| Ana Margarida. Paris, 19 de setembro de 2008. |
| Ana Margarida. Paris, 19 de setembro de 2008. |
Nossa terceira parada era
a Catedral de Notre-Dame, mas, antes,
eu precisava passar na livraria. Saimos do Panthéon,
descemos o Boulevard Saint Michel,
também conhecido como Boulemiche, em
direção ao Sena.
Construído pelo Barão de Haussmann,
em 1864, no Quartier Latin, o
referido boulevard ficou famoso pelos
cafés literários. Hoje, está repleto de livrarias e lojas de roupas. Cruzamos a
Rue des Écoles e, ao passarmos
pertinho da Sorbonne, lembrei-me de
maio de 1968, e do famoso enfrentamento entre a polícia e os estudantes, ali,
no Boulemiche.
Seguimos em frente e
paramos rapidamente ao lado do Musée
Cluny, Museu Nacional da Idade Média, construído em uma mansão medieval com
ruínas galo-romanas. Tantas vezes estive lá com o Rose, mas, infelizmente, por
falta de tempo, não poderia mostrá-lo à Nilze. Lembrei-me da Yone,
medievalista, minha professora da PUC, que, em sua primeira visita ao museu,
ficou emocionada e não conseguiu
adentrá-lo. Dentre sua bela coleção de arte e objetos medievais podemos
apreciar a famosa série de 6 tapeçarias, tecidas no final do século XV, chamada
“Mulher com o Unicórnio”. Porém, seu ponto alto são as ruinas das termas
galo-romanas, construídas em 200
a.C.
De repente, estávamos
no cruzamento mais famoso do Quartier Latin.
O Boulevard Saint Germain com o Boulevard Saint Michel. Atravessamos a
avenida e fomos à livraria Gibert Jeune.
Como a Nilze estava querendo comprar um xale para ir ao Moulin Rouge e eu querendo comprar livros para o meu neto, marcamos
um reencontro, em frente à livraria, dentro de meia hora.
Com
ansiedade fui até o último andar para ver os livros infantis. No meio de tantos
consegui selecionar 13. Entre os do Pepê, um para a Beatriz, netinha da Ângela
Brito e outro para a Fátima Assunção. Como gostaria de poder ficar o resto do
dia lá, lendo, manuseando e comprando livros de História! O tempo foi curto e
sai quase correndo.
Difícil
foi escolher um restaurante naquelas ruelas do Quartier Latin. Eram
tantos! Finalmente encontramos um que nos agradou. Pedi uma sopa de
cebola, que os franceses chamam de soupe
à l’oignon e a Nilze, na falta de um baião de dois, um spagetti. Ali pertinho estava a Igreja Saint Severin, uma das mais antigas de Paris, mas não havia tempo para
uma visita.
Sua
construção foi iniciada no século XIII e, somente após 300 anos, foi concluída.
Seu nome homenageia o eremita, Severin,
que viveu no local. Com seu gótico flamboyant,
suas gárgulas e seus vitrais é uma das mais lindas Igrejas de Paris. Lá estivemos
várias vezes, eu e o Rose, e ouvimos, certa ocasião, o som celestial de seu
órgão, que foi importado da Alemanha pela sobrinha de Rei Luis XIV, a Grande Mademoiselle.
Saímos
do restaurante, atravessamos uma ruela, caímos no Quai Saint Michel, seguimos em frente e passamos ao lado do
restaurante Notre-Dame (que na noite
anterior abrigou uma parte do grupo, depois de uma longa caminhada), viramos à
esquerda na Petit Pont e vislumbramos,
mais de perto, a majestosa catedral. Situada
na Île de la Cité, o coração de Paris,
ela se queda imponente e bela, em sua parte posterior, beirando o Sena.
Nem
podíamos acreditar que estávamos pisando naquela ilha, com formato de um barco,
que deu origem à cidade de Paris. Habitada por tribos celtas, há mais de 2 mil
anos, a referida ilha oferecia um ponto
de cruzamento do rio Sena entre o norte e o sul da região chamada Gália. Parisii, que deu o nome a cidade de
Paris, era uma dessas tribos que habitaram a ilha, na época uma aldeia chamada
de Lutécia.
