quarta-feira, 18 de maio de 2022

A SINAGOGA DO MARAIS – PARIS

 Publicado no Jornal do Médico , link, abaixo.

https://jornaldomedico.com.br/2022/05/a-sinagoga-do-marais-paris/



A Sinagoga do Marais, conhecida como Sinagoga da rue Pavée, está localizada, em Paris, no número 10 da rue Pavée, no coração da judiaria do Marais, no 4º arrondissement.

O edifício foi concluído em 1913, pelo arquiteto Hector Guimard (1867-1942), o mestre parisiense de Art Nouveau, para uma associação de nove sociedades judaicas ortodoxas de origem essencialmente russa, presidida por Joseph Landau.

A sinagoga, inteiramente financiada por fundos privados, foi inaugurada em 7 de junho de 1914, mas já estava em serviço desde outubro de 1913.

 Guimard construiu o edifício muito alto em uma faixa de terra inclinada e muito estreita (5 m × 23 m). A construção foi feita de pedras aglomeradas ocas sobre armações de concreto armado. Na fachada, a verticalidade é acentuada por janelas estreitas e pilastras contínuas. O volume interior também é totalmente vertical. Possui dois pavimentos de mezaninos de cada lado do vão central.

A nave é iluminada por claraboias no teto e uma grande janela de sacada na parede do fundo. Os móveis (lâmpadas, lustres, arandelas e bancos), bem como a decoração vegetalista estilizada no cajado e as grades de ferro fundido também são criações de Hector Guimard.

Originalmente, não havia “Estrela de Davi” na fachada, como pode ser visto nas fotos antigas. A “Estrela de David” data do pós-guerra.

Esta sinagoga ainda está em funcionamento. É uma das sinagogas ortodoxas não-consistoriais. Não é possível visitá-la em tempos normais, mas apenas em ocasiões especiais como as “Jornadas do Patrimônio Europeu”.

 

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988, em que ele fala da Sinagoga.

 

À tarde preparemos as forças para caminhar pelos quarteirões de Paris mais históricos, todos datando de 1300 a 1700, havendo vestígios dos séculos anteriores. Chegamos, pois, no Marais. Homenageando meus antepassados, comecemos pelos quarteirões judeus. Aquela sinagoga é mais velha que o Brasil. O frontispício está escorado por enormes estacas que ali estão a decênios para mais comover os visitantes que logo são solicitados a contribuir para a restauração do Templo.

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 13 de maio de 2022

 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

HOTEL DE SENS – PARIS

 

                HOTEL DE SENS – PARIS


Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/2022/05/hotel-de-sens-paris/

O Hotel de Sens, hôtel particulier medieval, localizado no 4º arrondissement de Paris, é uma mansão privada do século XV. Classificado como monumento histórico, o “Hotel de Sens”, atualmente, abriga a Biblioteca Forney. 

Construído para servir de residência aos arcebispos de Sens, foi, depois, usado por Carlos V, rei da França, como parte de sua residência real.

Quando os Reis se instalaram no Palácio de Louvre, o edifício foi destruído e substituído pelo atual, que foi construído entre 1475 e 1519, tornando-se residência dos arcebispos de Sens.

Serviu de casa a muitos prelados de renome, como: Antoine Duprat , Louis de Bourbon de Vendôme , Louis de Lorraine , Nicolas de Pellevé (que morreu no hotel). Margarida de Valois (Rainha Margô) também viveu lá, em 1605 e 1606, e sua decisão de cortar uma figueira ( figuier ) em frente ao prédio teria inspirado o nome da rua, rue du Figuier.

 Durante as Trois Glorieuses, revolução francesa de 1830, uma bala de canhão atingiu a fachada e se alojou profundamente dentro da parede, danificando-a.

 

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988, em que ele fala do Hotel de Sens.

 

“Aquele ali é o H. de Sens, medieval, destacável pelas suas torres e casas-fortes; são numerosos e imensos salões; a Rainha Margot primeira esposa de Henrique IV, aí ficou exilada; cinquentona continuou com suas farras (tinha rim quente, como se dizia lá em nosso S. José) e aplacava o fogo dos seus 50 escudeiros; vai daí, um destes, enciumado, matou o amante permanente. Margot não deixou por menos, mandando decapitá-lo ante a entrada do Castelo, para servir de advertência: cada escudeiro deveria aguardar pacientemente sua vez respeitando rigorosamente o rodízio”.

