quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Por: ana margarida furtado arruda rosemberg - A MALDIÇÃO DE DONA VERIDIANA DA SILVA PRADO



A MALDIÇÃO DE DONA VERIDIANA DA SILVA PRADO

Nos idos anos 90 do século XX, eu morava com o Rose, em São Paulo, na Rua Sabará  esquina com Avenida Higienópolis. Havia, na Av. Higienópolis esquina com a Rua Dona Veridiana, pertinho da Mackenzie e da histórica Rua Maria Antônia, um belo palacete, que ficava a 100 metros de nosso apartamento. 

Aquele palacete, com seu estilo renascentista francês, me atraia.  Sempre que por lá passava com o Rose, em nossos passeios domingueiros, esgueirava o meu olhar pelas frestas do artístico portão de ferro, para apreciar sua arquitetura e descobrir sua história.

Aqui funciona o “Iate Clube de Santos”, mas foi residência de Dona Veridiana, dizia o Rose. Descobri, em minhas pesquisas históricas, que o referido palacete, rodeado por um jardim de mais de 3 mil m², foi concebido por uma dama da sociedade paulistana, que viveu no século XIX e início do XX, a mítica Veridiana Valéria da Silva Prado (1825-1910), considerada a primeira mulher empresária do Brasil.

Filha de Antônio da Silva Prado (1778-1875), Barão de Iguape, um dos homens mais ricos e influentes de São Paulo, e de Maria Cândida de Moura Vaz, Veridiana casou-se com 13 anos, por exigência de seu pai, com Martinho da Silva Prado (seu meio-tio) e teve seis filhos, 36 netos e 96 bisnetos. 

Dona de forte personalidade, Veridiana educou os filhos para exercerem papeis de destaque no país. Seu primogênito, Antônio da Silva Prado (1840-1929), foi ministro de Estado, senador, deputado e primeiro prefeito de São Paulo; Eduardo Paulo da Silva Prado (1860-1901), advogado, jornalista, escritor e membro fundador da Academia Brasileira de Letras, inspirou a figura de Jacinto de Tormes, em “A cidade e as Serras”, de Eça de Queiroz; Antônio Caio da Silva Prado (1853-1889) foi presidente das províncias de Alagoas e do Ceará; faleceu jovem vítima de febre amarela; é citado pelo escritor Adolfo Caminha, no romance "A Normalista". 

   Para muitos, Dona Veridiana foi a nossa primeira feminista. Ao separar-se do marido, com 55 anos de idade, causou um escândalo na sociedade conservadora da época. Após a separação, viajou para Paris, encantou-se com os salões culturais da cidade-luz e trouxe um projeto para fazer um palacete, nos moldes franceses, que foi concluído em 1884.

 Batizado por ela de “Chácara Vila Maria”, para homenagear sua dama de companhia, uma jovem negra, Maria das Dores, Veridiana, de sua chácara, comandou um dos mais importantes salões culturais de São Paulo, na segunda metade do século XIX. Todos os sábados, ela patrocinava encontros literários, musicais, culturais e políticos. Recebeu artistas, intelectuais, cientistas, estadistas, além de D. Pedro II e da Princesa Isabel. Pode-se dizer que Dona Veridiana foi uma “Patrona da Cultura”.

Seus empregados eram de origens étnicas diversas. Sua dama de companhia, Maria das Dores, recebeu de Dona Veridiana uma educação refinada.  Só se dirigia à patroa na língua francesa, tocava piano e conhecia literatura. O seu mordomo era um índio botocudo. Os jardineiros do seu palacete eram todos europeus e ela abria o jardim do Palacete às crianças do bairro. Veridiana doou uma parte do terreno para a construção do “Instituto Geológico de São Paulo” e outra parte para a “Santa Casa de Misericórdia”.

Dona Veridiana deixou uma fabulosa herança para sua dama de companhia negra, com um recado: você vai se casar, vai ter filhos, mas esse dinheiro é só seu, pois a sua liberdade depende desse dinheiro.

 Ela tinha um cocheiro suíço que a levava a passear de caleça, nos fins de tarde, pela Avenida Higienópolis. Isso criou um mal-estar entre as damas paulistanas, deixando Dona Veridiana injuriada.

Segundo o sociólogo José de Souza Martins, da USP, Dona Veridiana deixou a casa para o neto, Paulo Prado, que foi patrono da “Semana de 22”, na condição de que fosse para um clube masculino, com uma cláusula de que mulher não entraria, pois as mulheres que falavam mal da vida dela, na casa dela, não podiam entrar. 

