DNA perde progressivamente o controle sobre as funções vitais
orgânicas. Sucedem mutações de genes devido ao verdadeiro bombardeio dos
chamados radicais livres oxidantes. Não há vitamina E ou qualquer outro
antioxidante, que interfira eficazmente contra esse ataque continuo. Existe uma
molécula hormonal DHEA, que coopera com o aumento do metabolismo. No idoso, sua
concentração no sangue cai a 10%. As secreções endocrínicas em geral tornam-se
lentas. Ocorrem mutações somáticas. A
massa muscular diminui e sua força degrada-se. A mucosa intestinal vai perdendo
a faculdade de absorção dos alimentos o que diminui a nutrição orgânica. A
histoarquitetura pulmonar degrada-se; processa-se uma bronquiolização dos
alvéolos, prejudicando a hematose e diminuindo a capacidade funcional
respiratória. Cai a acuidade visual e auditiva. Entre as modificações
metabólicas, a mais prejudicial é a peroxidação lipídica, que atua sobretudo no
cérebro. Este se reduz no peso e surgem
atrofias nas circunvoluções. Há evidencia de diminuição de neurônios. O maior
número desses, por falta de estímulos, se entorpecem ou se tornam inativos. Com
isso a memória tende a cair, sobretudo a cognitiva, permanecendo em certos
graus, a semântica. Os reflexos e as respostas neuromusculares, são mais
lentas. Há evidencia de aumento proporcional da neuroglia em relação aos
neurônios. Além desses percalços, o idoso é obrigado a pensar com os mesmos
neurônios que recebeu ao nascer. Muitos deles, lesados pelos radicais livres ou
porque desaparecem, apagam informações preciosas outrora adquiridas queimando
as pestanas em noites de vigília. Somam-se a isso tudo, as dores nas
articulações, na coluna, a dispepsia que impede de degustar uma suculenta
feijoada, a perda do apetite para tantas coisas boas da vida, hipertrofia da
próstata, a falta das cuecas folgadas que não mais se confeccionam, e o pior, o
desaparecimento de entes queridos e de tantos amigos da infância, dificilmente
substituídos, porque nas idades avançadas, novos amigos são raros. É a fria
solidão. Conviver com essa degradação é uma arte, é exigir grande dose de
conformismo. Fausto de Goethe deve ter pensado nisso tudo quando vendeu a alma
ao diabo para manter a mocidade.
PATOLOGIA DO ENVELHECIMENTO
Não há fórmula
segura para preservar interferências patológicas no envelhecimento. Dieta
alimentar, não tomar álcool, não fumar (se tabagista, abandonar o tabaco o mais
rápido possível) evitar o sedentarismo, e outras precauções são condutas que
favorecem o envelhecimento com saúde, embora sempre relativa.
Dos males que
assolam a velhice, em primeira plana, estão os distúrbios cardio-circulátórios:
hipertensão, aterosclerose (quando cerebral, provoca insanidade mental), angina
do peito, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC). Dos múltiplos agentes favorecedores das
doenças cardiovasculares, o mais atuante é o tabagismo. Este concorre com um
terço e até metade da mortalidade por infarto do coração, e um quarto dos
AVC. Bronquite crônica e enfisema
pulmonar, que constituem a chamada doença pulmonar obstrutiva crônica, por si,
já grave pela incapacitação ao trabalho e por conduzir à insuficiência
cardiorespiratória, torna os pulmões mais vulneráveis às doenças infecciosas
bacterianas e viróticas. O tabagismo é responsável por 80% dos casos de doença
pulmonar obstrutiva crônica. Com o avançar da idade, cresce a freqüência do câncer
do pulmão e de outros tipos de câncer extrapulmonares. O tabagismo é um dos
principais agentes causais; ele é responsável por 90% dos casos de câncer do
pulmão e de 30% dos demais cânceres.
Outras doenças
também aumentam sua incidência na velhice, porém aqui comentaremos apenas duas
que são degenerativas: doença de Parkinson e Alzeimer; esta ultima é a
degradação dramática da personalidade, e identificaram-se genes favorecedores
desse mal. Para essas duas doenças, os tratamentos pouco ou nada rendem. Novas
perspectivas descortinam-se com o advento tecnológico, no nível celular e
cerebral, como em campos mais complexos da organização neurocerebral, visando
aprofundar-se nos fenômenos cognitivos e neurobiológicos. É verdadeiramente
revolucionária a possibilidade que se abre para a formação de novos neurônios a
partir de células totipotentes. As técnicas de transferência do núcleo de
células, desembocaram na atual clonagem humana para fins terapêuticos. Em
animais têm-se conseguido produzir alguns subtipos de neurônios, como
astrocitos e dendritos. Registra-se obtenção de neurônios dopaminérgicos de
grande importância clinica. Para as duas
doenças cerebrais citadas, para outros distúrbios mentais, e casos de destruição
parcial do tecido cerebral, abrem-se novos caminhos promissores de recuperação.
Essas pesquisas, estão em fase inicial,
são de técnica altamente complexa e encerram problemas de bioética em
discussão, que logo deverão ser dirimidos. Esses novos ângulos terapêuticos
beneficiarão notavelmente a velhice pela recauchutagem com novos neurônios,
rejuvenescendo a performance mental dos idosos.
EVOLUÇÃO DA PERSONALIDADE, NO CORRER DOS ANOS ATÉ A VELHICE. O PERIGO DA CRISTALIZAÇÃO DAS
IDÉIAS NO IDOSO
Sartre,
interpelado certa ocasião disse: “a mocidade sabe muito no varejo, enquanto o
idoso sabe tudo no atacado”. Já nos meados do século XVI, Henri Estienne no seu
livro “Apologie pour Herodote” exclamou: “se jeunesse savait, si vieillesse
pouvait”. Tinha razão; a velhice não pode mas sabe, ao contrário da mocidade
que pode, mas menos sabe. Porém cuidado! A sabedoria no velho pode
cristalizar-se o que é um desastre. Dos efeitos dos radicais livres no idoso,
citados em item anterior, extrai-se uma profunda ilação. Na juventude, o cara
tem ideais radicais e julga-se capaz de lutar por eles. Na velhice, o quadro
pode ser diferente, porque o cérebro abarrotado de radicais, que são livres
para matar seus neurônios, afoga os ideais radicais da mocidade e solapam sua
energia para brigar pelos ideais que antes acalentou. É o jovem revolucionário
que quer reformar o mundo, contestador do “stablishement”, que na velhice se
torna conservador, acomodado e até reacionário. Que tristeza! Nesse panorama,
Salacrou concebeu peça de teatro, “L’inconnue d’Arras”, e criou o personagem
Máxime, que na maturidade dialoga consigo próprio quando tinha 20 anos. Dois
atores representam o personagem, um quando jovem e o outro quando idoso. São
duas pessoas antagônicas: juízos,
anseios, ideais, conceitos morais e políticos, sofreram profundas modificações,
são dois entes distintos em um só corpo. Máxime jovem sarcasticamente critica a
traição que Máxime velho cometeu dos ideais da mocidade.
Evidente que
com a idade nossos conceitos podem se alterar; o perigo é cristaliza-los,
congelando-os. Bérgson em sua obra “Durée et simultaneité”, define a primeira
como o conhecimento que tomamos da consciência. Esta é maleável, movediça. O
que se é neste momento, não é o mesmo do instante anterior, porque as reações
orgânicas físicas alteram-se continuamente, qualitativa e quantitativamente. Do
mesmo modo, a percepção do que se é, também se modifica com os novos
conhecimentos. Schopenhauer “No mundo como vontade e como representação”
formulou esse conceito de outra forma: “pensa-se metafisicamente, porém age-se
fisicamente”. Com tudo isso a “dureé” implica no tempo vivido e como é vivido.
É o célebre “cogito ergo sum” de Descartes, que hoje sabemos não ser tão
imutável, ao contrário, altamente variável. Essas variações são salutares por
impedir a cristalização das idéias e conceitos que geralmente ocorre no idoso,
enclausurando sua mente num compartimento fechado, estanque, aferrando-a a
clichês antigos, obsoletos, tornando-a opaca às transformações da sociedade e
da vida. Essa é talvez a mais triste velhice que coexiste com um mundo que lhe
é estranho, no qual não se integra, aumentando-lhe a solidão.
A MATURIDADE E A CULMINÂNCIA DA OBRA CRIATIVA
Com a
continuação das induções mentais e pelas constantes mudanças ativadoras da
cognição, vai-se construindo um sólido edifício de informações os quais vão
sendo ordenados com o avanço da idade, enfeixando toda a obra criada. Parece
haver base genética aceleradora ou retardadora do processo mental.
Com exceções,
as marcantes criações que constituem legados e patrimônios da cultura e da
história nos variados campos da atividade humana, são obras de um punhado de
dotados entrados em anos de sua existência. O ápice de suas criações foi
atingido a partir dos 50 anos de idade e em número significativo entre os 70 e
90 anos. É desnecessário e mesmo impossível uma listagem completa. Eis por
ordem alfabética alguns que além do seu alto significado para o patrimônio da
humanidade, tornaram-se amplamente divulgados e muito populares: Aristóteles,
Augusto Conte, Bach, Balzac, Bernard Shaw, Cervantes, Copérnico, Dante, Darwin,
Descartes, Dickens, Dostoievski, Freud, Galileu, Goethe, Hipócrates, Joyce,
Kant, Kepler, Laplace, Lavoisier, Leonardo da Vince, Levi-Strauss, Marx,
Miguelangelo, Molière, Monet, Pasteur, Piaget, Pirandello, Platão, Proust,
Rembrandt, Renoir, Rossini, Sartre, Shaskespeare, Sócrates, Spinoza, Verdi,
Victor Hugo, Vivaldi, Voltaire.
Evidente esta
lista está longe de ser completa. No cemitério central de Viena há uma praça
circular com os túmulos de Beethoven, Schubert, Brahms, Weber, Strauss, todos
mortos com mais de 50 anos de idade.
Deve-se, porém
acentuar que muitos contribuíram, da mesma forma, para a formação do patrimônio
histórico cultural, quando ainda jovens. Sugere-se que seus cérebros eram
geneticamente especializados para um dado setor do saber. No centro do circulo
dos túmulos dos gênios da música, já na maturidade, a pouco citados, há um
mausoléu simbólico de outro gênio cujo corpo perdeu-se na vala comum: Mozart
falecido aos 36 anos; entre os 6 e 9 anos de idade encantou o mundo com suas
sonatas. No cemitério Père Lachaise em Paris, outro jovem dorme enternecendo
até hoje a humanidade com seus prelúdios e noturnos, Chopin; desapareceu aos 39
anos. Ambos teriam produzido obras ainda maiores se tivessem chegado à
maturidade. Em outro campo do saber, cite-se apenas três relacionados com a
cosmologia. Newton com menos de trinta anos revolucionou a matemática e a
ótica; suas básicas leis sobre a gravitação foram elaboradas com menos de 40
anos, publicadas na obra fundamental “Principia”, quando tinha 45 anos.
Modernamente temos o exemplo inusitado de Einstein que com as teorias da
relatividade especial e geral, revolucionou a concepção sobre o universo,
terminando-as quando tinha respectivamente 29 e 37 anos. Outro exemplo, esse de
nossos dias é de Stephen Hawking popularíssimo, totalmente paralisado devido à
moléstia esclerose amiotrófica lateral, está contribuindo para os conhecimentos
cosmológicos desde os 28 anos de idade com seus estudos e conceitos sobre o
espaço-tempo e buracos negros.
O EQUILIBRIO BENÉFICO ENTRE JOVENS E VELHOS
O PRECONCEITO CONTRA A VELHICE
Com a
extraordinária expansão do ensino e os enormes avanços tecnológicos no século
XX, abriram-se grandes possibilidades que antes não havia, de os jovens
participarem de todos os campos técnicos, nos estudos mais especializados.
Desse modo estabeleceu-se um equilíbrio benéfico entre jovens e velhos na
produção cientifica, literária, artística e demais campos do saber. A produção
com os jovens muito ganhou qualitativa e quantitativamente. Sociólogos
consideram que os mais idosos também muito ganharam com isso, pois recebem
farta informação e numerosos dados já dissecados quanto ao seu valor e alcance,
facilitando sua análise crítica global, extraindo deles concepções mais
abrangentes, propiciando maior armazenamento de conhecimentos. Desse modo, a
balança parece pender para as faixas etárias mais elevadas.
Pode ser
apenas uma tradição cultural, considerar os idosos como depositários do saber e
do bom senso. Esse conceito vem de gerações, desde os tempos bíblicos. No
Levitico afirma-se: “tu te levantarás ante os cabelos brancos e honrarás a
pessoa do velho”. Heródoto conta que os gregos consideravam a velhice associada
à sabedoria. Na Roma imperial, os idosos eram os “mos majorem”. John Dewey em
“Educação e democracia” e Max Veber na sua “Antropologia cultural” consideram
que o fato do saber geral concentrar-se mais na velhice, que é fraca
fisicamente, simboliza que não é a força que deve governar a humanidade. Robert
Lowie no “Tratado de sociologia primitiva”, conta como em todas as sociedades
dos povos primitivos havia grande respeito e consideração para com os idosos.
Aponta, contudo duas exceções; os Scythas periodicamente realizavam assembléias
nas quais eram obrigados a estar presentes todos os membros da comunidade, e no
final o mais idoso era trucidado. Já os Nartes eram mais práticos;
periodicamente promoviam lauto banquete no qual a comida destinada aos anciões,
continha veneno.
A sociedade
moderna não mata os velhos, mas os considera como um peso. Essa postura é
assumida inclusive em muitas famílias de melhor posição econômico-social. Para
as classes pobres os idosos são totalmente indesejáveis, impossibilitadas de
sustenta-los. São jogados nos asilos, a imensa maioria pardieiros, disfarçados
em “lar dos velhos”, onde vivem abandonados, ociosos, sem afeto, aumentando
incrivelmente sua solidão. Vivendo abaixo da condição humana são totalmente
esquecidos. É uma forma bárbara, requintada de mata-los, que as sociedades
primitivas não conheciam. Pouquíssimos são os países com legislação mais
humanitária de amparo a velhice desvalida. Este dramático problema vem se
aguçando à medida que cresce o contingente de velhos. Esse descaso é
veementemente denunciado por Simone de Beauvoir no seu livro “La
Vieillesse”.
De um modo
geral, a sociedade considera o velho, um corpo estranho, um ente ultrapassado,
incapaz de atender às solicitações do empreendimento em qualquer ramo. Entre
nós, a empresa especializada em recursos humanos, Catto, analisando 7.002
executivos de 31 grandes empresas, constatou o baixo índice de técnicos com mais
de 50 anos. Entre os gerentes há apenas 15%, em cargos de supervisão 6.4%,
entre os profissionais especializados 3.8%. Em vários países, as empresas estão
lentamente mudando o preconceito contra os idosos, valorizando sua experiência
combinada com a segurança na tomada de decisões mais importantes. Todavia, as
agencias de emprego continuam com restrições à colocação de pessoas, mesmo
especializadas, com mais de 50 anos.
É comum
encarar o velho como um inútil. Um idoso em plena atividade desencadeia em
muitas pessoas jovens, admiração associada a uma espécie de desapontamento, por
estar, como que desafiando um preconceito arraigado de que o idoso é um
inválido. Tenho experiência pessoal sobre o assunto. Com freqüência me dizem:
“Como! O senhor ainda leciona? Publica livros? Parabéns!” Não escondem o
espanto com um misto de decepção. Já deveria confinar-me em casa de pijama
lendo estórias em quadrinhos...
ATIVAR OS NEURÔNIOS É A FORMA PARA MANTER-SE JOVEM
Até a década
dos anos sessenta do século recém-findo, acreditava-se que o encélafo era
imutável, sofrendo apenas interferências genéticas. Com técnicas de biologia
molecular, ratos foram submetidos a diversos excitantes por tempo determinado.
Os exames histológicos dos neurônios demonstraram aumento de interligações
celulares e aumento de dendritos, facilitando a neuro-transmissão. Ratos
mantidos pelo mesmo tempo sem qualquer estímulo não apresentaram essas
diferenças nos neurônios. Pesquisas clínicas constatam que pessoas submetidas a
diversos tipos de estímulos, inclusive atividades com computadores, demonstram
que o comportamento encefálico aumenta com respostas mais rápidas da
neuro-transmissão e a melhora da cognição. Esses dados indicam que a atividade
dos neurônios cresce se são excitados com freqüência. Do contrário,
comportam-se como se estivessem
adormecidos, decaindo as respostas aos estímulos com piora da cognição.
