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sábado, 26 de janeiro de 2013

MAIO DE 68 NA FRANÇA



Dia 1 de maio de 2012 -  Boulevard Saint Michel - Quartier Latin - Paris
Ana Margarida - junho de 2012 - Paris
                  Por:  Ana Margarida Arruda Rosemberg

 O dia ficou borrado na memória, mas o mês e o ano nítidos para sempre. 

Era maio de 2012, primavera em Paris. Cedinho, desci os degraus velhos e desgastados do prédio da Rue de Lombards, 58, no 1er arrondissement. 

Ao abrir a pesada porta que dava acesso à rua, um frio gostoso invadiu a minh’alma. Com uma sensação de leveza, liberdade e segurança dobrei a esquina e cai em uma das 13 bocas da estação Châtelet Les Halles, na Place Sainte Opoortune, da fantástica rede de metrô de Paris. 

Em busca da linha 1, cruzei com dezenas de pessoas num vai e vem sem parar. Na bifurcação dos dois sentidos, La Défense e Château de Vincennes, uma jovem extraía das cordas de seu violino sons melodiosos. 

Ao entrar no vagão do metrô, observei que as pessoas liam jornais e livros, com sede de informação e saber. Pensei em Monteiro Lobato e em sua célebre frase: “Um País se faz com homens e livros”. Foi assim que a França se fez. 

Desci na estação Franklin  Roosevelt em busca da linha 9. Ao emergir em Trocadero meu olhar se voltou para a Tour Eiffel. Quanta majestade ostenta a “Dama Rendada”! 

Em cinco minutos estava na Rue de Longchamp, para mais uma aula teórica de História da França (Une conférence d'histoire de France). 

O curso de História da Arte, da France Langue, que frequentava em Paris, era complementado com aulas teóricas sobre História da França. 

O tema da aula do dia era “Maio de 68”.  

Sempre ouvi falar da revolução encabeçada pelos estudantes da Sorbonne, em maio de 68, em Paris, mas nunca imaginei a profundidade e a força da mesma. 

Daniel Cohn-Bendit, estudante de sociologia da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, iniciou o movimento quando liderou um protesto que exaltava o direito das pessoas à felicidade e criticava a sociedade consumista. 

Os grupos de esquerda: trotskistas, maoístas e anarquistas se uniram e, no dia 27 de março, cem estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre. 

O movimento desaguou na Sorbonne e, no dia 3 de maio, a mesma foi ocupada pela polícia resultando em cem feridos e seiscentos presos. 

No dia 6 de maio, houve confronto no Quartier Latin com um saldo de novecentos feridos e quatrocentos presos. 

No dia 7 de maio, 30.000 estudantes marcharam sobre a Champs Elysées

A noite de 10 de maio passou para a história como “A Noite das Barricadas”, pois 20 mil estudantes enfrentaram a polícia sob uma chuva de pedras, gás lacrimogênio, cocktel molotov, fumaça de carros incendiados etc. 

No dia 13 de maio, estudantes e trabalhadores se uniram e decretaram uma greve geral de 24h, em Paris, em protesto contra as políticas do General De Gaule. 

No dia 20 de maio, Paris amanheceu sem metrô, ônibus e outros serviços. Cerca de 6 milhões de grevistas ocuparam as 300 fábricas da França. 

No dia 30 de maio, o movimento tornou-se vultoso quando 2/3 dos trabalhadores franceses aderiram ao movimento e 1 milhão de franceses marcharam sobre a Champs Elysées

A Universidade de Sorbonne, ocupada pelos estudantes, iniciou uma batalha cuja as armas foram frases ousadas: “A imaginação ao poder”, "É proibido proibir", "Abaixo a universidade" e "Abaixo a sociedade espetacular mercantil".  Os estudantes franceses se mobilizaram para mostrar ao mundo os novos tempos, a liberdade e a rebeldia. 

A França dos anos de 1960, sob o comando do General Charles De Gaulle, era uma sociedade culturalmente conservadora e fechada. A juventude ansiava por mais liberdade, rejeitando a ordem estabelecida e a sociedade de consumo. 

O Maio de 68 mudou profundamente as relações entre raças, sexos e gerações na França, e, em seguida, no restante da Europa. 

No decorrer das décadas, as manifestações ajudaram o Ocidente a fundar idéias como as das liberdades civis democráticas, dos direitos das minorias, e da igualdade entre homens e mulheres, brancos e negros e heterossexuais e homossexuais. 

Segundo o historiador francês Michel Winock, autor do livro "La fièvre hexagonale: les grandes crises politiques de 1871 à 1968", houve na França, em Maio de 68, uma emancipação social. 

Winock diz que desde a Revolução Francesa (1789), há um culto à revolução. A França bate recordes mundiais de manifestações. 

