quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Dr. Guillotin- O inventor da Guilhotina?

Publicado no Jornal do Médico

 file:///C:/Users/ana%20margarida/Downloads/RD-Dezembro-2023-web.pdf

Joseph-Ignace Guillotin – Retrato do Museu Carnavalet- Paris

DR. GUILLOTIN – o pai da guilhotina?

Na França, até a Revolução Francesa (1789-1799), os principais métodos utilizados para a pena capital eram: a decapitação, feita por machado ou espada; a forca; o esquartejamento e o suplício da roda - na qual o condenado era amarrado e queimado com brasas.  A decapitação era privilégio da nobreza. Aos plebeus, de acordo com os crimes, eram reservados os outros métodos descritos acima.

No início da referida revolução, o médico e político, Joseph-Ignace Guillotin, então presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Nacional Constituinte, propôs, em 01.12.1789, um projeto de reforma do direito penal.  O foco principal era o uso de uma máquina que substituísse a mão do carrasco e causasse uma morte rápida e sem dor, nas pessoas condenadas.

Embora Guillotin fosse contra a pena de morte e não ser o inventor do dispositivo que, depois, ficou conhecido como “guilhotina”, sua intenção era, além de garantir uma igualdade em todas as execuções, abrir as portas para um futuro em que a pena de morte fosse abolida. Somente, em 09.10.1981, passados 192 anos, a pena de morte foi declarada ilegal na França, pelo Presidente François Miterrand (1916-1996).

Joseph-Ignace Guillotin, o nono dos treze filhos do casal Joseph-Alexandre Guillotin e Catherine-Agathe Martin, nasceu no dia 28.05.1738, em Saintes-França.

Guillotin estudou teologia durante sete anos no Colégio Jesuíta de Bordeaux, e, depois, medicina, em Reims e Paris. Em 26.10.1770, obteve o doutorado e lecionou anatomia, fisiologia e patologia na Faculdade de Medicina de Paris.

Guillotin, um dos primeiros médicos franceses a apoiar a descoberta da vacina contra a varíola, de Edward Jenner (1749-1823), foi Presidente do Comitê de Vacinação de Paris. Em 1805, atendendo às ordens de Napoleão Bonaparte (1769-1821), atuou na vacinação de todos os soldados franceses.  Ele foi, também,  um dos fundadores da atual  Académie Nationale de Médecine de Paris.

Reza a lenda que o Dr. Guillotin foi executado pela “guilhotina”. Na verdade, ele faleceu em casa, na rue Saint-Honoré, em Paris, de causas naturais, em 26.03.1814. O decapitado pela famosa máquina foi um médico de Lyon, cujo nome era semelhante: J. M. V. Guillotin.  

Guillotin foi sepultado no Cemitério Père-Lachaise, na cidade-luz, após um elogio fúnebre do Dr. Edme-Claude Bourru (1741-1823), ex-reitor da antiga Faculdade de Medicina de Paris.

Guillotin foi casado com Marie Louise Saugrain (1755-1852). O casal não teve filhos. A família mudou o próprio sobrenome, após uma solicitação, sem êxito, ao governo francês, para renomear a famosa máquina de cortar cabeças, “guilhotina”. 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 13 de dezembro de 2023

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

NATIVIDADE DE GIOTTO

Por que a Natividade de Giotto no Convite de Natal do Museu CAA?


Um dos gênios da PINTURA, o italiano pré-renascentista  Giotto  di Bondone  (1267-1337),  nos legou a preciosa  “Capela Scrovegni”,  encravada em Pádua, na Itália. 

Para encher os olhos, por poucos minutos, com essa deslumbrante obra-prima da arte cristã, é  preciso reservar com antecedência o dia e a hora. Caso contrário, a gente dá com os burros  n’água.

A capela foi encomendada a Giotto, em 1303, por Enrico Scrovegni, rico banqueiro que  Dante precipitou no Inferno, no canto 17 da primeira parte da “Divina Comédia”.

Para pagar seus pecados e ser poupado  de tão grande castigo, Scrovegni resolveu decorar a capela com afrescos que contam a vida de Maria e de Jesus. 

No quadro que retrata a Natividade, Maria olha com carinho  para Jesus, demonstrando a capacidade de Giotto  de expressar a emoção  humana em suas pinturas.

O presépio é  pintado com detalhes, como: animais, símbolos da humildade, os pastores, a palha na manjedoura, as expressões faciais de: Jesus, Maria, José,  Sant’Anna e os anjos.

Os tons quentes e vibrantes,  amarelo e vermelho, enchem de vida a cena. 

A luz que o Menino Jesus  irradia cria uma atmosfera  celestial com o azul do manto de Maria e os anjos acima da manjedoura. 

 A Natividade de Giotto, da Capela Scrovegni, é um dos primeiros exemplos do uso da perspectiva na arte. 

A história  singular  desta joia da arte medieval  causa  fascínio nos amantes  da  arte no mundo  inteiro. 

Por tudo isso, ela foi escolhida para ilustrar o convite de Natal/2023, do Museu Comendador Ananias Arruda.

ana margarida furtado arruda rosemberg 

Fortaleza,  12 de dezembro de 2023

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

UMA TARDE NO CINEMA IV – NAPOLEÃO - Por: ana margarida rosemberg

 

ana margarida furtado arruda rosemberg - Iguatemi - Fortaleza, 24.11.2023

Como historiadora, amante da França e de bons filmes, fui, com a minha filha Jana, no dia 24/11/2023, ao UCI Kinoplex Iguatemi Fortaleza, assistir ao filme “Napoleão” (Napoléon, 2023) do diretor britânico Ridley Scott, roteiro de David Scarpa e, nos papeis  principais, Joaquim Phoenix e Vanessa Kirby.