Há alguns anos, o dono da Editora Paz e Terra organizou um coquetel dos autores de um livro sobre São Paulo, na casa de Dona Veridiana. Souza Martins, que estava no evento, ao ver muitas mulheres perguntou: caiu a “Maldição de Dona Veridiana”? Logo lhe responderam que não, pois ali não era a casa, e sim a cocheira. 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 22 de setembro de 2021


REFERÊNCIAS

https://www.youtube.com/watch?v=gDoldURkN4c

https://www.youtube.com/watch?v=zcGODHqjcqo

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/dona-veridiana-mulher-que-escandalizou-o-conservadorismo-da-elite-cafeeira-paulista.phtml

https://www.saopauloinfoco.com.br/veridiana-silva-prado/

https://www.sescsp.org.br/online/artigo/compartilhar/14094_DONA+VERIDIANA

https://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Prado

https://jornal.usp.br/cultura/a-cidade-e-as-serras-questiona-os-valores-da-sociedade-urbana/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Veridiana_da_Silva_Prado

https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/115830/000810078_20151201.pdf?sequence=1

 http://www.espacoiate.com.br/


terça-feira, 21 de setembro de 2021

Por: ana margarida furtado arruda rosemberg - O Historiador é DETETIVE e a História é DINÂMICA

 


https://jornaldomedico.com.br/2021/09/19/o-historiador-e-detetive-e-a-historia-e-dinamica/

O Historiador é DETETIVE e a História é DINÂMICA

O campo de trabalho para o historiador, muito ampliado nas últimas décadas, é maior do que se imagina. Análises de lugares com impactos ambientais, tombamentos de edifícios, restaurações patrimoniais têm sempre o parecer de um historiador.  

A história ensinada com apenas as datas e descrições de fatos pontuais não mais atrai. Entretanto, ensinada de outra maneira, encanta e dá prazer.

O historiador italiano Carlo Ginzburg, pioneiro da "micro-história", compara o ofício do historiador ao de um detetive. O historiador é um “Sherlock Holmes”, pois trabalha com processo indiciário, indo procurar as pistas.

O processo da feitura da história é fascinante, pois o historiador vai descobrindo os fatos, peças de um grande quebra cabeças, e os juntas para dar um sentido. O historiador descobre e revela fatos acontecidos no passado, mas com muita suspeita.

 O que estava escrito nos documentos, que era a perspectiva do historiador do século XIX e início do século XX, já caiu por terra. Segundo a historiadora Maria Helena Capeleto, o historiador tem que analisar o documento na perspectiva de desconstruí-lo, para ver o que está por trás dele, como ele foi construído e por que ele foi construído.    

O historiador, ao analisar um documento, deve ter as seguintes questões:

1.      O que aconteceu?

2.      Por que aconteceu?

3.      Como aconteceu? 

4.      Em que lugar?

5.      Em que tempo?

O tempo é importante porque é matéria prima da história. O historiador, ao analisar documentos históricos, tem sempre em mente que eles foram construídos. É um trabalho difícil e sutil, pois o historiador tem que ler nas entrelinhas do documento e ficar atento as lacunas, aos silêncios. É instigante esse trabalho.

Nos primórdios da profissionalização do historiador, era ensinado que ele tinha que ser objetivo e imparcial diante de um documento histórico. Com as revisões historiográficas que aconteceram na segunda metade do século XX, tudo caiu por terra. Michel Foucault (1926-1984) disse que o documento é um monumento que precisa ser desconstruído. Atualmente, o historiador suspeita do documento e, com métodos e técnicas, o desconstrói.

O historiador tem compromisso com a verdade, com a objetividade e com a imparcialidade. Como ele é parte da história, é preciso saber trabalhar com a subjetividade e a imparcialidade. É preciso desconfiar de si próprio. É preciso ter um distanciamento que, muitas vezes, só os pares do historiador, percebem se existe. Por isso, os trabalhos de pesquisas são analisados por outros historiadores.  

O historiador, ao ler um texto, deve se perguntar: quem escreveu, quando escreveu e por que escreveu. Atualmente, o trabalho do historiador é muito fascinante, pois a história factual, positivista, de grandes personagens, que existia e não era neutra, caiu por terra. Para os historiadores antigos, o que estava nos documentos era verdade, mas os documentos eram institucionais e retratavam uma história oficial, compromissada com os interesses políticos dos vencedores.

A primeira crítica dessa forma de fazer história se deu em 1929, com a “Escola dos Annales”, na França. A partir dos anos 70 e 80 do século XX, houve a grande revisão. Surgiu a história problema. Foucault contribuiu mostrando o que é um documento e como desconstrui-lo, mas, para muitos historiadores, Foucault peca por não levar em conta a História com os sujeitos históricos.  

Gibzburg contribuiu quando revolucionou a “História Cultural”, pegando um sujeito anônimo e reconstituindo a sociedade nos seus vários aspectos. Ele acabou com a ideia de duas culturas separadas: a do povo e a da elite, pois demonstrou que tudo circula e se mescla.

A partir dos anos 70 do século XX, os historiadores franceses e ingleses abriram o leque da história com novas abordagens e novos objetos, surgindo a história da beleza, da doença, da leitura, da alimentação, da sexualidade etc. Acompanhando as questões da sociedade, o historiador já começa a pensar na “História do Meio Ambiente”.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 17 de setembro de 2021.  

