segunda-feira, 25 de maio de 2026

Arte & Medicina - Os fumadores - 1626

 40. Portraits de trois artistes en buveurs et fumeur (Simon de Vos, Jan Cossiers, Johann Geerlof). Autre titre : Les Fumeurs (Retratos de três artistas que bebiam e fumavam (Simon de Vos, Jan Cossiers, Johann Geerlof). Outro título: Os Fumantes) — 1626



Ficha Técnica

Artista: Simon de Vos (1603–1676)
Título original: Portraits de trois artistes en buveurs et fumeurs (Simon de Vos, Jan Cossiers, Johann Geerlof)
Título em português: Retratos de três artistas como bebedores e fumantes
Outro título: Les Fumeurs (Os Fumantes)
Data: 1626
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 63 × 93 cm
Localização atual: Musée du Louvre, Paris, França
Crédito da imagem:
Fotografia da autora, acervo pessoal

 

O COTIDIANO EM CENA: Entre o Vinho e a Fumaça

 

“A amizade, como a arte, ilumina até os detalhes mais sombrios da vida.”

Autor desconhecido

Esta tela, um retrato triplo de 1626, mostra Simon de Vos entre dois amigos artistas, Jan Cossiers (1600–1671) e Johan Geerlof, em Aix-en-Provence-França, onde residiam diversos artistas dos Países Baixos.

A obra utiliza a técnica do chiaroscuro, inspirada no Caravagismo de Utreque (artistas barrocos influenciados por Caravaggio). O quadro retrata os três jovens fumando cachimbo e bebendo, em uma composição intimista. As figuras apresentam traços característicos das primeiras pinturas de Simon de Vos: rostos robustos, olhos levemente afastados. Uma inscrição intrigante do pintor diz: “Fecit Simon Cossiers Geerlof Anno 1626”. A frase pode ser interpretada como um trocadilho ou como uma homenagem aos dois amigos artistas.

A paleta utilizada combina tons escuros com detalhes de renda branca, criando contraste e luminosidade. Os rostos, iluminados a partir do lado esquerdo da tela, se destacam sobre um fundo neutro. A posição das cabeças, três quartos, fullface e perfil, transmite diferentes facetas de uma única amizade, conferindo à obra profundidade psicológica e equilíbrio formal.

Embora a pintura não trate de questões médicas diretamente, ela documenta o consumo de álcool e tabaco no século XVII. Esses hábitos, comuns entre artistas e elites urbanas, eram vistos como sociabilidade e lazer. Hoje, sabemos que o álcool e o tabaco têm efeitos adversos à saúde, incluindo doenças cardiovasculares, respiratórias e transtornos por uso de substâncias. A obra funciona, assim, como um registro histórico das práticas cotidianas antes da medicalização moderna do comportamento humano.

Biografia resumida Simon de Vos (1603-1676)

Simon de Vos nasceu em 1603, em Antuérpia-Bélgica, e faleceu em 1676, aos 72 anos, na mesma cidade. Durante sua carreira, fez uma estadia em Roma, onde entrou em contato com as tendências barrocas italianas. Até 1640, seu estilo se assemelhava ao de seus contemporâneos Dirck Hals e Pieter Codde.

Após 1640, sob a influência de Peter Paul Rubens e Antoine van Dyck, passou a dedicar-se a obras históricas e religiosas de grandes dimensões. Entre suas realizações destacam-se: Série de doze pinturas sobre a Criação, descrita no Gênesis (1635–1644), parcialmente na Catedral de Sevilha; A Adoração dos Magos (1643); O Martírio de São Pedro (1648). Em 1626, Simon de Vos casou-se com a irmã do pintor Adriaen van Utrecht, estabelecendo-se em seu estúdio em Antuérpia, onde passou a maior parte de sua vida.