A data era simbólica, pois naquele dia, 18 anos antes, o Rosemberg partia deixando um vazio sideral. Assistir ao longa-metragem citado, seria uma maneira de homenageá-lo, já que ele nutria grande admiração por Napoleão Bonaparte (1769-1821).   

Para mim foi um deleite ver a explosão na telona da superprodução de 200 milhões de dólares, com 2h38min, apesar de muitas inconsistências históricas e de truncagens na biografia retratada. 

O filme aborda a vida de Napoleão - de oficial da artilharia a imperador da França – a partir, principalmente, de sua relação amorosa com sua mulher Joséphine e das principais batalhas travadas com sua “Grande Armée”.

Qualquer filme sobre Napoleão Bonaparte, um dos maiores comandantes da história, considerado um gênio da estratégia de guerra, estudado em escolas militares de todo mundo, apontado como um dos líderes mais célebres e controversos da humanidade, amado e odiado, causa polêmica. 

Segundo o jornalista, escritor e historiador francês, David Chanteranne, foram feitos 700 filmes sobre Napoleão desde a criação do cinema pelos irmãos “Auguste e Louis Lumière”, em 1895. Ele frisou:

 "Nos Estados Unidos, na Itália, na Rússia e até mesmo na Ásia, isso mostra que todos estão tentando se apossar de Napoleão porque ele é, eu diria com uma palavra inglesa, um 'self-made man', em referência à expressão que define pessoas que se tornaram bem-sucedidas e ricas por meio de seus próprios esforços.… Bem, ainda se fala dele na América do Sul, na Ásia e na África também, porque ele é um personagem que já foi contado em todos os seus aspectos. De fato, um livro (sobre ele) foi escrito todos os dias desde sua morte. Portanto, está claro que as pessoas em todo o mundo estão tentando decifrar o mistério de Napoleão".

O jornalista Peter Bradshaw, no jornal “The Guardien”, deu cinco estrelas ao filme chamando-o de "filme biográfico emocionante" e disse:

“Scott não nega os prazeres antiquados do espetáculo e da emoção. Phoenix é a chave para tudo: uma performance tão robusta quanto o vidro de Borgonha ele bate de volta: envaidecido, taciturno, fervilhante e triunfante".

Nicholas Barber, da BBC, chamou de espetaculares as sequencias das batalhas.

Por outro lado, jornalistas dos jornais franceses: “Le Point”, “Le Monde” e “Le Figaro” publicaram críticas negativas. O historiador francês Patrice Gueniffey, autor de uma biografia monumental de Napoleão, comentou:

"Nada é plausível, nem o personagem, nem a história que é contada". 

Scott retrucou as críticas, em uma entrevista à BBC, dizendo:

“Os franceses não gostam nem deles mesmos”. “O público para quem mostrei em Paris adorou".

Ao falar da grandiosidade da figura histórica de Napoleão, Scott frisou:

“Dois mil e quinhentos livros foram escritos sobre ele, eu não consigo pensar em nenhum líder, político, rei, quem seja, que tenha sido tão abordado. O que há nele de tão fascinante?”.

Se a intenção de Scott era causar polêmica, ele conseguiu. O filme está sendo um sucesso de bilheteria na França, ficando em terceiro lugar das maiores bilheterias no final de semana da estreia, 23/11/2023, atrás apenas dos EEUU e Reino Unido.

A meu ver, o filme está sendo criticado na comunidade acadêmica, porque Scott faz revisionismo, rejeitando as orientações de sua equipe de historiadores, com relação a abordagem factual. 

A “liberdade poética” é aceita em filmes históricos, mas, nesse filme, as críticas são pertinentes em passagens que nunca aconteceram, como: Napoleão e seu exército bombardeando as pirâmides do Egito.

Scott perdeu a oportunidade de mostrar que, em 1799, o exército de Napoleão descobriu a “Pedra de Roseta”, um fragmento de uma estela erigida no “Egito Ptolomaico”, que levou a decifração dos hieróglifos pelo francês Jean-François Champollion (1790-1832), criando a fascinante egiptologia e inspirando uma explosão de egitomania na Europa.

Polêmicas à parte, vou escrever as minhas impressões sobre o filme:

As cenas, que viajam entre as batalhas, a conturbada vida amorosa do casal e a atuação política de Napoleão, esmiúçam com maestria a reconstituição de grandes batalhas, como: Toulon, 1793; Austerlitz, 1805; e Waterloo, 1815; a tomada do poder no “18 de Brumário”, golpe de Estado em novembro de 1799; e a coroação de Napoleão como Imperador da França, em 02/12/1804, na Catedral de Notre-Dame de Paris.

A referida coroação é mostrada através da reconstituição impecável do quadro de Jacques-Louis David, “Le Sacre de Napoléon, 1807” (Coroação de Napoleão).

A tela, com dez metros de largura e seis de altura, do acervo do Louvre, mostra o momento em que Napoleão tira a coroa das mãos do Papa Pio VII, se coroa e coroa Joséphine, na presença de familiares, políticos e elite francesa. Há uma cópia dessa tela no Château de Versailles.

As cenas que retratam a conturbada vida amorosa do casal e o fascínio que Joséphine exercia sobre Napoleão, são inspiradas nas mais de 250 cartas que ele escreveu para sua amada.

Joséphine de Beauharnais (1763-1814), uma experiente mulher de 32 anos, viúva, que por um triz não perdeu a cabeça na Revolução Francesa (RF), como o seu primeiro marido, o aristocrata Alexandre de Beauharnais (1760-1794), tinha dois filhos, Eugène de Beauharnais (1781-1824) e Hortense de Beauharnais (1783-1837), quando, em 1795, conheceu Napoleão.