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 5 de maio de 2022

 

 

 

 

 

ENTREVISTA – VEJA

30 de julho de 1997

Sou o Jararaca

O escritor mais festejado pela crítica diz que literatura
pode ser uma grande inutilidade e que um mundo
como o nosso é obra exclusiva do capeta

Mario Sabino



"A Rua Aurora dos velhos tempos em São Paulo, clássica por seus bordéis, seria um templo em comparação às panelinhas literárias"

Foto: Antonio Milena

 

É um caso curioso, o do escritor paulista Raduan Nassar. Há 21 anos ele tenta fugir da literatura, mas de tempo em tempo acaba enrolado em relançamentos, homenagens e leituras públicas de obras suas. Foi o que aconteceu nos últimos meses. Autor de apenas dois livros, o romance Lavoura Arcaica e a novela Um Copo de Cólera, além de alguns contos publicados aqui e acolá, Nassar, fazendeiro de profissão, é venerado pela crítica literária como um dos melhores escritores brasileiros. A unanimidade a favor é tanta que ninguém percebeu que a ligeira recaída do autor, o conto "Mãozinhas de seda", escrito no ano passado, não é nada mais do que uma "molecagem", como ele próprio o define. Antes de viajar para o Oriente Médio, em companhia do diretor Luiz Fernando Carvalho, que prepara um filme baseado em Lavoura Arcaica, Nassar concordou em falar a VEJA, superando a sua aversão a entrevistas. Ele reafirma que não pretende voltar à literatura e aproveita para verter seu copo de cólera sobre essa tal modernidade.

Veja -- O brasileiro é essencialmente caipira, como acredita o presidente Fernando Henrique Cardoso?

Nassar -- O brasileiro em geral não sei, que não sou sociólogo, mas posso falar de mim. Me sinto caipira se acontece de eu entrar num shopping. Me sinto caipira diante da parafernália eletrônica. Me sinto caipira diante da desenvoltura urbana de certos cidadãos, uma desenvoltura que literalmente me faz mal. Me sinto caipira diante da progressiva impessoalidade nas relações humanas. Me sinto caipira porque sou contra o desperdício e contra essa nova mania do usa-e-joga-fora. Tenho um amigo que vive me dizendo que, se é para ter rádio, eu deveria trocar o meu. Então, também sou caipira por ainda gostar de rádio e por ter o rádio que sempre tive. Agora, se eu disser que não dispenso logo cedo uma boa horinha de música caipira, aí já vão dizer que, se não sou o Jararaca, sou então o Ratinho. Pensando bem, acho que sou o Jararaca. Seja quem eu for, que fique bem claro que me lixo para essa entidade que se identifica com o que está aí e que porta o elegante nome de "homem moderno", que mais parece griffe de moda. Mesmo quando se tranca no banheiro, esse homem está sempre de celular no ouvido, o que é o fim da picada. Aproveito para repetir o que o Carlos Drummond de Andrade disse há uns quinze anos nestas mesmas páginas amarelas: isso não é civilização, isso é uma porcaria!

Veja -- Por que o senhor voltou a publicar e está aparecendo em público?

Nassar -- Meu nome vem circulando nos últimos meses, mas isso não quer dizer que eu tenha voltado a escrever. Literatura para mim é coisa do passado. Não acredito que se possa recuperar aquele impulso vital que leva alguém a mergulhar de cabeça numa atividade. Depois que se perde isso, a gente tem mais é que cair fora. Não se faz literatura para valer com paixão requentada. Mesmo a literatura mais pessimista, aquela que afirma que o nosso mundo é o pior dos mundos, acaba até se desmentindo pelo entusiasmo com que se expressa. Já disseram que a voz sem entusiasmo jamais será ouvida.

Veja -- Mas o seu conto "Mãozinhas de seda" foi escrito no ano passado.

Nassar -- Aquilo foi uma molecagem.

Veja -- Por quê?