 


segunda-feira, 11 de maio de 2026

ARTE & MEDICINA - 96. As Duas Fridas — 1939

 

96. Las dos Fridas (As Duas Fridas) — 1939


Descrição Técnica

Autora: Frida Kahlo (1907-1954)

Título: Las dos Fridas (As Duas Fridas)

Ano: 1939

Técnica: óleo sobre tela

Dimensões: 173 x 173,5 cm

Localização atual : Museu de Arte Moderna do México, Cidade do México

Crédito da Imagem: Domínio público

 

AS DUAS FRIDAS: dor, identidade e anatomia emocional

“Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”
Frida Kahlo
   

Na tela “As duas Fridas”, em primeiro plano, vemos duas mulheres sentadas, sobre um banco verde, de mãos dadas. São duas representações da própria Frida Kahlo.  A da direita está vestida com saia longa e blusa de mangas curtas, de cores fortes, como as roupas das índias mexicanas Tehuanas, segurando um talismã com um retrato de Diego criança; a figura da esquerda está vestida como uma europeia: saia longa branca, bordada com flores vermelhas, e uma blusa branca de renda, com gola alta e mangas bufantes.

Os corações das duas estão expostos e ligados por veias braquiocefálicas. O da Frida mexicana está intacto e o da europeia está aberto, dilacerado, com as estruturas internas (válvulas, músculos papilares e cordas tendíneas) visíveis.  A veia subclávia direita da Frida europeia está partida, gotejando e presa por uma pinça cirúrgica que ela controla para estancar, ou não, a hemorragia. Os detalhes das mãos e dos corações, mostram que a Frida mexicana apoia e mantém viva a Frida europeia. Ao fundo, um céu tempestuoso e carregado de nuvens reforça a atmosfera de sofrimento emocional e instabilidade psicológica que permeia a obra. A pintura foi realizada em 1939, período em que Frida enfrentava a dolorosa separação de Diego Rivera, fato que influenciou profundamente o conteúdo simbólico da tela.

Em 1950, onze anos após pintar a obra, Frida registrou em seu diário uma lembrança da infância relacionada à dualidade presente na pintura:

“ORIGEM DAS DUAS FRIDAS = Lembranças. Eu devia ter 6 anos quando vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina mais ou menos da mesma idade. Não me lembro de sua imagem e nem de sua cor. Mas sei que era alegre. Ela ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse peso algum. Eu a seguia em todos os seus movimentos e enquanto ela dançava eu lhe contava meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Mas ela sabia pela minha voz todas as minhas coisas (…)”

A dualidade do quadro “As duas Fridas” nos remete, também, à Frida e a sua amiga imaginária de infância, que dançava alegremente, enquanto ela sofria com as sequelas da poliomielite, que havia sido acometida.

Em 1947, Instituto Nacional de Belas Artes da Cidade do México adquiriu “As duas Fridas” por 4.000 pesos. Uma reprodução  deste quadro está no Museu Frida-Kahlo (Casa Azul), em Coyoacán, no México, maravilhando os visitantes.

 

Breve Biografia de Frida Kahlo (1907–1954)

Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu em Coyoacán, no México, em 6 de julho de 1907. Filha do fotógrafo alemão naturalizado mexicano Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón y González, de ascendência indígena e espanhola, Frida tornou-se uma das artistas mais importantes da história da arte latino-americana.

Aos seis anos de idade, contraiu Poliomielite, enfermidade que deixou sequelas permanentes em sua perna direita, levando-a a usar saias longas durante toda a vida. Posteriormente, enfrentou inúmeros problemas de saúde e foi submetida a mais de trinta cirurgias. Em 1925, aos dezoito anos, sofreu um grave acidente quando o ônibus em que viajava colidiu com um bonde. O impacto provocou múltiplas fraturas na coluna vertebral, na pelve e na perna direita, além de ferimentos internos severos causados por uma barra de ferro que atravessou seu corpo. Durante o longo período de recuperação, começou a pintar autorretratos, transformando a dor física e emocional em expressão artística. Em 1928, ingressou no Partido Comunista Mexicano, ocasião em que conheceu Diego Rivera, com quem se casou no ano seguinte. O relacionamento foi intenso e conturbado, marcado por separações, reconciliações e infidelidades. O divórcio ocorreu em 1939, seguido de um novo casamento em 1940.

