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sábado, 31 de janeiro de 2015
domingo, 25 de janeiro de 2015
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
POR: EL RAFO SALDANHA - JE NE SUIS PAS CHARLIE
Je ne suis pas Charlie: El Rafo Saldanha, verdadeiro autor
10/01/2015
Postado no blog de Leonardo Boff
Nos envios anteriores este artigo saiu sem o nome do autor, por distração minha. Vinha num e-mail quatremains@uol.com.br
e era atribuido ao Pe. Antonio Piber. Posteriormente coloquei o nome do
Pe. Antonio Piber. Por fim vim a saber que o verdadeiro autor é o
jornalista Rafo Saldanha. Encontra-se no seu blog:emtomdemimi.blogspot.com.br/2015/01 je-ne-suis-pas-charlie.html Aqui
vai o texto original sem os acréscimos feitos pelo Pe. Antonio Piber.
Havia duas charges do Charlie Hebdo que não puderam aparecer neste meu
texto. Mas podem ser vistas no referido blog. Peço a compreensão de
todos: Lboff
El Rafo Saldanha
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Je ne suis pas Charlie
Em primeiro lugar, eu condeno os atentados do dia do 7 de janeiro.
Apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou um
cara pacífico. A última vez que me envolvi em uma briga foi aos 13 anos
(e apanhei feito um bicho). Não acho que a violência seja a melhor
solução para nada. Um dos meus lemas é a frase de John Donne: “A morte
de cada homem diminui-me, pois faço parte da humanidade; eis porque
nunca me pergunto por quem dobramos sinos: é por mim”. Não acho que
nenhum dos cartunistas “mereceu” levar um tiro. Ninguém merece. A morte é
a sentença final, não permite que o sujeito evolua, mude. Em momento
nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu
queria que eles evoluíssem, que mudassem.
Após o atentado, milhares de pessoas se levantaram no mundo todo para
protestar contra os atentados. Eu também fiquei assustado, e comovido,
com isso tudo. Na internet, surgiu o refrão para essas manifestações: Je
Suis Charlie. E aí a coisa começou a me incomodar.
A Charlie Hebdo é uma revista importante na França, fundada em 1970 e
identificada com a esquerda pós-68. Não vou falar de toda a trajetória
do semanário. Basta dizer que é mais ou menos o que foi o nosso Pasquim.
Isso lá na França. 90% do mundo (eu inclusive) só foi conhecer a
Charlie Hebdo em 2006, e já de uma forma bastante negativa: a revista
republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten
(identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita européia). E
porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”, mas
tem mais…
O editor da revista na época era Philippe Val. O mesmo que escreveu
um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de
“não-civilizados” (o que gerou críticas da colega de revista Mona
Chollet – críticas que foram resolvidas com a saída dela). Ele ficou no
comando até 2009, quando foi substituído por Stéphane Charbonnier,
conhecido só como Charb. Foi sob o comando dele que a revista
intensificou suas charges relacionadas ao Islã – ainda mais após o
atentado que a revista sofreu em 2011.
Uma pausa para o contexto. A França tem 6,2 milhões de muçulmanos.
São, na maioria, imigrantes das ex-colônias francesas. Esses muçulmanos
não estão inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria é
pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe”. Após os
atentados do World Trade Center, a situação piorou. Já ouvi de pessoas
que saíram de um restaurante “com medo de atentado” só porque um árabe
entrou. Lembro de ter lido uma pesquisa feita há alguns anos (desculpem,
não consegui achar a fonte) em que 20 currículos iguais eram
distribuídos por empresas francesas. Eles eram praticamente iguais. A
única diferença era o nome dos candidatos. Dez eram de homens com
sobrenomes franceses, ou outros dez eram de homens com sobrenomes
árabes. O currículo do francês teve mais que o dobro de contatos
positivos do que os do candidato árabe. Isso foi há alguns anos. Antes
da Frente Nacional, partido de ultra-direita de Marine Le Pen,
conquistar 24 cadeiras no parlamento europeu…
De volta à Charlie Hebdo: Ontém vi Ziraldo chamando os cartunistas
mortos de “heróis”. O Diário do Centro do Mundo (DCM) os chamou de“gigantes do humor politicamente incorreto”.
No Twitter, muitos chamaram de “mártires da liberdade de expressão”.
Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do
Charlie Hebdo são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato
é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.
O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio
que diz que o profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma.
(Isso gera situações interessantes, como o filme A Mensagem – Ar
Risalah, de 1976 – que conta a história do profeta sem desrespeitar esse
dogma – as soluções encontradas são geniais!). Esse é um preceito
central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os
muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse
a estátua de Nossa Senhora para atacar os católicos. O Charlie Hebdo
publicou a seguinte charge:
Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã
esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. Ok, o catolicismo foi
banalizado. Mas isso aconteceu de dentro pra fora. Não nos foi imposto
externamente. Note que ele não está falando em atacar alguns indivíduos
radicais, alguns pontos específicos da doutrina islâmica, ou o fanatismo
religioso. O alvo é o Islã, por si só. Há décadas os culturalistas já
falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo.
Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista. Na época das
primeiras publicações, diversas associações islâmicas se sentiram
ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses –
famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerâmcia (ver Caso Dreyfus)
– deram ganho de causa para a revista. Foi como um incentivo. E a
Charlie Hebdo abraçou esse incentivo e intensificou as charges e textos
contra o Islã.
Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal
retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre
estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas
ou fazendo alusões à violência (quantos trocadilhos com “matar” e
“explodir”…). Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos
radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são
mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro
que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos
casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma
charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não
critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…
E aí colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus
10% de muçulmanos já marginalizados. O poeta satírico francês Jean de
Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo mores” (costumes são
corrigidos rindo-se deles). A piada tem esse poder. Se a piada é
preconceituosa, ela transmite o preconceito. Se ela sempre retrata o
árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é
terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente
da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de
identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. Os
quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia.
Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de
ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar
que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é
hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas.
No artigo do Diário do Centro do Mundo, Paulo Nogueira diz: “Existem
dois tipos de humor politicamente incorreto. Um é destemido, porque
enfrenta perigos reais. O outro é covarde, porque pisa nos fracos. Os
cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo pertenciam ao primeiro
grupo. Humoristas como Danilo Gentili e derivados estão no segundo.”
Errado. Bater na população islâmica da França é covarde. É bater no mais
fraco.
Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles
também criticavam católicos e judeus. Isso me lembra o já citado gênio
do humor (sqn) Danilo Gentilli, que dizia ser alvo de racismo ao ser
chamado de Palmito (por ser alto e branco). Isso é canalha. Em nossa
sociedade, ser alto e branco não é visto como ofensa, pelo contrário. E –
mesmo que isso fosse racismo – isso não daria direito a ele de ser
racista com os outros. O fato do Charlie Hebdo desrespeitar outras
religiões não é atenuante, é agravante. Se as outras religiões não
reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser
ofendido calado.
“Mas isso é motivo para matarem os caras!?”. Não. Claro que não.
Ninguém em sã consciência apoia os atentados. Os três atiradores
representam o que há de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar.
Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a
justiça francesa tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso.
Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.
“Mas isso é censura”, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura.
Um dos significados da palavra “Censura” é repreender. A censura já
existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando
histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz
que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados
– como o racismo ou a homofobia – isso é censura. Ou mesmo situações
mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem
porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem
toda censura é ruim.
Por coincidência, um dos assuntos mais comentados do dia 6 de janeiro – véspera dos atentados – foi a declaração do comediante Renato Aragão à revista Playboy.
Ao falar das piadas preconceituosas dos anos 70 e 80, Didi disse: “Mas,
naquela época, essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais,
elas não se ofendiam.”. Errado. Muitos se ofendiam. Eles só não tinham
meios de manifestar o descontentamento. Naquela época, tão cheia de
censuras absurdas, essa seria uma censura positiva. Se alguém tivesse
dado esse toque nOs Trapalhões lá atrás, talvez não teríamos a minha
geração achando normal fazer piada com negros e gays. Perderíamos
algumas risadas? Talvez (duvido, os caras não precisavam disso para
serem engraçados). Mas se esse fosse o preço para se ter uma sociedade
menos racista e homofóbica, eu escolheria sem dó. Renato Aragão parece
ter entendido isso.
Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra.
Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que
deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser
julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas
aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na
forma de processos judiciais do que de balas de fuzis.
Voltando à França, hoje temos um país de luto. Porém, alguns urubus
são mais espertos do que outros, e já começamos a ver no que o atentado
vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida.
Foi a eles que a guerra foi declarada” (grifo meu). Essa fala mostra
exatamente as raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas
franceses (de direita, centro ou esquerda), é inadmissível que 10% da
população do país não tenha interesse em seguir “o modo de vida
francês”. Essa colônia, que não se mistura, que não abandona sua
identidade, é extremamente incômoda. Contra isso, todo tipo de medida é
tomada. Desde leis que proíbem imigrantes de expressar sua religião até…
charges ridicularizando o estilo de vida dos muçulmanos! Muitos
chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para
homenagear as vítimas. De longe, a homenagem parece válida. Quando
chegam as notícias de que locais de culto islâmico na França foram atacados
– um deles com granadas! – nessa madrugada, a coisa perde um pouco a
beleza. É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a França
declarar “guerra ao fundamentalismo” (mas que nos ouvidos dos xenófobos
ecoa como “guerra aos muçulmanos” – e ela sabe disso).
Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato bárbaro de ontem,
eu não sou Charlie. No twitter, um movimento – muito menor do que o
#JeSuisCharlie – começa a surgir. Ele fala do policial, muçulmano, que
morreu defendendo a “liberdade de expressão” para os cartunistas do
Charlie Hebdo ofenderem-no. Ele representa a enorme maioria da
comunidade islâmica, que mesmo sofrendo ataques dos cartunistas
franceses, mesmo sofrendo o ódio diário dos xenófobos e islamófobos,
repudiaram o ataque. Je ne suis pas Charlie. Je suis Ahmed.
Postado por El Rafo Saldaña às 09:20
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