Na
Praça Parvis Notre-Dame tiramos fotos
pegando o melhor ângulo para enquadrar a Catedral. À esquerda, contemplamos o Hotel Dieu, a Santa Casa de Paris, que
foi erguida sobre um orfanato que funcionou de 1866 a 1878. O Hotel Dieu original, construído no
século XII, atravessava a ilha de lado a lado, mas foi demolido, no século XIX,
pelo Barão de Haussmann. Atravessamos
a Praça Parvis em direção a Catedral.
Pensei na Crypte Archéologique abaixo
de nossos pés, numa faixa subterrânea de 80 metros, que exibe
alicerces e paredes da época da Aldeia Lutécia, centenas de anos mais antigos
do que a catedral.
Notre Dame é uma magnífica obra prima gótica.
O local da mesma tem uma forte história ao culto religioso, pois os celtas ali
celebravam suas cerimônias, os romanos construíram um templo ao deus Júpiter e
a primeira Igreja do cristianismo de Paris, a Basílica de Saint-Etienne, projetada por volta de 528 d.C., também, foi erguida
lá. Em 1163, após a demolição da Basílica, o Papa Alexandre III lançou a
primeira pedra da Catedral. Após 170
anos de trabalho de milhares de arquitetos e artesãos medievais a mesma foi
concluída. Em sua fachada principal admiramos, abaixo de suas duas torres, a
“Rosácea Oeste”, a fantástica “Galeria dos Reis”, com 28 estátuas dos Reis de
Judá, e os três grandes portais.
Ao
contemplar seu interior, veio, como sempre, o choque visual, causado pela
beleza estonteante da alta abóbada de sua nave central, cortada por um imenso transepto.
No fundo, visualizei o coro com os entalhes de Jean Ravy e, atrás do altar principal, a Pietá, de Nicolas Cousteau, sobre um pedestal
dourado, esculpido por François Girardon.
Sem perder muito tempo, fomos até o transepto para admirar as rosáceas com
seus vitrais coloridos. A “Rosácea Norte”, no extremo norte do transepto,
mostra Maria cercada de personagens do velho testamento. A “Rosácea Sul”, do
lado oposto, mostra Cristo cercado por virgens, santos e os 12 apóstolos. Contornamos
a Catedral pelo lado direito e passamos em frente ao museu, anexo, que abriga
preciosidades religiosas, como manuscritos e relicários antigos. Lembrei-me de
minhas irmãs, Goretti, Fátima e Carminha que estiveram comigo visitando o museu,
em 2006. Na parte posterior da
Catedral, visualizamos sua maquete. Tiramos fotos, comprei uma medalha para minha
amiga Cidinha e saímos sem subir os 387 degraus que levam ao topo da torre
norte, onde se pode apreciar as famosas gárgulas e a magnífica vista de Paris. Também
não tivemos tempo de contornar a Catedral para apreciar seus espetaculares
arcobotantes e sua torre agulha que ergue-se a uma altura de 90 metros.
Lembrei-me
que aquela Catedral foi cenário majestoso para a coroação de tantos reis e
imperadores, inclusive Napoleão, que coroou Josefina e a si próprio, em 2 de
dezembro de 1804, como podemos constatar na magnífica tela de Jacques Louis Davi que encontra-se no
Museu do Louvre.
Notre-Dame, também,
foi palco de violência quando os revolucionários a saquearam, aboliram a
religião e a transformaram em um templo ao culto da razão e, depois, em um depósito
de vinho. Em 1804, Napoleão restaurou a religião e, em 1831, Victor Hugo escreveu o famoso romance “O
Corcunda de Notre-Dame”, tendo como pano de fundo a Catedral, durante a Idade
Média.
Finalmente,
deixamos, com certa nostalgia, Notre-Dame
em busca de nossa quarta parada, Montmartre.
Ana Margarida Furtado
Arruda Rosemberg
SAMPA, 19 de outubro de
2008.