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sexta-feira, 23 de março de 2012

O INSTITUTO N. S. AUXILIADORA – SEGUNDA PARTE: maio, mês de Maria.

Ana , R. Luiz e Goretti
Ana e R. Luiz
Atrás da E. pra D.: Edna, Maninha e Lúcia. Na frente: Ana e Goretti


Em 1958, já alfabetizada, passei para o 1º ano primário do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, em Baturité.  A Goretti, que era um ano mais nova do que eu, entrou para a alfabetização. Juntas, passamos a bisbilhotar o colégio. Desvendamos a clausura no 3º andar que era vedada para nós, alunas, pois lá ficavam os aposentos das freiras. Um dia, subimos escondidas, entramos no dormitório e vimos uma fila de camas com cortinados.
No 2º andar ficava o dormitório da alunas internas, além da sala de estudos e outras salas de aulas.  As alunas internas usavam um macacão para tomar banho, pois as freiras não permitiam que o corpo, templo do Espírito Santo, fosse tocado. Será que elas tomavam banho assim? Para trocar a roupa era necessário cobrir o corpo com um lençol. Via-se pecado em tudo, até nas unhas pintadas.
Todos os anos, no mês de maio, mês de Maria, havia a coroação de Nossa Senhora Auxiliadora, pelos anjinhos. Tudo era muito fascinante: a roupa de cetim colorida, as asas transparentes com algodão nas pontas, a aureola e as mãos postas. Lúcia, Maninha, Edna, eu e a Goretti éramos anjinhos. No dia 31 de maio, lindo mês da Mãe do Céu, as festividades encerravam-se com a coroação de Maria. O altar era armado e ornamentado com os anjinhos. Um deles coroava a nossa Senhora, sob aplausos e cânticos.
Sempre tive boa memória e, por isso, as freiras me ensinavam musiquetas para eu cantar no palco, nas mais diversas comemorações. Ainda hoje me lembro de uma, em francês:

Où vas-tu Basile sur ton blanc cheval perché?
Je vais à la ville le vendre au marché
Ton cheval claudique mais vois-tu pour t’obliger
Contre une vache magnifique je peux l’échanger

Refrain:
Sitôt dit sitôt fait bonne affaire se dit Basile
Sitôt fait sitôt dit Basile est un dégourdi.

Où vas-tu Basile avec cette vache à lait?
Je vais à la ville la vendre au marche
Ta vache a la fievre la vendre est bien compliqué
Contre ma plus belle chèvre veux-tu la troquer.
Refrain:

Embalando uma bonequinha, lembro-me que eu cantava em italiano.

L’altro gorno mia cara ninna
Mi promessa la bambina  nuova
Oh! Como e bella la bambina mia
Quase quase é piu bella de me.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2004.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O INSTITUTO N. S. AUXILIADORA – PRIMEIRA PARTE: alfabetização


Instituto N. S. Auxiliadora das irmãs Salesianas, em Baturité, década de 1950

Instituto N. S. Auxiliadora das irmãs Salesianas, em Baturité, década de 1950

Instituto N. S. Auxiliadora das irmãs Salesianas, em Baturité, década de 1950

Comendador Ananias Arruda, freiras e alunas salesianas.

Alunas salesianas


Era o inicio de 1957. Eu tinha seis anos e, finalmente, ia estudar. Os meus irmãos: Lúcia, Maninha, Edna e Raimundo Luiz já freqüentavam a escola. Vestir aquela farda e ir para o Colégio das Irmãs Salesianas era um sonho muito desejado. Queria aprender as letras e descobrir o mundo maravilhoso dos livros.
Acordei cedinho e ansiosa para estrear a saia azul marinho pregueada, a blusa branca de mangas compridas, a gravata, o sapato preto e as meias brancas que vinham até aos joelhos.  Cartilha, caderno, tabuada, lápis, borracha, caixa de lápis de cor (com as cores do arco íris), dentro da bolsa nova me fascinavam. Ia cursar a alfabetização, pois nos idos de 1950 não existia o pré-escolar. O papai e a mamãe foram, de jipe, nos deixar na porta da escola.
Quando entrei no colégio o coração disparou. Uma freira me deu a mão e levou-me até a sala de aula. As carteirinhas, a lousa (quadro negro), o apagador e o giz. Dentre as coleguinhas, a Tetê, filha da d. Neila, minha primeira amiguinha.  Irmã Lízia, a primeira professora.  Na hora do recreio, o pátio, a merenda, a capela. Aos poucos fui descobrindo todos os recantos e encantos daquele colégio imenso.
O dever de casa era feito com prazer e, logo, logo, aprendi, o ABC. Juntando as letrinhas fui aprendendo a ler. Abriu-se, assim, um mundo encantado, o mundo do saber. Não podia imaginar que esse mundo era infinito e que me daria tanto prazer.
O local do colégio mais marcante era o auditório, pois lá, todos os dias, íamos cantar. Uma das primeiras músicas ensinadas foi o hino nacional. Uma freira, Irmã Nazaré Teixeira, tocava no piano e a gente cantava:
Ouviram do Ipiranga às margens plácidas.
De um povo heróico o brado retumbante...
Para mim essa música, tão diferente das de roda, era muito difícil de compreender e quando chegava a estrofe:
Do que a terra mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores...
Eu entendia:
Do que a terra Margarida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores ...
Aí, meu coração disparava de emoção por ouvir meu nome assim cantado com tanta melodia, por todas, no hino de meu país.
Outra música que cantávamos com 3 vozes era:
Frère Jacques
Frère Jacques
Dormez-vous?
Dormez-vous?
Sonnez les matines!
Sonnez les matines!
Ding, ding, dong!
Ding, ding, dong!
Mesmo sem nada entender, pois a letra era em francês, a atração foi instantânea pela língua que, ao longo da vida, aprendi a amar e que hoje me dá tanto prazer.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2004