Foi em um jantar da alta sociedade que Bonaparte se encantou pela sofisticada e bela Joséphine, natural da Ilha de Martinica. Pragmática, ela passou a ver nele segurança e estabilidade, após os horrores passados na prisão.

Em março de 1796, selaram os destinos e dois dias depois de casados, Napoleão partiu para liderar o exército francês na Itália. As infidelidades de ambos os lados foram superadas e Napoleão criou os filhos de Joséphine dedicando-lhes amor legítimo.

Durante 14 anos, desde a ascensão de Bonaparte nas fileiras do exército, passando por sua nomeação como Primeiro Cônsul e sua autoproclamação como Imperador, Joséphine esteve ao seu lado. Ela personificava o poder de Napoleão a tal ponto que ele dizia:

 “Eu ganho batalhas, mas Joséphine ganha corações”.

A falta de um herdeiro fez com que Napoleão pedisse o divórcio e contraísse núpcias com Marie-Louise d'Autriche (1791-1847) que lhe deu um filho, Napoleão II (1811-1832). Mesmo separados, Napoleão e Joséphine continuaram amigos e as últimas palavras de Napoleão, ao morrer exilado na Ilha de Santa Helena, como retratado no longa-metragem, foram: "França, exército e Joséphine".

CONCLUINDO:

As expectativas dos franceses foram frustradas no filme de Scott, como na maioria dos filmes e livros dedicados a figura de Napoleão, por tratar-se de um mito grande demais para caber em um filme.

Os franceses construíram para Napoleão na Église du Dôme, no imponente Musée des Invalides (Museu dos Inválidos), o mais suntuoso túmulo de Paris, com uma cúpula barroca folheada a ouro, que pode ser vista de vários pontos da capital francesa.

O túmulo em forma de esquife, ricamente decorado, tem um tampo representando o acento de um trono. Os restos mortais de Napoleão, vestido de uniforme com o chapéu sobre as pernas, estão dentro de seis caixões, a saber: ferro, mogno, chumbo (2), ébano e carvalho. 

A data da “Queda da Bastilha”, “14 juillet”, início da Revolução Francesa, é o “Dia Nacional da França”.  Os revolucionários Jacobinos (Robespierre, Danton, Marat, Camille Desmoulins, entre outros) estão espalhados pela capital francesa nas placas de ruas, estátuas, praças etc. A Marselhesa, hino dos revolucionários, é o hino da França. Os ideais revolucionários Liberté, Égalité, Fraternité estão escritos nas entradas das escolas, hospitais e demais instituições públicas. “Vive la Republique” é o grito dos franceses.

A “República Francesa”, conquistada pelos revolucionários, foi defendida pelo militar Napoleão Bonaparte no "Cerco de Toulon", em  1793, e no "13 Vendémiaire", batalha travada entre as forças republicanas e manifestantes pró-monarquistas, nas ruas de Paris, em 5.10.1795. 

Após a queda de Napoleão, em 1815, houve  a restauração da monarquia na França, mas por pouco tempo, pois os revolucionários haviam conquistado os corações e as mentes dos franceses. 

Napoleão, por ter vindo das escolas militares reais, ser filho do iluminismo de Voltaire e Rousseau e ter feito parte da Revolução Francesa, tem um lado universal. Ele implementou políticas liberais fundamentais na França e em toda a Europa Ocidental; criou as escolas de ensino secundário, conhecidas como lycées; promoveu a ciência; reintroduziu os laços com a religião, desfeitos pelos revolucionários, colocando o judaísmo, o protestantismo e o catolicismo em pé de igualdade; organizou as finanças criando o Banco da França; criou o “Código Napoleônico”, copiado em mais de 70 nações em todo o mundo.

Andrew Roberts, historiador britânico, frisou:

"As ideias que sustentam nosso mundo moderno — meritocracia, igualdade perante a lei, direitos de propriedade, tolerância religiosa, educação secular moderna, finanças sólidas etc. — foram defendidas, consolidadas, codificadas e estendidas geograficamente por Napoleão. Além disso, ele também acrescentou uma administração local racional e eficiente, o fim do banditismo rural, o incentivo à ciência e às artes, a abolição do feudalismo e a maior codificação de leis desde a queda do Império Romano"

Os alemães Friedrich Hegel (1770-1830) e Friedrich Nietzsche (1844-1900) o admiravam. Hegel comparou Napoleão a “Prometeu”, por ter transformado a Europa Feudal, difundindo os ideais iluministas da Revolução Francesa; Nietzsche o viu como o exemplo mais extremado da "vontade de poder”.

Por outro lado, os escritores russos Liev Tolstói (1828-1910) e Fiódor Dostoiévzki (1821-1881) o criticaram. Tolstói, autor de “Guerra e Paz”, o culpava pelas mortes e pela destruição causadas pelo conflito, de 1812, entre seu país e o Império francês. Dostoiévski viu Napoleão como o protagonista de sua obra-prima, “Crime e Castigo”.

Beethoven que admirava Napoleão, dedicou-lhe a 3ª Sinfonia (Heroica).  Quando Bonaparte se autoproclamou imperador, Beethoven, em um acesso de raiva, rasgou a dedicatória e escreveu: “À memória de um grande homem”. Na visão de muitos historiadores, Napoleão tinha que se coroar imperador para enfrentar os países monarquistas. 

Na França, Bonaparte sempre foi admirado pela maioria dos franceses que o viam como: l'empereur, sinônimo de gloire, quando a França desfilava vitoriosa de Lisboa a Moscou,  levando os ideais da Revolução Francesa.

No Bicentenário do Nascimento de Napoleão, em 1969, o então presidente francês Georges Pompidou (1911-1974) declarou:

"Não há nome mais glorioso do que o de Napoleão. Partindo do nada, desprovido de tudo, ele conseguiu tudo".

Em maio de 2021, no bicentenário da morte de Napoleão, esta visão passou a ser questionada. Ele foi chamado de “Misógino” pela ministra da Igualdade de Gênero da França, Élisabeth Moreno, por ter, em seu “Código Civil”, consagrado o poder de pai de família sobre a mulher.

Em defesa de Napoleão, o historiador Patrice Gueniffey disse que o código reflete a sociedade camponesa e patriarcal da época. Napoleão foi, também, criticado pelo deputado Alexis Corbière, da “França Insubimissa”, que bradou:

 "A República não pode prestar homenagem oficial àquele que foi seu coveiro, pondo fim à primeira experiência republicana de nossa história para criar um regime autoritário".

Napoleão foi chamado de “Ancestral dos ditadores do Século XX”. Jean Tulard, historiador francês, especialista em Napoleão, retrucou dizendo:

"O seu autoritarismo (...), o seu sentido de Estado forte, o seu desprezo pelo regime parlamentar, o seu imperialismo e sobretudo o seu gênio para a propaganda; tudo pode fazer-nos pensar que sim". Mas "não há em Napoleão nem a ideologia assassina, nem o delírio racista daqueles que se apresentaram como seus sucessores".

Tulard reconhece que o documento que mais incrimina a memória de Napoleão é a lei de 20 de maio de 1802, sob o Consulado, que restaurou a escravidão nas colônias francesas, abolidas, em 1794, durante a Revolução Francesa. Entretanto, Tulard afirma:  

“Napoleão agiu por cálculo econômico em uma época em que a escravidão fervilhava em todos os lugares, chocando apenas poucos defensores dos direitos humanos que viviam à frente de seu tempo”.

Agora, em novembro de 2023, Napoleão chega aos cinemas mundiais para um duplo julgamento: do filme e da figura histórica.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 30 de novembro de 2023














sábado, 25 de novembro de 2023

JOSÉ ROSEMBERG (1909-2005) - 24.11.2005 18 ANOS DE SAUDADE - 24.11.2023

 


JOSÉ ROSEMBERG (1909-2005) 

 

18 ANOS DE SAUDADE!  

 

José Rosemberg, filho de Emanuel Rosemberg e Eugenia Rosemberg, nasceu em Londres, Inglaterra, em 19 de setembro de 1909 e aos seis anos de idade veio com os pais morar no Brasil – São Paulo.

 

Em 1928, graduou-se em farmácia e, em 1934, em medicina, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi Professor Titular de Tuberculose e Doenças Pulmonares durante mais de quatro décadas e diretor da Faculdade de Ciências Médicas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 

 

Rosemberg tinha um reconhecimento nacional e internacional no controle da tuberculose, quando, na década de 1970, com mais de 60 anos de idade, entrou de forma corajosa em um tema novo – TABAGISMO – que não tinha nenhuma base nacional.

 

Uma das primeiras vozes a colocar o tema tabagismo, ele veio a público, falou com a imprensa, ensinou seus alunos, escreveu livros, cruzou o Brasil desfraldando a bandeira de luta contra o tabaco sendo, portanto, iniciador de uma massa crítica brasileira no combate ao fumo. 

 
Foi Presidente do I Congresso Brasileiro sobre Tabagismo, realizado no Rio de Janeiro, em 1994, e Presidente de Honra dos quatro congressos seguintes, ocorridos, respectivamente, em: Fortaleza (1996), Porto Alegre (2000), Brasília (2002) e Belo Horizonte (2004). 

 
Em sua luta contra o tabagismo, Rosemberg foi membro do Grupo Assessor do Ministério da Saúde para o Controle do Tabagismo no Brasil, de 1985 a 1993; presidente do Comitê Coordenador do Controle do Tabagismo no Brasil, de 1987 a 2005; membro da Câmara Técnica de Tabagismo do Programa Nacional de Controle do Tabagismo do INCA-MS, de 1993 a 2005; assessor técnico em tabagismo da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, de 1999 a 2001. 

 
Foram muitas as condecorações e os títulos honoríficos que lhe foram outorgados por instituições governamentais e ONGs. Citaremos apenas algumas: a OMS conferiu-lhe a Medalha “Tabaco e Saúde” pelas pesquisas e luta contra o tabaco no Brasil, em 10 de novembro de 1991; o Comitê Latino Americano Coordenador do Controle de Tabagismo o proclamou Presidente Honorário, em 25 de janeiro de 1995, na Cidade do México; a Secretaria Nacional Antidrogas da Presidência da República, em 19 de junho de 2002, conferiu-lhe o diploma “Mérito pela Valorização da Vida”; a Secretaria de Justiça e Defesa do Cidadão do Estado de São Paulo, em 26 de junho de 2002, conferiu-lhe um diploma por sua luta antidrogas. 

 
Rosemberg publicou quatorze livros e mais de duzentos artigos científicos em revistas médicas nacionais e estrangeiras. Dentre os livros relacionados ao tabagismo citaremos: "Tabagismo: Fisiopatologia e Epidemiologia", publicado pela Pontifícia Universidade Católica do Estado de São Paulo, 1977; "Tabagismo: Sério Problema de Saúde Pública’, publicado pela editora Almed-Edusp - São Paulo, 1981 -  obra foi laureada pela Academia Nacional de Medicina; "Métodos para deixar de fumar", com a colaboração de Vera Luíza da Costa e Silva, publicado pelo Instituto Nacional de Câncer, Rio de Janeiro, 1986; "Tabagismo e Câncer", publicado pelo CEBRAF, Senado Federal, Brasília, 1991; "Informações Básicas sobre o Tabagismo", publicado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, 1996; "Cartilha sobre Tabagismo", publicado pela Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, 1997; "Temas sobre o Tabagismo", publicado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, 1998; "Nicotina", publicado pelo Colegio Medico del Peru, Colcit, Lima, 1999; "Pandemia do Tabagismo. Enfoques Históricos e Atuais", publicado pela Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, 2002 e "Nicotina: Droga Universal", com a minha colaboração (ana margarida furtado arruda rosemberg) e a de Marco Antonio de Moraes, publicado pelo INCA-MS e pela SES/CVE, São Paulo, 2003. 

 
As repercussões científicas e práticas de seu trabalho, exemplificadas por suas pesquisas sobre a vacinação BCG indiscriminada (direct vaccination), a proteção anti-leprótica pelo BCG e o tabagismo e seus malefícios à saúde, alçaram-no ao umbral das grandes personalidades médicas do século XX. 

 

Rosemberg faleceu em São Paulo, em 24 de novembro de 2005, deixando um legado e um vazio incomensuráveis.  
 
Hoje, 24/11/2023, no 18º ano de sua partida, reafirmo meu amor e minha fidelidade, como na Roma Antiga, dizendo:  

Ubi tu Gaius ego Gaia.  

 

 

ana margarida furtado arruda rosemberg 

sábado, 18 de novembro de 2023

BREVE HISTÓRIA DA UROLOGIA

La Femme Hidropique, 1663 - Gerard Dou (1613-1665) - Musée du Louvre - 

 BREVE HISTÓRIA DA UROLOGIA

“O Médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe”.

Abel Salazar (1889-1946)

A urologia, como especialidade, é recente, mas suas raízes remontam à Antiguidade e sua história se perde nas noites do tempo. Textos escritos nas mais antigas civilizações evidenciam que a especialidade era praticada há milênios. As primeiras descrições datam de mais de 4.000 anos antes da nossa era.

Da Antiguidade até o século XVIII, a urologia era prerrogativa dos cirurgiões-barbeiros que procuravam aliviar seus pacientes de doenças, como: pedras ou cascalhos que bloqueavam a bexiga e/ou ureter, com precárias cirurgias que, na maioria das vezes, eram seguidas de sepses com altas taxas de mortalidade.

No século XII, Pierre-Gilles de Corbeil (1140-1224), médico do rei francês Philippe Auguste, escreveu em latim o primeiro documento francês sobre urologia: “Carmina de urinarum judiciis” (ou “Poema da urina”). Em seu trabalho ele destaca a importância crucial dos exames de urina.

Corbeil é autor do grande “Poema de Medicina”, composto por vários livros, que serviu de modelo de ensino na Faculdade de Medicina de Paris, até o século XV.

No século XIV, o médico francês Guy de Chauliac (1300-1368), considerado o “Pai da Cirurgia Médica”, até então profissão reservada aos barbeiros, escreveu, em 1343, um “inventoryium sivecollectium partes chirurgicalis medicinae” que colocava a urologia em condições cirúrgicas.

Chauliac foi médico dos Papas Clemente VI, Inocêncio VI e Urbano V e publicou obras valiosas, como: “Chirurgia Magna” e “Orientação da Prática Cirúrgica”, que foi uma verdadeira referência para estudantes de cirurgia até ao século XVIII.

No século XVI, Ambroise Paré (c.1510-1590) deixou importante contribuição para urologia. Publicou vários livros sendo três deles centrados na urologia, a saber:  livro VIII (sobre água quente), livro IX (sobre pedras) e livro X (sobre retenção de urina).

No século XVIII, François Auguste Chopart (1743-1795) escreveu um tratado sobre doenças do trato urinário e colaborou com Pierre-Joseph Desault e John Hunter, ambos também médicos, para desenvolver o conhecimento do sistema urinário.

Foi no século XIX que a urologia se modernizou.  Ela teve expressivo desenvolvimento com: a ascensão dos conhecimentos de anatomia e fisiologia, o surgimento de medidas antissépticas e a descoberta da anestesia. O surgimento de novos instrumentos foi fundamental para a exploração da bexiga e até mesmo para quebrar cálculos urinários.

Jean Casimir Félix Guyon (1831-1920) e outros urologistas da Europa, EEUU e América do Sul fundaram a “Association Internationale d'Urologie”, em 1907.

O cubano Joaquín Maria Albarrán Y Dominguez (1860 – 1912), um dos pioneiros da cirurgia urológica, autor de inúmeras publicações científicas, como: Tumores de Bexiga (1892); Tumores Renais (1903); Exploração das Funções Renais (1905); Tratado de Medicina Operatória das Vias Urinárias (1909), foi considerado pelo urologista alemão Leopold Casper (1859-1949) um verdadeiro "tesouro".

Albarrán desenvolveu um método experimental para explorar a função renal, mais tarde denominado “teste de Albarrán”. Foi o primeiro, na França, a realizar o cateterismo do ureter; aprimorou a cistoscopia ao inventar a alavanca conhecida como Albarrán, que permite maior precisão nos movimentos do cistoscópio durante o cateterismo do ureter.

No século XX, século das inovações, marcado pela maior qualidade dos sistemas ópticos, pelo surgimento da endoscopia, pelo desenvolvimento das técnicas de imagem ultrassonográfica, a urologia conseguiu reinventar-se. Graças à estas ferramentas, a cirurgia tornou-se minimamente invasiva.  Em 1982, surgiu o litotritor extracorpóreo que permitiu a fragmentação remota dos cálculos, uma verdadeira revolução; a assistência cirúrgica robótica e os sistemas de laparoscopia, considerados uma técnica cirúrgica minimamente invasiva, também estão entre as grandes inovações da urologia.

Em 1926, nascia a Sociedade Brasileira de Urologia tendo a frente o Dr. Agenor Estelitta Lins.

A Urologia continuou seu desenvolvimento até se destacar em: transplante renal (no qual a França é considerada pioneira); cirurgia reparadora e restauradora da via excretora urinária; cirurgia endoscópica estritamente urológica; o manejo da oncologia urológica e a neuro-urologia.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 13 de novembro de 2023

Publicado no JM. Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Novembro-2023-web.pdf

PALÁCIO DE SARGÃO II - LOUVRE-PARIS

PALÁCIO DO REI SARGÃO II – LOUVRE- PARIS

No museu Louvre-Paris, na Ala da Mesopotâmia, tem uma sala com as esculturas e painéis que ornamentavam o palácio de Sargão II, um dos reis do Império Neoassírio. O Palácio ficava em uma cidade perto de Nínive, que se tornou a capital do império, depois de Sargão II, e ficou famosa por sua biblioteca com milhares de tabuletas de argila, em escrita cuneiforme. Inclusive, as 11 tabuletas que contam a história de GILGAMESH.

Uma das esculturas nessa sala do Louvre representa GILGAMESH. Tem, também, touros alados com tiaras divinas, que ficavam na entrada do Palácio. Tem um painel, entre outros, que representa Sagão II e um dignitário.

O referido palácio ficava em "Dur Sarruquim", cidade da Assíria que foi capital do país, em 706 a.C. No local, encontra-se, atualmente, o vilarejo de Corsabade (Khorsabad), e fica a 15 km de Moçul e a 20 km de Nínive.

Em 1843/44, o diplomata e arqueólogo francês, Paul-Émile Botta, descobriu em Khorsabad, o palácio de Sargão II. No início ele pensou que eram as ruínas de Nínive. Com trezentos trabalhadores, ele limpou 14 salas e três pátios. As esculturas e relevos mais bem preservados foram carregados em jangadas e transportados para criar o primeiro museu assírio na Europa, em Paris, em 1847.  Agora, são mantidos no Museu do Louvre-Paris.

O curtinho vídeo, 👇 abaixo, feito por mim, dá uma ideia  da grandeza  do Palácio.


A EPOPEIA DE GILGAMESH

Publicado no Jornal do Medico. Link, abaixo.




Pepê e Naná - Gilgamesh - Ala da Mesopotâmia
Museu do Louvre-Paris - julho de 2023

Ana Margarida- Gilgamesh - Ala da Mesopotâmia 
Museu do Louvre-Paris - julho de 2023

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

RESISTÊNCIA IMPONDERÁVEL II

Nakba (êxodo palestino) 1948 

RESISTÊNCIA IMPONDERÁVEL II


 Por: ana margarida furtado arruda rosemberg 



Tenho sido um crítico ferrenho do governo de Netanyahu; de suas políticas em relação à ocupação, aos assentamentos e à forma como não tentou sequer buscar a paz com os palestinos, adotando, francamente, ideias racistas de supremacia judaica. Não haverá paz para ninguém, incluindo os israelenses, a menos que milhões de palestinos que vivem sob ocupação israelense ou em condições terríveis na Faixa de Gaza tenham um futuro para esperar com todos os direitos que os israelenses desfrutam.

  Yuval Noah Harari   

  historiador judeu    

 autor do best-seller - Sapiens




 

Em março de 2003, escrevi um texto intitulado “Resistência Imponderável”, no qual fazia uma análise da “Guerra do Iraque”. Não sou pitonisa, mas previ, em parte, as causas e consequências da referida guerra.

Hoje, 20 anos depois, sou impelida a escrever um segundo texto, com o mesmo título, sobre a guerra (Israel x Hamas), que ora se desenrola no Oriente Médio.

Para entender todo o contexto dessa guerra é preciso puxar o fio da História. Refiro-me às origens dos povos: judeu e palestino, mas isso ficará para outra ocasião. Nesse texto vou me ater ao movimento “Sionismo”, causa mais direta do conflito.

O “Sionismo”, cujo termo se origina de “Sião” (uma das colinas que cercam a Terra Santa), surgiu na Europa Central e Oriental na segunda metade do século XIX, diante da perseguição milenar sofrida pelos judeus e visava a formação de uma pátria para o povo judeu na Terra de Israel – Palestina – correspondendo aproximadamente a Canaã (Terra Santa).

Moses Hess (1812-1875), alemão, filósofo e socialista, próximo de Karl Marx e Friedrich Engels, é considerado um dos fundadores do “Sionismo”, trinta e três anos antes de Theodor Herzl (1860-1904), judeu austríaco, ter publicado o livro “Der Judenstaat” (O Estado Judeu, 1895). Herzl articulou o sionismo político e, por isso, é considerado o “Pai do Sionismo”.

Em agosto de 1897, na Basileia, foi realizado o primeiro dos vinte e dois congressos sionistas (1897-1945) e criada a “Organização Sionista Mundial”, sob a presidência de Herzl. O movimento popularizou-se graças a consciência dos judeus que viviam sob as perseguições e massacres provocados pelo antissemitismo crônico que grassava na Europa, desde a “Segunda Diáspora”, 70 d.C., quando os judeus foram expulsos da Palestina, pelo Império Romano.

A crença de que os judeus foram os algozes de Jesus Cristo, foi uma das causas do antissemitismo que se disseminou na Europa cristã, durante a Idade Média. A hostilidade contra os judeus como um grupo étnico, religioso ou racial - manifestado como expressões individuais de ódios e/ou ataques organizados, tem, historicamente, um leque de exemplos, como: o massacre de Judeus em Granada, em 1066; o massacre, em 1096, de Worms-Alemanha, um dos vários ataques contra as comunidades judaicas perpetrados durante Primeira Cruzada (1096–1099); o Édito de expulsão  de todos os judeus da Inglaterra, em 1290;  os massacres dos judeus espanhóis, em 1391; as perseguições aos judeus durante as Inquisições Portuguesa e Espanhola; expulsão dos judeus da Espanha, em 1492; a expulsão dos judeus de Portugal, em 1497; o massacre de judeus de Lisboa, em 1506; os massacres de judeus pelos Cossacos, na Ucrânia, de 1648 a 1657; os diversos “pogroms” no Império Russo, entre 1821 e 1906; o  “Caso Dreyfus na França, de 1894 a 1906;  políticas soviéticas antijudaicas sob Stalin e o “Holocausto perpetrado pela Alemanha Nazista, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando seis milhões de judeus foram dizimados cruelmente, nos campos de concentração.

Em 1917, a “Declaração Balfour”, uma carta do então Secretário Britânico de Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour (1848-1930), endereçada ao Lionel Walter Rothschild (1868-1937), líder da “Comunidade Judaica do Reino Unido”, deu ao movimento sionista a forma concreta de realizar a criação do Estado Judaico.  

A carta demonstrava a intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do “Lar Nacional Judeu na Palestina, caso a Inglaterra conseguisse derrotar o Império Otomano, que, até então, dominava aquela região. A França e a Itália, aliadas de Londres na Primeira Guerra Mundial,  ratificaram a “Declaração Balfour”. O apoio de muitos antissemitas, que queriam se livrar dos judeus em seus países, foi importante para a concretização do sonho sionista.

Por outro lado, Thomas Woodrow Wilson (1856-1942), presidente dos EEUU (1913 a 1921), pregava a autodeterminação de povos subjugados pelo Império Otomano e Edward House, seu conselheiro de política externa vaticinou sobre a “Declaração Balfour”:

"Tudo é ruim e eu avisei a Balfour sobre isso. Estão criando um criadouro para guerras no futuro."

A grande adesão dos judeus ao “Sionismo” foi consequência do forte apelo religioso, baseado na redenção do Povo de Israel (Povo Eleito) na “Terra Prometida”. Por outro lado, os judeus ortodoxos e ultraortodoxos, por não conceberem o retorno dos judeus antes da chegada do Messias, reprovavam o Sionismo, dizendo que a redenção deveria vir de Deus e não de ações políticas. Essas visões, entretanto, foram minoritárias e não prevaleceram.

No começo do século XX, a Palestina era ocupada, majoritariamente, por árabes mulçumanos. Dos 644 mil habitantes, somente 56 mil eram judeus. Em1920, após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Oriente Médio foi fatiado entre britânicos e franceses, como resultado do “Acordo Sykes-Picot”. O Reino Unido passou a controlar a Palestina (Protetorado Britânico) e a milionária família Rothschild doou somas imensas de dinheiro para a compra de terras dos proprietários árabes da região.

Houve, portanto, aumento da imigração judaica, principalmente de jovens judeus da Europa Oriental que foram colonizar as terras da Palestina e adotar como língua o velho idioma hebraico.  

A partir de então, atos de violência, cometidos por grupos paramilitares judeus, considerados terroristas, como:  Irgun, Lehi, Haganah e Palmach, foram perpetrados contra autoridades britânicas e árabes palestinos, visando o aumento da imigração, a expansão dos assentamentos sionistas e o controle da Palestina.

Entre 1920 e 1948, o Haganah (termo que significa defesa em hebraico), foi a organização sionista mais importante na Palestina. Serviu de espinha dorsal, com o Palmach, para a criação do exército israelense, por David Ben-Gurion (Primeiro Presidente de Israel).  

Os sionistas, como já foi referido, buscavam, desde o século XIX, uma saída étnico nacional e colonial contra o antissemitismo. Eles se apropriaram do Holocausto para implantar o plano de limpeza étnica contra os árabes que viviam na região da Palestina.

Quem ficasse contra essa solução seria taxado de antissemita. Muitos grupos judaicos acreditavam que a inserção dos judeus nas comunidades onde viviam seria a melhor solução. Mas a grande narrativa dos sionistas - O Povo Eleito para a Terra Prometida – encontrou eco e a divisão da Palestina foi concretizada.

A “Declaração Balfour”, o “Antissemitismo”, e, principalmente, o “Holocausto” foram decisivos para se criar um consenso mundial favorável a criação do Estado Judeu. Finalmente, em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o “Plano de Partilha da Palestina” - Resolução 181 da ONU - que consistia na divisão da Palestina em dois estados: um judeu e outro árabe, ficando as áreas de Jerusalém e Belém sob controle internacional.

Porém, essa partilha não foi aceita pelos árabes palestinos e nem pelos Estados Árabes, pois 53% das terras ficariam com os 700 mil judeus, e 47% com os 1 milhão e 400 mil árabes.  

Por outro lado, os judeus aceitaram-na e, em 14 de maio de 1948, foi declarada a criação do Estado de Israel, desencadeando uma guerra civil entre judeus e palestinos, com o apoio dos países árabes (Egito, Síria, Libano, Iraque e Jordânia).

