segunda-feira, 11 de maio de 2026

ARTE & MEDICINA - 97. A Coluna Partida - Frida Kahlo

 

97.  La columna rota (A Coluna Partida) - 1944

Descrição Técnica

Artista: Frida Kahlo (1907-1954)

Título: La columna rota (A Coluna Partida)

Ano: 1944

Técnica: óleo sobre masonita

Dimensões: 39,8 x 30,7 cm

Localização: Museo Dolores Olmedo Xochimilco, Cidade do México, México

Crédito da Imagem: Domínio público

A COLUNA PARTIDA: dor crônica, corpo fragmentado e resistência

“Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?”
Frida Kahlo

Na tela La columna rota, a dor física e emocional constitui o tema central da composição. Em primeiro plano, Frida Kahlo aparece em pé, com o tronco nu envolto por um espartilho metálico que sustenta uma coluna jônica fraturada no lugar de sua coluna vertebral. A imagem transforma o corpo da artista em metáfora visual do sofrimento e da fragilidade humana.

Frida segura um tecido branco que cobre parcialmente a parte inferior de seu corpo, conferindo delicada sensualidade à figura, apesar da evidente condição de sofrimento. Seu rosto, banhado por lágrimas, mantém expressão firme e olhar intenso, revelando postura estoica diante da dor crônica que marcou sua existência. Inúmeros pregos espalhados pelo corpo simbolizam as dores lancinantes e constantes que a artista suportava diariamente. Ao fundo, uma paisagem árida e rachada prolonga visualmente a ideia de ruptura e devastação física. O horizonte desolado e o mar distante reforçam a sensação de isolamento, solidão e vulnerabilidade emocional vivida por Frida Kahlo.

A pintura foi realizada em 1944, após uma delicada cirurgia na coluna vertebral. Durante o difícil pós-operatório, Frida permaneceu longos períodos acamada e obrigada a utilizar coletes ortopédicos metálicos para sustentar o corpo e aliviar parcialmente as dores. Nesse contexto, a obra converte-se em poderoso testemunho autobiográfico da experiência da dor crônica.

O médico geriatra Desmond O'Neill publicou, em 7 de maio de 2011, no British Medical Journal, um estudo destacando a importância da obra de Frida Kahlo para a compreensão da dor em pacientes. Segundo O’Neill, a artista possui extraordinária capacidade de representar visualmente o sofrimento físico e emocional, tornando-se símbolo de identificação para pessoas acometidas por dores crônicas.

Diversos estudiosos também estabelecem paralelos entre La columna rota e o martírio de São Sebastião, frequentemente representado transpassado por flechas. Assim como o santo, Frida converte o sofrimento corporal em expressão simbólica de resistência, transcendência e sobrevivência. No contexto da arte e medicina, a obra representa um dos mais impactantes registros visuais da experiência subjetiva da dor, evidenciando como a arte pode traduzir aspectos emocionais e existenciais frequentemente inacessíveis aos discursos médicos tradicionais.

Breve Biografia de Frida Kahlo (1907–1954)

Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu em Coyoacán, México, em 6 de julho de 1907, e faleceu na mesma cidade, em 13 de julho de 1954, aos 47 anos, vítima de embolia pulmonar. Filha do fotógrafo Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón y González, Frida tornou-se uma das artistas mais importantes da arte latino-americana do século XX. Aos seis anos de idade, contraiu Poliomielite, enfermidade que deixou sequelas permanentes em sua perna direita. Além das limitações físicas decorrentes da doença, enfrentou diversos problemas de saúde ao longo da vida.

Em 1925, aos dezoito anos, sofreu um grave acidente de trânsito quando o ônibus em que viajava colidiu com um bonde. O impacto provocou múltiplas fraturas na coluna vertebral, na pelve e na perna direita, além de severas lesões internas causadas por uma barra metálica que atravessou seu corpo. Em decorrência dessas lesões, foi submetida a mais de trinta cirurgias. Em 1929, casou-se com o muralista Diego Rivera. O relacionamento intenso e conturbado foi marcado por separações, reconciliações e um divórcio em 1939, seguido de novo casamento no ano seguinte.

Grande parte da produção artística de Frida Kahlo é autobiográfica e centrada no corpo ferido, na dor, na identidade feminina e na experiência emocional do sofrimento. Em 1944, após mais uma cirurgia na coluna e durante um doloroso período de recuperação, pintou La columna rota, transformando sua experiência física em uma das imagens mais emblemáticas da relação entre arte e medicina.

Referências

Frida Kahlo. Diário de Frida Kahlo: Um íntimo autorretrato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.

Herrera, Hayden. Frida: A Biografia de Frida Kahlo. São Paulo: Globo Livros, 2011.

Tibol, Raquel. Frida Kahlo: Uma Vida Aberta. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

Desmond O'Neill. “Frida Kahlo’s Art as a Representation of Pain”. British Medical Journal, 2011.

La columna rota. 1944. Óleo sobre masonita. Acervo do Museo Dolores Olmedo.

Sontag, Susan. A Doença como Metáfora. Rio de Janeiro: Graal, 1984. 

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