sábado, 28 de setembro de 2019

POR: GILMARIO MOURÃO TEIXEIRA: Comentários: “Guerra à peste branca – Clemente Ferreira e a Liga Paulista Contra a Tuberculose – 1899-1947

Dr. Gilmário Mourão Teixeira - foto de 5.12.2018


Comentários: “Guerra à peste branca – Clemente Ferreira e a Liga Paulista Contra a Tuberculose – 1899-1947

Dissertação para obtenção do título de Mestre em História Social – Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg


Gilmário M. Teixeira

Editor

A pneumologista Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg vem de apresentar, perante Banca Examinadora, sua Dissertação intitulada “Guerra à peste Branca – Clemente Ferreira e a Liga Paulista contra a Tuberculose – 1899-1947”, para obtenção do título de Mestre em História Social, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP.

Trata-se de um exaustivo trabalho de pesquisa histórica, focalizando a tuberculose e seu devastador impacto social, para destacar a figura de Clemente Ferreira que, na São Paulo do final do século XIX, em meio à indiferença da sociedade e ao descuido do poder público, levanta-se para organizar a luta contra a tuberculose, de que se faz um dos pioneiros no Brasil.

A monografia está estruturada em três amplos capítulos – a luta contra a peste branca, Clemente Ferreira – cidadão, médico e filantropo e a tuberculose e suas representações – cujo desenvolvimento conduz a autora na procura de seus objetivos: analisar a luta contra a tuberculose na cidade de São Paulo, entre 1899 e 1947; esquadrinhar a vida e a obra de Clemente Ferreira e embrenhar-se no novo campo da História Cultural para olhar a tuberculose através das expressões artísticas e do imaginário que a representaram no espaço e tempo de seu estudo.

Na primeira parte a autora faz uma revisão cuidadosa das contribuições que permitiram construir um arcabouço da história da tuberculose no Brasil, desde seu desembarque no peito dos colonizadores, até os anos quarenta do século XX, passando por seus efeitos dizimadores sobre os indígenas, os escravos e as populações miseráveis das épocas colonial e imperial; nesta última, surgem as primeiras manifestações que buscam comprometer a comunidade e o governo com o dramático problema da tuberculose, com destaque para o papel das Santas Casas que despontam como única instituição a abrigar um tuberculoso. 

Nossa candidata ao grau de mestra, ressalta tanto os nomes de médicos e políticos que se sensibilizaram com a tragédia da tuberculose, como a inexplicável omissão dos serviços públicos de higiene e saúde pública. Com a República e suas aspirações, a iniciativa pública pronto se manifesta em leis e regulamentos que contemplam a tuberculose, mas, que não se convertem em ação organizada; ainda bem que, na sociedade civil, a exemplo do que se passava na Europa, crescem os movimentos filantrópicos que assumem a luta contra a tuberculose. Surgem assim no Brasil as ligas contra a Tuberculose de que foi pioneira a de São Paulo, fundada por Clemente Ferreira em 1899, de cujo desenvolvimento a autora destaca: seu começo no seio da Sociedade de Medicina e Cirurgia com o propósito de fundar sanatórios populares; as campanhas profiláticas e a mobilização da sociedade, da imprensa e do poder público; o papel das damas voluntárias para a preservação entre crianças-contato; os embaraços determinados por carência de recursos; as campanhas pró-selos da tuberculose; e, finalmente, o armamento edificado pela Liga Paulista – o Dispensário Clemente Ferreira, o Preventório Imaculada Conceição, o Sanatório São Luis de Gonzaga, o Dispensário Infantil e o Abrigo-Hospital Clemente Ferreira.

À Liga Paulista, seguiram-se, em 1900, a Brasileira, no Rio de Janeiro, e as de Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Quanto a participação concreta do poder público só se efetiva com criação da Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose, na capital da República, em 1920, apesar do consciencioso plano de Oswaldo Cruz, apresentado em 1907, que não vingou.

Ana Margarida, na segunda parte de seu trabalho, com sagacidade, toma os dados da história para construir o cenário onde emergirá o protagonista – Clemente Miguel da Cunha Ferreira, nascido em 1857, na cidade de Resende, Estado do Rio de Janeiro – uma figura mítica de homem sábio que desafia os paradigmas de seu meio e de seu tempo, para impelir as razões de uma causa humanitária – a suavização do sofrimento humano determinado pela tuberculose.