A produção artística de Frida Kahlo é profundamente autobiográfica e marcada pela representação do corpo ferido, da dor, da maternidade frustrada e da identidade feminina. Em suas pinturas, anatomia, sofrimento e emoção fundem-se em imagens simbólicas que aproximam arte e medicina. Frida Kahlo faleceu em 13 de julho de 1954, em Coyoacán, aos 47 anos, vítima de embolia pulmonar. Sua obra permanece como um dos maiores testemunhos visuais da relação entre sofrimento físico, identidade e criação artística.

Referências

Frida Kahlo. Diário de Frida Kahlo: Um íntimo autorretrato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.

Herrera, Hayden. Frida: A Biografia de Frida Kahlo. São Paulo: Globo Livros, 2011.

Tibol, Raquel. Frida Kahlo: Uma Vida Aberta. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

As duas Fridas. 1939. Óleo sobre tela. Acervo do Museo de Arte Moderno.

Jamis, Rauda. Frida Kahlo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

ARTE & MEDICINA - 97. A Coluna Partida - Frida Kahlo

 

97.  La columna rota (A Coluna Partida) - 1944

Descrição Técnica

Artista: Frida Kahlo (1907-1954)

Título: La columna rota (A Coluna Partida)

Ano: 1944

Técnica: óleo sobre masonita

Dimensões: 39,8 x 30,7 cm

Localização: Museo Dolores Olmedo Xochimilco, Cidade do México, México

Crédito da Imagem: Domínio público

A COLUNA PARTIDA: dor crônica, corpo fragmentado e resistência

“Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?”
Frida Kahlo

Na tela La columna rota, a dor física e emocional constitui o tema central da composição. Em primeiro plano, Frida Kahlo aparece em pé, com o tronco nu envolto por um espartilho metálico que sustenta uma coluna jônica fraturada no lugar de sua coluna vertebral. A imagem transforma o corpo da artista em metáfora visual do sofrimento e da fragilidade humana.

Frida segura um tecido branco que cobre parcialmente a parte inferior de seu corpo, conferindo delicada sensualidade à figura, apesar da evidente condição de sofrimento. Seu rosto, banhado por lágrimas, mantém expressão firme e olhar intenso, revelando postura estoica diante da dor crônica que marcou sua existência. Inúmeros pregos espalhados pelo corpo simbolizam as dores lancinantes e constantes que a artista suportava diariamente. Ao fundo, uma paisagem árida e rachada prolonga visualmente a ideia de ruptura e devastação física. O horizonte desolado e o mar distante reforçam a sensação de isolamento, solidão e vulnerabilidade emocional vivida por Frida Kahlo.

A pintura foi realizada em 1944, após uma delicada cirurgia na coluna vertebral. Durante o difícil pós-operatório, Frida permaneceu longos períodos acamada e obrigada a utilizar coletes ortopédicos metálicos para sustentar o corpo e aliviar parcialmente as dores. Nesse contexto, a obra converte-se em poderoso testemunho autobiográfico da experiência da dor crônica.

O médico geriatra Desmond O'Neill publicou, em 7 de maio de 2011, no British Medical Journal, um estudo destacando a importância da obra de Frida Kahlo para a compreensão da dor em pacientes. Segundo O’Neill, a artista possui extraordinária capacidade de representar visualmente o sofrimento físico e emocional, tornando-se símbolo de identificação para pessoas acometidas por dores crônicas.

Diversos estudiosos também estabelecem paralelos entre La columna rota e o martírio de São Sebastião, frequentemente representado transpassado por flechas. Assim como o santo, Frida converte o sofrimento corporal em expressão simbólica de resistência, transcendência e sobrevivência. No contexto da arte e medicina, a obra representa um dos mais impactantes registros visuais da experiência subjetiva da dor, evidenciando como a arte pode traduzir aspectos emocionais e existenciais frequentemente inacessíveis aos discursos médicos tradicionais.

Breve Biografia de Frida Kahlo (1907–1954)

Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu em Coyoacán, México, em 6 de julho de 1907, e faleceu na mesma cidade, em 13 de julho de 1954, aos 47 anos, vítima de embolia pulmonar. Filha do fotógrafo Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón y González, Frida tornou-se uma das artistas mais importantes da arte latino-americana do século XX. Aos seis anos de idade, contraiu Poliomielite, enfermidade que deixou sequelas permanentes em sua perna direita. Além das limitações físicas decorrentes da doença, enfrentou diversos problemas de saúde ao longo da vida.