 


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A PROPÓSITO DO DIA NACIONAL DE COMBATE AO FUMO - 29 de agosto - José Rosemberg (1909-2005)

 


https://jornaldomedico.com.br/2021/09/05/a-proposito-do-dia-nacional-de-combate-ao-fumo/

A PROPÓSITO DO DIA NACIONAL DE COMBATE AO FUMO – 29 DE AGOSTO

José Rosemberg (1909-2005)

José Rosemberg, filho de Emanuel Rosemberg e Eugenia Rosemberg, nasceu em Londres, Inglaterra, em 19 de setembro de 1909. Aos seis anos de idade mudou-se com os pais para o Brasil, naturalizando-se brasileiro. Em 1928, graduou-se em farmácia e, em 1934, em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi Professor Titular de Tuberculose e Doenças Pulmonares durante mais de quatro décadas e Diretor da Faculdade de Ciências Médicas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Rosemberg foi uma das primeiras vozes que colocou, no Brasil, o tema tabagismo. Já tinha um reconhecimento Nacional e Internacional no controle da Tuberculose quando, na década de 1970, com mais de 60 anos de idade, entrou de forma corajosa em um tema novo que não tinha ainda nenhuma base nacional. Ele veio a público, falou com a imprensa, ensinou seus alunos, escreveu livros, cruzou este País desfraldando a bandeira de luta contra o tabaco sendo, portanto, iniciador de uma massa crítica brasileira no combate ao fumo.

Foi Presidente do I Congresso Brasileiro sobre Tabagismo, realizado no Rio de Janeiro, em 1994, e Presidente de Honra dos quatro congressos seguintes, ocorridos, respectivamente, em Fortaleza (1996), Porto Alegre (2000), Brasília (2002) e Belo Horizonte (2004).

Em sua luta contra o tabagismo, Rosemberg foi Membro do Grupo Assessor do Ministério da Saúde para o Controle do Tabagismo no Brasil, de 1985 a 1993; Presidente do Comitê Coordenador do Controle do Tabagismo no Brasil, de 1987 a 2005; Membro da Câmara Técnica de Tabagismo do Programa Nacional de Controle do Tabagismo do INCA-MS, de 1993 a 2005; Assessor Técnico em Tabagismo da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, de 1999 a 2001.

Foram muitas as condecorações e os títulos honoríficos que lhe foram outorgados por Instituições Governamentais e ONGs. Citaremos apenas algumas: A OMS conferiu-lhe a Medalha “Tabaco e Saúde” pelas pesquisas e luta contra o tabaco no Brasil, em 10 de novembro de 1991; O Comitê Latino Americano Coordenador do Controle de Tabagismo o proclamou Presidente Honorário, em 25 de janeiro de 1995, na Cidade do México; A Secretaria Nacional Antidrogas da Presidência da República, em 19 de junho de 2002, conferiu-lhe o Diploma “Mérito pela Valorização da Vida”; A Secretaria de Justiça e Defesa do Cidadão do Estado de São Paulo, em 26 de junho de 2002, conferiu-lhe um Diploma por sua luta antidrogas.

         Rosemberg publicou quatorze livros e mais de duzentos artigos científicos em revistas médicas nacionais e estrangeiras. Dentre os livros relacionados ao tabagismo citaremos: “Tabagismo: Fisiopatologia e Epidemiologia”, publicado pela Pontifícia Universidade Católica do Estado de São Paulo, 1977; “Tabagismo: Sério Problema de Saúde Pública’, publicado pela editora Almed-Edusp - São Paulo, 1981. Esta obra foi laureada pela Academia Nacional de Medicina; “Métodos para deixar de fumar”, com a colaboração de Vera Luíza da Costa e Silva, publicado pelo Instituto Nacional de Câncer, Rio de Janeiro, 1986; “Tabagismo e Câncer”, publicado pelo CEBRAF, Senado Federal, Brasília, 1991; “Informações Básicas sobre o Tabagismo”, publicado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, 1996; “Cartilha sobre Tabagismo”, publicado pela Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, 1997; “Temas sobre o Tabagismo”, publicado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, 1998; “Nicotina”, publicado pelo Colegio Medico del Peru, Colcit, Lima, 1999;  “Pandemia do Tabagismo. Enfoques Históricos e Atuais”, publicado pela Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, 2002 e “Nicotina: Droga Universal”, com a colaboração de Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg e Marco Antonio de Moraes, publicado pelo INCA-MS e pela SES/CVE, São Paulo, 2003.

Na passagem do “Dia Nacional de Combate ao Fumo - 29/08/2021” reverenciamos a memória de JOSÉ ROSEMBERG e enaltecemos sua exitosa luta no combate ao tabagismo em nosso País.

 

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

Fortaleza, 02/09/2021.