Nassar -- Uma molecagem contra mim mesmo, pois dá seqüência à minha inequívoca vocação para o suicídio autoral, como já disseram. No momento em que o seu trabalho está sendo divulgado como nunca, publicar um texto como esse é o mesmo que fazer um esparramo com o ventilador. A hipocrisia de intelectuais, a troca de favores entre eles, o comércio de prestígio, tudo isso não acontece só no Brasil. Não revelei nada de novo em "Mãozinhas de seda", só registrei o que é consenso entre os próprios intelectuais. Os mais inseguros e suscetíveis ficaram ouriçados, começaram a achar que a coisa é com eles, mas o texto não tem endereço certo, não tem CEP, nem nada.

Veja -- Mas não há notícia de crítica ruim a um livro seu. É bom ser unanimidade?

Nassar -- Duvido dessa suposta unanimidade dos críticos. Devem existir inúmeros leitores que não gostam dos meus livros.

Veja -- O que o senhor acha da crítica literária brasileira atual?

Nassar -- Não sei se as gerações de críticos anteriores foram tão melhores, como dizem. Às vezes penso que a crítica literária seria dispensável. Já aconteceu de eu ler autores incensados por críticos de peso e me sentir um completo débil mental por não conseguir enxergar tudo aquilo que eles viram. Acho impressionante essa capacidade de construir edifícios teóricos sobre o nada. Devemos tirar o chapéu para tanta imaginação. A crítica talvez seja importante para divulgar obras que poderiam passar despercebidas, embora a duração de certos livros dependa muito mais do boca-a-boca de leitores anônimos qualificados.

Veja -- As panelinhas literárias fazem parte do jogo ou dá para evitá-las?

Nassar -- Nunca participei de panelinhas, e prefiro não falar nada sobre o seu comportamento. Me limito a lembrar que a Rua Aurora dos velhos tempos em São Paulo, clássica por seus bordéis, seria um templo em comparação a elas.

Veja -- O fato de ter abandonado a literatura não o teria transformado em um personagem fascinante?

Nassar -- Abandonei o curso científico e pulei para o clássico, abandonei um curso de letras na universidade, o curso de direito no último ano, a empresa familiar assim que meu pai faleceu. Abandonei ainda uma criação de coelhos, o jornalismo e outras coisas mais. Tudo somado, só levei a pecha de inconstante. Por que só quando abandonei a literatura eu teria me transformado em personagem fascinante? Não é esquisito?

Veja -- O senhor se sente mitificado pelos críticos?

Nassar -- Quem sabe? O que posso dizer com certeza é que exercício crítico e mitificação não deveriam andar juntos, embora boa parte dos críticos empregue toda sua vida e energia na construção de mitos. É um processo que vem de longe e termina nas escolas. Os autores que constam dos currículos escolares acabam desumanizados, são transformados em pequenos deuses. O resultado disso é que o próprio ato de escrever é sacralizado, quando escrever é uma atividade como qualquer outra. Pessoalmente, fui vítima desse ensino da literatura nas escolas. Tanto que fiz segredo para minha família até as vésperas de eu ser publicado -- tinha receio de que me tomassem por pretensioso. Isso sem falar do massacre que a gente sofria nas livrarias. Era eu entrar numa livraria para achar que não teria nada a acrescentar à montanha de coisas que já tinham sido ditas, o que chegava a me levar a pensar em desistir dos meus objetivos literários. Eu não me dava conta então de que escrever tem muito a ver com história pessoal, muito a ver com exorcizar condicionamentos, fantasmas, demônios e sabe-se lá mais o quê. Nesse sentido, escrever é uma atividade incomparavelmente mais acessível e eficiente do que um divã de psicanalista. Acho até que parei de escrever porque me dei alta na auto-análise que fazia.

Veja -- Como a literatura deveria ser ensinada nas escolas?

Nassar -- Não sei, só desconfio de que ela não deveria ser ensinada como vem sendo. De um modo geral, acho que os professores transferem para os alunos gostos e critérios pessoais, o que acaba formando um rebanho destinado a adorar certos nomes. Talvez se devesse treinar o aluno a pensar com a própria cabeça, a ser ele mesmo na sua relação com as leituras -- supondo-se, é claro, que o professor também conseguisse pensar com sua própria cabeça.

Veja -- Qual a função da literatura hoje, se é que ela tem alguma?

