quinta-feira, 31 de julho de 2025

OS MISERÁVEIS - Victor Hugo Volume I - Livro V - A DECADÊNCIA - Capítulo IV - O senhor Madeleine de luto


OS MISERÁVEIS - Victor Hugo

Volume I - Livro V

A DECADÊNCIA

Capítulo IV - O senhor Madeleine de luto

 

No começo de 1821, os jornais anunciaram a morte do senhor Myriel, bispo de Digne, "cognominado Monsenhor Bienvenu e falecido em odor de santidade com a idade de oitenta e dois anos"

O bispo de Digne, para acrescentar aqui um detalhe omitido, pelos jornais, quando morreu, estava cego havia vários anos, mas contente em sua cegueira, tendo a irmã a seu lado.

Diga-se de passagem, ser cego e ser amado é, de fato, nesta terra onde nada é completo, uma das formas mais estranhamente esquisitas de felicidade. Ter continuamente perto de si uma mulher, uma filha, uma irmã, um ser encantador que está ali porque você tem necessidade dele, e porque ele não pode ficar sem você, saber-se indispensável a quem nos é necessário, poder incessantemente medir a afeição que nos têm pela quantidade de presença que nos dão, e dizer: consagra-me todo o seu tempo porque ocupo-lhe todo o coração; ver o pensamento, na falta de ver o rosto; constatar a fidelidade de um ser no eclipse do mundo; perceber o roçar de um vestido como um ruído de asas; ouvir este alguém ir e vir, sair, voltar, falar, cantar, e pensar que somos o centro daqueles passos, daquelas palavras, daquele canto; manifestar a cada minuto nossa própria atração; sentir-se poderoso, ainda mais por estar enfermo, e tornar-se, na obscuridade e pela obscuridade, O astro em torno do qual gravita aquele anjo; poucas felicidades igualam-se a esta. A ventura suprema da vida é a convicção de que somos amados, mas amados por nós mesmos, ou, melhor ainda, amados a despeito de nós mesmos. Essa convicção, o cego a tem. Em meio a essa aflição, ser servido é ser acariciado. Falta-Ihe alguma coisa? Não. É quase nada não ver a luz tendo amor. E que amor! Um amor inteiramente feito de virtude. Não há cegueira onde existe certeza. Tateando, uma alma procura outra alma, e a encontra. E essa alma encontrada e provada é uma mulher. Uma mão o sustenta, é a dela; uma boca roça-lhe a fronte, é a dela; ouve uma respiração por perto, é ela. Ter tudo o que vem dela, desde o que cultua até o que a compadece; o nunca ser abandonado; contar com essa doce fraqueza que o socorre; apoiar-se naquela delicadeza inabalável; tocar com as mãos a Providência, podendo segurá-la nos braços; Deus palpável, que êxtase! O  coração, esta celeste flor obscura,  inicia um misterioso desabrochar. Ninguém trocaria essa escuridão por qualquer claridade que fosse. Está ali a alma-anjo, sempre ali; se se afasta, é para voltar; apaga-se como o sonho e reaparece como a realidade. Sente-se um calor que aproxima, lá está ela. Transborda-se de serenidade, de alegria, de êxtase; é como ser um raio dentro da escuridão. E mil pequenos cuidados. Nadas que são enormes dentro do vazio. Os mais inefáveis acentos da voz feminina empregados a nos embalar, preenchendo em nós o universo esvanecido. E sentirmo-nos acariciados com a alma. Não vemos nada, mas nos sentimos adorados. Paraíso de trevas.

Foi desse paraíso que Monsenhor Bienvenu passou ao outro.

A notícia de sua morte foi reproduzida pelo jornal de Montreui]-Sur-Mer. No dia seguinte, O senhor Madeleine apresentou-se todo vestido de preto e com uma tira de luto no chapéu.