Para a consecução desse ideal foi longo e árduo o caminho percorrido. Originário de modesta família do interior, traslada-se para a capital do Império, onde, 1880, gradua-se médico defendendo-se tese sobre Tísica Pulmonar. 

A essa época, as desastrosas condições sanitárias dos grandes centros urbanos e a decadência das estruturas políticas e sociais do regime imperial, criam o ambiente propício às epidemias como as de febre amarela, cólera, varíola e tuberculose. Esse quadro não tarda para despertar a sensibilidade de Clemente Ferreira que, iniciando sua prática médica no campo da clínica infantil, pronto se engaja em ações de saúde pública com um sensível enfoque humanitário que viria a ser o cerne de sua carreira. 

Esse homem afetivo, empático, visionário, soube ser poeta – “...Que só deseja que tua vida passe / Tranquila, pura, como os céus azuis”, abateu-se diante de frustrações – “... Foi para mim um dos mais pungentes desgostos de minha existência, um dos mais violentos Choques e abalos morais sofridos”; ergueu-se ao chefiar a comissão que, em 1899, dominou a epidemia de febre amarela em Campinas, conquista que o qualificou para ser condecorado pelo Imperador Pedro II; afirmou-se como médico erudito ao tornar-se membro da Academia Nacional de Medicina e de sociedades médicas da França, Itália, Alemanha, Rússia, Argentina, Uruguai e ao divulgar seus trabalhos em acreditadas publicações médicas europeias; desfez-se ao perder um filho de 12 anos, vítima de doença que ele combatia – a febre tifoide; realizou-se como servidor público ao avançar de Inspetor Sanitário a chefe da Secção de Profilaxia da Tuberculose do Serviço Sanitário de São Paulo, primeira entidade do Estado de ação antituberculose; agigantou-se ao fundar, desenvolver e dirigir por toda a vida a Liga Paulista contra a Tuberculose, sua obra maior que o consagrou como cidadão, médico e filantropo.

Na terceira parte de sua dissertação, Ana Margarida transcende em seu trabalho, ao internar-se no mundo das representações da tuberculose – literatura, artes, cultura popular – através da metodologia da História Cultural, para fazer uma leitura que está por trás dessas manifestações de criatividade aplicadas a um determinado contexto social.

Realmente, o impacto físico, moral e social causado pela tuberculose não poderia escapar à sensibilidade de romancistas, poetas e artistas, muitos deles vítimas da doença que, em obra de rara beleza, manifestaram em sua época, os sentimentos, as percepções, a imaginativa com que as pessoas, em seus diferentes grupamentos sociais, representavam a tísica. 

A força dramática de um Molière em “Le malade imaginaire”, o enlevo romântico de um Dumas em “A Dama das Camélias”, a penetrante análise de antropologia social de um Thomas Mann em “A Montanha Mágica”, o arrebatamento que se alternava com ternura nas Polonaises de Chopin, o lirismo trágico de Augusto dos Anjos em seu “Eu”, e na obra de tantos outros que se envolveram com a tuberculose, todos, perpetuaram em suas criações, a dor, a revolta, a compaixão, frente ao caráter inexorável da tuberculose de seu tempo.

Tudo isso e bem mais, didaticamente apresentado, está na dissertação de Ana Margarida que é dedicada ao seu marido, o saudoso Prof. José Rosemberg, incomparável mestre de gerações de tisiologistas e pneumologistas brasileiros.

O que o leitor viu aqui é apenas uma síntese apressada desse diligente texto com que a autora conquistou, com mérito, o título de Mestra em História Social pela PUC-SP.

Publicado In: Revista Brasileira de Pneumologia Sanitária 2008: 16(1): 85-86




quinta-feira, 26 de setembro de 2019

HOMENAGEM À DRA. TÂNIA BRÍGIDO E AO DR. ANTERO GOMES NO HOSPITAL DE MESSEJANA 24.9.2019

Ocorreu no dia 24.9.2019, no auditório do Hospital de Messejana, uma singela e tocante homenagem à Dra. Tânia Brígido e ao Dr. Antero Gomes, prestada pelos pneumologistas da casa.
Aos homenageados, nossos parabéns!

 

 
 


 

















 





Abaixo, as homenagens prestadas pelas doutoras Elizabeth Clara Barros e Ana Margarida à Dra. Tânia.
As doutoras Márcia Alcântara e Valéria Goes também prestaram homenagens.  



