Jehovah te ferirá de tísica e de febre.
Deuteronômio. Cap. 28. Ver. 22.
Só se domina completamente uma ciência, conhecendo sua história.
Auguste Comte.
No curso de milhares de anos a Tuberculose encerrou mensagem ainda
não totalmente decifrada. Pela sua influência cultural, seus efeitos
sobre a obra humana, suas implicações históricas, sociais, econômicas
e políticas, constitui modelo científico peculiar. Modernamente
continua causando as maiores devastações. Seu valor epistemológico é
imenso. Misteriosa e ameaçadora permanece o paradigma dos temores das
paixões e dos conhecimentos humanos.
La Tuberculose. Jacques Chretien.
RESUMO
Historicamente a tuberculose constitui inusitado fenômeno de
interpenetração cultural com diversas formas da manifestação humana,
por ter vitimado cientistas, literatos, poetas, músicos, pintores e
monarcas, interferindo inclusive no curso político de países. Na
época anterior à moderna quimioterapia os tratamentos foram bizarros,
danosos, bárbaros, românticos e eróticos.
O pneumotórax foi o
primeiro tratamento racional. Nos sanatórios, os dramas dos doentes,
os internamentos por longos anos despersonalizavam os pacientes,
criando-se o denominado "Hominis Sanatorialis". Após a
descoberta do bacilo por Koch, criaram-se a histeria contra o escarro
e ambiente propício ao charlatanismo.
Nas estâncias climatéricas,
havia aspectos peculiares de assimilação dos tísicos e paralelamente o
desencadeamento de quadros dantescos de miséria dos doentes
amontoados em verdadeiras mansardas.
Os tisiólogos dessa época foram
heróis idealistas e humanitários, ajudando os pacientes e lutando
contra a doença praticamente de mãos vazias.
O apogeu da integração
da tuberculose no romantismo, dos dramas e dos lirismos de
tuberculosos célebres ocorreu no século 19 e primeira metade do
século 20, contrastando com a imensa massa humana anônima dizimada
pelo Mycobacterium tuberculosis, cujos sofrimentos permaneceram ignorados restando apenas frios números estatísticos.
SUMMARY
Historicaly, tuberculosis verifies a singular on of cultural
interaction with a variety of aspects of human revealings because it
victimized, scientists, literary, poets, musicians painters,
philosofers and Kings. Tuberculosis altered political ocurrences of
many countries. Before the modern chemotherapy, the treatments were very
extravagants, damaging, romantics and erotics. Among the sanatoriums
and health resorts, for many years of hospitalization the patients
were lacking in personality, being called "Hominis Sanatorialis".
After the bacillus discovery by Koch, the hysteria against the
sputum unchained. In the developing countries, because of the great
number of the tuberculous patients, the lack of hospital beds, many
of them live in poor human conditions. The doctors specialized in
tuberculosis, before the modern age of chemotherapy, were idealists,
and humanitarians, conforting the ill and fighting against
tuberculosis with the precarius measures available. The apogee of the
tuberculosis integration of the romantism ocurred on the 19th
century and the first half of the 20 th century. On the contrary the hug
poor human mass anonimous, the died victimized by tuberculosis,
there are no description of their suffering of which only exists
statiscs numbers.
1. Introdução
Este artigo visa abordar alguns aspectos históricos de como foi
encarada a tuberculose, pinçando de um lado algumas realidades
médico-científicas, às vezes pitorescas, outras vezes danosas, e os
dramas, tragédias e situações estereotipadas, com lirismo e
romantismo nas sociedades em geral.
Ferindo intelectuais, cientistas,
literatos, poetas, artistas e as altas classes sociais, constituiu
caso inusitado de integração em todas as formas da manifestação
humana, cujo apogeu ocorreu nos dois últimos séculos.
Com o advento da moderna quimioterapia, sucedeu notável revolução na
tuberculose. O maior impacto foi no mundo rico, onde vários países
chegaram ao limiar de sua eliminação. Nos países em desenvolvimento,
o efeito, embora significante, foi e é bem menor, pois a doença
continua sendo sério problema de saúde pública.
A tuberculose,
vitimando todas as camadas sociais, sempre feriu mais contundentemente
os segmentos pobres e, hoje, no contexto mundial, está essencialmente
confinada aos países em desenvolvimento, onde ocorrem 95% dos casos e
98,8% da mortalidade total.
Fato marcante é que, tanto nos países
ricos como nos pobres, a tuberculose deixou de ser doença das elites
para continuar vitimando os segmentos pobres da população.
Dessa
forma, a tuberculose despiu-se do seu antigo manto aristocrático para
tornar-se essencialmente plebéia. De épocas passadas, desde a Antigüidade, a maior informação que nos
chega sobre as vítimas da tuberculose é relativa às camadas
sociais mais altas.
Como disse Marx, a história da humanidade é a
história das classes dominantes. Por isso, em relação à tuberculose,
sabemos muito mais dos dramas e comportamentos dos doentes mais
destacados e sua repercussão social na época considerada.
Dos milhões
de desvalidos que morreram consumidos pela tuberculose, tanto no
passado como na modernidade, praticamente nenhuma notícia se tem
relativamente aos seus sofrimentos e dramas. Nada de lirismo, pobre
não tem possibilidades de ser romântico.
Assim, desde a Antigüidade, como por exemplo o Egito, quase tudo que
se sabe da tuberculose refere-se aos faraós e altos sacerdotes. Pela
datação com o carbono 14, esqueletos com lesões ósseas compatíveis
com a tuberculose têm sido encontrados em várias regiões, sendo o
mais antigo de cerca de 5.000 a.C.
Não há todavia certeza etiológica,
porque, mesmo em casos com presença de micobactérias, pode tratar-se
de germes que se desenvolvem nos solos.
A primeira evidência mais
segura de tuberculose constatou-se em 44 múmias bem preservadas,
datando de 3.700 a 1.000 a.C., todas em Tebas; a maioria é da 21a
dinastia do Egito. Em muitas, as destruições e sínfises de vértebras
são compatíveis com mal de Pott. Uma múmia tinha o pulmão
preservado, com lesões pleuropulmonares e sangue na traquéia.
Esses
achados revelam que muitos faraós foram tuberculosos e morreram
extremamente jovens. Amenophis IV e sua linda esposa Nefertiti, cujo
busto de ouro maciço é a maior atração do museu egípcio de Berlim,
morreram de tuberculose em torno de 1.300 a.C.
A primeira múmia plebéia com tuberculose foi identificada em índia
do Peru, com técnicas de biologia molecular. É de jovem inca, cujo
corpo se mumificou espontaneamente devido às condições peculiares
do terreno. No pulmão direito havia volumoso nódulo hilar, contendo
bacilos com o DNA conservado. Com a ampliação da PCR, identificaram-se
seqüências RFLP da inserção IS 6110 específica do complexo Mycobacterium tuberculosis,
não sendo possível saber se era o bacilo humano ou bovino.
A datação
constatou que a índia viveu há 1.100 a.C.; é o primeiro diagnóstico
bacteriológico de certeza em múmia milenar, comprovando a existência
da tuberculose na América, na era pré-colombiana.
Dos últimos séculos bem se conhecem as repercussões da tuberculose
nas classes sociais mais altas e os dramas de indivíduos que pela sua
posição e notoriedade fizeram história. Deles falaremos adiante.
Em
contraposição, das multidões populares que sofreram a tuberculose, em
condições muitas vezes abaixo da dignidade humana, quase nada foi
descrito. Temos apenas índices estatísticos cujos dados são sempre
abaixo da realidade.
Hordas de tuberculosos existiram, na Idade Média, por quase toda a
Europa. Se temos conhecimento delas é somente porque, nesse quadro
epidemiológico, foram implicados os monarcas cristãos, a quem por
superstição religiosa atribuíram-se poder de cura.
Só por isso
sabemos que, naquela fase medieval, havia multidões de tuberculosos,
com formas graves disseminadas da primo-infecção, com manifestações
linfoganglionares fistulizadas, as escrófulas, que acorriam em massa,
muitos, caquéticos, para receber o toque encantado da medalha real (Item 5).
Mais tarde, entre o final do século 18 e início do 19, efetuou-se a
revolução industrial na Inglaterra, estendendo-se pela Europa. Multidões de operários concentraram-se nos maiores centros urbanos;
adultos e crianças laborando 15 e mais horas por dia, amontoados em
mansardas, subalimentados, vivendo abaixo da condição humana, foram
vitimados aos magotes pela tuberculose, cuja mortalidade atingiu a
800 por 100.000, e, em Londres, o elevado coeficiente de 1.100 por
100.000.
Em meados do século 19, operaram-se em Paris grandes reformas
urbanas, promovidas pelo Barão de Haussmann, sob o governo de Luis
Napoleão Bonaparte. A cidade foi embelezada com imensos jardins e
largas avenidas, que hoje se admiram. Extensos quarteirões de casas
populares foram demolidos.
Multidões imensas de trabalhadores pobres
(1 em 8 parisienses estava registrado na Agência de Indigentes) foram
jogados para a periferia nas piores condições imagináveis, em
cortiços improvisados, geralmente com uma única privada, sem esgoto,
para mais de 100 pessoas. Adultos e crianças, na maior promiscuidade,
dormiam amontoados no chão. Nessa massa humana, os óbitos por
tuberculose atingiam a 80% da mortalidade geral.
Na segunda metade do
século 19, a mortalidade tuberculosa nas capitais européias ia de
400 a 600 por 100 mil, atingindo a 30% da mortalidade geral.
Na Primeira Guerra Mundial (1914-18), na França e na Alemanha,
contraíram tuberculose ativa, respectivamente, 80.000 e 50.000
combatentes, muitos dos quais perambulavam pelas ruas por não haver
mínimas condições de hospitalização.
Grande mortandade tuberculosa
atingiu os pretos senegaleses, recrutados pela França para lutarem
contra os alemães.
Estes contaminaram-se em massa nas trincheiras e
foram dizimados com quadros graves de primo-infecção, com múltiplas
adenomegalias caseosas, torácicas e abdominais, das quais Borrel fez
estudo que se tornou clássico. Ante tantos casos ele exclamou: "il
neige tuberculose".
Em toda a história das conquistas territoriais das colonizações,
onde o homem civilizado chegou, levou também o bacilo da tuberculose,
contaminando os nativos, os quais, sem defesas imunitárias, tiveram
grandes contingentes dizimados. Descreveram-se episódios semelhantes
na colonização dos países da África, Ásia, América, e Polinésia.
Ante esse quadro repetido de forma monótona, Webb desenvolveu a tese
de que "ante a terrível mortandade provocada pela tuberculose nessas
populações expostas, essa doença foi um dos pontos cardeais, como
maior aliado dos civilizados nas conquistas dos povos aborígenes".
Um parêntesis para lembrar que na colonização do Brasil vieram
jesuítas e colonos, na maioria tuberculosos, para cá, atraídos e
destacados pelos "benefícios do clima ameno". Eles contaminaram os
índios, tuberculisando-os em massa, na primeira fase da colonização.
Em cartas de Inácio de Loyola (1555) e de Anchieta (1583) dirigidas
ao Reino, está descrito que "os índios, ao serem catequisados,
adoecem na maior parte com escarro, tosse e febre, muitos cuspindo
sangue, a maioria morrendo com deserção das aldeias".
Na atualidade, na década dos anos 1990, morreram de tuberculose no
mundo 30 a 35 milhões de pessoas, não obstante a quimioterapia, sendo
que quase todas, como foi dito atrás, nos países em desenvolvimento
(98,8%).
De toda essa legião anônima, não há registros dos seus sofrimentos, dramas e tragédias. Só temos números. Frias cifras.
2. Sobre alguns tuberculosos célebres
Os personagens que viveram antes de 1840, mencionados como
portadores de tuberculose, eram na época chamados "tísicos".
O termo
tuberculose só foi criado em 1839, por Schoenlein, que aproveitou a
raiz "tubérculo", nome dado ao nódulo lesional por Sylvios Deleboe, em
1680.
Tuberculosos célebres que figuram nas principais enciclopédias são:
16 reis e imperadores, duas rainhas, 53 com titulagem de nobreza, 101
escritores, 110 poetas, 40 cientistas, 8 filósofos, 16 músicos, 9
pintores e 9 santos católicos.
É interessante destacar que grande
número desses tísicos teve laringite como complicação do processo
pulmonar, tendo muitos deles morrido sufocados.
Esse pequeno grupo de 364 tísicos amalgamou a tuberculose à história
cultural das manifestações criativas e à dramaticidade da doença.
Somente alguns casos são aqui comentados.
2.1. Médicos de renome internacional
Começamos com médicos famosos. Bichat, no início do século 19,
morreu tuberculoso com laringite sufocante. Sua contribuição
anatomopatológica da doença foi importante, sendo o primeiro a
vincular definitivamente a laringite com a tísica.
René Jacinto Teófilo Laennec contraiu a tuberculose infectando-se
durante os estudos anatomopatológicos, como se descreverá mais
adiante.
Vindo da província, logo tornou-se professor. Aprofundou
seus estudos na clínica experimental e anatomopatologia, entrando
para a história como um dos maiores tisiólogos do século 19.
Seu
grande mérito foi o de dar unidade às lesões tuberculosas,
demonstrando que as diferentes lesões, encontradas nos tísicos, eram
todas manifestações de uma única doença, equivalendo, por exemplo,
às diferenças aparentes de um mesmo fruto, quando verde e depois
maduro. Toda a sua demonstração está condensada no "Tratado de
Auscultação Mediata", título relacionado com o estetoscópio que
inventou.
Na época suas idéias foram submersas por Broussais, notável
orador, que sustentava a inflamação como geradora de todas as
doenças. Levou mais de um século para se aceitar definitivamente a unidade
das lesões tuberculosas.
No final do século 19, dominava o conceito
do prestigioso Wirchow, pontificando que a tísica tinha uma
dualidade, de um lado a componente pneumônica caseosa e de outro o
tubérculo, complicação gerando a expansão tuberculosa.
Esse disparate
teve tal difusão, que Niemayer, eminente tisiólogo, chegou a dizer:
"o tísico deve resguardar-se de não tornar-se tuberculoso"(!).
Laennec feriu-se no polegar esquerdo durante uma autópsia de
tuberculoso; alguns dias após surgiu inflamação supurada e adenite
axilar. Há, portanto, evidência de se tratar de complexo primário. Mais
tarde desencadeou-se quadro clínico, com tosse, expectoração, às
vezes, hemoptóicas.
É de admirar que Laennec não tenha dado a
importância devida, "aceitando" a tuberculose somente no período
final quando voltou à sua cidade natal.
Existe um único quadro de
Laennec, muito diferente dos divulgados. Nele, ele está com o
semblante impressionantemente magro, enrugado, pescoço fino "nadando"
dentro do colarinho de celulóide, o qual está no museu da Faculdade
de Medicina de Paris.
Edward Livingston Trudeau, nos Estados Unidos, foi notável tisiólogo
atingido pela tuberculose, contagiado por seu irmão. Doente já antes
da descoberta do bacilo da tuberculose, foi viver em Andirondak
Lake, onde, como recomendava-se naquela época, fazia longas galopadas
diárias e caçava nas matas, com estafantes caminhadas.
Usou um
casarão, núcleo inicial do que seria o famoso "Andirondak Cottage
Sanitarium", no qual foram tratados mais de 2.000 tísicos.
Na
frontada, em letras graúdas, exibia-se o aforismo de Hipócrates:
"Curar às vezes, aliviar quando possível, consolar sempre".
Esse
aforismo foi também a mensagem dos primeiros congressos
internacionais de tuberculose, atestando a exigüidade da terapêutica
da época.
Trudeau fundou o "Saranac Laboratory to Study of
Tuberculosis" que se tornou o mais famoso da América. Os maiores nomes
da bacteriologia e patologia ali desenvolveram investigações. Na
escola de pós-graduação que fundou formaram-se 600 especialistas.
Na
auto-biografia escreve que ao receber o diagnóstico de tuberculose
pensou: "fiquei siderado. Pareceu-me que o mundo subitamente ficou
sombrio, o universo perdeu todo traço de luz. Estava atingido pela
tísica, doença das mais fatais que significava a morte sobre a qual
jamais sonhei".
Não obstante venceu a doença que se cronificou, com a
qual conviveu até mais de 50 anos de idade, com capacidade de
trabalho e espírito científico, para criar uma das maiores
organizações de luta contra a tuberculose. Em sua homenagem fundou-se
a "American Trudeau Society" que por anos foi a editora da prestigiosa
revista "American Review of Turberculosis".
Entre outros tisiólogos ilustres que sofreram de tuberculose cite-se
Georges Canetti, cuja contribuição para o conhecimento da doença, de
sua imunologia, fisiopatologia, bacteriologia, clínica e
epidemiologia, trouxe preciosa colaboração com suas pesquisas e
publicação de múltiplos artigos e livros técnicos.
Figura destacada
em todos os congressos e com altas funções em órgãos de luta
antituberculose, notadamente da "União Internacional Contra a
Tuberculose", erigiu-se em um dos mais altos pilares da moderna
tisiologia.
Foi o idealizador, com a cooperação de Rist e Grosset, do
chamado método das proporções para teste da sensibilidade do Mycobacterium tuberculosis, difundido em todos os países, e largamente empregado no Brasil.
Florence Nightingale, enfermeira, contraiu tuberculose aos 30 anos e
não obstante chegou aos 90 anos, trabalhando intensivamente. Conseguiu dar status profissional às enfermeiras e tornar científica a
enfermagem. Seu maior empreendimento foi humanizar os hospitais onde
os doentes viviam amontoados em condições sórdidas.
Teve importante
participação na luta contra a tuberculose na Europa e na construção
de hospitais específicos para os tísicos, divulgando nos diversos
países a concepção da cura sanatorial, melhorando as condições de
internação dos tuberculosos como política governamental de saúde
pública.
Também sofreram de tuberculose, Chevalier Jackson, pioneiro da
broncoscopia, e Ramón y Cajal, prêmio Nobel pelos seus clássicos
estudos de anatomia fina do cérebro e da degeneração das fibras
nervosas.
2.2. Cientistas e literatos
Champollion - tísico crônico, decifrou a pedra de Rosetta
descoberta no Egito numa expedição de Napoleão, podendo hoje ser
admirada no Museu Britânico.
Nela está inscrito decreto de Ptolomeu V
em grego, em caracteres demódicos e hieróglifos. Essa circunstância
facilitou a decifração da escrita egípcia e o conhecimento de sua
história.
Os estudos consumiram 5 anos e historiadores dizem que a
faculdade de análise e paciência exaltada nos tuberculosos crônicos
foi decisiva para o êxito da decifração.
Braille - cego, organista, contraiu a tuberculose e foi obrigado a
permanente repouso que lhe facultou a paciência e o tempo para criar
um alfabeto com pinos salientes para a leitura dos cegos,
universalmente adotado.
Priestley - na fase mais intensa de sua tísica - acabou com a teoria
do flogístico, descobriu e isolou o oxigênio. Morreu com a
complicação da laringite.
Dos tuberculosos que suportaram hemoptises, febres, complicações de
laringite e outros padecimentos, produzindo sem esmorecer obras para a
posteridade, embora quase todos sucumbindo precocemente, há uma
lista infinda.
Sintetizando, lembraremos alguns:
Herbert Lawrence, celebrizou-se com "Os Amores de Lady Chatterley",
romance que causou escândalo, sendo processado.
Franz Kafka, em dois
dos seus romances imprime conotações simbólicas com a tuberculose:
"O
Processo" no qual o personagem central sofre a angústia de não saber
de onde e como vem a acusação, incerteza que ocorre no tísico com
a inquietação ante a incógnita do futuro.
"A Metamorfose", onde o
personagem se transforma numa forma de batráquio sem capacidade de
reação, como o doente ante a progressão inexorável do mal.
Kafka
sofreu final dramático, com intensa dispnéia e dores lacinantes; ao
seu amigo Klopstok, que dele cuidava, implorava injeções de morfina
clamando: "se você não me mata, você é um assassino".
O'Neill
realizou quase toda a sua obra dramática, convivendo com a
tuberculose.
Roland Barthes tem sua obra pontilhada por surtos
episódicos da tísica.
Albert Camus no romance "A Peste" descreve a
invasão de ratos que é considerada crítica ao nazismo; para alguns
analistas simboliza a difusão da epidemia tuberculosa no norte da
África, onde se passa a ação.
É extensa a galeria de escritores
tuberculosos que em suas obras especularam sobre a doença
explicitamente ou simbolicamente ou pelos personagens que criaram:
Maximo Gorki, Prosper Merimée, Somerset Maughan, Paul Eluard, Allan
Poe, Edmond Rostand (notório pelo Cyrano de Bergerac e pelo L'Aiglon,
filho de Napoleão, descrevendo a dramaticidade de sua morte pela
tuberculose), Alfred Musset, Henry Murger, Thomas Mann. Sobre os três
últimos, voltaremos nos itens 9 e 13.
Dos poetas de renome mundial, que sofreram de tuberculose, a lista é
também extensa, mas bastará chamar a atenção para os quatro
seguintes:
Shelley desesperava-se por consumir-se na tuberculose, vendo a alegria de viver dos seus amigos.
E vós outros, ventos selvagens / Podeis dormir em calma / Enquanto tão fortemente palpita/ A tormenta em meu peito?
Schiller, não obstante roído pela tuberculose que literalmente
destruiu seus pulmões, com otimismo exasperado cantou a "Ode à
alegria" que a sentia fugidia. Esses versos com sua mensagem pela
confraternização universal foram usados por Beethoven no coral do
último movimento da 9a. sinfonia.
Byron, poeta inglês que tanto influiu no romantismo, sobretudo da
França, transfigurava-se nos versos líricos. Além de outros
tratamentos extravagantes submeteu-se a incontáveis sangrias como um
dos tratamentos heróicos da tísica, ironizando os médicos:
"não
tendes outro remédio? Morre mais gente da lanceta dos médicos que da
lança dos guerreiros".
Seu amor com Tereza Aguacciole será contado no
item 13.
Antonio Nobre, congenitamente inspirado, afogava-se em hemoptises,
tratando-se da ilha da Madeira até Davos na Suíça.
Sempre enganado
pelos médicos, sabia de sua morte próxima como deixa entrever nestes
versos:
Poeta: Coveiro,
meu amigo! Abre-me a cova / funda, tão funda como o negro mar./ Eu
quero nessa recolhida cova / dormir, enfim, a noite milenar.
Coveiro: Pálido
moço, ó meu pequeno poeta! / Doce fantasia, mística visão! / Dize:
que mágoa trágica e secreta / te roeu assim depressa o coração. / Que
vens pedir-nos? Paz? Consolação? / Olha que nada posso; eu sou um
morto,/ Eu sou um vivo, morto de ilusão.
Moliére (Jean Baptiste Poquelin) no século 17 satirizava os costumes
e sobretudo os médicos, estes, naturalmente, porque não aliviavam os
padecimentos que a tísica lhe infligia. A maior crítica sarcástica
está contida em sua peça "Le malade imaginaire".
A espinafração
antológica está na cena na qual cinco examinadores se revezavam
argüindo o formando em medicina, sobre qual o tratamento da hidropisia,
da hipocondria, dor de cabeça, dor no peito etc, etc.
A resposta do
doutorando é invariavelmente a mesma para todos esses diferentes
males, e os examinadores em coro dão a sua aprovação. A linguagem é
um misto de francês-latim grotesco. Assim para o tratamento da
hidropesia a resposta é dada:
Clisterum donare / Postea seignare / En suita purgare.
Dizem os mestres examinadores:
Bene, bene, bene respondere/ Dignus est intrare / In nostro docto corpo.
O exame continua, sempre com a mesma resposta para cada mal diferente, e o candidato afirma no final:
Resseignare, repurgare et reclisterizare!
A banca examinadora aprova jubiliza exigindo um juramento:
Juras gardere statuta/ Per facultatem prescripta,/ Cum sensu et julgamento.
Moliére, ele próprio em cena representava o formando e ao dizer
Juro! com toda a força de sua voz, tem uma hemoptise. O público cai
na gargalhada imaginando tratar-se de truque cênico. Carregado para a
casa o célebre dramaturgo morreu três dias, após a terceira
representação da peça, vitimado pela tuberculose.
Ao passar a lista acima, ressalte-se que não há mais possibilidade
de surgir um tuberculoso que marque a história da doença, como no
passado. Exemplo: tivemos recentemente a tuberculose de Nélson
Mandela o grande líder contra o apartheid na África, que pela sua
popularidade mundial, se fosse há um século antes, teria capitalizado
a doença aumentando-lhe a auréola.
A poderosa trinca HRZ tirou-lhe
essa chance...
Personagens célebres sobre os quais pairam dúvidas quanto ao
diagnóstico de tuberculose são:
Goethe, Descartes, Kant, Mozart,
Beethoven, Rousseau, Balzac, Ana d'Áustria Rainha da França, Henrique
VIII da Inglaterra, Adriano Imperador Romano, Ovídio Publio poeta
da Roma Antiga.
Afinal, a literatura mundial da segunda metade do século 19 e
primeira deste, coincidindo com suas fases romântica e realista, está
impregnada de tuberculose.
Escritores que não foram tuberculosos,
descreveram e analisaram personagens tuberculosos: os mais
proeminentes, Vitor Hugo, Zola, Flaubert, Dickens e Eça de Queiroz.
Não há descrição mais realista de criança morrendo com meningite
tuberculosa, como a de Aldous Huxley no romance "Point counter
point". A palavra meningite não é pronunciada, porém é dela que se
trata, pela invulgar capacidade eidética do Autor, descrevendo o
quadro com nitidez e profundo realismo.
Entre os modernistas, Boris
Vian, francês, jazzista, participante do movimento existencialista
encabeçado por Sartre, no seu romance "L'ecume des jours", sem citar o
termo tuberculose, descreve o progresso de um nenúfar que se
desenvolve nos pulmões de uma jovem, cujos ramos e flores multicoloridas
vão se entranhando nos alvéolos. A medida que o nenúfar cresce, os
sintomas respiratórios intensificam-se e o quarto se estreita, o
teto se abaixa, tornando-se cada vez mais exíguo, como o tempo da vida
da paciente que se encurta.
De toda a literatura este romance é do
maior lirismo e dramaticidade, descrevendo a tuberculose pulmonar,
por um ângulo surrealista.
3. A tuberculose, a poética e literatura no Brasil
A poética no Brasil por todo o tempo até o final da primeira metade
deste século está quase toda impregnada pela tuberculose. Passa de
quarenta a relação dos vates vitimados pela tuberculose, entre os
notórios e os menos conhecidos. A imensa maioria faleceu entre os 21 a
35 anos de idade.
Eram jornalistas, advogados, rábulas, funcionários
públicos, todos boêmios vivendo a noite nos bares, botequins,
discutindo, bebendo e fazendo versos.
Poetas pré-românticos,
românticos, parnasianos e modernistas, conforme seu temperamento e
evolução da doença, extravasaram seus sentimentos, uns sarcásticos,
amargos, outros romantizando seus sofrimentos e outros ainda,
fleugmáticos, ironizando sua sorte.
Castro Alves, baiano, com 23 anos compôs estes dramáticos versos,
alta madrugada, num bar do Largo São Francisco, em frente à Faculdade
de Direito, em São Paulo:
Eu
sei que vou morrer... dentro do meu peito /um mal terrível me devora
a vida. / Triste Assaverus, que no fim da estrada / só tem por
braços uma cruz erguida. / Sou o cipreste qu'inda mesmo florido /
Sombra da morte no ramal encerra! / Vivo - que vaga entre o chão dos
mortos, / Morto - entre os vivos a vagar na Terra.
Álvares de Azevedo, sobre a vida que a tuberculose estava lhe roubando:
Descansem
o meu leito solitário / Na floresta dos homens esquecida / À sombra
de uma cruz e escrevam nela: / Foi poeta, sonhou e amou a vida.
Casimiro de Abreu revelou a angústia do futuro que o esperava:
A
febre me queima a fonte / E dos túmulos a aragem / Roça-me a pálida
face / Mas no delírio e na febre / Sempre teu rosto contemplo.
Eu sofro; o corpo padece / E minh'alma se estremece / Ouvindo o dobrar de um sino.
Raymundo Correia desesperado bradou:
Larga
essa lira caquética! / Ouve! E desculpa esta epístola! / Porque
antes não curas hética, / Pústula, escrófula e fístula? / Larga
essa lira caquética! / Ouve! E desculpa essa epístola!
Nenhum poeta foi tão amargo e sarcástico ante a tuberculose quanto
Augusto dos Anjos. Entre muitas de suas poesias no mesmo tom patético
destacam-se estas duas quadras:
Falar
somente uma linguagem rouca, / Um português cansado e
incompreensível, / Vomitar o pulmão na noite horrível / Em que se
deita sangue pela boca!
Expulsar
aos bocados, a existência / Numa bacia automata de barro /
Alucinado, vendo em cada escarro / O retrato da própria
consciência...
Barbosa de Freitas, cearense, trabalhava na imprensa passando as
noites na boemia. Muito jovem e já tuberculoso internou-se como
indigente na Santa Casa de Fortaleza. Ali morreu abandonado,
achando-se sob o lençol, longa poesia da qual pinçamos estes
lancinantes versos:
É
cedo ainda, oh pálidos coveiros! / Ainda quero beber venturas,
enganos... / Quero cantar a minha doce aurora / Que me sorri, aos
meus vinte e dois anos ! É cedo ainda, oh pálidos coveiros.
Este poeta plebeu teve seu nome perpetuado em aristocrática rua de Fortaleza.
Martins Fontes, nas tertúlias, bebia por horas seguidas. Tuberculoso,
foi se tratar na Ilha da Madeira onde em dramática quadrinha
lamentou-se:
Longe defronte do mar / Triste, saudoso, sozinho aqui estou / Vim à Madeira buscar / A saúde que seu vinho me levou.
Nidoval Tomé Reis, poeta modernista, desconhecido, viveu em pensões
pobres de Campos do Jordão, onde padeceu da doença e da miséria; seus
versos foram amargos:
Noite
alta / Outros dormem venturosos / Eu tenso / Tusso e escarro sangue.
/ Os outros são felizes! / Eu, caminhando para o fim da vida / Vou
jogando pela boca afora / Esponjas sanguinolentas / Dos meus
apodrecidos pulmões...
Da longa galeria de poetas tuberculosos da qual destacamos uns
poucos exemplos, terminamos com Manoel Bandeira, que conviveu com uma
tuberculose de surtos agudos nos primeiros anos, para depois
cronificar-se e viver por mais de 80 anos. É o exemplo da simbiose da
tísica crônica com a vocação literária.
Inicialmente tratou-se em
sanatório da Suíça, onde também esteve internado Antonio Nobre, e
conviveu com Paul Eluard notório escritor. Produziu inúmeras poesias,
comentando a doença, as angústias, incertezas do futuro, com tintas
tristes pessimistas:
Minha
respiração se faz como um gemido / Já não entendo a vida e se mais a
aprofundo / Mais a descompreendo e não lhe acho sentido
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Temo a monotonia e apreendo a mudança / Sinto que minha vida é sem
fim, sem objeto... / Ah, como dói viver quando falta a esperança.
Aos trinta anos, Manoel teve o último surto, estabilizando-se depois a
doença. Aos poucos vai adquirindo mais confiança no futuro, e como
ele mesmo disse, foi depois dos 50 anos que seus horizontes se
ampliaram. Embora a morte, quase sempre estivesse presente em seus
versos, passou a encarar a tuberculose com fleugma, até dela
ironizando:
Já
fui sacudido, forte,/ De bom aspecto, sadio /Como os rapazes do
esporte / Hoje sou lívido e esguio / Quem me vê pensa na morte.
O modo irônico e até humorístico para a tuberculose está bem
explicitado em famoso verso sobre o tratamento com o pneumotórax que
será abordado no item 8.
Vários poetas não doentes, porém com familiares tuberculosos,
transpuseram em versos suas preocupações com o mal.
Jamil Almansur
Haddad, poeta modernista, com saúde de ferro ante os quadros que
presenciou de tísicos, compôs "Tuberculose galopante":
Noutros
tempos a morte / Tinha asas e voava / Hoje ela me veio / Montando um
cavalo / E eu irei na garupa / Numa viagem veloz / Putupum, putupum /
- - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Onde eu compro a passagem / No meu leito de doente / Para o país
sossegado / País louro da morte / Onde um pulmão escavado / Serve de
passaporte, / Putupum, putupum
É um país sossegado / Que
não tem hemoptise; / É uma terra decente,/ Sem escarros no chão,/
Putupum, putupum. País sem suores frios, / Sem cadeiras de lona, /
Sem bacilos de Koch / Putupum, putupum / E onde o vil pneumotórax /
Por certo é ignorado ‘ / Putupum, putupum
Putupum.
A "Balada do Tísico" termina com simbolismos lembrando o romance de Boris Vian já citado:
Senhor!
Piedade! Meus pulmões negros / Sofrem agora angústias tamanhas / Que
eles no seu retiro nefando / Recordam duas torvas montanhas / Que o
túnel da amargura vai cavando.
No meu pulmão há jardineiros
/ Que, quando chega a primavera, / Cuidam dos trágicos canteiros /
Donde despontam papoulas fluídicas,/ Vermelhas rosas liquefeitas.
Sangue que não te estancas! / Suor que não te enxugas! / Andam por
meu pulmão milhões de sanguessugas! / Vai prosseguindo o louco a
canção otimista: / Pulmão! Pulmão! Ó meu triste pulmão! / Como se o
desgraçado tivesse pulmão...
Na fase anterior à quimioterapia, em que viveram os poetas
mencionados, a epidemia tuberculosa minava o País, e até os poetas da
literatura de cordel dela se ocupavam, cujos versos eram vendidos
nas barracas de jornais; o exemplo abaixo é citado ao acaso entre
dezenas:
No
circo o público era multidão / Nisso a linda trapezista despencou /
Boca sangrando, estatelada no chão. / O médico que chamavam a
examinou: / "É tuberculose que feriu o pulmão / Fazendo nele um
extenso rendado / De cavernas, todo ornado".
Não temos conhecimento de exemplo igual ao ocorrido no Brasil, onde
dezenas de poetas tuberculosos ou não, tenham se servido da
tuberculose para meditar sobre sua interferência humana, seja de
forma romântica, realista ou amarga.
Contrariamente do ocorrido com os poetas, poucos prosadores
nacionais foram tuberculosos. Júlio Ribeiro, popularizado pelo
romance "A carne", não se ocupa da doença nos seus escritos.
Paulo
Setúbal, notabilizado pelos livros históricos, escreveu grande parte
de sua obra em São José dos Campos, onde esteve em tratamento por
longo período. Agnóstico que era, converteu-se ao catolicismo e
contou-nos que isso sucedeu durante uma semana de alta febre, tempo
que levou para contar a transformação no seu livro "Confiteor".
Graciliano Ramos superou parcialmente a tuberculose, tabagista
inveterado, tinha também bronquite e enfisema e faleceu de câncer
broncogênico. Nas "Memórias do Cárcere" transfere suas reações ante a
tuberculose para personagens tuberculosos com quem conviveu na
prisão.
Escassa é nossa literatura de ficção que trata da tuberculose,
destacando-se Dinah Silveira de Queiroz, que tinha tuberculose na
família e Paulo Dantas que era tuberculoso. Ambos escreveram sobre
Campos do Jordão como se menciona no item 9.
4. Interferência da tuberculose na história política
Foi sugerido que a tuberculose de Eduardo VI da Inglaterra, nos
meados do século 16, foi responsável pela chamada "Guerra das Rosas",
porque o poder passou a ser exercido por seu tio que exilou o futuro
Henrique VII. Eduardo VI, tuberculoso, morreu com 16 anos; se tivesse
vivido e reinado efetivamente a guerra entre as casas de York e
Lancaster, da qual saiu arruinada toda a nobreza, não teria
acontecido.
Na França, sucedeu que Luis XIII e seu Primeiro Ministro Cardeal
Richelieu eram tuberculosos. O primeiro sofria episódios agudos que o
prostravam e o retinham no leito. Com tantas sangrias, purgativos e
outros tratamentos danosos, com o ventre enorme permanentemente
inchado, relegou todas as obrigações do reinado a seu ministro
Richelieu que vivia com sua tísica crônica.
Especula-se que o rei não
teria feito a aliança com potências contrárias aos Habsbourg, como
foi promovida pelo Ministro, alterando o curso dos acontecimentos
políticos da época. Do mesmo modo, argumenta-se que vários acordos e
manobras com outras potências não teriam se efetuado. Richelieu
morreu vários meses antes de Luis XIII, não havendo tempo nem
disposição, para este de alterar o quadro político.
Historiadores, também, argumentam que no século 18, se o primogênito
Luis, filho de Luis XV e pai do futuro Luis XVI, não fosse
tuberculoso, teria vivido para assumir o trono governando de modo
diferente; Maria Antonieta não teria sido rainha, seu destino não
seria trágico como o foi; e a Revolução, se desencadeada, poderia ter
curso diferente.
Analise-se ainda outro ângulo. Com a morte do
primogênito de Luis XVI, seu segundo filho, criança, foi entregue
pela direção revolucionária, à guarda de um sapateiro, sendo depois
proclamado Luis XVII pelo Conde de Provence.
Eis que ele morreu de
tuberculose com 10 anos, em 1795. Embora persistam dúvidas sobre sua
identidade, (que agora vão ser derimidas pela análise do DNA), especula-se que se o pequeno príncipe não tivesse sido vitimado pela
tuberculose, os acontecimentos pós Revolução poderiam ter
obstaculizado a ascensão de Napoleão.
Porém, ainda perora-se que a
Restauração talvez não tivesse ocorrido, se o filho de Napoleão, com o
título de Rei de Roma e proclamado Napoleão II pela Câmara dos Cem
Dias, não tivesse contraído tuberculose.
Doente, foi levado por sua
mãe Maria Luísa, para a Corte de Viena, ficando vigiado e retido no "Castelo de Schönbrun", com o título de "Duque de Reichstadt", onde foi
submetido a tratamento contraproducente, como se verá adiante. Na
prática, foi assim mantido por Metternich, que manobrava para
extinguir a dinastia napoleônica.
L'Aiglon, como o apelidaram, foi
vitimado por tuberculose caquetizante, morrendo sufocado devido a
traqueolaringite, aos 21 anos. Sua máscara mortuária no quarto onde
faleceu no "Castelo de Schönbrun", mostra um rosto magro apergaminhado
como se fosse um octogenário.
Se L'Aiglon não tivesse sido vitimado
pela tuberculose, Luis Napoleão (Napoleão o pequeno, como Victor Hugo
o chamava) não teria implantado o 2.o Império.
Assim, a tuberculose mudou a história, na fase de sua maior transformação, operada pela Revolução da França.
Na América Latina, Simon Bolívar - "El libertador", considerado um
gênio político-militar, foi tuberculoso desde a juventude, quando fez
várias curas de repouso. Conseguiu vencer a doença, e embrenhar-se
nas lutas pela libertação dos países sob domínio espanhol.
No
final, as lesões quiescentes reativaram-se. Morreu em Santa Marta,
Colômbia. O laudo da autópsia registra: "grande cavidade no pulmão
direito e extenso foco em vias de calcificação à esquerda".
Pobre e
abandonado, tiveram que procurar até camisa para enterrá-lo.
É
de interesse mencionar que San-Martin, outro grande lutador pela
libertação da América espanhola, hoje venerado na Argentina, também
teve implicações com a tuberculose, porém na pessoa de sua mulher
que tratou-se na França, lá morrendo,
5. O toque da realeza nos escrofulosos
É uma incógnita como nasceu a crença do poder real de curar escrófulas, com seu cerimonial romântico-teatral. Há muita probabilidade dessa taumaturgia ter sido iniciada por
Clovis, Rei dos Francos, no final do século 6, após converter-se ao
cristianismo.
Com a finalidade de angariar maior apoio popular surgiu
a idéia de tocar com moeda de ouro as escrófulas dos tuberculosos,
por ser a única lesão exteriorizada da doença, muito disseminada na
Europa.
O cerimonial resultou proveitoso, transformando-se em costume
e difundindo-se entre os monarcas cristãos. Na França, no século 9
sob os reinados de Felipe e Luis VI, quando se instituiu a frase "o
Rei te toca e Deus te cura", essa prática generalizou-se.
Carlos II
da Inglaterra durante os 25 anos de reinado tocou 90.798
escrofulosos. Ali a doença foi batizada de King's evil e, na França, mal
du Roi.
Esse cerimonial atingiu o apogeu com Henrique IV na França,
que lhe imprimiu um ritual teatral e Ricardo, o Confessor, na
Inglaterra.
Shakespeare na tragédia Macbeth (que reinou no século 12)
menciona o poder do Rei de curar as escrófulas, acentuando como
médicos estavam convictos disso, pela afirmativa do personagem
médico, na cena 3a do ato 4o:
"Há uma multidão de
sofredores esperando sua cura (pelo Rei); sua doença resiste a todas
as tentativas da arte. Em troca curam-se imediatamente, tão sagrado é
o poder que Deus depôs em suas mãos".
A taumaturgia dos Reis com o toque da moeda, tinha além de mágica,
uma conotação da aproximação do povo com o monarca, pois o doente,
último da escala social, era cuidado diretamente pelo Rei que detinha
a autoridade divina que Deus lhe concedia.
Ângulo
a ser ressaltado é o enorme número de escrofulosos, refletindo a
epidemia tuberculosa, atingindo grandes contingentes da população por
toda a Europa, com formas clínicas de primo-infecção, de
disseminação linfohematogênica em indivíduos sem resistência, vivendo
em precaríssimas condições sociais. As peregrinações para o toque
real constituíam multidões de criaturas com formas extensas da
doença, esquálidas e caquéticas.
A ligação das escrófulas com a tuberculose foi desconhecida até
Sylvius Deleboe que, em 1680, a identificou após ter batizado de
tubérculo o nódulo encontrado nos pulmões dos tísicos.
Com o tempo o toque real nos escrofulosos foi perdendo a mística. No
século 17, Guilherme reinando no Principado de Orange, agnóstico,
não acreditava nessa taumaturgia.
Pela pressão do povo, dos nobres e
de médicos teve de realizar a cerimônia, alterando porém a fórmula
por: "Deus te dê melhor saúde e mais senso comum". Aos poucos as
moedas de ouro, muito caras, foram sendo substituídas por outras de
prata e por fim de cobre, perdendo seu encanto.
A crença da cura das escrófulas pelo toque real durou 12 séculos e,
em 1825, fez-se o último cerimonial no dia da coroação de Carlos X
que tocou 130 escrofulosos trazidos por Dupuitren, célebre cirurgião,
amigo de Laennec.
6. A tortuosa trajetória do tratamento da tuberculose, quando não havia tratamento
Este capítulo não é sobre a história da terapêutica da tuberculose.
São apenas citados aspectos peculiares dos tratamentos propostos até
a descoberta do bacilo da tuberculose. Desta, até a era
quimioterápica, aborda-se também alguns ângulos do pneumotórax e da
cura sanatorial, pela universalidade que tiveram.
Por quase 3 milênios, desde as primeiras referências sobre
tratamento da tísica (civilizações hindu e persa) passando por
Hipócrates, as escolas de Cós e Cnide na Grécia, depois Alexandria,
Galeno em Roma, Salermo, Montpellier, a Renascença até a primeira
metade do século 20, recomendou-se repouso e alimentação, enfeixados
modernamente sob a denominação "regime higienodietético".
Climas amenos
foram recomendados, crescendo nos últimos cem anos do período
considerado, a mística do ar das montanhas. No final, aumentaram as
indicações de helioterapia, que já vinham sendo feitas, sobretudo
para as formas ósseas.
O tratamento de sintomas hemoptóicos perde-se na noite dos tempos.
As primeiras recomendações são de infusão de repolho, de pó de casca
de caranguejo, de pulmão de raposa e de fígado de lobo em vinho
tinto...
O grande Avicena, mais romântico, receitava infusão de rosas
vermelhas em mel, administrada por via traqueal! Para as hemoptises
graves Erasistrato e Europhilus aplicavam garrotes nos braços e
coxas, prática que ainda eventualmente se usa para diminuir o volume
de sangue de retorno.
É estranho e mesmo inexplicável como esses
médicos tiveram essa idéia, visto que não se conhecia a circulação
descoberta por Harvey no início do século 17.
Para melhorar a respiração e a tosse crônica há receitas persas de comer crocodilo cozido e hindus de pele de burro.
Por volta de 75 d.C., Diascoride resolveu empregar resina de múmias
egípcias emulsionadas quase sempre em mel.
Esse tratamento, só para
pacientes muito ricos, foi empregado por séculos. Luis XIII e o
primogênito de Luis XV, foram assim tratados.
Sete tipos de tratamentos, constituindo o "septeto da panacea",
porque eram indicados para todos os males, foram: sangria,
purgativos, ventosas, vesicatórios, eméticos, sanguessugas e
clisteres.
Os seis primeiros constavam do "armamento
antituberculoso", de todos os centros médicos. A sangria, cuja técnica
de aplicação foi estipulada por Galeno, foi fartamente praticada
até quase o final do século 19.
Indicavam-se até para os doentes
hemoptóicos, imaginando-se que retirando sangue do paciente diminuiriam
as hemoptises.
Com isso os doentes tornavam-se anêmicos,
debilitando-se mais ainda. Sua voga era tão larga que foi satirizada
notadamente por Moliére e Byron, como exposto em outros itens.
Desde Bayle e Sydenham, que se recomendava alterar o repouso com
atividades físicas, exercícios, cavalgadas por longas horas e os
doentes extenuavam-se.
Livingston Trudeau fazia extensas galopadas,
com caçadas. Luis XIII da França, debilitado, com seu enorme ventre,
promovia essa cavalgada que o cansava, precisando permanecer no leito
por dias.
L'Aiglon, filho de Napoleão, mantido vigiado no Castelo de
Schönbrun, como dito atrás, era obrigado a montar a cavalo por
muitas horas; esse estafante exercício terminava com um banho em
emulsão de tripas de porco!
A Marquesa de Pompadour, favorita de Luis XV, na realidade, era um
encanto de mulher, como se comprova pelo magnífico retrato pintado
por Natier (Museu do Louvre).
Seu médico, Renait, lhe infringia
tratamentos cruéis submetendo-a a exercícios violentos e sangrias
sucessivas; mais ameno era o leite de jumenta como se verá adiante.
Com a morte do Rei (varíola), espalhou-se a notícia de seus
freqüentes escarros de sangue, sendo enxotada de Versalhes.
Seu
quadro complicou-se com laringite, ficando afônica. Como era hábito,
no dia de sua morte, ainda sofreu uma sangria.
Finou-se em dia
chuvoso, e no enterro, além do sacerdote, uns três amigos fiéis.
Assim finou-se a outra poderosa quando detinha poder nas mãos.
Na Alemanha, em 1650, após cem anos da chegada do tabaco à Europa,
Jean Neander, célebre médico-filósofo, publicou alentado tratado
"Tabacologia", traduzido em várias línguas, no qual são tratadas com
sucesso quase quatro dezenas de doenças por efeito do fumo. Para a
tísica recomendou tabaco emulsionado em mel.
Nota a parte foram os tratamentos românticos, alguns com conotações
líricas e outros eróticos. Avicena e Averroes mandavam secar rosas
vermelhas, moer e espalhá-las no quarto do tísico.
Outra receita do
primeiro consistia em forrar o chão com pétalas de rosas, sempre
vermelhas, e ramos de plantas aromáticas, sobre os quais o tísico
deveria passear o maior tempo possível.
Galeno propôs aos tísicos
viverem em quarto subterrâneo, de temperatura amena, sendo o assoalho
coberto de rosas vermelhas e pendurados no teto ramos de palmeiras
misturados com ervas coloridas aromáticas.
Na renascença, médicos
romanos recomendavam temporadas em Veneza, com passeios diários de
gôndola, devendo o barqueiro cantar canções eróticas.
Evidente,
esses tratamentos românticos eram para tísicos abastados. Nessa linha
integrou-se o leite, cuja recomendação e uso permaneceram por quase 3
mil anos, desde as civilizações antigas da Pérsia e Hindus até o
século 19; o preferido era o de jumenta, mas também indicou-se leite
de cabra, de fêmea de elefante e de camelo.
Para Avicena, os homens
tísicos deveriam tomar leite de mulher jovem e bela, e na Renascença,
Petrus Forestus explicava que o leite de mulher deveria ser o mais
fresco possível, e portanto sugado diretamente da mama, razão porque
ela deveria dormir com o doente.
Para isso, o tísico - sempre muito
rico - tinha que contratar uma jovem lactante, o que não era muito
fácil; custava os olhos da cara. Porém não havia nada mais erótico -
romântico!
Já se mencionou a tuberculose da Marquesa de Pompadour;
esta, durante sua doença, ingeriu centenas de galões de leite de
jumenta e de camelo; caríssimo, que sua condição de favorita do Rei,
lhe permitia consumir.
Uma idéia mais pormenorizada de como se tratava a tuberculose em
meados do século 19 nos chega pelos registros das receitas formuladas
para a Dama das Camélias e Chopin: opiácios (xaropes e injeções de
morfina), ferruginosos, creosoto, pomada de iodeto de potássio nas
axilas, exercícios (dança para a primeira), sanguessugas, sangrias,
bálsamo de Peru e musgo da Islândia.
É interessante que após a
descoberta da estreptomicina, estudaram-se muitos musgos, entre eles o
da Islândia, do qual se isolou um antibiótico com certo poder
bactericida "in vitro" sobre o Mycobacterium tuberculosis.
7. O desastre do tratamento com a tuberculina de Koch
Os tratamentos da tuberculose no passar dos séculos, inócuos na
maioria, muitos bárbaros e nocivos, e alguns românticos, não causaram
a mortandade, que por ironia da história, foi provocada pelo próprio
Koch com sua tuberculina.
No XI Congresso Médico Internacional,
Berlim 1890, Robert Koch soltou a segunda bomba ao anunciar ter
descoberto uma substância que se difunde nos meios líquidos de
cultura do bacilo da tuberculose (que chamou de "linfa"), a qual
"insensibiliza animais de laboratório à inoculação de bacilos
tuberculosos, e é capaz de deter o processo tuberculoso nos já
infectados, sendo provavelmente de utilidade no tratamento da tísica
humana".
Em 1891, Koch publicou o histórico artigo "Sobre um remédio
para a cura da tuberculose", que ulteriormente recebeu o nome de
tuberculina (proposto por Pohl Pincus).
A notícia espalhou-se como
rastilho de pólvora por toda a Europa e nos Estados Unidos, sendo
logo a tuberculina considerada o medicamento milagroso.
Em toda a
história da medicina, não há exemplo de maior noticiário
sensacionalista pela imprensa mundial quanto foi o da tuberculina.
Seu preço tornou-se altíssimo, e nos Estados Unidos cobrava-se 1.000
dólares por centímetro cúbico.
Na Europa, as passagens nos vagões
dormitórios dos trens esgotaram-se por vários meses, tal era o afluxo
de doentes à Berlim para se tratar com a tuberculina de Koch.
Não
tardou muito para que a euforia internacional se transformasse em
cruel desencanto. Com as elevadas doses de tuberculina, então usadas,
desencadearam-se, nos tísicos, intensas reações sistêmicas e graves
progressões lesionais, com grandes destruições pulmonares e
generalização da doença, levando rapidamente à morte.
Embora não
existam dados seguros, estimou-se que em Berlim morreram várias
centenas de doentes, os quais, somados com os vitimados em outros
países, devem ter totalizado milhares.
Koch foi acerbamente criticado pela sua precipitação, inexplicável
num cientista do seu padrão.
Desculpou-se por não ter resistido à
pressão dos centros médicos especializados e do governo alemão, para
que divulgasse sua descoberta, sem perda de tempo, aumentando o
prestígio da ciência germânica na corrida internacional na luta
contra a epidemia tuberculosa.
A tuberculina foi abandonada até 1908, quando Von Pirquet,
demonstrou seu valor diagnóstico na infecção tuberculosa, sendo hoje
uma das mais importantes armas para o estudo epidemiológico da
tuberculose.
8. Pneumotórax - primeiro tratamento racional da longa era anterior à moderna quimioterapia
Em 1882, Carlo Forlanini, da Itália, consolidando idéias esparsas
anteriores, e com suas fundamentais investigações, criou a
colapsoterapia médica pelo pneumotórax artificial.
A introdução de
ar, no espaço intrapleural, faculta ao pulmão, cujo volume é menor
que o da caixa torácica, a permanecer como lhe permite sua
elasticidade, ocupando seu volume real, propiciando-lhe o que se chamou
de repouso fisiológico.
Desse modo, as lesões tuberculosas não
sofrem o traumatismo provocado pela respiração, pela tosse e outros
fatores desfavoráveis, tendo condições para sua regressão.
Conforme a
capacidade de reabsorção da pleura, as insuflações de ar faziam-se
três, duas ou uma vez por semana. Os aparelhos com manômetro para
medir a pressão intrapleural, que devia ser subatmosférica, eram de
diversos modelos, sendo o mais utilizado o original de Forlalinini.
A
manutenção do pneumotórax era no mínimo de 2 anos, indo a 5 e até 8
anos em casos especiais. Tinha porém indicações precisas: lesões
recentes, cavernas frescas, elásticas, localização nos andares
superiores do pulmão; lesões contralaterais, se existentes, não
extensas, havendo casos de indicação de pneumotórax bilateral
simultâneo.
Criou-se uma literatura especializada. Discutiram-se equações
matemáticas sobre a elasticidade do pulmão, conforme a altura do
segmento pulmonar, sobre o peso do pulmão, partindo do ápice para a
base, as diferenças potenciais elásticas dos segmentos, as variações
de pressões intrapleurais subatmosféricas e todo um complexo
arrazoado, beirando à metafísica para explicar as vantagens do
repouso fisiológico.
O livro mais manuseado sobre o assunto foi
"Fisiomecânica pulmonar" de Parodi.
Os tisiólogos, preocupados com esses intrincados problemas, chamavam
de "insufladores" os médicos que só praticavam a rotina do
pneumotórax.
A colapsoterapia médica foi a fase áurea em termos
econômicos para os médicos que tratavam a tuberculose em sua clínica
particular.
A prática do pneumotórax artificial disseminou-se por todos os
países, constituindo-se no tratamento heróico até o início da década
dos anos 50, quando surgiram as drogas antituberculosas.
Nos países desenvolvidos, com menos tuberculosos, o pneumotórax era
aplicado com um certo ritual.
Nos Estados Unidos, uma insuflação era
verdadeiramente teatral; o paciente era coberto com campos
esterilizados, deixando-se um pequeno espaço intercostal, com
rigorosa assepsia, para introdução da agulha.
No Brasil, a prática do
pneumotórax simplificou-se. Nos dispensários, os pacientes faziam
longas filas. A medida que chegavam, iam tirando a camisa,
deitando-se com o braço sobre a cabeça. Rápida passada de algodão
embebido em álcool e a agulha era espetada; mal o paciente se erguia,
e já outro se deitava.
Havia dispensários, como por exemplo o do
Instituto Clemente Ferreira, de São Paulo, e o Dispensário Escola da
Rua do Rezende, no Rio de Janeiro, entre outros, com filas de 100 a
150 doentes, diariamente, atendidos por vários médicos.
O controle
radioscópico, após a insuflação, realizava-se por grupos de uns 20
pacientes que iam passando rapidamente pelo ecram. Na década dos anos
30, os célebres Rist e Sergent por aqui passaram, ficando surpresos
com o que chamaram "democratização do pneumotórax".
O primeiro
escreveu a respeito interessante artigo na então Revue de la
Tuberculose.
Não obstante sua universalidade, o pneumotórax teve rendimento
relativo. As melhores estatísticas consignaram 60% de curas clínicas,
as demais entre 40% a 50%.
Além disso, havia o óbice que só 40% a
50% dos doentes tinham indicação e/ou pleura livre, sem sínfises
extensas.
Nesses
casos havia opções, nenhuma ideal. Havia o pneumotórax
extrapleural, pelo descolamento cirúrgico da faixa endotorácica,
criando espaço que era mantido com insuflações periódicas de ar, com
pressões atmosféricas positivas.
A frenicectomia, cortando o nervo
frênico no trajeto pré-escalênico e arrancamento da maior porção
inferior possível, elevando o hemidiafrágma; indicava-se de
preferência nas cavernas situadas na base do pulmão. Para estas era
freqüente também a indicação do pneumoperitôneo.
Para as cavernas
elásticas com sínfise pleural, teve muita voga a drenagem
endocavitária de Monaldi, atingindo a caverna com trocate e sonda
através da parede torácica e mantendo sistema de aspiração constante
até o seu fechamento.
Nos casos antigos, fibrosados, de cavernas com
paredes rígidas cabia a toracoplastia, cujo pioneiro foi Sauerbruch,
com ressecção de número variável de costelas.
No início essa cirurgia
foi aplicada também em jovens, que com o crescimento do hemitórax
oposto encurvava a coluna criando monstruosas deformações torácicas.
Outras intervenções preenchiam o espaço, - para manter o pulmão
colapsado, com óleo, músculo, bolas de lucite e outros materiais.
As
ressecções pulmonares (lobectomias e pneumectomias) pelas freqüentes
reativações focais e disseminações no pulmão oposto, só foram
largamente empregadas com o advento da quimioterapia, dando cobertura
protegendo contra essa séria complicação(*).
Seu apogeu foi nos anos 50 e 60, até que terminou o estoque de
doentes crônicos, com lesões extensas ou pulmão destruído.
Todos os procedimentos citados eram graves, com grande freqüência de
complicações sérias, sendo que a cura clínica, em média, mal passava
dos 40%.
Dessa forma, a impossibilidade do tratamento com o pneumotórax
intrapleural representava para o doente séria decepção, uma sentença
negra com a triste perspectiva de tratamentos graves, complicados,
pouco eficazes e perda de esperança de cura.
Não há melhor descrição
e mais crua dessa frustração, que a de Manoel Bandeira, que com
ironia e humor negro descreve o impacto quando o médico anunciava a
impossibilidade de indicar o pneumotórax:
Febre,
hemoptise, dispnéia e suores noturnos, / A vida inteira que poderia
ter sido e não foi. / Tosse, tosse, tosse./ Mandou chamar o médico./
Diga trinta e três./ Trinta e três... trinta e três... trinta e
três.../ Respire / O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo / e o
pulmão direito infiltrado./ Então doutor, não é possível tentar o
pneumotórax? / Não. A única coisa a fazer é tocar um tango
argentino.
9. A cura sanatorial. o hominis sanatorialis
No século 19, surge a idéia do tratamento dos tísicos em
estabelecimentos fechados, onde deviam permanecer e receber
alimentação adequada.
Esse conceito foi considerado absurdo por ser a
antítese do recomendado durante séculos, o repouso entremeado com
exercícios, galopadas a cavalo e outras extravagâncias.
As primeiras
sugestões sobre o sanatório foram de Brehmer, mas as bases
científicas foram propagadas por Dettweiller, que lutou durante 20
anos para, em 1860, afinal, impor suas concepções.
A maior
responsabilidade pela estruturação prática dos sanatórios é devido a
enfermeira Florence Nightingale, que conviveu com sua tísica crônica (item 2.1).
Sanatório e regime higienodietético foi a simbiose fundamental para a
cura da tuberculose, entrando por toda a primeira metade do século
20, até o advento da era da moderna quimioterapia.
O sanatório foi
associado à mística do ar da montanha. Aos poucos, o conceito
climático foi se diluindo e os hospitais para tuberculosos passaram a
ser localizados nas cidades com qualquer clima.
A fase dos sanatórios, com sua tonalidade dramática e romântica,
muito contribuiu para impregnar a literatura e a dramaturgia.
Ressalte-se, novamente, que essa literatura foi sustentada pelos
tuberculosos ricos em cultura, ou em finanças, enfim, pela classe
mais elevada.
Dessa forma, o arquétipo da obra literária condensando a
vida sanatorial é sem dúvida o notável romance Zauberberg (Montanha
Mágica) de Thomas Mann, também tuberculoso e prêmio Nobel.
A ação se
passa no luxuoso sanatório Berghof - Davos, na Suíça. O personagem
central, Ans Casptor, vem visitar o primo em tratamento, quando
descobre que também está doente.
Porém, a ação extrapola para todos
os demais internados, com seus comportamentos conforme suas
personalidades e seus dramas íntimos.
O microcosmos social resulta de
um universo fechado com as deformações decorrentes da falta de
influência exterior.
Há uma dissimulação do conteúdo dramático da
doença. O sanatório tornase para o tísico um campo progressivamente
ampliado da expressão da tuberculose, provocando uma espécie de
ressonância às suas alternativas, ora de esperança, ora de
desencorajamento, e seus dramas.
A segregação sufocante da vontade, a
uniformização ritual dos internados, e acentuada por uma hierarquia
rigorosa, dirigida não se sabe por quem, cria um ambiente semelhante
ao "Castelo" de Kafka, com sua opressão sutil, cruel e demoníaca.
Descreve-se o ritual a que o doente está acorrentado, a obsessiva
anotação da temperatura, a ansiedade a cada nova radiografia, as 6
refeições diárias religiosamente a horas certas, agem como oposto à
ociosidade forçada e dicotomizam o tempo.
Este se torna infinito,
dentro de um universo finito em função do espaço confinado. Se o
tempo é função do espaço como dispõe a teoria da relatividade, a
medida do tempo é circular, fechado sobre si mesmo e o terrível
presente repete-se sem cessar por anos.
O paradoxo é que surgem duas
alternativas: o abandono do pensar, caindo no vácuo vazio, ou a reação
mental, acentuando a dramaticidade.
Todos esses ângulos e outros são
questionados pelos diversos personagens ali internados, empresários,
sociólogos, teólogos, políticos e anarquistas.
Descrevem-se casos
de acelerada reação mental, propiciando a criação intelectual.
Na
realidade, isso sucedeu com vários intelectuais como são os exemplos
de Eugene O'Neill, Roland Barthes, que escreveram toda a sua obra no
sanatório, e de Paul Eluard e Albert Camus, que internados por várias
vezes, mais produziram quando estavam nos sanatórios.
Aliás, já na
Grécia havia a expressão "spes phtisica" para descrever a energia que
muitos tísicos forjavam, dirigindo-a para uma criatividade especial.
Quanto ao comportamento geral dos tuberculosos, por anos internados
nos sanatórios, Rist forneceu a definição em poucas linhas. As longas
separações, pela lentidão da cura, destruíam os vínculos com os
familiares.
Esposas e maridos infiéis, famílias desinteressadas ou
pouco preocupadas com a sorte do paciente internado, noivados e
casamentos desfeitos, aumentavam a solidão, o doente sentia-se
exilado, desorientando-se a vida psíquica.
Privado de seus alimentos
essenciais, como a profissão, o trabalho, a família, a incerteza da
cura sempre demorada, produzia sensação de viver num fosso profundo
onde a luz não penetrava.
Além disso, o tuberculoso convivia por anos
numa sociedade de contrastes: introvertidos e exuberantes, místicos e
racionalistas, bons e maus, delicados e brutais, resignados e
revoltados, inteligentes e pobres de espírito, enfim uma comunidade
de heterogêneos condenados a um convívio execrável.
Todos esses fatores criaram um tipo de personalidade sui generis que Dumarest chamou de Hominis sanatorialis,
que era fruto da incerteza pelo temor do inesperado, fosse a chegada
da morte, fosse a cura clínica, após anos e anos de internamento.
No
sanatório, o doente, com o tempo, incorporava a ociosidade;
organizava-se nela como numa profissão, compenetrando-se dos fins
indefinidos a que sua doença expunha, desaparecendo do resto do mundo
ante essa preocupação.
Em resumo, a personalidade do Hominis sanatorialis negativava-se com a longa espera da negativação do escarro, que podia levar até 10 anos!
Descreveram-se, em muitos tísicos internados, exacerbação da libido,
fomentando paixões, atingindo em alguns, comportamentos mórbidos.
Para contar a vida dos tuberculosos nos nossos sanatórios e nas
estâncias climáticas, destaca-se o romance de Dinah Silveira de
Queiroz, "Floradas na Serra", passado em Campos do Jordão; aborda as
reações e dramas dos doentes nos sanatórios, a angústia face à
doença, ao abandono e afastamento dos familiares.
Episódios amorosos
com internados, a dificuldade da readaptação à vida normal. Uma jovem
adiciona à doença o sofrimento que lhe ocasiona a paixão por seu
médico assistente.
A autora contou-nos que o personagem Dr. Celso, na
vida real tornou-se notório tisiólogo. "Floradas na Serra" fez
sucesso no cinema e em novela de televisão.
Se são abundantes os relatos dos tuberculosos das classes sociais
mais elevadas economicamente, é escassa a literatura dos doentes
indigentes.
Importante pelo vigor de sua denúncia é o escrito de
Maxence Van Der Merch, Prêmio Goncourt na França, sobre as misérias
ocorridas com os tísicos nos hospitais públicos, mesmo nos países
ricos.
Entre nós, Paulo Dantas, que foi tuberculoso e com
dificuldades econômicas, descreve de forma crua as tragédias dos
doentes pobres em "Cidade enferma" e "As águas não dormem"
aprofundando os dramas vividos pelos doentes abandonados em Campos do
Jordão.
9.1. A estância climatérica de São José dos Campos
A nosso ver, seria de interesse histórico um relato mais aprofundado
da estrutura das estâncias climatéricas do Brasil, como por exemplo,
São José dos Campos, Campos do Jordão, Correas, Palmira e outras
congêneres, sua organização e sua assimilação da população
tuberculosa.
Por exemplo, São José dos Campos era uma cidade que, em
1930 , tinha 8.000 habitantes autóctones e albergava cerca de 2.000
tuberculosos, distribuídos em 4 sanatórios (3 beneficentes com
doentes pagantes e indigentes, e um particular de propriedade de um
médico), dezenas de pensões e muitas "repúblicas".
Os donos de
pensões eram tuberculosos ou doentes curados. Poucos desses
estabelecimentos eram idôneos. A maioria, com instalações precárias,
mantinha 2 a 4 doentes em cada quarto.
Geralmente havia uma só
privada com chuveiro. Forneciam 3 refeições por dia. Tinham agentes
aliciadores (também doentes) que disputavam os tísicos
recém-chegados, na estação ferroviária e terminais de ônibus.
Nas
pensões mistas, eram comuns os casos amorosos. Mulheres, solteiras ou
casadas, engravidavam. Em certas ocasiões, instituiu-se a indústria
do aborto por curetagem, sem anestesia, praticados por pessoas com
algumas tintas de enfermagem.
Vários casos de perfuração do útero
ocorreram. Nas "repúblicas", montadas por grupos de doentes
associados, moravam até meia dezena de doentes em um quarto.
Havia
beliches. Empregava-se uma doméstica bronca, geralmente proveniente
"da roça", que mal sabia cozinhar feijão. Era comum comer em marmitas
fornecidas por pensões ou famílias que exploravam esse comércio.
Havia carência de tudo, de higiene e outros recursos. Doentes
miseráveis recebiam assistência de médicos abnegados.
Registravam-se
casos de doentes injetarem morfina na veia de agonizante, não para
praticar a eutanásia, mas para se livrarem do moribundo no beliche ou
na cama ao lado.
Certa ocasião, prostituta tuberculosa instalou um bordel com
mulheres também tuberculosas, cuja freguesia era de tísicos (chamado
sanatorinho da Zefa) e que funcionou por alguns anos, extinguindo-se
com a morte ou cura das prostitutas.
Doentes com profissões definidas empregavam-se, trabalhavam enquanto
se tratavam (geralmente com pneumotórax) ou, conforme os recursos
econômicos, instalavam seus próprios negócios: alfaiatarias,
sapatarias, barbearias, lojas de armarinhos, bares etc.
Alguns,
intelectualizados, movimentavam o jornalismo, montavam peças de teatro
e, conforme os dotes artísticos, davam recitais pagos. Muitos deles
constituíam família, casando-se com habitante local. Alguns
ingressavam na política, vários se elegeram vereadores e um chegou à
prefeito da estância; tinha episódios hemoptóicos, e quando um deles
surgia, o chefe de gabinete informava:"o senhor prefeito está hoje de
bandeira vermelha e as audiências estão canceladas".
A estância
crescia assim, com tuberculosos assimilados, integrados na
comunidade.
Era relativamente alto o número de autóctones que se
infectavam e desenvolviam tuberculose ativa: empregados nas casas com
tuberculosos, moças e rapazes da estância que viviam em
promiscuidade com doentes.
Na Semana Santa, as irmandades que desfilavam (Filhas de Maria,
Sagrado Coração, São Benedito, etc.) contavam com a integração de
inúmeros tísicos.
No Sanatório Vicentina Aranha, pertencente à Santa
Casa de São Paulo, havia uma internada permanente, soprano lírico,
que desfilava como Verônica, com véu e longo vestido preto,
desenrolando em cada esquina um pergaminho com a efígie de Cristo, e
cantando uma litania que terminava: "Pater noster dolor meus".
No
final da década de 20, aportou à São José, um violinista que tinha
sido "spala" da orquestra de companhia lírica italiana, que se
dissolveu no Rio de Janeiro. Nome pomposo, Enrico Della Rosa.
Tratando-se com pneumotórax, abriu uma sorveteria e ensinava piano às
moçoilas para sobreviver. Reuniu vários músicos e fundou a Banda
Filarmônica Euterpe.
Nas procissões do enterro, na Semana Santa,
encerrava o cortejo, e após o canto da Verônica, executava os
primeiros compassos da marcha fúnebre da 3a. sinfonia -
Eroica - de Beethoven.
Aos domingos, no coreto "belle epoque" da
praça, a banda Della Rosa embalava os namorados, a maioria
tuberculosos que faziam o chamado "footing", com suas melodiosas valsas
de Strauss e operetas de Lehar.
Esses encantamentos faziam esquecer a
triste realidade da doença, criando um toque romântico - terno e
repousante naquela cidade enferma.
9.2. A carência dos leitos na fase pre-quimioterápica
A carência de leitos para tuberculosos, até meados do século 20, foi
geral, devido a dimensão da epidemia tuberculosa, na fase em que não
havia tratamento eficaz.
O problema evidentemente era mais grave nos
países subdesenvolvidos e em desenvolvimento.
A demanda de leitos
era enorme pela gravidade das formas clínicas da tuberculose e as
precaríssimas condições econômico-sociais da imensa maioria dos
doentes.
No
Brasil, a falta de leitos era aguda. Nos anos 20 e 30, os órgãos
oficiais do Rio de Janeiro lançaram mão dos chamados abrigos, que
eram casarões alugados nos bairros populares, onde se albergavam
tuberculosos, porque os leitos hospitalares eram absolutamente
insuficientes.
Nas estâncias climatéricas, a situação atingia
proporções dramáticas. Doentes, em estado grave e de indigência, eram
"despachados" por delegados de polícia e funcionários municipais das
cidades de origem com apenas a passagem no bolso.
Chegavam por
exemplo em Campos do Jordão, onde permaneciam na Estação, no chão,
deitados em colchões improvisados sem terem onde se internar.
Sanatórios repletos, pensões recusando-os, eles ali ficavam e alguns
morriam. Quadro dantesco.
Na fase considerada, esforços foram despendidos pelos governos
estaduais, pela Campanha Nacional Contra a Tuberculose do Ministério
da Saúde e pelas Ligas Assistenciais Contra a Tuberculose, para a
construção de hospitais para tuberculosos, minorando parcialmente a
situação.
Em suma, o leito para o tísico foi uma contingência dramática na
fase em que não havia a quimioterapia, e os tratamentos consumiam
anos.
Isso tornou sem sentido a discussão então travada sobre a
política da hospitalização, não importando saber se a razão estava
com os que advogavam a generalização dos leitos nos programas, por
motivos técnico-científicos do tratamento, ou com os que questionavam
essa finalidade por considerar precárias as terapêuticas vigentes,
sendo que o objetivo prioritário não era curar o doente, mas assegurar
o seu isolamento, protegendo a coletividade.
9.3. O tisiólogo brasileiro da fase pré-quimioterápica
Os tisiólogos de todos os países que labutaram contra a tuberculose,
na fase comentada nos itens anteriores, foram heróis especiais,
porque sua luta foi de mãos vazias, sustentada apenas por um ideal
humanístico.
Do tisiólogo brasileiro quase nada se escreveu na nossa literatura.
Eles encaravam a tuberculose, de forma romântica, no sentido de que
não se via a luz do túnel de um gravíssimo problema de saúde pública.
Eram movidos tão somente pela sua fé e ideal que lhes davam forças
para um trabalho persistente, desgastante.
Pelo longo tempo de
convívio com os pacientes, integravam-se nas suas vidas, partilhando
dos seus dramas, tragédias e angústias.
Aconselhavam, eram árbitros
para dirimir as discórdias e abandonos familiares. Médicos
sacerdotes.
Paralelamente, muitos deles dedicaram-se à luta no plano
geral.
Organizavam e promoviam cursos de divulgação, atualização e de
especialização, fizeram escola, e quando, em 1946, foram oficialmente
criadas as cátedras de tisiologia, por meio de memoráveis concursos,
tornaram-se catedráticos universitários.
Participaram e assumiram a
direção de órgãos oficias de saúde de controle da tuberculose, nos
âmbitos nacional e estaduais.
Alguns destacaram-se como técnicos em
órgãos internacionais de controle da tuberculose.
Enriqueceram a
literatura científica, com livros e artigos publicados.
Em suma, na
história da luta contra a tuberculose, muito se deve a esses
tisiólogos, que além de técnicos atuando com a visão de saúde
pública, ou embrenhados na clínica, bacteriologia, fisiopatologia e
outros ângulos da complexa problemática da tuberculose, agiam junto
aos doentes com romantismo e até lirismo, para minorar seus
sofrimentos físicos e psíquicos, transmitindo-lhes alívio e
esperança, embora sofrendo também, por saber que esse lenitivo quase
sempre era ilusório, ante a realidade fatal na maioria das vezes.
10. A histeria contra o escarro
Com a descoberta do bacilo da tuberculose, Koch afinal comprovou o
que Pierrre Dasault afirmou em 1733, que a tuberculose se transmitia
pelo escarro, e alertou da necessidade de esterilizá-lo, "para
torná-lo inofensivo, suprimindo o contágio".
De início todos os médicos tuberculosos ou suspeitos de sofrerem da
doença apressaram-se a examinar sua expectoração, que era neles
freqüente, pois a maioria fumava cachimbo.
Caso dramático foi de
Herlich, ideador das cadeias laterais e descobridor do Salvarsan 606
para tratamento da sífilis.
Amigo de Koch, pediu a este uma cultura
do bacilo para estudar novo processo tintoreal.
Entre os escarros que
examinou incluiu o de sadios, para controle, inclusive o seu. Sua
triste surpresa foi constatar que estava marchetado de bastonetes
vermelhos, fazendo assim diagnóstico de sua tuberculose.
Livingston
Trudeau (item 2.1),
que se julgava curado de sua tuberculose, teve a surpresa de
constatar que sua expectoração era bacilífera.
Como disse em sua
autobiografia, se ao receber o diagnóstico de sua doença, ficou
siderado e o mundo se tornou sombrio, muito mais agoniado e como que
paralisado, por ainda estar doente quando pensava estar curado.
Com as constatações de Koch da transmissão da doença pelo escarro e
com as pesquisas de Pflügge, que obtinha culturas do bacilo da
tuberculose nas placas distribuídas nos recantos dos quartos onde
viviam tísicos, pelas gotículas produzidas pela tosse e pelas poeiras
de material dessecado que nelas se depunham, desencadeou-se
verdadeira histeria contra o escarro pelas campanhas alarmantes das
instituições médicas e órgãos de saúde pública.
Cartazes afixados em
todos os locais, nos transportes coletivos, e folhetos distribuídos
às populações, alertavam sobre a transmissão da tuberculose pelo
escarro e poeiras, com advertência da proibição de escarrar no chão.
A
comercialização imediatamente entrou em cena. Anunciavam-se
escarradeiras próprias para hospitais, escritórios, fábricas,
restaurantes, teatros, transportes coletivos etc.
A empresa Truette
em Paris fazia propaganda de escarradeiras de bolso; Lutécia vendia
bolsas, "pochetes", porta-lenços com antissépticos e descartáveis.
Em
Berlim inventaram um preparado aderente para colar nas solas dos
sapatos, que matava os bacilos; seus usuários desse "modo não os
traziam para a casa".
Houve impermeabilizadores de assoalhos com
substâncias bactericidas.
A empresa internacional Simmons apurou
grandes rendas com seus colchões e travesseiros com antissépticos que
matavam os bacilos.
Entre nós, nos anos 1930 a 35, médico do Rio
Grande do Sul inventou e anunciava travesseiro "com propriedades
esterilizantes antituberculosas".
Nos Estados Unidos, o Departamento de Saúde promulgou portaria,
proibindo escarrar nos assoalhos, plataformas das estações e viaturas
públicas.
Os contraventores eram multados em 25 dólares, ou conforme
o caso, 10 dias de prisão.
Os denunciantes dos infratores recebiam
metade do valor das multas.
Várias cidades norteamericanas aprovaram
resoluções semelhantes com multas atingindo até 500 dólares.
Em
Viena, a multa ia de 2 a 200 coroas com prisão de 6 horas até 20
dias.
Hotéis de primeira categoria, na Europa, ofereciam apartamentos
sem tapetes e sem cortinas protegendo os hóspedes das "poeiras
transmissoras da tuberculose.
O London National and Military Gazette
acolheu artigos de médicos, que recomendavam aos homens usar bigodes
para proteção contra as poeiras nos locais de trabalho, que poderiam
estar impregnadas com bacilos da tuberculose.
O mais inusitado ainda
foi a portaria da Secretaria de Saúde de Paris proibindo e multando
as mulheres que usassem saias longas, arrastando-se pelo chão,
"levantando poeiras e espalhando pelos ares o bacilo da tuberculose".
11. A onda de charlatanismo na tuberculose
Com a descoberta do agente causal da tuberculose, após o desastre da
terapêutica tuberculínica e outras decepções com a soroterapia,
antigenoterapia e de outros produtos biológicos extraídos do bacilo,
por uns tempos, até os anos 20 deste século, abriu-se vazio propício à
proliferação do charlatanismo.
Paradoxalmente, repetiu-se, guardadas
as proporções e peculiaridades, o quadro imperante na Roma antiga,
que Plínio "O Velho" fustigou clamando contra o "amontoado incrível
de receitas as mais bizarras, absurdas e monstruosas, que deviam
suportar os pobres tísicos".
No início do século 20, laboratórios e
médicos anunciavam a cura da tuberculose com o Xarope Pantauberge.
Hemoglobina Dalloz, contra as formas ganglionares, era vendida em
toda a Europa.
"Eminente especialista, da Faculdade de Medicina de
Paris, anunciava ter descoberto remédio que cura a tuberculose em
menos de um mês."
E mencionava o endereço: Proves Higienique Rue
de Rívoli, 4, Paris. Dr. Bernay, vedete da tisiologia de Lyon, tinha
um "método embolígeno catalítico", consistindo na tomada de
"medicamentos à base de biocatalizadores susceptíveis de regular as
reações químicas eletrônicas da série de Mendeleiev sobre o bacilo da
tuberculose", levando à cura da tuberculose.
Outro tisiólogo, Victor
Simon, curava a tísica com injeções nos músculos do tórax, de óleo
extraído de uma folha de palmeira rica em fibras.
Foi também muito
difundido um remédio "milagroso", o Vinho Saint Courflor, à base
de planta das Antilhas, preparado pelo "eminente" Dr. Acard.
A pasta
dentifrícia Sarte e o sabão Dalloz matavam os bacilos da tuberculose
em minutos.
Em 1918, logo após o término da grande guerra, fez grande
estardalhaço em todo o Continente Europeu o tratamento da tuberculose
com injeção, na região glútea, de preparado especial em solução
concentrada de certo açúcar cristalizado.
O Diretor de Higiene de
Paris publicou portaria obrigando os militares tuberculosos, que eram
dezenas de milhares, e civis dependentes do serviço de saúde, a se
"submeterem metódica e rigorosamente" às referidas injeções, muito
dolorosas.
No Congresso Internacional de Actinologia, em Berlim,
1929, apresentou-se com grande repercussão o "método Dangerfield",
constante de "raio molecular" que destruía os bacilos da tuberculose
"em menos de 2 minutos", baseado nas "propriedades bactericidas da
energia científica vibratória por heterodinação actínica" (!); verdadeiro jargão esotérico incompreensível.
Nessa onda, os
fabricantes de queijos e outros produtos laticínios anunciavam
"Camembert preparado com leite antituberculoso"; produtos preparados
com leite de estábulos indenes de tuberculose, a Nestlé vendia um
"leite bactericida" e chocolate confeccionado com "leite de vaca
indene de tuberculose".
Em vários países, empresas faziam propaganda
de "leite antituberculoso".
Foi criada uma sociedade, com sede à Rua du Coq 60, em Marselha,
para demonstrar a "estupefaciente atividade do remédio Radiol,
produto biológico, na tuberculose não cavernosa", com convites para
presenciar os seus efeitos.
A lista charlatanesca era infinda.
Uma
organização política, o Partido Social da Saúde Pública da França,
aproveitou a corrente elaborando, em 1910, programa do qual constava o
"seguro obrigatório contra o desemprego, garantindo melhor qualidade
de vida, diminuindo a tuberculose no país".
A Alemanha, através da Liga de Pesquisas Sobre a Tuberculose,
promoveu a mais larga operação de marketing que se tem notícia sobre
tratamentos, com a chamada vacina de Friedmann, preparada com
micobactéria isolada da tartaruga, inócua para os animais de sangue
quente.
A propaganda estendeu-se por toda a Europa nos anos 20 e 30.
Foi remetida, em 1936, a Arlindo de Assis, sendo a micobactéria
cultivada no laboratório do Hospital São Sebastião, no Rio de
Janeiro, onde constatou que a "vacina" não exercia nenhuma proteção
contra a infecção tuberculosa experimental em animais de laboratório.
A propaganda da Saúde Pública da Alemanha garantia a obtenção de
curas clínicas de tuberculosos, embora os protocolos dos casos jamais
tivessem sido divulgados.
A vacina Friedmann foi largamente usada em
vários países.
Por fim, estudos controlados realizados em diversos
centros tisiológicos europeus, não constataram qualquer modificação
favorável nas lesões tuberculosas dos doentes tratados.
Em
conseqüência, a vacina foi interditada em vários países, inclusive na
França, provocando enormes controvérsias.
Foi tão intensa a
propaganda popular da vacina de Friedmann, que os doentes dos
sanatórios rebelaram-se, exigindo serem tratados com ela, e em um
deles a revolta foi com depredação das instalações, inclusive de
aparelhos radiológicos.
12. Símbolos anti-tuberculose. A tuberculose na luta contra o nazismo
O selo antituberculose nasceu na Dinamarca em 1904, quando Einar
Hollboel, empregado nos correios, teve a idéia de colar, em todos os
envelopes, uma etiqueta com frases alertando do perigo da
tuberculose.
Logo foi editado um selo com a efígie da Rainha, que era
tuberculosa.
A seguir foi lançado em Portugal o selo da Associação
Nacional de Tuberculose com o retrato da Rainha D. Amélia, que também
era tísica.
Inicialmente vendido no Natal, teve difusão mundial
pelas Ligas e Associações de luta e de assistência.
Mais de 60 países
editaram selos oficiais de correio, a maioria com edições anuais,
tornando-se especialização dos filatelistas.
Na década dos anos 40, a
República Dominicana editou um selo com mensagem dupla contra a
tuberculose e o impaludismo.
Retratava um sanatório encimado por
enorme anófeles; por certo tempo, professores de escolas primárias
ensinaram às crianças que a tuberculose se transmitia pelos
mosquitos...
Aqui no Brasil, todas as ligas assistenciais de luta antituberculose
editaram selos, alguns artísticos e até românticos.
Nos anos 30,
entidade fantasma, criada por espertalhões, arrecadou boa soma,
vendendo por "um mil réis" selo com a frase "tudo pela luta
antitubercular".
Em 1902, Sendon, médico relativamente obscuro, propôs ao Bureau
Internacional de Prevenção da Tuberculose, em Berlim, que a cruzada
contra a tuberculose tivesse como símbolo mundial, a cruz vermelha de
duplo braço, hasteada na Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém, em
1099, pela 1a. cruzada, então chefiada por Godofredo de
Bouillon.
Em 1920, esse símbolo foi adotado pela União Internacional
Contra a Tuberculose, sendo oficializado para todos os países no 6o. Congresso Internacional de Tuberculose, Roma, 1928.
O selo e a cruz antituberculose erigiram-se em símbolos de maior curso internacional de toda a história da medicina.
Não se esperava que a cruz de braço duplo criasse incidente
diplomático religioso com os países muçulmanos, cujas organizações
antituberculose negaram-se a adotá-la.
O impasse durou até 1959,
havendo acordo no Congresso da União Internacional Contra a Tuberculose,
no Cairo: os países com crença maometana passaram a usar o quarto
crescente como símbolo antituberculose, ficando optativa a
representação simultânea da cruz.
Na segunda guerra mundial (1939-1945), a luta e a resistência contra
o nazismo na França adotou a cruz, símbolo da tuberculose, de modo a
confundi-la com a cruz de Lorena, por sua vez, mensageira da
libertação.
Assim, a conclamação ao povo pela resistência contra o
nazismo realizou-se através da campanha antituberculose.
Milhões de
panfletos foram periodicamente difundidos nas áreas ocupadas pelos
alemães, sem maiores problemas.
Com a dupla cruz encimando a
mensagem, a proclamação do Comitê de Defesa Contra a Tuberculose
dizia "a tuberculose é um risco de guerra. Pensem nos soldados
vitimados pelos carrascos bacilos da tuberculose. A vitória só se
conquista com um exército que defende a Pátria, e uma Pátria que sabe
se defender. Temos esperança de cura e vitória nessa guerra".
Além da cruz referida, o pneumotórax e o BCG foram eficientes
auxiliares para salvar inúmeros militantes da deportação para
trabalhos forçados nas indústrias alemãs, explorando o grande temor
que o exército de ocupação tinha da tuberculose.
Nas vésperas da
apresentação, médicos da resistência instalavam um pneumotórax e
davam ao convocado uma cápsula contendo suspensão de BCG, que na boca
era esmagada, tornando a expectoração rica de bastonetes
álcool-acido resistentes. Pneumotórax, evidenciado na radioscopia e
escarro positivo, constituía passaporte seguro para a rejeição do
convocado.
Fato singular é que por muito tempo esse estratagema não
foi descoberto pelos médicos do exército alemão.
Entre os médicos militantes da resistência antinazista, destacou-se o
tisiólogo Jacques Arnaud, tuberculoso crônico, diretor de um dos
principais sanatórios da França, que mantinha como internados, com
pneumotórax, elementos da resistência, que à noite saiam para ações
de proselitismo e sabotagem.
Afinal, descoberta a trama, Arnaud foi
preso pela Gestapo e fuzilado.
13. O romantismo incorporado à turberculose
O auge da fase, chamada romântica, da tuberculose ocorreu no século
19, dos meados para o fim, com manifestações anteriores e ulteriores.
Na renascença, Rafael, que era tuberculoso, não deixou, em suas
telas, traços sobre a doença.
Boticelli produziu alegoria
indiretamente relacionada com a tuberculose. O modelo preferido pelo
pintor, que posou para todas as madonas, foi a linda Simoneta
Vespucci, tuberculosa cuidada por notáveis médicos.
Lorenzo, o
Magnífico por ela arrastou a asa. Nas célebres telas, Alegoria à
Primavera e Nascimento de Vênus (Galleria degli Uffizi - Florença)
ela resplandece, alta, esguia, loura, de face macilenta, olhar
distante. Foi consumida pela tuberculose aos 23 anos.
Pintores
tuberculosos foram Rembrandt, Watteau.
Na fase mais intensa do
romantismo, temos Gauguin, sabendo-se hoje que abandonou a mulher e
filhos, não para libertar o gênio de pintura, mas devido à
tuberculose; refugiando-se no Haiti, muitas das nativas que pintou
têm o olhar triste do seu próprio sofrimento.
Dessa fase, outro
tuberculoso, Delacroix, transferiu para a face de Chopin, a sua
amargura expressa nos olhos e na contratura do rosto (Louvre).
Modernamente, Modegliani, consumido pela doença e o álcool, deixou
legado triste e dramático.
Mais profundo, porém é o dramatismo de
Munch (no quadro "O Grito") e a doente visitada pelo médico, da fase
rosa da juventude de Picasso.
Dos músicos, temos Paganini, violinista exímio, encantando toda a
Europa, que executava as mais difíceis composições, inclusive o seu
Moto Perpetuo, quando era acometido pelos violentos acessos de febre
da tísica que o consumiu.
Pergolesi,
tísico, morreu aos 26 anos, e todo o seu sofrimento está estampado
nas suas obras sacras, sobretudo no Stabat Mater, que traduzem com
profunda sensibilidade o seu sofrimento.
Compositores tuberculosos, com grande participação na expressão
romântica da música, são Pursell, Bocherini (fenomenal violoncelista)
Grieg, Weber. Este, com seu famoso Der Freischutz e a ópera Oberon,
compôs a cantata Natur un Liebe (Natureza e Amor), com melodias de
pungente dramaticidade; deixou um diário com anotações de seus
padecimentos até o dia da morte.
Stravinsky teve tísica crônica que
lhe permitiu longa existência. Sua música, inclusive com incursões
dodecafônicas, serviu para as maiores manifestações coreográficas do
Balé Bolshoi, em Paris, influindo no romantismo da "belle epoque".
Com Napoleão e após este, a França mergulhou no mais profundo romantismo.
Já se viu que seu filho L'Aiglon (item 4)
faleceu muito jovem com granulia tuberculosa.
Sua irmã, Paulina
(magnífica escultura de Casanova, Galeria Borghese, Roma), ficou
tuberculosa, dizem, por excesso sexual; é mencionada como exemplo de
exaltação da libido pela tuberculose.
O auge do romantismo, devido à concentração de intelectuais em
Paris, fenômeno que se acentuou a partir de 1820, quando Laennec
ainda pontificava, é devido a apenas cerca de 6.000 pessoas, que eram
escritores, cientistas, músicos, pintores, críticos literários,
jornalistas, que produziam suas obras, faziam conferências, davam
concertos, freqüentavam os espetáculos, os restaurantes, os salões
intelectuais e clubes noturnos.
Paris tornou-se assim o palco onde se
desenvolveu toda a representação do romantismo.
Alguns estrangeiros
como Byron, poeta, tuberculoso, exerceram influência literária no
romantismo francês.
Na sua época, o romantismo da tuberculose (esta
era a doença da moda!) estava tão disseminado na intelectualidade,
que uma aura lírica envolvia os tísicos.
Byron escreveu: "gostarei de
morrer tísico porque as jovens têm a maior compaixão quando vêem um
doente no leito de morte".
Atraída pelo seu porte elegante e
provavelmente também pela sua tísica, a jovem Tereza Aguacciole por
ele se apaixonou: ao sentir que estava perdendo seu amante, fingiu-se
de tuberculosa para nele despertar compaixão.
Após separações e
reencontros, num destes, passeando de gôndola em Veneza, surge sério
desentendimento e Byron passa a agredí-la, só parando ante hemoptise
que a acometeu.
Afinal, para felicidade mútua, ela também estava
tísica e não sabia.
Nessa época surge Musset, o poeta lírico, precoce, considerado o
mais autêntico do romantismo.
Em muitas passagens, seus versos
refletem a angústia íntima devido à tuberculose que o devorou,
superando-se à insuficiência cardíaca que lhe facultou
auto-observar-se descrevendo o sinal que nas semiologias levam o seu
nome.
Os versos seguintes são os mais eloqüentes, quando o poeta
antevia seu final próximo:
L’Heure de ma mort...
L’heure de ma mort, depuis dix-huit mois, / De tous les cotès
sonne à me oreilles, / Depuis dix-ouit mois d’ennuis et de veilles,/
Partoux je la sens, partous je la vois.
Plus je me débat
contre la misère, / Plus s’èveille en mois l’instinct du malheur, /
Et, dès que je veux faire un pas sur terre,/ Je sens tous à coup
s’enfler mon coeur.
Jusqu’a repos, tout est un combat; / Et, comme un coursier brisè de fatigue, /Mon courage èteint chancelle et s’abat.
Henry Murger, escritor, apesar de tuberculoso, consumia sua vida nas
noites dos clubes galantes de Paris.
Nas noitadas alegres,
apaixonou-se pela famosa vedete Maria Cristina Roux.
Por fim, cansado
de suas infidelidades, abandonou-a e ela também terminou seus dias
consumida pela tuberculose, esquecida numa enxerga na Pitiê.
Murger
fez da Mimi (nome de guerra da Maria Cristina) a personagem central no
livro "Cenas da vida boêmia" que causou sensação em toda a Europa.
Puccini gostou tanto da estória que a aproveitou para a sua ópera "La
Boheme".
Puccini tocou as árias cantadas pela Mimi, para grupos de
doentes de um sanatório, para dizerem se sentiam nelas expressões
sobre a tuberculose.
Alexandre Dumas Filho, defensor de teses sociais causando escândalo
como a da emancipação da mulher, o divórcio, o direito das
prostitutas, não foi tuberculoso, mas tem seu nome ligado
indissoluvelmente à tuberculose.
A estória começa na província onde
nasceu Alphonsina Duplessis cujo pai, um devasso, alcoólatra, a
entrega aos 14 anos a um velho libidinoso, depois de leva-a a Paris onde
a deixa empregada em um bar.
Aí passa a comercializar seu corpo.
Falando o patois e quase analfabeta do francês, porém bela e
graciosa, freqüentando os bailes populares conhece o aristocrata
Agenor de Guiche, dândi badalado da alta sociedade e filho do Duque de
Gramont; com vestidos caros e coberta de jóias faz sucesso nos salões
e clubes da elite, até que o Duque impõe um final a essa ligação.
Alphonsine une-se então ao Conde de Perregault, neto do gerente do Banco
de França. Troca seu nome para Maria, aprende a falar e escrever
corretamente o francês e estuda piano.
Em 1842, com 21 anos, liga-se
ao Duque Narbon-Pelet e instala-se por tempos em seu castelo.
Cronistas sociais a introduzem em suas colunas nos jornais. É quando
passa a usar um ramo de camélias vermelhas no decote; quando deseja
aceitar um novo amante, dá o sinal com camélias brancas.
Pálida, com
tosse seca permanente, numa festa do Café Anglais, tem uma hemoptise.
Dumas Filho, que a acompanhava e por ela se apaixonou, chama Davaine,
médico famoso por ter descoberto o bacilo do carbúnculo.
Este
tornou-se um de seus médicos e por ela também se apaixonou.
Com a
tuberculose progredindo, tem longo caso com o Conde de Stackelberg,
russo riquíssimo, que lhe presenteia com uma carruagem com 8 cavalos,
casa, jóias e centenas de vestidos.
Entre festas, episódios
hemoptóicos e febre ética, conhece Teofilo Gautier, Prust, Balzac,
Musset, Dumas o pai, e Liszt, tendo com este um caso amoroso durante
os três meses de sua temporada em Paris.
O compositor dedicou-lhe as
"Valsas Esquecidas" e a "Valsa Triste", e parece que este foi o único
que Maria Duplessis verdadeiramente amou.
Há um episódio complicado
do seu casamento com o Conde de Perregault, realizado em Londres, sem
validade na França.
Com a saúde cada vez mais abalada, emagrecimento
extremo, hemoptise e febre, confina-se abandonada por todos.
Para
pagar os médicos e sobreviver, vende quase tudo que tem,
desfazendo-se de suas jóias, carruagem, móveis e casas.
O tratamento
que recebeu foi mencionado no item 6.
No dia anterior à sua morte, com 23 anos, Davaine chama Dumas Filho,
que recebe enorme choque ao ver aquela ruína, um feixe de pele e
ossos, quadro dantesco da caquexia tuberculosa.
O que se sabe ao
certo é que se Maria Duplessis tivesse se casado com Agenor de
Guiche, seu primeiro amor, teria tido destino muito diverso.
Não
conseguiu mudar sua vida pelas pressões que sofreu em contrário.
É
impressionante como uma menina analfabeta, em pouco mais de 5 anos,
tornou-se letrada, centro das atrações da aristocracia e
intelectualidade de Paris.
Dumas Filho resolve escrever sua biografia
publicando o celebérrimo romance "A dama das camélias".
Transformando Maria em Marguerite Gautier, prostituta de bons
sentimentos, impedida de se regenerar no amor, face aos preconceitos
sociais.
Escreveu também um drama teatral representado com sucesso no
Teatro Vaudeville, que Maria tanto freqüentou.
As maiores
intérpretes dramáticas da Dama das Camélias foram Sara Bernhardt,
Eleonora Duse e Cecile Sorel, as três também tuberculosas.
Verdi
serviu-se do tema na ópera "Traviata"; o prelúdio do ato final é uma
das composições musicais mais pungentes.
Na estréia, porém, a soprano
Donatelli no papel de Violetta (que é a dama das camélias)
gordissima, com todo o seu peso corporal, ao lançar o grito da agonia
"la tisi non le accorda que poche ore", provocou uma onda de
gargalhadas.
No correr dos anos até hoje, com sopranos magras e
gordas, a Traviata é uma das óperas que mais sucesso alcança.
Tanto
no teatro como na ópera, massas de expectadores choram até hoje, mas
oceanos de lágrimas foram e são provocados pela Greta Garbo no filme
dirigido por George Cukor.
Não há filmoteca no mundo que não tenha
cópia dessa fita, que continua comovendo multidões.
Sem dúvida, o
fenômeno Maria Duplessis (Dama das Camélias) constitui o acme do
romantismo, impulsionado pela tuberculose.
Quase
todos os personagens tuberculosos do auge do romantismo estão
enterrados no cemitério Père Lachaise, em Paris.
Este cemitério é
"sui generis", porque praticamente não tem mortos; a imensa maioria
dos que ali dormem está viva na história e nossa cultura: Molière, La
Fontaine, Claude Bernard, Augusto Comte, Champolion, Gay Lussac,
Musset, Oscar Wilde, Lavoisier, Balzac, Proust, Alan Kardec, Bichat,
Rossini, Dieulafoy, Dumas Filho e tantos outros.
Andando por uma da alas
centrais, cujas copas de árvores se entrelaçam, encontra-se uma
lápide branca, simples, coberta por um chorão com longos ramos
pendentes que, balançando-se, difundem sons harmoniosos,
enternecedores e envolventes. Estamos diante de Chopin.
Seguramente
ninguém, como este poeta da música, vinculou tanto sua capacidade
criadora para nos contar sua tragédia.
Quando Frederic Chopin chegou
em Paris com 20 anos, era moço, esguio e pálido. Com o crescer de sua
notoriedade, sua palidez virou moda e os aristocratas empoavam mais e
mais suas faces para imitá-lo, e porque a tuberculose estava na
moda.
Tímido, externava, porém, plena consciência da grandeza do seu
destino.
Não obstante, a nostalgia do seu primeiro amor adolescente -
Constanza Gladkovska - no primeiro encontro com George Sand,
descreveu-a como mulher simpática, inteligente, irradiante.
Todavia,
nos seus retratos, elaborados por Delacroix e Charpentier (Museu
Carnavalet), delineiam-se traços sérios e até duros.
Aurora Dupin,
Baronesa Dedavant (pseudônimo George Sand), caracterizou-se pelas
teses de independência da mulher, que a levaram a separar-se do
marido.
Teve uma ligação com Musset (tuberculoso, como vimos) e por
fim, com Chopin.
Compreendeu logo que ia ligar-se a um dos maiores
gênios artísticos.
Com a saúde de Chopin declinando paulatinamente,
começam as peregrinações a regiões de climas amenos, sem melhoras
substanciais.
Mais de três dezenas de médicos, a maioria professores
das Faculdades de Medicina da Europa, o examinaram, constataram a
tísica e receitaram-lhe as barbaridades da época.
Entre eles, Clark,
médico da Rainha da Inglaterra, Trousseau, apologista dos
ferruginosos, Koreff (que foi também médico da Dama das Camélias),
Röemer, Cruveilhier, Louis (que foi discípulo de Laennec), Malfatti
que assistiu Beethoven nos últimos dias.
Prescreveram-lhe revulsivos,
vesicatórios, banhos sulfurosos, sangrias, sanguessugas, exercícios
físicos exaustivos.
Só Detweiller, em Berlim, que então propagava a
doutrina do repouso em sanatório (então considerada um absurdo),
aconselhou-o inatividade absoluta, que evidentemente não foi seguido.
Da temporada na Ilha Majorca, há uma carta de Sand, queixando-se que
eram "tratados como galinha.
Um médico disse que Chopin não era
tuberculoso, outro diagnosticou tísica crônica e um terceiro
prognosticou a morte em breve".
O patrão da pequena casa, que
conseguiram alugar, quis processá-los, exigindo de acordo com a lei
local que fosse lavada com desinfetantes, e em Barcelona, o senhorio
exigiu pagamento pelo colchão no qual Chopin dormiu, pois deveria ser
queimado por exigência da saúde pública.
Um parêntesis para
registrar como em vários países e na França o conceito do contágio da
tuberculose estava arraigado na população, pois Chopin, voltando a
Paris, não encontrou hospedaria que quisesse aceitá-lo(**).
