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| Luis Arruda Furtado |
Cinco fomos os baturiteenses fundadores da Escola.
Os números foram dados por ordem de idade. Daniel Franco, nº 1; Luis Dória, nº
2; Job Saraiva Furtado, nº 3; José Saraiva Furtado, nº 4; e Luis Arruda Furtado,
nº 5. O José Furtado morreu nesta Escola, vítima de um acidente, em 1930, aos
15 anos; Luis Dória, alguns anos depois, em Fortaleza e Daniel Franco há dois
ou três anos, em Baturité. Aos companheiros desaparecidos, a nossa saudade.
Vivos, somente Job Saraiva Furtado, aqui presente, e eu. Meus amigos, há uma
bela imagem empregada pelo Pe. Aloisio Furtado, nosso contemporâneo e que
infelizmente se encontra enfermo nesta Escola, a quem desejo completo
restabelecimento, no seu livro “Se o grão não morre”, contando que: “Homero, o
imortal autor da Ilíada, velho, cego, tacteante, procurando reconstituir os
sítios de determinada cidade e ferindo as pedras com o bastão, teria exclamado:
Il linc Troia, alí foi Tróia. E voltou Homero para a estrada de Ítaca, chorando
a eterna Ílion de seus sonhos destruida.” Olhando-se para o passado e vendo-se
a nossa Escola no presente, poderia compará-la àquela florescente cidade,
outrora dominadora da África, a rainha do Mediterrâneo, a lendária e
esplendorosa cidade de Aníbal, a Cartago púnica e romana, destruida e nunca
mais reedificada. Poderia compará-la também a Pompéia, não devastada pelas
lavas incadecentes do Vesúvio, mas subjugada, contra gosto, pelos imperativos e
injuções do século em que vivemos. Poderia compará-la ainda a Jerusalém, em que
não ficou pedra sobre pedra, derruida, derrocada, ante o impacto das forças
imbatíveis das legiões romanas. Dada, porém, a minha formação clássica, aqui
obtida, prefiro compará-la à Troia. Todos nós somos testemunhas do apogeu, dos
tempos áureos desta Escola. Eu mesmo vi muitas destas paredes subirem e quantas
destas pedras, ainda mornas pela explosão de dinamite em uma pedreira aqui ao
lado, eu as tive em minhas mãos de adolescente; essas pedras são testemunhas
mudas de que aqui foi Troia. Na nossa capelinha, de tão gratas recordações para
os mais antigos, já não se oficiam os atos religiosos. Naquele páteo, que
nenhum de nós jamais esquecerá, não se jogam mais foot-ball, basket-ball e
outros jogos. Nesses corredores não se ouvem mais a algazarra, a gritaria e a
alegria palpitante de vida dos apostólicos. Essa velha escada já não sente mais
o pisar ritmado, nem em tempo de férias, a correria desenfreiada que tantos
dissabores causava ao Pe. Teixeira. Esse velho corrimão, já não sente mais o
deslisar de mãos finas de meninos e adolescentes. Nesses vastos salões já não
se realizam mais as academias e sessões lítero-musicais, nem as prédicas e
aulas de nossos mestres. Quem não se lembra daquele trecho de nosso livro de
português “Última corrida de touros em Salvaterra”? Quem já terá esquecido o
nosso livro de inglês “Estrada Suave”? Quem não se lembra da admirável
gramática portuguesa de Eduardo Carlos Pereira, da incomparável gramática
latina de Lobera, de nosso livro grego de Ragón? Quem não se lembra do “De
bello Gallico”, de Júlio César? Do “De viris illustribus”, de Cornélio Nepote?
Das Fábulas de Fedro? Das Metamorfoses, de Ovídeo? Das Odes, de Horácio? Das
Églogas e de Eneida, de Virgílio? Das cartas e orações, de Cícero? Será
possivel que vocês já esqueceram do nosso primeiro livro de latim? Desse latim
que nos foi transmitido com pronuncia lusitana, que ainda mantenho como
recordação de nossos mestres; desse latim que o Ministério da Educação retirou do
currículo escolar brasileiro; latim que a Igreja católica manteve vivo por
quase dois mil anos; latim que acompanhava a vida do católico, do berço ao
túmulo, do “Ego te baptismo” ao “Ego te Absolvo” da extrema-unção; latim que
deu o nome continente inteiro, qual seja o Continente Latino-Americano. Lingua
flexiva indo-europeu itálica, fonte e mãe, segundo um grande gramático, das
nais belas linguas faladas pelos povos modernos. Quem já esqueceu a “Seletina”,
“Deus creavit coelum et terram intra sex dies”?
Qual de vocês não volta ao passado e se reencoantra num desses salões,
ao ouvir emocionado a primeira estrofe de Eneida de Virgílio, o expoente máximo
da literatura latina na poesia? Quem não se emociona –
“Arma virumque cano: Troiae que primus ab oris
Italiam, fato profugus, Lavinaque venit
Littora, multum ille e terris jactatus at alto
Vi Superum, saevae memorem lunonis ob iram”?
Quantas vezsa não lemos, analisamos e decoramos
trechos daquele outro monumental poema , “os Lusíadas”, em que Camões canta a
epopéia e os feitos da gente lusitana, o qual, à semelhança de virgílio, começou:
“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana”.
Quem já esqueceu o grande Marco Túlio Cícero, o
maior orador do Império Romano, o qual, dizia o Pe. Alexandrino Monteiro, teria
sido santo se tivesse vivido no Cristianismo? Quem já esqueceu a mundialmente
conhecida Primeira Catilinária:
“Quousque tandem abutere, Catilina, patientia
nostra?
Quamdiu etiam furor iste tuus nos eludet?
Quem ad sese effrenta jactabit audacia?
Oh tempora, oh mores, oh tempos, oh costumes, dizia o
grande Cícero
Continua, aguardem...