Em 1925, aos dezoito anos, sofreu um grave acidente de trânsito quando o ônibus em que viajava colidiu com um bonde. O impacto provocou múltiplas fraturas na coluna vertebral, na pelve e na perna direita, além de severas lesões internas causadas por uma barra metálica que atravessou seu corpo. Em decorrência dessas lesões, foi submetida a mais de trinta cirurgias. Em 1929, casou-se com o muralista Diego Rivera. O relacionamento intenso e conturbado foi marcado por separações, reconciliações e um divórcio em 1939, seguido de novo casamento no ano seguinte.

Grande parte da produção artística de Frida Kahlo é autobiográfica e centrada no corpo ferido, na dor, na identidade feminina e na experiência emocional do sofrimento. Em 1944, após mais uma cirurgia na coluna e durante um doloroso período de recuperação, pintou La columna rota, transformando sua experiência física em uma das imagens mais emblemáticas da relação entre arte e medicina.

Referências

Frida Kahlo. Diário de Frida Kahlo: Um íntimo autorretrato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.

Herrera, Hayden. Frida: A Biografia de Frida Kahlo. São Paulo: Globo Livros, 2011.

Tibol, Raquel. Frida Kahlo: Uma Vida Aberta. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

Desmond O'Neill. “Frida Kahlo’s Art as a Representation of Pain”. British Medical Journal, 2011.

La columna rota. 1944. Óleo sobre masonita. Acervo do Museo Dolores Olmedo.

Sontag, Susan. A Doença como Metáfora. Rio de Janeiro: Graal, 1984. 

ARTE & MEDICINA 98. Retirantes (Retirantes)

 

98.  Retirantes (Retirantes) — 1944


Ficha Técnica

Autor: Cândido Portinari (1903-1962)

Título: Retirantes (Os Retirantes)

Ano:1944

Técnica: óleo sobre tela

Dimensões:190 x 180 cm

Localização atual:  Museu de Arte de São Paulo (MASP) – Brasil

Crédito da Imagem:

OS RETIRANTES: fome, doença e exclusão social

“Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos /
Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos /
Doloridos como fagulhas de carvão aceso.”
Cândido Portinari

Na tela Retirantes, integrante da série composta também pelas obras Criança Morta e Enterro na Rede, Cândido Portinari retrata uma família anônima de retirantes nordestinos, composta por nove pessoas: três adultos, uma adolescente e cinco crianças. A composição apresenta dois planos distintos: o primeiro plano e o plano de fundo. No primeiro plano, observam-se duas unidades compositivas. À esquerda, uma unidade menor formada por um velho apoiado em um cajado e uma adolescente segurando uma criança nos braços. À direita, uma unidade maior reúne uma mulher com uma trouxa sobre a cabeça e um recém-nascido nos braços, além de um homem acompanhado de três crianças. No plano de fundo, a tela divide-se em duas áreas principais. A porção superior, ocupando aproximadamente dois terços da composição, apresenta um degradê de azul que vai do tom escuro ao branco. Na região mais clara observam-se esboços de montanhas e, no canto superior direito, a lua. O terço inferior exibe tonalidades marrons repletas de pedras e carcaças de animais, enfatizando a devastação provocada pela seca.

As personagens aparecem desnutridas e fragilizadas, vítimas da fome e das condições extremas do sertão nordestino. A pele ressequida e castigada pelo sol reforça a dramaticidade da cena. A paisagem árida, construída com tons acinzentados, azulados e escuros, produz atmosfera fúnebre, intensificada pelos urubus que sobrevoam o grupo, sugerindo a proximidade constante da morte. A mulher, carregando um recém-nascido envolto em tecido branco, apresenta expressão marcada pela angústia e pelo sofrimento. O homem, maltrapilho e de olhar assustado, usa chapéu de palha, leva uma trouxa ao ombro e conduz uma criança pela mão. O menino localizado à frente apresenta abdome distendido, característica associada popularmente à “barriga d’água”, manifestação frequentemente relacionada à Esquistossomose causada pelo verme Schistosoma mansoni. À esquerda, o velho apoiado no cajado revela sinais evidentes de desnutrição e expressão de horror. A adolescente sustenta uma criança extremamente magra e debilitada.

