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| Dr. Gilmário Mourão Teixeira - foto de 5.12.2018 |
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“Guerra à peste branca – Clemente Ferreira e a Liga Paulista Contra a
Tuberculose – 1899-1947
Dissertação
para obtenção do título de Mestre em História Social – Ana Margarida Furtado
Arruda Rosemberg
Gilmário
M. Teixeira
Editor
A
pneumologista Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg vem de apresentar, perante
Banca Examinadora, sua Dissertação intitulada “Guerra à peste Branca – Clemente Ferreira e a Liga Paulista contra a
Tuberculose – 1899-1947”, para obtenção do título de Mestre em História
Social, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP.
Trata-se
de um exaustivo trabalho de pesquisa histórica, focalizando a tuberculose e seu
devastador impacto social, para destacar a figura de Clemente Ferreira que, na
São Paulo do final do século XIX, em meio à indiferença da sociedade e ao
descuido do poder público, levanta-se para organizar a luta contra a
tuberculose, de que se faz um dos pioneiros no Brasil.
A
monografia está estruturada em três amplos capítulos – a luta contra a peste
branca, Clemente Ferreira – cidadão, médico e filantropo e a tuberculose e suas
representações – cujo desenvolvimento conduz a autora na procura de seus
objetivos: analisar a luta contra a tuberculose na cidade de São Paulo, entre
1899 e 1947; esquadrinhar a vida e a obra de Clemente Ferreira e embrenhar-se
no novo campo da História Cultural para olhar a tuberculose através das
expressões artísticas e do imaginário que a representaram no espaço e tempo de
seu estudo.
Na
primeira parte a autora faz uma revisão cuidadosa das contribuições que
permitiram construir um arcabouço da história da tuberculose no Brasil, desde
seu desembarque no peito dos colonizadores, até os anos quarenta do século XX,
passando por seus efeitos dizimadores sobre os indígenas, os escravos e as
populações miseráveis das épocas colonial e imperial; nesta última, surgem as
primeiras manifestações que buscam comprometer a comunidade e o governo com o
dramático problema da tuberculose, com destaque para o papel das Santas Casas
que despontam como única instituição a abrigar um tuberculoso.
Nossa candidata
ao grau de mestra, ressalta tanto os nomes de médicos e políticos que se sensibilizaram
com a tragédia da tuberculose, como a inexplicável omissão dos serviços
públicos de higiene e saúde pública. Com a República e suas aspirações, a
iniciativa pública pronto se manifesta em leis e regulamentos que contemplam a
tuberculose, mas, que não se convertem em ação organizada; ainda bem que, na
sociedade civil, a exemplo do que se passava na Europa, crescem os movimentos
filantrópicos que assumem a luta contra a tuberculose. Surgem assim no Brasil
as ligas contra a Tuberculose de que foi pioneira a de São Paulo, fundada por
Clemente Ferreira em 1899, de cujo desenvolvimento a autora destaca: seu começo
no seio da Sociedade de Medicina e Cirurgia com o propósito de fundar
sanatórios populares; as campanhas profiláticas e a mobilização da sociedade,
da imprensa e do poder público; o papel das damas voluntárias para a
preservação entre crianças-contato; os embaraços determinados por carência de
recursos; as campanhas pró-selos da tuberculose; e, finalmente, o armamento
edificado pela Liga Paulista – o Dispensário Clemente Ferreira, o Preventório
Imaculada Conceição, o Sanatório São Luis de Gonzaga, o Dispensário Infantil e
o Abrigo-Hospital Clemente Ferreira.
À
Liga Paulista, seguiram-se, em 1900, a Brasileira, no Rio de Janeiro, e as de
Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Quanto a participação concreta do poder
público só se efetiva com criação da Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose, na
capital da República, em 1920, apesar do consciencioso plano de Oswaldo Cruz,
apresentado em 1907, que não vingou.