Tânia Regina Brígido de Oliveira



A Dra. Tânia deu os seus primeiros passos na pneumologia ao ingressar na residência médica de pneumologia, residência do INAMPS, em 01/08/1978 aqui no Hospital de Messejana, na época dirigido pelo Dr. Carlos Alberto Studart Gomes (nome atual do hospital de Messejana), juntamente com a colega, atualmente falecida, Nadja Freire Gadelha. Em 01/03/1979 entraram Luiza Maria Torres Carvalho e eu. Já eram residentes de pneumologia na época: José Patriarca Neto, Cláudia Sampaio, Lucíola, Suely Lopes, Sandra, Maria José Menezes e o Brito. No ano seguinte entrou a carioca Aparecida Jane Menezes e vieram residentes do HGF fazer o treinamento nesse hospital como complemento à residência de Clínica Médica: Fátima Pimenta e Lusmar Veras, esse, já falecido atualmente. Os preceptores na época eram: Dra. Márcia Alcântara Holanda, Dr. Leopoldo de Vasconcelos e Dr. Sérgio Gomes de Matos muito conhecidos de todos vocês.  

Nesse período iniciou-se grande amizade que perdura até hoje. Foram numerosas discussões de casos à beira do leito, sessões de radiologia, sessões clínicas, congressos e jornadas. Em julho/1981, sete ex-residentes foram contratados pela Campanha Nacional contra Tuberculose para trabalharem no Hospital de Maracanaú que era referência para Tuberculose na Macrorregião Nordeste e dirigido, na época, pelo Dr. Abelardo, pneumologista que após sair do hospital de Maracanaú retornou ao Hospital de Messejana por mais alguns anos. Esses sete ex-residentes eram: Patriarca, Cláudia, Tânia, Nadja, Nelson (cardiologista), Elizabeth e Lucíola, essa, chegou a ser diretora do Hospital de Maracanaú. Pouco tempo depois outros médicos foram contratados, aí se incluindo a Ana Margarida Furtado Arruda e Valéria Goes Ferreira Pinheiro, aqui presentes.

Na época dessas contratações os leitos de TB do Hospital de Messejana foram desativados e os do hospital de Maracanaú começaram a diminuir já que desde a década de 1960 e tratamento da TB foi descentralizado em todo o país, priorizando o tratamento ambulatorial. Nesse período iniciou-se o processo de transferência do Hospital de Maracanaú de sanatório, sob administração Federal, para hospital geral com administração Municipal e do Hospital de Messejana que continuou como referência para doenças do tórax, mas passando da administração federal para estadual.  

 Cerca de 15 anos atrás a Dra. Tânia transferiu-se do hospital de Maracanaú para o hospital de Messejana dedicando seu trabalho ao controle do tabagismo e da tuberculose. Em 2010 ela entrou para a direção do hospital de Messejana chefiando a Pneumologia.

No ambulatório de tuberculose ela foi coordenadora a nível estadual de pesquisa multicêntrica que envolvia o uso do teste rápido molecular para tuberculose (TRM/TB) no período de 2011 a 2012. O Estado do Ceará por ter serviço de tuberculose muito atuante, participou dessa pesquisa através do Hospital de Messejana, juntamente com quatro outros estados da federação: Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, o que resultou na permanência do aparelho que realizava o teste rápido para TB no Hospital de Messejana após o término da pesquisa, tendo sido isso um legado importante no manejo da Tuberculose no Ceará. 

Na sua gestão foi instalado o PROCAM no ambulatório de pneumologia com a valiosa colaboração da Dra. Márcia Alcântara. Foram implementados ambulatórios específicos como: hipertensão pulmonar, interstício, bronquiectasias e fibrose cística.

Nesse período apenas quatro pneumologistas foram contratados sendo articulado para que os residentes de pneumologia que permanecessem em Fortaleza continuassem trabalhando nesse Hospital.

Uma grande frustração para a Dra. Tânia foi o fato de não se ter conseguido estruturar melhor a área física do nosso ambulatório de tisiologia que é referência secundária e terciária para o Ceará e funciona em contato direto com o Centro de Referência Professor Hélio Fraga, referência Nacional em tuberculose e tem sede no Rio de Janeiro. Nesses nove anos passaram várias administrações, foram feitas várias plantas, projetos e promessas sem sucesso, mas estamos unidas e confiando que a atual chefia da pneumologia, na pessoa da Dra. Penha, concretizará esse sonho.  