Nassar -- Para quem faz, seria se ocupar em fazer. Para quem lê, se ocupar em ler. As duas ocupações seriam bons recursos para ludibriar a existência, o que não é pouco, sobretudo se se tratar de uma literatura portadora de reflexão sobre a vida. Escritores e leitores de uma literatura assim corresponderiam à parte da espécie que não consegue se ajustar a esse mundo. Uns e outros sairiam da sua solidão na medida em que a leitura promoveria um encontro entre eles. Agora, do ponto de vista de uma função social mais ampla, não consigo enxergar nada com clareza. Pode até ser uma grande inutilidade.

Veja -- O senhor vai ao cinema e ao teatro?

Nassar -- Há muitos anos não vou ao cinema e nem me lembro da última vez que fui ao teatro. Em parte por preguiça, mas sobretudo porque perdi o interesse. Não me faz falta. Acontece de eu ver um filminho em vídeo, mas é raro, e gosto quando vejo. Acho que existe uma oferta exagerada do que chamam de bens culturais. Como as informações passam por produto de maior valor no mercado, isso explica por que existe tanta gente de língua de fora atrás de um grande número delas. Me pergunto se as pessoas são mais felizes assim. Torço para que sejam.

Veja -- E televisão?

Nassar -- Vejo um bocado de TV, talvez por comodismo. Assisto a telejornais e acompanho novelas. No momento, estou começando a engatar em A Indomada. Vi Renascer, por exemplo, com muito interesse. Seu autor, Benedito Ruy Barbosa, se não estivesse na televisão, suponho que estaria escrevendo romances. Boa parte dos bons ficcionistas está hoje na televisão. Curto muito o trabalho de atores, e o Brasil tem alguns excelentes. Falar do Raul Cortez, como Berdinazi em O Rei do Gado, é incorrer num lugar-comum. Gosto também do trabalho daquele jovem, o Selton Mello, que teve seu melhor desempenho em Tropicaliente, com momentos antológicos. Agora, como televisão, o que mais me pegou nesses últimos tempos foi o Brasil Legal, da Regina Casé. A zorra das suas reportagens acaba em um milagre incrivelmente saboroso.

Veja -- Qual foi o último livro que o senhor leu?

Nassar -- Ficou difícil ler alguma coisa nos últimos anos por causa da diarréia antidiscursiva que acabou atacando também a prosa. É uma palavra solta aqui, é outra sem qualquer nexo lá, uma poesia que uma hora é pintura, aí não já não é mais pintura, é música, é eletrônica, é o escambau. Confesso que não tenho recursos e nem paciência. Fico até me perguntando se esses poetas imaginam que o leitor deve se debruçar a vida toda sobre o que eles fazem, para poder sacar alguma coisa. Me pergunto também se não existiria algo de comum entre essa moda antidiscursiva e subnutrição mental. Continuo pensando que as palavras, como os indivíduos, só ganham força quando se organizam ao lado de outras. Mas o desmanche não vem acontecendo só na literatura e nas oficinas de carros roubados.

Veja -- Onde mais?

Nassar -- De uns anos para cá, o mundo perdeu a graça. Depois do desmanche do Leste Europeu, andaram inclusive espalhando por aí que a História também foi desmanchada. Parece que literatura e contexto político nunca andaram tão sintonizados, é desmanche para tudo quanto é lado. Desmanche de estatais, desmanche de amizades, de linguagem. Por sinal, tem poeta vestido com macacão e mecânico de oficina lendo Joyce. Ficou difícil apostar em utopias, acho mesmo que no mundo todo só se pode falar em geléia geral. Mas desconfio de que o motor da História vai se acelerar logo mais com convulsões pela sobrevivência. Afinal, este mundo não foi criado por um deus bondoso, o deus bondoso só reina de fachada -- um mundo como o nosso só pode ser obra exclusiva do capeta.

Veja -- O senhor é um produtor rural insatisfeito?

Nassar -- Não há como não me sentir insatisfeito. Fala-se muito na falta de uma política agrícola, mas tudo não passou de papo-furado até agora. Na minha opinião, a questão agrícola brasileira só será encaminhada quando for alterada a relação entre setor urbano e setor rural. O setor urbano está montado no setor rural, e de nada adiantaria uma reforma agrária sem corrigir essa distorção. Um exemplo: para beber em poucos minutos uma Coca-Cola, o produtor rural precisaria desembolsar o equivalente a 10 metros quadrados de terra. É isso mesmo: na região da minha fazenda, 1 metro quadrado de terra sai por 10 centavos. Passei a converter também em sacos de milho os valores de produtos e serviços urbanos. Você precisa de trinta sacos de milho de 60 quilos para pagar uma consulta médica de meia hora. A conversão que venho fazendo na minha vida pessoal se tornou tão obsessiva que, se vou ao dentista, logo vejo nele um pé de milho. Para não falar das margens de lucro da grande indústria e da atuação do setor financeiro. Mas vamos parar por aqui que acabo saindo do sério.