A cidade reparou naquele luto, e se encheu de comentários. Aquilo parecia iluminar um pouco as origens do senhor Madeleine. Concluiu-se daí que tinha alguma ligação com o venerável bispo. Está de luto pelo bispo de Digne, disseram nos salões, e isso realçou muito o senhor Madeleine. Dando-lhe subitamente certa consideração entre a nobreza de Montreuil-sur-Mer. O microscópico bairro Saint-Germain do local pensou em fazer cessar a quarentena do senhor Madeleine, provável parente de um bispo. E ele logo percebeu que Recebia mais reverências das senhoras idosas e mais sorrisos das Jovens. Certa noite, uma decana daquela sociedadezinha aristocrática, curiosa por direito de antiguidade, aventurou-se a perguntar-lhe:

- O senhor prefeito decerto era primo do falecido bispo de

Digne, não? 

Ele respondeu:

- Não, minha senhora.

- Mas – replicou a matrona

Está de luto por ele?

O homem tornou:

- É que na juventude fui criado de sua família.

Outra observação que faziam é que, todas as vezes que passava algum jovem de fora, andando pela região e procurando Chaminés para limpar, o prefeito mandava chamá-los, perguntava-Ihes o nome e dava-lhes algum linheiro. Os limpa-chaminés contavam esse fato uns aos outros e por isso muitos deles passavam ali.





sábado, 12 de julho de 2025

DEMAIN DÈS L'AUBE - VICTOR HUGO



Poema de Victor  Hugo  para sua filha Leopoldine que morreu afogada no Sena , aos 19 anos de idade.

"Demain, dès l’aube"

                                Victor Hugo

Demain, dès l’aube, à l’heure où blanchit la campagne,

Je partirai. Vois-tu, je sais que tu m’attends.

J’irai par la forêt, j’irai par la montagne.

Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.

Je marcherai les yeux fixés sur mes pensées,

Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,

Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,

Triste, et le jour pour moi sera comme la nuit.

Je ne regarderai ni l’or du soir qui tombe,

Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,

Et quand j’arriverai, je mettrai sur ta tombe

Un bouquet de houx vert et de bruyère en fleur.


TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS 

"Amanhã, ao romper da aurora"

Amanhã, ao romper da aurora, quando a planície clareia,

Partirei. Sabes, eu sei que esperas por mim.

Irei pela floresta, irei pela montanha.

Não posso mais ficar longe de ti.

Caminharei com os olhos presos às minhas lembranças,

Sem ver nada em volta, sem ouvir um ruído,

Só, desconhecido, de costas curvadas, mãos juntas,

Triste – e para mim o dia será como a noite.

Não verei o ouro do entardecer caindo,

Nem os barcos ao longe descendo para Harfleur,

E quando eu chegar, colocarei sobre tua sepultura

Um ramo de azevinho verde e de urze em flor



sexta-feira, 11 de julho de 2025

Maison de Victor Hugo e Place des Vosges- 10.07.2025

 



EPITÁFIO DE JULIETTE DROUET 

"Quand je ne serai plus qu’une cendre glacée,
Quand mes yeux fatigués seront fermés au jour,
Dis-toi, si dans ton cœur ma mémoire est fixée :
Le monde a sa pensée,
Moi, j'avais son amour !"
— Épitaphe de Juliette Drouet (Dernière Gerbe de Victor Hugo

TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS 

Quando eu não for nada mais que cinzas congeladas,
Quando meus olhos cansados estiverem fechados para a luz,
Diga a si mesma, se minha memória estiver fixada em seu coração:
O mundo tem seus pensamentos,
Eu tive seu amor!

— Epitáfio de Juliette Drouet (O Último Feixe de Victor Hugo)

POEMA DE VICTOR  HUGO  PARA A FILHA LEOPOLDINE 

"Demain, dès l’aube"
(Tradução: "Amanhã, ao romper da aurora")

Demain, dès l’aube, à l’heure où blanchit la campagne,
Je partirai. Vois-tu, je sais que tu m’attends.
J’irai par la forêt, j’irai par la montagne.
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.
Je marcherai les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste, et le jour pour moi sera comme la nuit.
Je ne regarderai ni l’or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j’arriverai, je mettrai sur ta tombe
Un bouquet de houx vert et de bruyère en fleur.


TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS:

Amanhã, ao romper da aurora, quando a planície clareia,
Partirei. Sabes, eu sei que esperas por mim.
Irei pela floresta, irei pela montanha.
Não posso mais ficar longe de ti.
Caminharei com os olhos presos às minhas lembranças,
Sem ver nada em volta, sem ouvir um ruído,
Só, desconhecido, de costas curvadas, mãos juntas,
Triste – e para mim o dia será como a noite.
Não verei o ouro do entardecer caindo,
Nem os barcos ao longe descendo para Harfleur,
E quando eu chegar, colocarei sobre tua sepultura
Um ramo de azevinho verde e de urze em flor

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Museu Picasso Paris - 06.07.2025

 

Museu Picasso-Paris  (Musée Picasso-Paris) 

Musée Picasso está abrigado no Hôtel Salé, um belíssimo edifício histórico do século XVII, no bairro do Marais (5 rue de Thorigny).

O museu alberga a maior coleção pública do mundo dedicada a Pablo Picasso (com cerca de 5.000 obras (pinturas, esculturas, desenhos, gravuras, cerâmicas) e muitos documentos pessoais como fotografias e cartas.

Pablo Picasso (1881-1973), um dos maiores artistas do século XX, foi um pintor, escultor, ceramista, gravador e poeta.

Ele, ao lado de Braques, criou o cubismo e revolucionou a arte moderna com sua capacidade de experimentar e transformar diferentes estilos ao longo de sua vida.

Picasso teve uma vida amorosas intensa e turbulenta, marcada por diversos relacionamentos com mulheres que, influenciaram na sua arte1as sete principais

1. Fernande Olivier (1881-1966)

2. Eva Gouel (Marcelle Humbert) (1885-1915)

3. Olga Khokhlova (1891-1955)

4. Marie-Thérèse Walter (1909-1977)

5. Dora Maar (1907-1997)

6. Françoise Gilot (1921-2023)

7. Jacqueline Roque (1927-1986)

Ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 07.07.2025


quinta-feira, 3 de julho de 2025

CEMITÉRIO PÈRE LACHAISE






O CEMITÉRIO PÈRE LACHAISE 

Em Paris, o cemitério Père Lachaise, importante ponto turístico, artístico e histórico, está localizado no 20º arrondissement da capital francesa.

Um dos maiores e mais famosos cemitérios do mundo, inaugurado em 1804 com o nome do padre François d’Aix de La Chaise, confessor do rei Luís XIV, possui 44 hectares e mais de 70 mil sepulturas.

O Père Lachaise recebe anualmente mais de 3 milhões de visitantes para conhecer os túmulos de personalidades, como: Alan Kardec (fundador da doutrina espírita), Oscar Wilde (escritor), Jim Morrison (cantor do The Doors), Édith Piaf (cantora francesa), Frédéric Chopin (compositor e pianista), Marcel Proust (escritor), Molière (dramaturgo), Georges Bizet (compositor de "Carmen"), Honoré de Balzac (escritor), Jean de La Fontaine (escritor de fábulas) Héloïse e Abelard ( protagonistas de uma das histórias de amor mais célebres e trágicas da Idade Média europeia) e muitos outros. 

O Père Lachaise é um verdadeiro museu ao ar livre, repleto de alamedas arborizadas e esculturas de diferentes estilos arquitetônicos retratando a evolução da arte funerária nos últimos dois séculos.

É também um espaço de memória para eventos históricos, incluindo o Muro dos Federados, onde 147 combatentes da Comuna de Paris foram executados em 1871. Símbolo de resistência, o muro ostenta a seguinte placa:

"Aux morts de la Commune 21-28 mai 1871"

(Aos mortos da Comuna, 21-28 de maio de 1871)

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 3 de julho de 2025