Fotos: ana margarida furtado arruda rosemberg |
| Prof. José Rosemberg (1909-2005) (foto de 12/2002) Dr. Gilmário Mourão Teixeira (foto de 12/2018)
Texto de Gilmário Mourão Teixeira
In:
Bol. Pneumol. Sanit. 2006; 14 (1):49-50
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José Rosemberg In memoriam
Escrevo, pela
terceira vez, em tempos recentes, sobre a incomparável figura do Professor José
Rosemberg. Nas duas primeiras, tomado de justificada alegria – no momento de seus
noventa anos e por ocasião da homenagem que lhe prestou a Sociedade
Cearense de Pneumologia e Tisiologia – e, nesta, consternado por sua morte,
ocorrida aos noventa e seis anos de idade, na cidade de São Paulo, no dia 24 de
novembro de 2005.
Possuidor
de uma cultura multiforme inspirada no humanismo filosófico, Rosemberg percorreu
com desenvoltura as grandes avenidas do conhecimento – literatura, história,
filosofia, artes, ciências – conteúdos que lhe permitiram encarar com
independência e propriedade as profundas mutações da sociedade de seu tempo.
Aficionado às artes – plásticas e música sobretudo –visitou, mundo afora,
galerias, museus, salas de concerto, onde, diante de uma obra-prima, não só
comprazia-se com a emoção do belo, mas, também, era capaz de vivê-la,
entusiasmar-se e discorrer sobre sua motivação, construção e repercussão, bom
conhecedor que era da História das Artes. Experimentei a prova desse seu pendor
quando, lá atrás, no início dos anos sessenta, brindou-me com uma gravação da
“Sonata ao Luar” de Beethoven, tocada no último piano que pertenceu ao compositor.
Não seria demasiado inferir-se que muito de sua elegância, esmero e nobreza,
traços de sua personalidade, deva-se a essa sensibilidade pelo universo das
artes.
A
trajetória médica de Rosemberg abarcou múltiplas áreas – clínica, magistério,
pesquisa, saúde pública – em que se empenhou com inteligência e mestria sem se
afastar da observação da ética, da moral e do respeito aos direitos humanos.
Exerceu
a docência de medicina, ampla e ininterrupta, desde recém-formado até as
vésperas de sua morte. Integrante da escola de tisiologia brasileira do século
passado, ao nível de seus grandes vultos, muito cedo, ali nos albores da
quimioterapia que desmantelou o arsenal terapêutico da tuberculose e reescreveu
a história dessa doença, progrediu para a pneumologia onde consagrou-se no país
e fora dele; a essa época, transformou sua cátedra de Tisiologia da Faculdade
de Medicina da Universidade Católica de São Paulo, em disciplina de
Tisio-pneumologia. Foi também Professor de Tisiologia da Faculdade de Medicina
da Santa Casa de São Paulo, e Livre-docente da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Faculdade de Medicina e Cirurgia do
Rio de Janeiro, além de uma exaustiva atuação em numerosos cursos, seminários e
congressos nacionais e internacionais, distinguindo-se por muitas vezes, como
relator de temas oficiais ou presidente do conclave. Cabe aqui um destaque para
sua inestimável participação, ao longo de muitos anos, no Curso de Pneumologia
Sanitária que o Ministério da Saúde realiza anualmente, por meio do Centro de
Referência Professor Hélio Fraga, em parceria com a Escola Nacional de Saúde
Pública. O brilhantismo de suas aulas doutas e atualizadas e a fidalguia do
convívio, fizeram de Rosemberg uma figura de mestre e amigo que será sempre recordada
por seus colegas e alunos.
Ao
introduzir-se na área da pesquisa médica o Professor Rosemberg teve o cuidado
de não deixar à margem a atividade da clínica, cônscio de que a observação do
doente é a fonte do que se quer perquirir na investigação. De seus trabalhos,
por sua importância para a saúde coletiva, destacam-se: a comprovação, no
início da década de quarenta, da tolerância da vacina BCG por indivíduos já
infectados pelo bacilo de Koch, avanço que permitiu a vacinação indiscriminada,
sem prova tuberculínica prévia, chamada de “vacinação direta” pela OMS; a
demonstração, em companhia de Nelson Sousa Campos e Jamil N. Aun, de que a
vacina provoca a positivação da reação lepromínica e exerce poder protetor
contra a hanseníase; numerosos estudos, muitos deles pioneiros no país, sobre a
epidemiologia e efeitos do tabagismo.
A
força de combatente que habitava nele, inspirada na ação e valores morais de
sua formação humanística e social, fizeram-no abraçar uma das áreas de maior
impacto em medicina – a da saúde pública – onde se envolveu com empenho e
abnegação em duas vertentes de grande expressão: a campanha contra a
tuberculose e a luta anti-tabagismo. Aqui, a participação do sanitarista
Rosemberg, foi fecunda e se fez presente ocupando destacados cargos e funções,
entre muitos outros: Diretor do Instituto de Pesquisas Clemente Ferreira,
Diretor da Divisão de Tuberculose da Secretaria de Saúde do Estado de São
Paulo, Superintendente da CNCT no Estado de São Paulo, Membro do Comitê
Assessor em Tuberculose do Ministério da Saúde, Membro do Comitê de Peritos em
Tuberculose da OMS, Conselheiro da União Internacional contra a Tuberculose,
Presidente do Comitê Coordenador do
Controle do Tabagismo no Brasil, Membro do Grupo Assessor para o Controle do
Tabagismo do Ministério da Saúde, Membro da Comissão de Controle do Tabagismo
do Conselho Federal de Medicina, Presidente da Comissão de Tabagismo da
Associação Médica Brasileira.
Não
foram menores os destaques no capítulo das honrarias: condecorado com a “Palmes Academiques”, no grau de
Comendador pelo Governo Francês, Diploma Pesquisa e Enriquecimento Médicos
conferido pelo “College de Medicine –
Centre Français d’Information Permanente de Medicine, Medalha “Tabaco e
Saúde” da OMS, Medalha “Anchieta” e Diploma “Gratidão da Cidade de São Paulo”,
dados pela Câmara Municipal de São Paulo, Medalha “Memória da Tuberculose”
outorgada pela Casa de Oswaldo Cruz e Centro de Referência Professor Hélio
Fraga, Diploma “Mérito pela Valorização da Vida” concedido pela Secretaria
Nacional Anti-Drogas da Presidência da República, Acadêmico Emérito da Academia
de Medicina de São Paulo.
No
que concerne a publicações, a produção científica do Professor Rosemberg
situou-se entre as mais ricas: autor de 14 livros, dois deles com a
participação de colaboradores, co-autor de quatro outros livros e autor isolado
ou principal de 122 artigos publicados em revistas médicas especializadas
nacionais e estrangeiras; merece destaque que seu livro “Tabagismo – Sério
Problema de Saúde Pública”, foi laureado pela Academia Nacional de Medicina.
Essa
foi a impoluta figura de cidadão, médico, professor, pesquisador que a Medicina
Brasileira acaba de perder. Uma perda pesada que tardará em ser reposta nos
quadros atuais da atividade médica do país. Mas, imensurável foi a perda
representada pelo sentimento de falta e saudade que a ausência de Rosemberg
deixou em seus familiares e em nós, seus amigos e companheiros de lutas ao
longo de tantos anos.
Rosemberg
deixou dois filhos: Ivan Rosemberg, economista, de seu primeiro casamento com
Benedita Rosemberg, falecida, e Sergio Rosemberg, médico neuro-patologista, do
segundo casamento com Iracema Azevedo, já falecida; sobreviveu-lhe também, sua
esposa, nossa dileta colega, a pneumologista Ana Margarida Furtado Arruda
Rosemberg que conclui agora o Mestrado em História na PUC-São Paulo, tendo como
tema de dissertação “A Peste Branca e
Liga Paulista Contra a Tuberculose – 1899-1950”.




