OS MISERÁVEIS - Victor Hugo
Volume I - Livro V
A DECADÊNCIA
Capítulo IV - O senhor Madeleine de luto
No começo de 1821, os jornais anunciaram a morte do senhor Myriel, bispo de Digne, "cognominado Monsenhor Bienvenu e falecido em odor de santidade com a idade de oitenta e dois anos"
O bispo de Digne, para acrescentar aqui um detalhe omitido, pelos jornais, quando morreu, estava cego havia vários anos, mas contente em sua cegueira, tendo a irmã a seu lado.
Diga-se de passagem, ser cego e ser amado é, de fato, nesta terra onde nada é completo, uma das formas mais estranhamente esquisitas de felicidade. Ter continuamente perto de si uma mulher, uma filha, uma irmã, um ser encantador que está ali porque você tem necessidade dele, e porque ele não pode ficar sem você, saber-se indispensável a quem nos é necessário, poder incessantemente medir a afeição que nos têm pela quantidade de presença que nos dão, e dizer: consagra-me todo o seu tempo porque ocupo-lhe todo o coração; ver o pensamento, na falta de ver o rosto; constatar a fidelidade de um ser no eclipse do mundo; perceber o roçar de um vestido como um ruído de asas; ouvir este alguém ir e vir, sair, voltar, falar, cantar, e pensar que somos o centro daqueles passos, daquelas palavras, daquele canto; manifestar a cada minuto nossa própria atração; sentir-se poderoso, ainda mais por estar enfermo, e tornar-se, na obscuridade e pela obscuridade, O astro em torno do qual gravita aquele anjo; poucas felicidades igualam-se a esta. A ventura suprema da vida é a convicção de que somos amados, mas amados por nós mesmos, ou, melhor ainda, amados a despeito de nós mesmos. Essa convicção, o cego a tem. Em meio a essa aflição, ser servido é ser acariciado. Falta-Ihe alguma coisa? Não. É quase nada não ver a luz tendo amor. E que amor! Um amor inteiramente feito de virtude. Não há cegueira onde existe certeza. Tateando, uma alma procura outra alma, e a encontra. E essa alma encontrada e provada é uma mulher. Uma mão o sustenta, é a dela; uma boca roça-lhe a fronte, é a dela; ouve uma respiração por perto, é ela. Ter tudo o que vem dela, desde o que cultua até o que a compadece; o nunca ser abandonado; contar com essa doce fraqueza que o socorre; apoiar-se naquela delicadeza inabalável; tocar com as mãos a Providência, podendo segurá-la nos braços; Deus palpável, que êxtase! O coração, esta celeste flor obscura, inicia um misterioso desabrochar. Ninguém trocaria essa escuridão por qualquer claridade que fosse. Está ali a alma-anjo, sempre ali; se se afasta, é para voltar; apaga-se como o sonho e reaparece como a realidade. Sente-se um calor que aproxima, lá está ela. Transborda-se de serenidade, de alegria, de êxtase; é como ser um raio dentro da escuridão. E mil pequenos cuidados. Nadas que são enormes dentro do vazio. Os mais inefáveis acentos da voz feminina empregados a nos embalar, preenchendo em nós o universo esvanecido. E sentirmo-nos acariciados com a alma. Não vemos nada, mas nos sentimos adorados. Paraíso de trevas.
Foi desse paraíso que Monsenhor Bienvenu passou ao outro.
A notícia de sua morte foi reproduzida pelo jornal de Montreui]-Sur-Mer. No dia seguinte, O senhor Madeleine apresentou-se todo vestido de preto e com uma tira de luto no chapéu.
A cidade reparou naquele luto, e se encheu de comentários. Aquilo parecia iluminar um pouco as origens do senhor Madeleine. Concluiu-se daí que tinha alguma ligação com o venerável bispo. Está de luto pelo bispo de Digne, disseram nos salões, e isso realçou muito o senhor Madeleine. Dando-lhe subitamente certa consideração entre a nobreza de Montreuil-sur-Mer. O microscópico bairro Saint-Germain do local pensou em fazer cessar a quarentena do senhor Madeleine, provável parente de um bispo. E ele logo percebeu que Recebia mais reverências das senhoras idosas e mais sorrisos das Jovens. Certa noite, uma decana daquela sociedadezinha aristocrática, curiosa por direito de antiguidade, aventurou-se a perguntar-lhe:
- O senhor prefeito decerto era primo do falecido bispo de
Digne, não?
Ele respondeu:
- Não, minha senhora.
- Mas – replicou a matrona
Está de luto por ele?
O homem tornou:
- É que na juventude fui criado de sua família.
Outra observação que faziam é que, todas as vezes que passava algum jovem de fora, andando pela região e procurando Chaminés para limpar, o prefeito mandava chamá-los, perguntava-Ihes o nome e dava-lhes algum linheiro. Os limpa-chaminés contavam esse fato uns aos outros e por isso muitos deles passavam ali.