Ana
Margarida, na segunda parte de seu trabalho, com sagacidade, toma os dados da
história para construir o cenário onde emergirá o protagonista – Clemente Miguel
da Cunha Ferreira, nascido em 1857, na cidade de Resende, Estado do Rio de
Janeiro – uma figura mítica de homem sábio que desafia os paradigmas de seu
meio e de seu tempo, para impelir as razões de uma causa humanitária – a suavização
do sofrimento humano determinado pela tuberculose.
Para
a consecução desse ideal foi longo e árduo o caminho percorrido. Originário de
modesta família do interior, traslada-se para a capital do Império, onde, 1880,
gradua-se médico defendendo-se tese sobre Tísica Pulmonar.
A essa época, as
desastrosas condições sanitárias dos grandes centros urbanos e a decadência das
estruturas políticas e sociais do regime imperial, criam o ambiente propício às
epidemias como as de febre amarela, cólera, varíola e tuberculose. Esse quadro
não tarda para despertar a sensibilidade de Clemente Ferreira que, iniciando
sua prática médica no campo da clínica infantil, pronto se engaja em ações de
saúde pública com um sensível enfoque humanitário que viria a ser o cerne de
sua carreira.
Esse homem afetivo, empático, visionário, soube ser poeta – “...Que
só deseja que tua vida passe / Tranquila, pura, como os céus azuis”, abateu-se
diante de frustrações – “... Foi para mim um dos mais pungentes desgostos de minha
existência, um dos mais violentos Choques e abalos morais sofridos”; ergueu-se
ao chefiar a comissão que, em 1899, dominou a epidemia de febre amarela em
Campinas, conquista que o qualificou para ser condecorado pelo Imperador Pedro
II; afirmou-se como médico erudito ao tornar-se membro da Academia Nacional de
Medicina e de sociedades médicas da França, Itália, Alemanha, Rússia,
Argentina, Uruguai e ao divulgar seus trabalhos em acreditadas publicações
médicas europeias; desfez-se ao perder um filho de 12 anos, vítima de doença
que ele combatia – a febre tifoide; realizou-se como servidor público ao
avançar de Inspetor Sanitário a chefe da Secção de Profilaxia da Tuberculose do
Serviço Sanitário de São Paulo, primeira entidade do Estado de ação antituberculose;
agigantou-se ao fundar, desenvolver e dirigir por toda a vida a Liga Paulista
contra a Tuberculose, sua obra maior que o consagrou como cidadão, médico e
filantropo.
Na
terceira parte de sua dissertação, Ana Margarida transcende em seu trabalho, ao
internar-se no mundo das representações da tuberculose – literatura, artes, cultura
popular – através da metodologia da História Cultural, para fazer uma leitura
que está por trás dessas manifestações de criatividade aplicadas a um
determinado contexto social.
Realmente,
o impacto físico, moral e social causado pela tuberculose não poderia escapar à
sensibilidade de romancistas, poetas e artistas, muitos deles vítimas da doença
que, em obra de rara beleza, manifestaram em sua época, os sentimentos, as
percepções, a imaginativa com que as pessoas, em seus diferentes grupamentos
sociais, representavam a tísica.
A força dramática de um Molière em “Le malade
imaginaire”, o enlevo romântico de um Dumas em “A Dama das Camélias”, a
penetrante análise de antropologia social de um Thomas Mann em “A Montanha
Mágica”, o arrebatamento que se alternava com ternura nas Polonaises de Chopin,
o lirismo trágico de Augusto dos Anjos em seu “Eu”, e na obra de tantos outros
que se envolveram com a tuberculose, todos, perpetuaram em suas criações, a
dor, a revolta, a compaixão, frente ao caráter inexorável da tuberculose de seu
tempo.
Tudo
isso e bem mais, didaticamente apresentado, está na dissertação de Ana
Margarida que é dedicada ao seu marido, o saudoso Prof. José Rosemberg,
incomparável mestre de gerações de tisiologistas e pneumologistas brasileiros.
O
que o leitor viu aqui é apenas uma síntese apressada desse diligente texto com
que a autora conquistou, com mérito, o título de Mestra em História Social pela
PUC-SP.
Publicado
In: Revista Brasileira de Pneumologia Sanitária 2008: 16(1): 85-86





