A referida guerra, “Primeira Guerra Árabe-Israelense” ocorreu, entre maio de 1948 e janeiro de 1949, e foi vencida por Israel que ampliou seu domínio por uma área de 20 mil km² (75% da superfície da Palestina). A Jordania anexou a Cisjordânia e o Egito a Faixa de Gaza.

No final da guerra, 900 mil palestinos foram expulsos de suas terras e ficaram dispersos pelo Oriente. O êxodo palestino ficou conhecido como “Nakba” (catástrofe). A ONU estima, atualmente, que cerca de 5 milhões de pessoas descendentes de “Nakba” não podem retornar à Palestina.

Em 1964, com o apoio da “Liga Árabe”, foi criada a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), uma entidade política e militar laica com a participação de vários grupos políticos, inclusive o Fatah, representando o povo palestino.

O Fatah – Movimento de Libertação Nacional Palestino – foi criado em 1959, por ativistas da diáspora, como Yasser Arafat. Inicialmente, o Fatah optou pela via armada para combater o governo israelense, mas, aos poucos, começou a buscar vias diplomáticas o que o levou aos “Acordos de Oslo”, negociados entre 1993 e 2000, que propunha o fim dos conflitos com o estabelecimento de dois Estados. O Acordo  de Oslo  não  saiu do papel e,   por isso, fomentou a violência 

O Hamas – organização palestina nacionalista e islamista – criada em 1987 - tem como objetivo libertar o povo palestino através da luta armada. Inicialmente, o Hamas era uma instituição de caridade religiosa associada a Irmandade Muçulmana Egípcia e não se envolvia com o conflito israelense-palestino.

O Estado de Israel, para enfraquecer a OLP e fragmentar a resistência palestina, investiu no Hamas. Entretanto, diferentemente do que Israel esperava, o Hamas passou a envolver-se com a política e a combater Israel por meio da violência. O Hamas surgiu no contexto da Primeira Intifada e, diferentemente do Fatah, não reconhece o Estado de Israel.

Muitas guerras entre judeus e palestinos foram travadas, como: Crise de Suez; Guerra dos Seis Dias; Guerra de Yom Kippur; Primeira Intifada; Segunda Intifada.

Os conflitos seguem em curso, com pequenos intervalos de paz. Israel possui uma das forças militares mais poderosas do mundo e a Palestina não possui reconhecimento internacional nem mesmo um território estabelecido.

Ilan Pappé (1954- ),  israelense, professor de história na Universidade de Exeter, no Reino Unido,   um dos  novos historiadores que reexaminaram criticamente a História de Israel e do Sionismo, publicou o livro The Ethnic Cleansing of Palestine (A Limpeza Étnica da Palestina), no qual faz uma profunda análise dos acontecimentos que levaram a  criação do Estado de Israel, em 1948. 

Pappé defende a tese de que houve uma limpeza étnica - expulsão deliberada da população civil árabe da Palestina - operada pela Haganah, pelo Irgun e outras milícias sionistas, que formariam a base do Tzahal - segundo um plano elaborado bem antes de 1948. 

Pappé afirma que a criação do Estado de Israel é causa de instabilidade e impossibilita a paz no Oriente Médio. Afirma, também, que o “Sionismo” tem sido historicamente mais perigoso do que o islamismo extremista.

Ilan Pappé, defensor de um único Estado para palestinos e israelenses, entrou em conflito com seus colegas da Universidade de Haifa, principalmente com Yoav Gelber.

A “Questão Palestina” é a luta do povo palestino pelo reconhecimento internacional enquanto nação. Muitos observadores apontam que os palestinos são mantidos em um regime de apartheid por Israel. As condições de vida impostas aos palestinos na Faixa de Gaza são cada vez piores, e bombardeios israelenses na região são comuns. Isto, além da dificuldade de acesso ao básico na região, como alimento, remédios, energia elétrica e água potável. Na Cisjordânia, existe uma progressiva ocupação do território por israelenses.

O Hamas, o grupo radical islâmico, como já exposto, que governa a Faixa de Gaza, considerado terrorista pelos EEUU e União Europeia, perpetrou um ataque cruel e inimaginável contra Israel, no dia 07.10.2023, resultando em milhares de vítimas fatais e no sequestro de mais de 240 pessoas. 

Em resposta, o premiê israelense Binyamin Netanyahu, com o apoio incondicional da maior potência bélica do mundo, os EEUU, e paises da Europa, declarou guerra, iniciando uma grande investida em Gaza para erradicar o Hamas.   

Hoje, 07.11.2023, a guerra contabiliza: 10.569 mortos na Faixa de Gaza e 1.430 no território israelense. O total de crianças mortas é quase 5 mil.

O historiador Pappé, diante da escalada da guerra de Israel em Gaza e sobre um documento do Ministério da Inteligência de Israel que sugere a expulsão permanente de toda a população de Gaza, mais de 2 milhões de pessoas, para o deserto do Sinai, no Egito, disse: “Esta é uma operação massiva de matança, de limpeza étnica, de despovoamento”.

Pappé disse, ainda, que a única forma de garantir a libertação dos mais de 200 reféns detidos pelo Hamas é concordar com uma troca das pessoas sequestradas pelos milhares de presos políticos palestinos detidos por Israel, incluindo muitas mulheres, crianças e idosos.

Há  um impasse de difícil solução. 

Os palestinos irão resistir?

Eis a questão. 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 7 de novembro de 2023


Abaixo, o link para o texto, RESISTÊNCIA IMPONDERÁVEL,  de 2003


https://anamargarida-memorias.blogspot.com/2011/12/resistencia-imponderavel.html