Todos os personagens demonstram sofrimento profundo, traduzido pelas expressões faciais e pela debilidade física. A obra retrata o drama histórico da migração de famílias nordestinas que abandonavam suas terras assoladas pela seca em busca de sobrevivência nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Utilizando elementos do expressionismo e do cubismo, Portinari transforma a pintura em denúncia social da fome, da miséria e das desigualdades brasileiras. No contexto da arte e medicina, a obra constitui poderoso documento visual sobre desnutrição, doenças parasitárias, pobreza extrema e sofrimento humano coletivo.

Biografia de Cândido Portinari (1903-1962)

Filho de imigrantes italianos, Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, Cândido Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903, na Fazenda Santa Rosa, próxima à cidade de Brodowski, interior de São Paulo e faleceu, em 1962, no Rio de Janeiro.  De origem humilde, tornou-se um dos maiores artistas brasileiros do século XX. Ainda criança demonstrou talento para o desenho e, em 1918, participou da restauração da igreja de Brodowski, auxiliando pintores e escultores italianos itinerantes. Em 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Escola Nacional de Belas Artes.

Em 1928, conquistou a Medalha de Ouro do Salão Nacional de Belas Artes com a obra Retrato de Olegário Mariano, recebendo prêmio de viagem à Europa. Durante os dois anos que passou em Paris, Portinari teve contato com importantes artistas, frequentou museus e conheceu sua futura mulher, a uruguaia Maria Martinelli (1912-2006). Em Paris, vendo sua terra à distância, escreveu: “Vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor...”

Em 1931, Portinari retornou ao Brasil casado com Maria, que foi seu esteio, suporte e âncora, por proporcionar-lhe total e exclusiva dedicação à pintura.  Em 1935, com a obra “Café”, importante marco de sua pintura social, Portinari conquistou menção honrosa e inúmeros elogios de críticos americanos, na Exposição Internacional de Arte Moderna do Instituto Carnegie, em Nova Iorque.

Portinari retratou a história e a cultura do povo, revelando, assim, a alma do brasileiro. Sensível ao sofrimento de sua gente, mostrou, em cores fortes, os plantadores de café, os trabalhadores, a dor e a miséria dos retirantes nordestinos. Sua faceta lírica o fez pintar os meninos de Brodowski, com suas brincadeiras, danças e cantos.

Em 1939, nasceu João Candido, filho único do casal Portinari.  João se dedica, desde 1979, ao “Projeto Portinari” e define o seu pai com a palavra “Amor”, pois em sua obra a luta por valores humanos e socais é permanente.

Portinari realizou exposição individual em Nova Iorque e em Paris, entre outras cidades; pintou os murais da Biblioteca do Congresso Americano, em Washington; do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro; decorou a Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, em Belo Horizonte, com os murais “São Francisco” e “Via Sacra”; pintou os painéis: “Tiradentes”, “A Primeira Missa no Brasil” e os da Igreja Matriz de Batatais-SP;  pintou, entre outras séries, “Meninos de Brodowski” e “Os Retirantes”(Criança Morta, Enterro na Rede e Retirantes) onde denuncia a profunda desigualdade social do Brasil.

Em 1941, demonstrando singelo amor por sua avó paterna Pellegrina, que doente não podia se locomover para ir à Igreja rezar, Portinari pintou, em um dos cômodos da residência da família, em Brodowski, a “Capela da Nonna”.  Para a decoração, Portinari pintou os santos prediletos de sua avó, em tamanho natural, usando como modelos os familiares e amigos.

Portinari foi um dos maiores pintores brasileiros de todos os tempos, deixando um legado de mais de cinco mil obras de arte. Participou de exposições em vários países do mundo. Foi consagrado em São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Nova Iorque, Montevidéu, Varsóvia, entre outras cidades. O governo francês o condecorou com a medalha “Legião de Honra” (1946).