sexta-feira, 16 de março de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – QUINTA PARTE: as travessuras


Filhos do casal Edgy e Adelina, com primos, primas e amigos, em Baturité.

Lucia, Maninha e Edna com amigas

Filhos da casal Edgy e Adelina com primos e primas, em Baturité.


Na rua 15 de Novembro, em Baturité, na década de 1950, tinha uma casa abandonada  que  para nós era mal-assombrada e nos causava grande pavor. Sempre que por lá passávamos,  metíamos o pé em desembalada carreira com medo das almas do outro mundo. A respiração ficava ofegante e o coração quase saia pela boca até virarmos o beco do cine, quando desacelerávamos aliviadas.  Em compensação existiam outras casas que nos acolhiam como se nossas fossem. As opções eram muitas. Recordo-me bem das seguintes: vovó Noemy, tio Ananias, Tiinhas, dona Noemy e seu Edmundo, Laurenice, dona Neila, Mirian, Ângela Brito, Márcia e Mércia, Helena Elba, Roberto Lucena e muitas outras. As portas não tinham trancas. Por isso, em todas elas brincávamos como na casa de nossos pais.
A Lúcia, além do piano, tocava acordeon. A Maninha imitava, mas quase nada tocava. A Edna era a dançarina que sonhava ser um dia uma grande bailarina. E tanto ela pelejou que na ponta dos pés dançou.
O Raimundo Luiz, o mais levado, arranhou com a agulha da radiola do meu pai, um disco raro. Foi um Deus nos acuda quando o papai chegou. Certa vez, ele fugiu do colégio e fez muitas travessuras. Com aqueles olhos verdes, herdados da minha mãe, seduzia qualquer um e era o queridinho da tia Luizinha, tia Rosinha e tio Ananias.
Lembro-me que em um dia resolvemos quebrar a rotina e fomos até a maternidade, eu a Goretti e o Raimundo Luiz, só para bisbilhotar. Como ninguém nos barrou fomos entrando em todos os lugares. De repente, uma visão de tirar o fôlego: uma mulher parindo. Gravei na retina, para sempre, aquela mulher com as pernas abertas pintadas de mercúrio cromo. Uma freira correu e fechou a porta em nossa cara. Ficamos apavorados e com muito medo. Não sei como, mas a mamãe soube da travessura, pois quando chegamos em casa ganhamos uns bolos nas duas mãos. Também, às vezes, brigávamos e nos agarrávamos pelos cabelos, arranhando-nos com as unhas, mas eram brigas de irmãos que logo, logo se resolviam.
Um dia, eu e a Goretti matamos a curiosidade de ver uma mulher nua, olhando pela brecha da porta do banheiro, uma de nossas empregadas tomando banho. Os seios fartos, o sexo cabeludo, a descoberta, o pecado. Nossa consciência pesou e fomos contar ao padre. Para nós tudo era pecado!  
No quintal tinha um tanque grande, pintinhos, galinhas e os pombinhos da Goretti.  No tanque tomávamos banhos inesquecíveis, num canto do quintal fazíamos o guisado em panelinhas de barro. O portão de lado com uma pesada tranca dava saída para o cine beco. Quando chovia mais forte corríamos pra tomar banho de bica. Que banhos maravilhosos! Os barquinhos de papel descendo pelas coxias atiçavam a nossa imaginação. Tudo era festa, alegria e fantasia!
            À noite, depois do jantar, íamos brincar na calçada.  Nas noites de lua cheia contávamos as estrelas, os carneirinhos de nuvens e espiávamos a estrela d’Alva. Depois, começavam as brincadeiras: quem é que tem o anel? Tínhamos que adivinhar. Além dessa, tinha a do grilo. Cadê o grilo? Está lá atrás. Porém, a melhor de todas era a do general. Cada um de nós recebia uma denominação: generalíssimo, general de divisão, general de brigada, coronel, tenente coronel, major, capitão, tenente, sargento, cabo e rapadura melada.
 Generalíssimo passou em revista as suas tropas e sentiu falta do capitão.
-O capitão não falta, quem falta é o coronel.
-O coronel não falta, quem falta é o major.
-O major não falta, quem falta é o general de brigada.
-O general de brigada não falta, quem falta é o tenente coronel.
E assim a noite passava até a hora de deitar.
Tudo era fantasia na nossa infância. Um tempo feliz que permanecerá para sempre, indelével, em  minha memória.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2002.