A vida sexual com George Sand teve breve duração; Chopin não era o
homem ardente sonhado por Sand e esta não lhe dava o afeto que
necessitava.
Há a crua declaração em carta de Sand a uma amiga:
"tenho a sensação de deitar-me com um cadáver".
Separaram-se um ano
antes de sua morte. Nos últimos anos, os sintomas intensificaram-se:
episódios hemoptóicos, por fim dispnéia intensa que não lhe dá
descanso, febre ética, dores agudas que o torturaram.
Finou-se em
1849 com apenas 39 anos. Apesar de jovem, após os 30 anos parece um
velho como transparece no retrato pintado por Delacroix, que também
tuberculoso, soube, como já dito, imprimir no rosto do gênio
sofrimento com o qual convivia.
Quanto à composição musical, a potência criadora de Chopin parece
crescer com a destruição dos seus pulmões, e suas obras são reflexo
de suas torturas.
Durante a temporada de Liszt em Paris, dos contatos
prolongados dos dois gênios, embora de temperamentos diferentes,
introvertido o primeiro e extrovertido o segundo, o espírito agudo deste
nos deixou uma análise realística quanto a influência da doença
na obra de Chopin.
Afirmou que em todas as produções de Chopin, desde
Majorca até o final, encontram-se os sofrimentos agudos que o
torturam, e por isso, sua música é divina, impregnada de ternura e
melancolia.
Ainda no dizer de Liszt, a primeira grande manifestação desse
infortúnio está no famoso prelúdio em Ré Bemol Maior. Considerou
também que os 29 prelúdios op. 28, compostos em Majorca, refletem não
só as explosões de suas reações, como às vezes a euforia que
precede à morte.
Em verdade, nos momentos mais agudos do amargo
cortejo sintomatológico, Chopin munia-se de forças atingindo o clímax
da criação.
Daí a maravilha dos seus improvisos que brotavam em
borbotões sob influxo da febre para em seguida cair extenuado, como
descreveu George Sand.
Quanta música sublime, não anotada, se perdeu,
a qual ninguém mais ouviu.
Em suma, esse mago que fez do piano uma
verdadeira orquestra, para este transferiu as sonatas, baladas, noturnos
e prelúdios, seus estados de alma, com tons ora líricos, alegres,
esperançosos, ora melancólicos, amargos e trágicos.
Estranho
paradoxo: o bacilo de Koch, ao mesmo tempo que destruiu seu corpo,
exaltou-lhe a inspiração e a criação de arte sublime que se tornou
eterna.
14. O vilão responsável pela saga
O responsável pelo exposto até aqui pertence ao microcosmos, têm
duas a cinco micra de comprimento e 0,2 a 0,3 décimos do mícron de
espessura, protegido por forte e espessa carapaça cero-lipídica.
Seu
genoma contém 4.000 genes, dos quais 3.924 já decodificados e
4.411.529 pares de bases nucleotídeas.
Diariamente identificam-se
novas funções dos genes e novos epítopos.
Esses conhecimentos, após
120 anos de sua descoberta, abrem-se enfim melhores perspectivas para
enfrentá-lo e destruí-lo.
Por enquanto continua vitimando milhões de seres humanos, sendo o
maior responsável pela mortalidade nos adultos, e configura-se como o
maior agente isolado de morte entre as doenças infecciosas.
Entretanto, a estratégia para barrar sua propagação é simples e
do menor custo entre as ações de saúde, que é o DOTS (Directly
Observed Treatment Short Course), a qual, todavia, não está tendo sua
implantação efetuada com a rapidez necessária.
Para obviar esse
óbice, criou-se a "Stop TB iniciative", congregando a Organização
Mundial de Saúde, a União Internacional Contra a Tuberculose e
Doenças Pulmonares, a Real Associação Holandesa de Tuberculose, a
Associação Americana de Pulmão, o Centro de Controle e Prevenção de
Doenças dos Estados Unidos (CDC-P) e o Banco Mundial.
A prioridade da
aplicação da estratégia DOTS será nos 22 países que concentram 80%
dos casos de tuberculose do mundo, em cujo grupo o Brasil está
inserido.
Em dezembro de 1999 o Ministério da Saúde instituiu o Plano
Nacional de Controle da Tuberculose, no qual está incluída a
estratégia DOTS.
A Organização Mundial de Saúde enfatiza que para o controle da
tuberculose impõe-se a descoberta intensiva dos casos novos,
submetendo-os imediatamente à quimioterapia correta pela sua
administração diretamente supervisionada (DOTS); esta impede a
multidrogarresistência e reduzirá a mortalidade, evitando 70 milhões
de óbitos por tuberculose que, sem essa estratégia, ocorrerão até o
ano 2020.
Germe tão maléfico, no entanto nos campos do microscópio, do escarro
corado pela técnica de Ziehl-Neelsen, apresenta-se como traços e
vírgulas num emaranhado de trabéculas de fibrina e mucina, encantando
os olhos qual quadro abstrato romântico, transmitindo harmonia e
tranqüilidade da mesma forma que uma tela abstrata de Jackson
Pollock. Paradoxalmente ambos têm poder semelhante de abstração, como
se vê nas figuras aqui estampadas.
Bibliografia
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27. WEBB, G.B. Tuberculosis, N. York. C. Medice. 1936.
28. ROSEMBERG - Romantismo e Tb.
(*)
Em decorrência da quimioterapia irregular, está aumentando
assustadoramente no mundo, sobretudo nos países em desenvolvimento, a
multidrogarresistência do Mycobacterium tuberculosis. Para os
pacientes nesses casos, estão se realizando ressecções pulmonares.
Sem dúvida é tentativa obrigatória para salvar a vida desses doentes.
Entretanto sob o ângulo epidemiológico, a volta dessa cirurgia é um
melancólico retrocesso de meio século, e em piores condições que
antigamente, porque para a tuberculose multirresistente não há meios
de impedir as reativações focais e propagação das lesões, por não
haver cobertura quimioterápica.
(**)
A medicina oficial desde o século 16 com os conceitos de Fracastoro
adotou a doutrina do contágio que mais se arraigou na Itália e
Espanha, onde inclusive promulgaram-se editos regulando medidas
contra o contágio da tuberculose. A doutrina contagionista nos séculos
seguintes foi questionada e mesmo abandonada. Desse modo no século 19
na França, a medicina oficial não admitia a transmissibilidade da
doença; quando Villemín demonstrou-a, infectando animais com catarro
ou material de pulmões de tísicos falecidos, a Academia de Medicina
de Paris incumbiu Pidoux a repetir essas experiências, o qual
"demonstrou" que continham erros. Recebeu um prêmio de 10.000 francos
por ter comprovado que a tuberculose não era transmissível!
Impressionante, como mesmo após a descoberta do bacilo por Koch, muitas
escolas continuaram negando o papel do contágio, considerando a
tuberculose conseqüência somente da reativação de focos residuais
contraídos na infância, posição essa definida na célebre frase de
Behring: "a tuberculose do adulto é o último verso de uma canção
recitada pela ama ao pé do berço".
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EDITORIAL DA REVISTA BOLETIM DE PNEUMOLOGIA SANITÁRIA
 |
| Dr. Gilmário Mourão Teixeira |
TUBERCULOSE
E CULTURA ATRAVÉS DE TEMPOS E ESPACOS HOMENAGEM AO PROF. JOSÉ ROSEMBERG
Boletim de
Pneumologia Sanitária Vol. 7, N 2, jul/dez,1999, pp.3-4
EDITORIAL
Gilmário
M. Teixeira Editor
Este
número do Boletim de Pneumologia Sanitária traz matéria que velhos tisiólogos.
artistas e intelectuais sempre estiveram a espera de vê-la enfeixada em um só
trabalho que a abraçasse amplamente em suas múltiplas manifestações.
Refiro-me
à monografia do Prof. José Rosemberg, intitulada "Tuberculose - aspectos
históricos, realidades, seu romantismo e transculturação", uma fulgurante
descrição e análise do impacto da tuberculose no pensamento e na criação
daqueles que enquanto intelectuais, artistas, cientistas, tiveram a desdita ou,
cruel paradoxo, ventura de sofrê-la.
Rosemberg
se credencia para esse trabalho não só por seu denso e extenso conhecimento
médico, mas, no particular deste caso, por sua intimidade com a história, a
literatura, as artes plásticas e música, enriquecida em suas andanças por
bibliotecas, museus casas de espetáculo, mundo afora.
Testemunho
desse seu gosto foi certa vez distinguir-nos, ainda nos primórdios do registro
em fita magnética, com o presente de uma gravação da Sonata ao Luar, Op.27.
n.2, de Beethoven, tocada no último piano que pertenceu ao compositor, o qual
se encontra na casa que tem o seu nome, na cidade onde nasceu, Bonn, Alemanha.
Causa-nos
perplexidade admitir que até já bem entrado o século XX quando a tuberculose
ainda era uma doença devastadora, fosse ela inspiração e força criadora de
obras consagradas em campos tão variados como os da literatura, artes
plásticas, música e cinema.
Talvez sua
qualidade de doença crônica, consumptiva e de evolução, na maioria dos casos,
sem dor física localizada, mas carregada de riscos de episódios dramáticos como
a hemoptise e de sombras ameaçadoras da morte, sejam condicionantes modeladores
de sentimentos e expressões da criatividade humana.
Através de
tempos e espaços o autor embrenha-se na história, para pinçar, entre seus
grandes vultos, aqueles que, vítimas da tuberculose ou com ela envolvidos,
deram forma, cor voz à terrível saga dessa doença que ainda ocupa o imaginário
de nosso tempo.
Consegue
assim rastrear, da antigüidade à idade contemporânea, trezentos e sessenta e
quatro figuras de marcante expressão em seu ambiente social cultural que
sofreram a agressão estigmatizante da tuberculose. Destas, particulariza
algumas celebridades que, por assim dizer, se identificam por um só nome, são
escritores, poetas, pintores, músicos, cientistas, médicos, homens de estado,
como, por ordem cronológica: Rafael, Eduardo VI, Luís XII, Rembrandt, Molière,
Priestley, Schiller, Richelieu, Bichat, Laennec, Paganini, Bolivar, Byron,
Champolion, Shelley, Poe, Braille, Musset, Chopin, Nigtingale, Grieg, Castro
Alves, Gaugin, Ramon y Cajal, Gorki, Thomas Mann, Stravinsky. Kafka, Manuel
Bandeira e Camus.
Em todo o
trabalho, ao tempo em que estuda a influência da tuberculose nos acontecimentos
históricos e no processo de criação intelectual, vai descrevendo: os quadros clínicos
e epidemiológicos, segundo a visão de cada época; passa pelas estrambóticas
terapias anteriores ao pneumotórax - primeiro tratamento racional da doença;
detém-se no período dominado pelos sanatórios de montanha, espécie de
encruzilhada de gerações, culturas, conflitos e desesperanças, de que o
Sanatório Berghof em Davos, Suíça, hoje Waldhotel-Bellevue - numa atitude
romântica visitamos em 1998 é exemplo famoso por ter ambientado a
"Montanha Mágica", obra prima do ◦ Premio Nobel de Literatura, Thomas
Mann;
culmina Rosemberg com uma sensível analise da repercussão da tuberculose
no romantismo, com destaque para a "Dama das Camélias", pessoa personagem tuberculosos e Chopin, o gênio da música vitimado pela
tísica nos meados do século XIX.
Este
editorial além da chamada de atenção para o trabalho do Prof. Rosemberg, leva o
propósito de, os que fazemos O Centro de Referência Hélio Fraga, homenageá-lo
neste ano de 1999 que traz o momento de seus 90 anos.
O tempo
que tanto nos marca, transforma e assusta e é inexorável, há de estar surpreso
com o quadro de exuberante vitalidade e destreza mental, com que veio
encontrar, passadas nove décadas, este companheiro de lutas.
Rosemberg
procede de cepa geradora de batalhadores, aqueles que empenham todo o poder de
sua inteligência, conhecimento e ação, no processo de conquista das causas que
abraçam. Não é fácil puxar do mundo de seu meritório e variado currículo, os
destaques com que ataviá-lo para esta homenagem.
A sua
carreira médica marcada por múltiplas áreas de atividades clínico, pesquisador,
professor, sanitarista - bem traduz as inquietudes que lhe dominam o espírito.
Oriundo da clássica escola tisiológica, não hesitou em estender-se à
pneumologia, no momento em que chega a quimioterapia e desmantela, para gaudio
todos, o então arsenal terapêutico da tuberculose.
Sua
cátedra de Tisiologia na Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba, da PUC de
São Paulo, se transforma em disciplina de Tisio-Pneumologia,
De muitas
pesquisas médicas que realizou, destacam-se por pioneirismo aquelas das décadas
de quarenta e cinqüenta que demostraram: factibilidade dạ vacinação BCG
indiscriminada, sem prova tuberculínica prévia; a positivação da reação de
Mitsuda pelo BCG e sua importância para a vacinação antileprótica; a presença,
no Brasil, de resistência adquirida à isoniazida ainda em 1952.
Mas, é no
campo da saúde pública que se identifica a amplitude grandeza de seus objetivos
como profissional de saúde, ao abraçar duas grandes vertentes dentro da
especialidade a campanha contra a tuberculose e a luta contra tabagismo.
Em ambos
os campos seu trabalho e fecundo e o levou a altas posições como: Diretor do
Instituto de Pesquisa de Tuberculose "Clemente Ferreira, São Paulo;
Diretor da Divisão de Tuberculose do Estado de São Paulo; membro do Quadro de
Peritos de Tuberculose da Organização Mundial de Saúde; Presidente do Comitê
Coordenador do Controle do Tabagismo no Brasil; Presidente Honorário do Comitê
Latino- americano; Coordenador do Controle do Tabagismo e outros cargos, dos
quais muitos ainda exerce.
Entre as honrarias com que foi distinguido
sobressaem-se a comenda "Palme Academique" do Governo da França e
medalha "Tabaco ou Saúde" da Organização Mundial de Saúde.
Trabalhador
incansável, até hoje está à frente do ensino de Tisio-Pneumologia na Faculdade
de Ciências Médicas da PUC, São Paulo, faz conferências, ministra cursos, leva
sua contribuição a congressos, reuniões técnicas, no pais e fora dele, e ainda
encontra tempo para assessorar o Programa de Tuberculose da Secretaria de Saúde
do Ceará.
Sua
produção científica está expressa, no campo da tuberculose, em 4 livros e 112
trabalhos publicados e, na área de tabagismo, 2 livros - um laureado pela
Academia Nacional de Medicina - e 82 publicações.
José
Rosemberg, um médico culto e ético.
Este é o homem que nos compraz homenagear
no decurso de seus noventa anos.