Já doente, intoxicado pelo chumbo das tintas, aceitou, em 1952, a incumbência de pintar dois painéis para a ONU, “Guerra e Paz”, de 10 x 14 m cada, concluindo-os, em 1956. O tema da guerra foi inspirado por “Quatros Cavaleiros do Apocalipse”, da bíblia, e o da Paz, pela tragédia grega Eumênides, de Esquilo, em visão livre.         

O artista Enrico Bianco disse que "Guerra e Paz" são as duas grandes páginas da emocionante comunicação, que o pintor entrega à humanidade. Segundo seu filho, João Candido, esta grandiosa obra universal é um diálogo entre o trágico e o lírico, entre a fúria e a ternura, entre o drama e a poesia.

Sua faceta de poeta o levou a escrever poemas, com temas sociais, traduzindo poeticamente sua obra plástica. Em um texto, Portinari escreveu:

"Impressionavam-me os pés dos trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés sofridos com muito e muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil era distingui-los. Os pés e a terra tinham a mesma moldagem variada. Raros tinham dez dedos, pelo menos dez unhas. Pés que inspiravam piedade e respeito. Agarrados ao solo eram como os alicerces, muitas vezes suportavam apenas um corpo franzino e doente. Pés cheio de nós que expressavam alguma coisa de força, terríveis e pacientes."

Portinari ilustrou, através da “Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil”, as obras literárias: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1944) e “O Alienista” (1948).

Atuante no movimento político-partidário, Portinari candidatou-se pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) a deputado federal (1945) e a senador (1947) sem conseguir eleger-se. Perseguido no Brasil, por ser comunista, exilou-se durante algum tempo, no Paraguai. Portinari nunca se afastou de suas convicções ideológicas. Sua militância política é absolutamente fiel e coerente com sua pintura. Ironicamente, Portinari foi proibido de participar da inauguração dos painéis “Guerra e Paz”, ao ter o visto de entrada nos EEUU negado, por pertencer ao PCB, e faleceu sem vê-los expostos na ONU.

Em 1960, quando nasceu sua neta Denise, ele escreveu: “Minha neta me libertará da solidão”. Denise foi retratada pelo avô inúmeras vezes, em telas líricas.

Portinari faleceu no dia 6 de fevereiro de 1962, aos 58 anos, intoxicado pelo chumbo das tintas (saturnismo). Presentes no velório: Juscelino Kubitschek; Hermes Lima, representando o Presidente João Goulart; os líderes comunistas na clandestinidade, Luís Carlos Prestes e Carlos Marighela; o líder anticomunista e governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. A Presidência da República emitiu nota de pesar e foi decretado luto oficial de três dias no Estado da Guanabara. Portinari, ícone do modernismo brasileiro, ao colocar o homem como tema central de sua arte, nos lega uma mensagem de humanismo universal.

Referências

Cândido Portinari. Portinari Poeta. Rio de Janeiro: Projeto Portinari, 1990.

Fabris, Annateresa. Cândido Portinari. São Paulo: Edusp, 1996.

Projeto Portinari. Acervo e documentação histórica de Cândido Portinari.

Retirantes. 1944. Óleo sobre tela. Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

Schwarz, Roberto. Sequências Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Scliar, Moacyr. A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Abril Cultural. Gênios da Pintura: Portinari. São Paulo: Abril Cultural, n. 6, 1967.

ARTE & MEDICINA - 99. Criança Morta

 

99. Criança morta (Criança Morta) — 1944


Ficha Técnica

Autor – Cândido Portinari (1903-1962)

Título Criança Morta (Criança Morta)

Ano – 1944

Técnica óleo sobre tela

Dimensões – 190 x 180 cm

Localização atual – Museu de Arte de São Paulo (MASP) – Brasil

Crédito da Imagem:

CRIANÇA MORTA: fome, luto e sofrimento social

“A obra de Portinari atinge a beleza de um cântico auroral por sobre as misérias do mundo e particularmente de seu país; é testemunho e resgate.”
Carlos Drummond de Andrade

A tela Criança Morta integra a série composta também pelas obras Retirantes e Enterro na Rede. Nela, Cândido Portinari retrata, de forma profundamente dramática, uma família de retirantes nordestinos lamentando a morte de uma criança, vítima da seca tragédia histórica e social que assola o Nordeste brasileiro há séculos.

