Por Núbia Maria Arruda Bastos Cardoso
Entro no túnel do tempo. Retrocedo um, dois,
cinco, dez, vinte, trinta anos. A viagem é vertiginosa. Só o meu louco anseio
em voltar justificaria tal pressa. Cheguei...
Era uma pequena cidade do interior, Lá ainda não
chegara o asfalto, a televisão, o telefone... Um casarão amarelo de muitas
janelas me deteve. Era aquilo que eu desejava rever em meus sonhos. Entro
devagar. Vovó, como sempre jogava “paciência”. Vovô, ao pé do rádio, tentando
sintonizar estações do sul... As mesmas cadeiras, estilo marquesa, estavam no
lugar de sempre. Uma pequena cadeira de balanço esperando pela costumeira dona.
Com passos rápidos, alcanço a sala vizinha. Era Natal. A um canto, a árvore
enfeitada, feita quase sempre às vésperas da grande noite. No outro lado, a
imensa lapinha com presépio, animais, reis magos, lagos de espelho, areia...
Alguém dedilhava alguma canção ao piano...
Um imenso corredor se abria na minha frente.
Muitas crianças lá brincavam e entre elas, eu...Umas com carrinho, outras com
patins, outras deitadas no chão olhando para o teto que era altíssimo. Quartos
e mais quartos, lado a lado...Lá, um quarto era sagrado. Relicário de imensos e
insondáveis mistérios que a infância não sabia decifrar. Lá, morava a dona da
cadeira de balaço. Alguém de idade. Dona de bombons e biscoitos deliciosos. Só
com muito prestígio se poderia dar uma olhadela naquele santuário.
Uma mesa gigante se sobressaía na imensa sala de
jantar. Do aparador, bolos e doces deliciosos. Da tela de sua porta se poderia
sentir o odor saboroso do que havia em seu interior.
Um grande quarto estava com as portas fechadas.
Vozes excitantes de adultos eram ouvidas, mas não entendidas. Era véspera do
natal. Anos e anos aquele ritual se repetia( só anos depois entendi o
porquê...) Presentes estavam sendo embalados e separados para que quando “Papai
Noel”chegasse, executasse sua missão corretamente...
Continuo andando. Da cozinha exalava um odor forte
de pernil, peru, farofa, bolos, doces numa miscelânea de odores realmente
atraente. No fogão de ferro, a lenha ardia para executar sua missão.
Chega a noite. Correria. Banhos. Roupa nova. Os
pequenos vão dormir. Os grandes esperam ansiosos, pela missa do galo, no
Patronato. Meus avós vão à frente. Sonolentos, todos acompanhávamos o ritual da
missa em Latim. Minha avó liderava os cânticos.Comungávamos todos. Em nossa
cabeça a vontade louca de voltar e acordar no outro dia.
Chegávamos a casa. Luzes acesas. Ambiente festivo.
A felicidade estampada no semblante da imensa família, dos adultos às crianças.
A grande ceia esperava: nozes, castanhas, avelãs, guloseimas que nós, crianças,
não podíamos saborear, só os grandes, diziam...
O dia 25 amanhecia mais cedo que os outros: bolas,
carros, bonecas, bicicletas desfilavam pelo corredor. Era um barulho
infernal...Ninguém conseguia dormir mais. Durante muito tempo papéis eram
ansiosamente rasgados...Alegrias e decepções...
Quebrou o encanto. Já estou de volta. Muitos
natais se passaram...O líder da grande família ainda vive. Ela, não. A cidade é
outra. A casa é outra. A alegria é outra. Era do computador, da televisão, do
vídeo-cassete, da máquina...
No último natal, ele, em seu mutismo habitual,
estava cercado por muitas pessoas, mas incrivelmente só, vivendo dos dias
felizes do passado que o tempo levou... Aproximei-me:
-Feliz Natal, vovô! Tudo bem?
Ele: - Não, só muitas recordações...
Mal sabe ele que, com a partida dela, quebrou-se
para sempre o encanto de meus natais!
Transcrito do “Jornal do
Leitor” do Jornal “o Povo”, de Fortaleza, de 07 de janeiro de 1987.