Veja -- O que o senhor gosta de fazer nas horas vagas?

Nassar -- Gostar, gostar para valer, eu gosto mesmo é de dormir. Dormir é a melhor coisa deste mundo. Nem leitura, nem diversão, nem uma boa mesa, nada se compara. Sexo então é fichinha perto. É um momento de magia quando você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o seu corpo e a sua cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade, tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília para o sono. É o nirvana!

Veja -- E entre um nirvana e outro, o que haveria para fazer?

Nassar -- Há duas velhas sugestões. "Cultivar o seu próprio jardim", que é a do Voltaire, cínica e pessimista. E a sugestão do poeta Jorge de Lima, fervorosa e otimista: "Há sempre um copo de mar para um homem navegar". No fundo, são dois trapaceiros, pois as alternativas são ilusórias, em qualquer dos casos a gente acaba entrando pelo cano. Bom mesmo é dormir.

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terça-feira, 3 de maio de 2022

LA MAISON DE VICTOR HUGO – PLACE DES VOSGES - PARIS

 

Publicado no Jornal do Médico . Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/2022/05/la-maison-de-victor-hugo-place-des-vosges-paris/


Victor Hugo nasceu em 26/02/1802, em Besançon, e faleceu em 22/05/1885, em Paris. Foi um poeta romântico, dramaturgo e prosador francês ocupando um lugar de destaque na história da literatura francesa do século XIX.

 Escreveu com lirismo: “Odes and Ballades” (1826), “Les Feuilles d'automne” (1831) ou “Les Contemplations” (1856).  Foi um poeta engajado contra Napoleão III em “Les Châtiments” (1853) ou mesmo um épico poeta com “A Lenda dos Séculos” (1859 e 1877). Ele também foi um romancista popular que teve grande sucesso com “Notre-Dame de Paris” (1831), e ainda mais com “Les Misérables” (1862).

 

Victor Hugo viveu durante 16 anos, de 1832 a 1848, no segundo andar do antigo Hôtel Rohan-Guéménée, o mais espaçoso dos edifícios da Place des Vosges, em Paris. Foi lá que ele escreveu grande parte o seu livro “Les Miserables” e completou muitas de suas obras famosas.

O apartamento em que viveu, transformado em museu, está localizado no 6, Place des Vosges, no 4º arrondissemente e apresenta uma reconstrução de sua casa e de sua vida. Tudo evoca sua escrita através de móveis, objetos, obras de arte, livros, fotos e lembranças dos momentos importantes de sua vida, desde a infância até os 18 anos de exílio.

A “Antecâmara”, repleta de fotos, evoca os locais onde Victor Hugo passo sua infância  e  juventude.

O “Salão Vermelho”  evoca uma atmosfera ligada à literatura, arte e politica, com obras de arte, um busto de mármore do poeta David d’Angers e uma tela que retrata a história de Inez de Castro.

O “Salão Chinês” nos faz mergulhar no periodo de exílio em Guernsey e exala uma faceta pouco conhecida de Victor Hugo. Sua imaginação vem à tona com alusões a sua amada. Os monogramas VH e JD, iniciais de sua amada Juliette Drouet, estão presentes em toda decoração. Para completar a coleção, há a mesa oferecida a Juliette na qual escreveu a primeira série de A Lenda das Eras em 1859, com dedicatória escrita no próprio tampo da mesa.

Na “Sala de Jantar” vemos o gosto por móveis góticos.

No “Pequeno Estudo” podemos ver obras de coleções, como: desenhos, fotografias, gravuras, manuscritos etc.

O “Quarto” foi fielmente recriado. Entre outros móveis, está a famosa escrivaninha sobre a qual Victor Hugo escrevia em pé. A cama é a mesma em que ele faleceu no dia 22 de maio de 1885.

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 29 de abril de 2022

 

 

domingo, 24 de abril de 2022

A ORIGEM DO NOME DA CORRENTE PICTÓRICA: “IMPRESSIONISMO”

 

Texto publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo.

                Claude MonetImpression, soleil levant, 1872, Paris, Musée Marmottan Monet

“Impressionismo” é o termo que designa o movimento pictórico, surgido na França na década de 1860, que inaugurou a arte moderna.

Em oposição à arte acadêmica, um grupo de pintores, formado em torno de Édouard Manet, representava, em suas telas, a natureza efêmera da luz e seus efeitos nas cores e formas.

Depois de serem recusados no “Salon”, a maior exposição anual de artistas aprovada pela “Academia de Belas Artes”, os jovens artistas decidiram organizar exposições independentes.

Em 1874, 30 pintores, incluindo Paul Cézanne, Edgar Degas, Claude Monet, Berthe Morisot, Camille Pissarro, Auguste Renoir e Alfred Sisley, inauguraram o “Salão dos Recusados”.

Foi o satírico jornalista Louis Leroy quem inventou o termo “impressionismo”, a partir da pintura “Impression soleil levant”, de Monet.

No início, os artistas primeiro sofreram violentas críticas da imprensa e do público, mas foram apoiados por colecionadores que permitiram a realização de suas primeiras exposições, notadamente Gustave Caillebotte.

O reconhecimento dos impressionistas veio bem depois, em 1886, quando começou o sucesso internacional. Mary Cassatt, que participava de exposições impressionistas desde 1877, teve um papel importante no desenvolvimento do movimento nos Estados Unidos (EUA).

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988, em que ele fala da origem do termo “Impressionismo”.

 

“Monet, Renoir, Manet, Matisse, Degas e outros não tendo sido admitidos no Salão Oficial, fizeram em 1874 o Salão dos Recusados. Leroy, em sua coluna crítica do jornal Charivary, espinafrou esses pintores em célebre artigo “A exposição dos Impressionistas”. Disse que ali não havia pintura, mas só impressão delas e que o próprio Monet o confessava com o título do seu quadro. “Afinal, os coitados não passavam de uns impressionistas”. Mal sabia Leroy que com o seu termo sarcástico criava um nome artístico que reinaria perenemente. As telas dos impressionistas não têm preço, só ao alcance dos magnatas do petróleo. Sabendo disso, saímos melancólicos. Acabamos de ler em uma vitrine as dezenas de cartas desse gênio paupérrimo mendigando, aos marchands abastados, a esmola de lhe comprarem uma tela por 50 francos (!) para adquirir remédios e pagar parte do aluguel atrasado. É isso aí, vender ralos de privadas e cartões pornográficos sempre deram mais dinheiro que arte e medicina.”

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 22 de abril de 2022

 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Sofia IONESCU-OGREZEANU– A Primeira Neurocirurgiã do Mundo

 Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo.

https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Abril-2022-app.pdf

Sofia IONESCU-OGREZEANU– A Primeira Neurocirurgiã do Mundo

Sofia Ionescu, romena, filha de Constantim Ogrezeanu e Maria Ogrezeanu, nasceu em 25/04/1920, em Fâlticeni, e faleceu em 21/03/2008, em Bucareste.

A morte de um colega após uma cirurgia cerebral, levou Sofia, com o apoio de sua mãe, a fazer o vestibular para a faculdade de Medicina, com apenas 16 anos de idade.

Depois de vários estágios, ela ingressou no setor cirúrgico do Hospital Stamate, em Fălticeni, realizando suas primeiras operações cirúrgicas, principalmente amputações.

Em 1944, durante o bombardeio de Bucareste, por falta de médicos, ela foi forçada a realizar uma operação cerebral de emergência em um menino ferido. Finalmente, em 1945, recebeu o título de médica cirurgiã.  

Durante 47 anos, Sofia Ionescu foi neurocirurgiã no Hospital Nr. 9, formando uma equipe com Ionel Ionescu e Constantin Arseni, sob a direção de Dumitru Bagdasar. Juntos, eles formaram a primeira equipe neurológica da Romênia, apelidada de “equipe de ouro”, que contribuiu para o desenvolvimento da neurocirurgia em seu país.

Em 1970, a esposa favorita do Sheikh de Abu Dhabi adoeceu. Como um médico homem não podia entrar no harém, Sofia foi solicitada e ficou uma semana ao lado da mulher que se curou. Como recompensa, o xeque lhe deu 2.000 dólares e uma joia cara.