A composição organiza-se em dois planos. No primeiro plano, destacam-se seis figuras humanas. No centro da cena, uma mulher agigantada encontra-se sentada sobre um caixote, inclinando o corpo para frente enquanto segura nos braços uma criança morta, nua e extremamente raquítica. O corpo da criança aparece disposto horizontalmente, com a cabeça e o braço direito pendentes, evocando a composição clássica da Pietà, de Michelangelo.

Ao redor da mãe, outras figuras intensificam o sentimento de luto coletivo. À esquerda, um homem em pé, provavelmente o pai da criança, segura o braço da mulher. Seu corpo inclina-se levemente para frente, enquanto abundantes “lágrimas de pedra” escorrem por seu rosto. À frente dele, uma adolescente maltrapilha sustenta a cabeça da criança morta, também vertendo lágrimas pétreas. À direita da composição, uma jovem com véu na cabeça segura o pulso de uma criança desnutrida e assustada. Todas as figuras apresentam corpos esquálidos, pés descalços, roupas rasgadas e expressões marcadas pelo sofrimento extremo, evidenciando os efeitos devastadores da fome, da sede e da miséria.

O segundo plano divide-se em duas áreas: uma superior, formada por um degradê em tons de azul, e outra inferior, construída em tonalidades terrosas, com pedras espalhadas e uma cabaça abandonada no chão. A paisagem árida, plana e desértica reforça a sensação de abandono e desesperança. A cena é intensa e emocionalmente impactante. As mãos exageradamente grandes da mãe ampliam simbolicamente a dimensão de sua dor. As lágrimas transformadas em pedras sugerem sofrimento endurecido pela fome e pela tragédia social. Os tons cinza, ocre, violeta, lilás, branco e verde conferem à pintura atmosfera lúgubre e melancólica.

Por meio da série Retirantes, Portinari denuncia, em linguagem expressionista, a desigualdade social brasileira e o drama humano provocado pela seca e pela exclusão. No contexto da arte e medicina, a obra constitui poderoso documento visual sobre desnutrição, mortalidade infantil, sofrimento coletivo e vulnerabilidade social.

Breve Biografia de Cândido Portinari (1903–1962)

Filho de imigrantes italianos, Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, Cândido Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903, na Fazenda Santa Rosa, próxima à cidade de Brodowski, interior de São Paulo e faleceu em 6 de fevereiro de 1962, no Rio de Janeiro, aos 58 anos.

Ainda criança demonstrou talento para o desenho e, em 1918, participou da restauração da igreja de Brodowski, auxiliando pintores e escultores italianos itinerantes. Em 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Escola Nacional de Belas Artes.

Em 1928, conquistou a Medalha de Ouro do Salão Nacional de Belas Artes com a obra Retrato de Olegário Mariano, recebendo prêmio de viagem à Europa. Em Paris, entrou em contato com importantes movimentos artísticos modernos e consolidou o desejo de representar o povo brasileiro em sua pintura.

Ao retornar ao Brasil, em 1931, desenvolveu uma produção profundamente voltada às questões sociais. Retratou trabalhadores rurais, retirantes nordestinos, crianças pobres e cenas populares, revelando as desigualdades sociais do país. Obras como Retirantes, Café e os painéis Guerra e Paz tornaram-se marcos da arte brasileira. Portinari também executou importantes murais públicos, incluindo os da Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, do Palácio Gustavo Capanema e da sede da Organização das Nações Unidas.

Militante político e filiado ao Partido Comunista Brasileiro, candidatou-se a cargos públicos e sofreu perseguições ideológicas durante parte da vida. Sua arte permaneceu coerente com seu compromisso humanista e social. Portinari produziu mais de cinco mil obras e recebeu reconhecimento internacional, incluindo a condecoração da Legião de Honra concedida pelo governo francês.

Nos últimos anos de vida, sofreu grave intoxicação pelo chumbo presente nas tintas que utilizava, desenvolvendo Saturnismo que causou sua morte. A obra de Portinari permanece como um dos maiores testemunhos visuais da realidade social brasileira, unindo arte, denúncia e profundo humanismo.