Não tenho
conhecimento de estudos aprofundados com idosos trabalhadores braçais. Para os
que têm atividades intelectuais, a persistência no trabalho, ativa a cognição e
a memória. Tenho experiência própria de como a continuação da atividade mental
desenvolve mais a capacidade de trabalho. Dois terços do que tenho investigado
e escrito efetuaram-se depois dos 50 anos. Além da atividade mental, para se
manter jovem, uma pitada de amor ajuda e muito. Ainda nisso tenho experiência
pessoal; aos 83 anos, caiu-me do céu uma colega pneumologista, como eu
especialista em tuberculose e tabagismo, jovem, loira de cabelos longos, de
grande beleza intelectual e física. Para encurtar a estória: Casamo-nos e assim
tenho a ventura de um facho de luz iluminando a minha existência, prolongando a
minha juventude.
Voltando ao
tema, deve ser repetido que a constante ativação dos neurônios influi
favoravelmente na cognição. Porém o idoso enfrenta um óbice serio que é a luta
contra o tempo. Os processos fisiológicos são mais vagarosos que nos jovens. Há
fórmulas matemáticas para calcular o tempo de reparação celular de ferimentos
e, portanto sua cicatrização é muito mais lenta no idoso. Quanto mais lentos
esses processos fisiológicos, tanto mais rapidamente passa o tempo na
consciência. É um verdadeiro relógio químico. O tempo sideral parece fluir mais
depressa à medida que se envelhece. Foi longa a minha existência até os 30 anos
e como voou a partir dos 60, fluindo com velocidade crescente. Hoje, o tempo
para mim tem a velocidade de um avião supersônico. Por mais que corra com os
trabalhos e com os compromissos, realizo menos que outrora em relação ao
programado. Daí a conclusão que a interligação tempo fisiológico e tempo
sideral não é somente psicológica, porque tem conseqüências praticas. É
incrível, mas tem analogias com o postulado da teoria da relatividade,
demonstradora de que não existe uma unidade universal chamada tempo. Ao
contrário, pela teoria da relatividade, cada observador tem sua própria medida
do tempo. Isso pode ser demonstrado com o chamado paradoxo dos gêmeos. Um sai em viagem espacial com a velocidade
próxima a da luz, enquanto seu irmão permanece na Terra. Ao voltar, o gêmeo
viajante verifica que está muito mais moço em relação ao seu irmão que aqui
permaneceu deslocando-se muito mais lentamente; o tempo passado foi bem maior e
ele está muito mais velho. Essa diferenciação está bem confirmada por
experimentos comprovando que com a velocidade os relógios atrasam-se e o tempo
flui mais lentamente. Podemos transportar esse paradoxo dos gêmeos, com
referência ao envelhecimento da mente. Imaginemos dois irmãos gêmeos, unizigóticos,
com 60 anos de idade e com o mesmo grau cultural e desempenho mental de
atividades análogas. Um deles continuou nessa atividade e o outro se aposentou.
Passados uns 20 anos, encontraram-se. O primeiro manteve a agilidade e
performance mental praticamente iguais as que eram quando se separaram; o
segundo, aposentado, passou esse mesmo tempo sem ativar os neurônios, lendo
gibis e assistindo os programas de auditório da televisão. Ficou idiotizado.
Já foi dito,
não existe nenhum remédio salvador para lutar contra o envelhecimento físico. A
sabedoria, contudo é manter a mente jovem o maior tempo possível. Isso só pode
ser conseguido mantendo os neurônios ativos permanentemente. Deve-se o quanto
antes escolher um padrão ou padrões de valores, lutando por eles até a velhice
sem esmorecimento; padrões que sejam úteis ao seu bem estar mental, que é a
consciência, e, sobretudo que sejam úteis à sociedade.
Há 230 anos
Jean Jacques Rousseau nos deixou importante mensagem: “O homem só existe enquanto
é útil a humanidade”. Os que são úteis à sociedade, existem e não envelhecem.
Os que criam e erguem obras padrões, construindo marcos indeléveis, esses
existem para sempre, na memória e cultura da humanidade e jamais envelhecem.
NOTA: Esta conferência foi pronunciada em 29 de novembro,
de 2001, dentro da programação da IV Semana de Gerontologia da Pontifícia
Universidade Católica se S. Paulo.