Sofia salvou centenas de vidas até sua aposentadoria forçada em 1990, devido à uma catarata que a incapacitou para o trabalho cirúrgico. Ela continuou, entretanto, o trabalho científico, escrevendo artigos e dando contribuições para a neurociência, especialmente para a cirurgia medular e cerebral, escrevendo artigos científicos em várias revistas especializadas.

Em 1957, Sofia foi outorgada com a insígnia da Cruz Vermelha; em 1964, com a medalha do “20º Aniversário da Libertação da Pátria”; em 1972, com a medalha do “25º Aniversário da Proclamação da República”.

Em 1996, tornou-se membro da Sociedade Romena de História da Medicina e, em 29/03/1997, membro emérito da Academia de Ciências Médicas, além de Cidadã Honorário de Fălticeni.  Em 2008, recebeu a maior distinção na Romênia, a “Estrela da República”, no posto de cavaleiro.

A nomeação como primeira neurocirurgiã feminina ocorreu em Marrakech, Marrocos, durante o Congresso WFNS de 2005, embora alguns afirmem que Diana Beck merecesse o título. Porém, a primeira intervenção cirúrgica documentada realizada por Diana Beck foi em 1952 e Sofia Ionescu realizou sua primeira cirurgia em um cérebro humano, em 1944.

Sofia Ionescu faleceu em Bucareste, em 21/03/2008, com 87 anos de idade, entrando para a História da Neurocirurgia.

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São Paulo, 11 de abril de 2922

 

segunda-feira, 18 de abril de 2022

As Nanás da Pinacoteca de São Paulo

  Yexto publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo.

https://jornaldomedico.com.br/2022/04/as-nanas-de-saint-phalle-da-pinacoteca-de-sampa/



           As Nanás da Pinacoteca de São Paulo - Foto ana margarida rosemberg

A Pinacoteca de SAMPA tem uma escultura, "Fonte das quatro Nanás", 1974, da escultora franco-americana, Niki de Saint Phalle. Essa obra, uma das mais queridas pelo público, permanece em exposição de longa duração, no pátio interno do edifício luz, encantando os visitantes, apesar das quatro Nanás terem dimensões reduzidas em comparação com as outras Nanás da escultora.

Catherine Marie-Agnès de Saint-Phalle (Niki de Saint Phalle) nasceu em Neuilly-sur-Seine, França, em 29/10/1930 e faleceu na Califórnia, Estados Unidos, em 21/05/2002. Saint Phalle foi primeiro modelo, depois mãe, antes de ser artista. Em 1952, começou a pintar inspirada em várias correntes, como: arte crua e arte outsider.

Em 1961, integrou o grupo “Novos Realistas”, juntamente com Gérard Deschamps, César, Mimmo Rotella, Christo e Yves Klein. Casou-se com Harry Mathews, com quem teve dois filhos. Seu segundo marido foi o artista suíço Jean Tinguely.  Juntos, eles realizaram, em Paris, a “Fonte Stravinsky”.

Saint Phalle explorou representações artísticas de mulheres, fazendo bonecas de tamanho impressionante, as Nanás. Uma das versões mais conhecidas, inspirada na gravidez de uma de suas amigas, a atriz Clarice Riversnote, pode ser encontrada no “Museu Tinguely da Basileia”; outra versão é mantida no “Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Estrasburgo”. Uma série de Nanás está em exposição permanente no “Mercado de Pulgas de Hanover”, na Alemanha.

Foi a partir dos anos de 1960 que Saint Phalle começou a esculpir essas figuras de mulheres – uma verdadeira celebração da essência feminina - nas quais estão acentuadas: as mamas e as ancas. O tamanho dessas Nanás tem um significado para Niki de Saint Phalle. A intenção era se desvincular do mundo do mercado de arte e de seus ditames impostos pelos galeristas.

As Nanás representam mulheres virgens, prostitutas, grávidas, com corpos generosos, festejando a vida. São mulheres volumosas que dançam e desdenham dos padrões de magreza do século XX. Saint Phalle reforça o conceito de que todas as mulheres são deusas.

            Viva as Nanás! Viva Saint Phalle! Viva Sampa!

ana margarida furtado arruda rosemberg

São Paulo, 16 de abril de 2022