Só em Paris há mais de mil por ano. Isso é uma herança da história. Para muitos filósofos e historiadores, o Maio de 68 foi o acontecimento revolucionário mais importante do século XX,  porque foi uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Fortaleza, 16 de julho de 2012.
Texto publicado na Antologia da SOBRAMES-CE-2012 "Murmúrios Literários"

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A HISTÓRIA E A REVOLUÇÃO FRANCESA

Jules Michelet (1798-1874)

Lucien Febvre (1878-1956)


A desagregação de um sistema muito bem articulado, como era o absolutismo na França, só foi conseguido através da Revolução Francesa que, por outro lado, teve, também, um papel decisivo na História.
A Revolução Francesa deu origem a um poderoso movimento intelectual liderado por alguns historiadores como: François Guizot (1787-1874), Augustin Thierry (1795-1856),  Adolphe Thiers (1797-1877) e Jules Michetet (1798-1874), entre outros.
Filho de um artesão gráfico, Michelet foi doutor em letras aos 21 anos. Em 1838,  entrou para os Arquivos Nacionais e começou a lecionar no Collège de France, onde seus cursos obtiveram enorme sucesso. 
À partir de 1825, publicou diversas obras, entre as quais: Introduction a L’histoire Universelle, onde expôs sua concepção de História. Após 1840, começou a pregar idéias democráticas e anticlericais. Preparou sua Histoire de la Revolution Francaise, que apareceu de 1847 a 1853. Retomou sua Histoire du XIXe siècle que, com sua morte, não pôde ser concluída.
A obra de Michetet fundamenta-se em uma documentação rigorosa. Ele não dissimula paixões: ódio aos reis e a Igreja, amor ao povo. Criticado pelos positivistas, contestado pelos partidários de Maurras e pelos Marxistas, Michetet foi reabilitado pela Escola dos Annales.
Segundo Lucien Febvre (um dos criadores da Escola dos Annales), “A História e o estado de espírito que ela devia engendrar nasceram desses grandes movimentos de fluxo e refluxo, que, na sua alternância, descobrem em nossa França ora praias secas, nuas, bem lavadas pelas ondas, banhadas de luz fria, igual e sem mistério; ora praias encharcadas de umidade...” 
Foi em fins do século XVIII, que este terreno fértil propiciou aos historiadores uma atmosfera encorajadora para que a História pudesse desabrochar. Assim, a Revolução Francesa agiu de duas formas na gênese da História: direta e positivamente e indireta e negativamente. Vamos ver como isto foi abordado por Febvre. Segundo ele, o que a Revolução fez foi fundamental e positivo à medida que promoveu o povo à dignidade de agente e de sujeito da História. Até então, e por muito tempo, o historiador era o mais fiel contador dos feitos dos reis, de suas vitórias, suas conquistas  etc, tornando a História unilateral, voltada para o  poder. Ao historiador cabia escrever para agradar à classe dominante.  
Durante a Revolução Francesa pessoas comuns e anônimas emergiram da massa como: Roland, Desmoulins, Danton, Robespierre e outros. Até o pequeno Bonaparte. Nesta fase não houve usurpação do trono e nem substituto do rei, mas, sim, a nação tomando o poder na França. Febvre faz grande apelo ao nascimento da nação que, em 1789, com o desmoronamento do absolutismo, assumiu a qualidade de sujeito da História.
Assim, a Revolução Francesa constituiu uma nova ideologia que fez perecer o Antigo Regime e promoveu a Nova História. Mesmo quando pensa em Voltaire e nas suas obras, Febvre sugere que os moldes eram ainda tradicionais, quando a glória não era dos povos, mas dos déspotas esclarecidos, seus amigos. Além disso, a ironia que marcava a sua obra e o seu nada modesto comportamento sufocou-lhe a inteligência.
Como a Revolução Francesa agiu indireta e negativamente? Febvre explica: Quando há uma revolução rompemos com o passado. E como este estava mal sedimentado na consciência dos homens daquela época, houve esta ruptura. Exemplificando: Logo após a decaptação de Luis XVI, supõe-se que todos já haviam esquecidos os Bourbons na França. As gerações entre 1780 e 1800 foram bastante sacrificadas. A ruptura com o Antigo Regime reprimiu qualquer manifestação relacionada ao passado. O silêncio era a palavra de ordem. Temos, finalmente, após esse período, a geração que, em 1815,  criou a História Nova.
Edgar Quinet, historiador francês, cita as dificuldades que sofreu quando, em sua infância e juventude, se reportava ao passado, na escola e na família. Todos eram obrigados a conviver com o silêncio em um período em que a tradição nas famílias era oral e a cultura era quase inexistente. Os pais preparavam os seus filhos para serem recrutados para o exército de Napoleão. Até que um dia, a derrota de Waterloo, fez a França, novamente, e com mais força, ser sacudida. Foi a mais fecunda e radical de todas as revoluções do século XIX.  No pós-Waterloo vemos, naquele “fluxo e refluxo” da  História, outro período propício para um novo renascimento de gênios, homens de talentos e conseqüentemente da História.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2004.