Referências

Cândido Portinari. Portinari Poeta. Rio de Janeiro: Projeto Portinari, 1990.

Fabris, Annateresa. Cândido Portinari. São Paulo: Edusp, 1996.

Projeto Portinari. Acervo e documentação histórica de Cândido Portinari.

Criança Morta. 1944. Óleo sobre tela. Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

Abril Cultural. Gênios da Pintura: Portinari. São Paulo: Abril Cultural, n. 6, 1967.

Schwarz, Roberto. Sequências Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Scliar, Moacyr. A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

ARTE & MEDICINA - 100. La Cortisone

 

100.  La Cortisone (A Cortisona) — 1951


Ficha Técnica

Autor: Raoul Dufy (1877-1953)

Título:  La Cortisone (A Cortisona)

Ano:1951

Técnica: litografia colorida

Dimensões:18 x 23 cm

Crédito da Imagem: Domínio público

A CORTISONA: arte, ciência e esperança terapêutica

“A medicina cura o corpo; a arte cura a alma.”
Provérbio atribuído à tradição humanista europeia

A obra La Cortisone foi criada em 1951 pelo artista francês Raoul Dufy e relaciona-se diretamente à experiência pessoal do pintor com a doença e os avanços terapêuticos da medicina moderna. Conhecido por suas composições luminosas, coloridas e vibrantes, Dufy produziu esta litografia em um contexto de intenso sofrimento físico causado pela Artrite Reumatoide, enfermidade crônica que acometeu suas articulações durante os últimos anos de vida. A doença provocava dores severas, deformidades progressivas e limitações motoras importantes, afetando inclusive sua capacidade de pintar.

A descoberta e introdução clínica da cortisona, no final da década de 1940, representaram grande esperança para pacientes acometidos por doenças inflamatórias incapacitantes. Dufy submeteu-se ao tratamento com cortisona nos Estados Unidos e experimentou significativa melhora dos sintomas, fato que lhe permitiu retomar parcialmente sua atividade artística.

A litografia celebra simbolicamente esse avanço médico. Embora mantenha o estilo leve e espontâneo característico do artista, a obra possui forte valor histórico por representar um momento em que a medicina moderna começava a transformar radicalmente o tratamento das doenças inflamatórias crônicas. No contexto da arte e medicina, La Cortisone evidencia o impacto dos avanços farmacológicos na vida dos artistas e na experiência humana da doença. A obra traduz visualmente a esperança terapêutica proporcionada pela ciência médica em meados do século XX.

Breve Biografia de Raoul Dufy (1877–1953)

Raoul Dufy nasceu em 3 de junho de 1877 em Le Havre, França, e faleceu em 1953. Foi um dos mais importantes pintores franceses do século XX, associado inicialmente ao fauvismo e posteriormente reconhecido por seu estilo decorativo, luminoso e elegante.

Estudou na Escola de Belas Artes de Paris e recebeu influência de artistas como Henri Matisse e Paul Cézanne. Suas obras frequentemente retratavam regatas, concertos, paisagens mediterrâneas, corridas de cavalos e cenas festivas, utilizando cores intensas e linhas fluidas. Na década de 1930, Dufy desenvolveu grave Artrite Reumatoide, enfermidade que comprometeu progressivamente suas mãos e articulações. Apesar da intensa dor e das limitações físicas, continuou produzindo arte.

Em 1950, submeteu-se ao tratamento experimental com cortisona nos Estados Unidos, experiência considerada revolucionária na época. A melhora clínica obtida inspirou a criação de La Cortisone, tornando a obra importante símbolo do encontro entre arte, sofrimento e inovação terapêutica.

Raoul Dufy nos legou uma vasta produção artística marcada pela luminosidade, leveza e celebração da vida, mesmo diante da doença crônica.


Referências

Raoul Dufy. Mes Ateliers. Paris: Flammarion, 1952.

Cogniat, Raymond. Raoul Dufy. Paris: Éditions Flammarion, 1958.

La Cortisone. 1951. Litografia colorida.

Scliar, Moacyr. A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Porter, Roy. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. New York: W. W. Norton, 1997.