PS: Os dizeres da brincadeira do generalíssimo foram alterados porque a Lúcia e a Edna lembraram-se das expressões usadas na época. 

 

 


quinta-feira, 15 de março de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – QUARTA PARTE: a rede


Atrás, da E. pra D.: Maninha, Lúcia e Edna. Sentadas, da E. pra D.: Ana, Goretti, Clêide e Fátima

Atrás, da E. pra D.: Edna, Maninha com o Miguel nos braços e Lúcia com a Teca nos braços. Sentados, da E. pra D.: Goretti, Fátima,R. Luiz, Clêide e Ana


A rede! Quanto simbolismo teve pra nós!  Nela brincávamos de barquinho, de balanço, de bonecas e tudo mais. Nela dormíamos. Cinco em cada quarto. Embaixo de cada,  a bacia para aparar o xixi solto. No canto do quarto, o candeeiro para espantar as almas do outro mundo e o uninol. 

A rede era o nosso refúgio e parque de diversões. Uma vez, de tão cheia, o armador arrebentou e caímos todos no chão. A Clêide sangrando no rosto, a mamãe chorando abraçada ao papai, pensando que ela tinha perdido a visão. Que nada! Foi só um arranhão.  

A rede! Amalgamada à vida do nordestino ela está presente desde o seu nascimento até a sua morte. Ao nascer é o berço que o embala, na doença é a maca que o transporta ao hospital e na morte é o caixão que o leva à última morada. Nela, o nordestino dorme a vida inteira, as crianças brincam, os adultos namoram, as mulheres parem seus filhos. 

A rede no Nordeste não é privilégio de ninguém, pois tem para os ricos e para os pobres também. As dos ricos são grandes, bordadas, com varandas de crochê ou de renda. As dos pobres são listradas, quadriculadas, sem varandas e bem pequenas. Têm redes de todos os tipos: lisas, brancas, coloridas e dos mais diversos tecidos. Tem rede pensa, rede funda, com punhos quebrados, fundo rasgado e até com o fundo remendado. Tem de algodão fino, algodão grosso, tem de corda, tem de nylon e com fio entrelaçado. Tem a rede de tucum feita com a fibra da carnaúba.  Tem até a das bonecas, pra meninada brincar.  Tem rede berço para os recém-nascidos, tem para as crianças, para os velhos, para os casais, para os gordos e para os magros, tem pra todos os mortais.   


Acordávamos bem cedinho, as babás vestiam nossas fardas, calçavam nossas meias e sapatos, arrumavam as bolsas e saíamos para o colégio “Nossa Senhora Auxiliadora” das irmãs salesianas, onde estudávamos. Na volta, com muita fome, íamos direto almoçar. Papai, mamãe, a mesa grande e farta, a pia, o pátio, a cadeira alta, o gradeado de madeira, as mangas e bananas dentro dos caçuás. 

Depois do dever de casa ganhávamos as calçadas e íamos brincar. Pulávamos das jardineiras, brincávamos de manjôo, esconde-esconde, cobra-cega, pular corda, macaca, arrodeávamos o quarteirão. Nas brincadeiras de roda as cantigas todas sabíamos cantar.
 Atirei o pau no gato...
 Eu fui ao tororó beber água e não achei...
Ai bota aqui, ai bota aqui o seu pezinho...
Cai, cai, balão, cai, cai, balão aqui na minha mão...
Terezinha de Jesus deu uma queda e foi ao chão...
Como pode o peixe vivo viver fora da água fria...
O meu boi morreu, o que será de mim...
Ai eu entrei na roda, ai eu não sei como se dança...
Cachorrinho está latindo lá no fundo do quintal...
Há três noites que eu não durmo, ola lá...
Roda pião, bambeia pião!...
Meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá...
Escravos de Jó jogavam caxangá...
A barata diz que tem sete saias de filó...
Pai Francisco entrou na roda, tocando o seu violão...
Marcha soldado cabeça de papel...
Pirulito que bate, bate, pirulito que já bateu...
Samba Lelê ta doente, ta com a cabeça quebrada...
O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada...
Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...
 A que mais gostávamos era “Se esta rua fosse minha” talvez por sua nostalgia e por falar de amor
“Se esta rua, se esta rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar,
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes,
Só pro meu, só pro meu amor passar.
Nesta rua, nesta rua tem um bosque,
Que se chama que se chama solidão.
Dentro dele, dentro dele mora um anjo,
Que roubou, que roubou meu coração.
Se eu roubei, se eu roubei teu coração,
Tu roubaste, tu roubaste o meu também.
Se eu roubei se eu roubei teu coração,
É porque é porque te quero bem”.

E assim anoitecia...

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, novembro de 2002.