 A chefia da pneumologia do Hospital de Messejana é motivo de orgulho para qualquer pneumologista e a Dra. Tânia é mais do que merecedora dessa homenagem. 

Fortaleza, 24 de setembro de 2019

Elizabeth Clara Barroso




                       TÂNIA, SIMPLESMENTE!

             Instada a escrever um texto para ser lido durante essa homenagem prestada à Dra. Tânia, na Sessão de Pneumologia do Hospital de Messejana, veio-me a dúbia sensação de dever ou não aceitar a difícil e, ao mesmo tempo, prazerosa tarefa. 

             Depois de ponderar, resolvi acatar a proposta e pensei em qual ou quais de suas facetas deveria retratar. São tantas que, confesso, fiquei a refletir de que maneira poderia abordá-las. A médica dedicada e competente? A esposa companheira e fiel? A mãe amorosa e devotada? A amiga leal, meiga e gentil? Pincelando algumas dessas facetas, me fixarei na de amiga.
            Tânia Regina Brígido de Oliveira graduou-se em medicina pela Universidade Federal do Ceará, em 1978, e fez, logo em seguida, residência em Pneumologia no Hospital de Messejana. A partir de então, iniciou suas atividades profissionais na luta para o controle da tuberculose e outras doenças  pulmonares e também do tabagismo, com dedicação e competência. Devotou, ainda, parte de seu tempo e saber à clínica privada.
           Conheci a Tânia nos idos de 1985, quando ingressei no Hospital de Maracanaú, como médica tisio-pneumologista, para trabalhar na ala de doentes tuberculosos. Tânia formava com as demais pneumologistas; Ana Maria Dantas, Nadja Freire Gadelha e Elisabeth Clara Barroso um grupo coeso ao qual logo me inseri. Pouco depois, a Dra. Valéria Goes chegou para formar conosco o GRUPO DAS SEIS Pneumologistas na luta ferrenha contra a peste branca.  
            Muito mais do que colegas de trabalho, éramos amigas. A convivência e a labuta diária fortaleceram nossa amizade que desafiou o tempo. Sim, o tempo que tudo muda, transforma e destrói, amalgamou nosso grupo, que persiste até os dias de hoje em uma união fraterna. Nadja e Ana Maria já partiram, deixando um vazio imenso e uma saudade eterna. Permanecemos nós quatro na jornada terrena. 

            Mais recentemente, com a inserção de outra grande pneumologista, dra. Márcia Alcântara, o grupo se fortaleceu e ganhou nova vida. Agora, passou a ser o GRUPO DAS CINCO. Tânia, certamente, com o seu jeito meigo e seu olhar sereno, deu e continua dando a tranquilidade e o equilíbrio ao nosso grupo.
             Na década de 90, quando a luta contra o tabagismo estava se firmando no Ceará, a Dra. Tânia teve um importante papel, não só na participação das ações do Comitê Coordenador do Controle do Tabagimo no Brasil Capítulo-CE, como na implantação, ao lado da Dra. Penha, da Dra. Ana Dantas e de outros profissionais, do Ambulatório de Tratamento dos Fumantes do Hospital de Messejana. Além desse trabalho exitoso, Dra. Tânia chefiou com competência e dedicação, por largos anos, o Serviço de Pneumologia do Hospital de Messejana. É, portanto, merecedora desta justa homenagem e da gratidão perene de todos e todas que fazem esta casa.
            Hoje, ao ver as três pneumologistas, Tânia, Beth e Valéria, remanescentes do GRUPO DAS SEIS do Hospital de Maracanaú, da década de 1980, que ainda estão atuando na magnânima profissão de Hipócrates, me vem à mente a analogia com as três graças: Tália, Eufrosina e Aglaia.  Filhas de Zeus, segundo a mitologia grega, as três graças estavam sempre juntas e eram símbolo da idílica harmonia. Foram plasmadas por Boticelli e Rubens, entre outros gênios da pintura, e eternizadas no mármore por grandes escultores da nossa história.
           Tânia construiu com Paulo, seu marido e fiel companheiro de jornada, uma família alicerçada em valores cristãos. Seu exemplo de uma autêntica discípula de Hipócrates foi seguido pelos filhos, Caio e Carla. Desta forma, Tânia continuará, através deles, a nobre missão de curar.   


Fortaleza, 24/9/2019
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg