| Ana Margarida - Fontana della Bacaccia - Roma |
| Ana Margarida e Jana - Fontana della Bacaccia - Piazza di Spagna- Roma |
Depois
de um giro de 30 dias, saindo de Roma, e passando por Nápoles, Pompéia, Berlim,
Paris, Bruges e Romênia, estava de volta à Cidade Eterna com a minha filha,
Jana, e meu genro, Dani. O dia era 5 de maio de 2011, o último de uma longa e
inesquecível viagem pelo Velho Mundo. Resolvemos passá-lo na Villa Borghese,
mais especificamente no Museo Borghese. Chegamos de metrô e adentramos a
Villa pela magnífica Porta Pinciana, que fica no final da Via
Veneto.
A
referida Villa, refúgio das barulhentas ruas de Roma, é um imenso parque
público de seis quilômetros de circunferência e possui museus, galerias,
academias, zoológico, fontes, templos, estátuas etc. A história da Villa
remonta ao século XVII quando, em 1605, o Cardeal Scipione Borghese,
sobrinho do Papa Paulo V, transformou em parque, uma antiga vinha. No
inicio do século XIX, o príncipe Camillo Borghese reuniu a coleção de
arte da família, no Casino Borghese, hoje galeria e museu. A coleção de
esculturas ocupa todo o andar térreo (Museo Borghese) e a coleção de
quadros fica no andar superior (Galleria Borghese).
Depois
de uma agradável caminhada pela Vialle Galeria Borghese, margeada por
magníficos ciprestes, chegamos ao predio do museu. A bela construção alberga
uma fantástica coleção de esculturas de Gian Lorenzo Bernini como: Apolo
e Dafne; Davi; O Rapto de Proserpina; Eneias, Anquises e Ascânio e Hermafrodita
adormecido, além de pinturas de Caravaggio, Raphael e Ticiano.
Porém, o ponto alto do museu é a estonteante escultura de Pauline Borghese,
irmã de Napoleão Bonaparte. Entre 1805 e 1808, Pauline pousou seminua,
como Vênus, para o escultor Antonio Canova. Seu marido, Camillo
Borghese, enciumado, escondeu a obra de arte até de Canova. Por
ironia, hoje, milhares de turistas do mundo inteiro derramam olhares
concupiscentes nesta bela deidade.
O
Rapto de Proserpina é para mim a mais incrível escultura de Bernini.
Os corpos entrelaçados de Plutão e Proserpina com os dedos de Plutão penetrando
nas carnes viçosas da amada me deixou perplexa, diante de tanta técnica e
habilidade com o duro mármore. A lenda grega de Hades raptando Perséfone
para as profundezas da terra, por tê-lo encantado com sua beleza, foi traduzida
na cultura romana como o Rapto de Proserpina, por Plutão. Reza a lenda que Deméter,
deusa das colheitas, mãe de Perséfone, ficou tão enfurecida por Hades
ter raptado sua filha que castigou o mundo, destruindo suas plantações. Zeus
interveio e Hades aceitou que Perséfone passasse a metade do ano
com sua mãe. Assim, durante o verão e a primavera ela ficava com sua mãe e, no
inverno e outono, épocas sem colheitas, com Hades.
Na
escultura Eneias, Anquise e Ascânio, Bernini descreve a continuidade da
vida, representando três gerações. Eneias, fugindo de Tróia, carrega nos ombros
seu pai, Anquise, e, ao seu lado, o filho, Ascânio. Em Apolo e Dafne, Bernini
nos mostra o desespero da ninfa Dafne tentando fugir de Apolo, no
momento em que ela se transforma em um loureiro. Reza a lenda que Apolo,
deus do Olimpo, com sua arrogância e seu arco de prata, irritou o Cupido que
lançou duas flechas, uma de amor, em Apolo, e a outra que afastava o
amor, em Dafne. Apolo, doente de amor, começou o assédio sobre Dafne
que correu desesperada pela floresta. Com ajuda de seu pai, Dafne foi
transformada em uma árvore. Alucinado, Apolo se agarrou à mesma,
chorando e dizendo que os ramos do loureiro sempre o acompanhariam, em sua
coroa, em seus eternos triunfos. Por isso, nos Jogos Olímpicos, estes ramos
adornam as cabeças dos atletas vencedores.
Diante
dos bustos dos césares romanos lembrei-me do Rose e de seu método mnemônico de
associar os nomes dos imperadores romanos aos dos 12 pares cranianos. No andar
superior, apreciamos a obra-prima de Ticiano, Amor Sagrado e Profano, entre
outras obras de Rubens, Cranach, Caravaggio e Raphael. Saímos do museu e
fizemos um tour pela imensa Villa apreciando as fontes, as estátuas
neoclássicas de Byron, Goethe e Victor Hugo, os templos de Diana e
Faustina, mulher do imperador Antonino Pio, e o templo jônico dedicado a
Esculápio, deus da medicina.
Deixamos
o Villa e fomos até a Piazza di Spagna que estava repleta de
turistas e de flores. Sentei-me na borda da Fontana della Bacaccia,
implantada na base da bela e monumental escadaria de 135 degraus que leva à igreja
Trinità dei Monti. A Fontana é obra de Bernini e foi inspirada por uma
embarcação que, durante a inundação do rio Tibre, em 1598, chegou à praça.
Admirei as altas casas em tons de ocre, cor típica das construções de Roma, e
os turistas que faziam fila para encher suas garrafas com água da fonte, ou
simplesmente tirar fotos ao lado da velha Bacaccia. Muitos indianos
vendiam rosas vermelhas e mergulhavam os bouquets nas águas da fonte
para reanimá-las. Quando minha filha e meu genro retornaram das compras, pedi
para tirarem minha foto diante da fonte e, assim, registrar aqueles momentos.
Finalmente,
descemos a Via Condotti, cruzamos a Via del Corso e chegamos ao
Restaurante Alfredo, na Piazza Augusto Imperatore, ao lado do Mausoleo
Augusto. Neste tradicional restaurante, de mais de cem anos, nós nos
despedimos de Roma com o famoso fettuccine all’Alfredo. A história de
sucesso do restaurante começou com Douglas Fairbanks e Mary Pickford,
dois famosos atores do cinema mudo, que frequentaram o restaurante durante a
lua de mel passada em Roma, no começo do século XX.
Em
retribuição às gentilezas dispensadas pelo dono do restaurante, o casal ofertou
uma colher e um garfo de ouro maciço com uma dedicatória “Para o rei dos
macarrões, Alfredo”. Muitas pessoas famosas tiveram a honra de experimentar o fettuccine
com esses talheres. Apesar de não me enquadrar nesta legião, também, fui
contemplada com a colher de ouro, em uma das duas vezes que lá estive com o
Rose. As paredes do restaurante são revestidas de fotos de personalidades do
mundo inteiro que já experimentaram o fettuccine. Admiramos Chico
Buarque, Marieta Severo, Caetano, Pelé, Ava Gardner, Sofia Loren, Charlton
Heston, Clark Gable, Cristina Onassis, Gina Lollobrigida, Liz Taylon, Kennedy,
vários reis de diversos países etc. Reconfortados, voltamos ao nosso hotel e,
baixinho, disse para mim mesma: Voltarei um dia! Arrivederti Roma!
Ana
Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Fortaleza,
23 de maio de 2011.