segunda-feira, 11 de maio de 2026

ARTE & MEDICINA - 99. Criança Morta

 

99. Criança morta (Criança Morta) — 1944


Ficha Técnica

Autor – Cândido Portinari (1903-1962)

Título Criança Morta (Criança Morta)

Ano – 1944

Técnica óleo sobre tela

Dimensões – 190 x 180 cm

Localização atual – Museu de Arte de São Paulo (MASP) – Brasil

Crédito da Imagem:

CRIANÇA MORTA: fome, luto e sofrimento social

“A obra de Portinari atinge a beleza de um cântico auroral por sobre as misérias do mundo e particularmente de seu país; é testemunho e resgate.”
Carlos Drummond de Andrade

A tela Criança Morta integra a série composta também pelas obras Retirantes e Enterro na Rede. Nela, Cândido Portinari retrata, de forma profundamente dramática, uma família de retirantes nordestinos lamentando a morte de uma criança, vítima da seca tragédia histórica e social que assola o Nordeste brasileiro há séculos.

A composição organiza-se em dois planos. No primeiro plano, destacam-se seis figuras humanas. No centro da cena, uma mulher agigantada encontra-se sentada sobre um caixote, inclinando o corpo para frente enquanto segura nos braços uma criança morta, nua e extremamente raquítica. O corpo da criança aparece disposto horizontalmente, com a cabeça e o braço direito pendentes, evocando a composição clássica da Pietà, de Michelangelo.

Ao redor da mãe, outras figuras intensificam o sentimento de luto coletivo. À esquerda, um homem em pé, provavelmente o pai da criança, segura o braço da mulher. Seu corpo inclina-se levemente para frente, enquanto abundantes “lágrimas de pedra” escorrem por seu rosto. À frente dele, uma adolescente maltrapilha sustenta a cabeça da criança morta, também vertendo lágrimas pétreas. À direita da composição, uma jovem com véu na cabeça segura o pulso de uma criança desnutrida e assustada. Todas as figuras apresentam corpos esquálidos, pés descalços, roupas rasgadas e expressões marcadas pelo sofrimento extremo, evidenciando os efeitos devastadores da fome, da sede e da miséria.

O segundo plano divide-se em duas áreas: uma superior, formada por um degradê em tons de azul, e outra inferior, construída em tonalidades terrosas, com pedras espalhadas e uma cabaça abandonada no chão. A paisagem árida, plana e desértica reforça a sensação de abandono e desesperança. A cena é intensa e emocionalmente impactante. As mãos exageradamente grandes da mãe ampliam simbolicamente a dimensão de sua dor. As lágrimas transformadas em pedras sugerem sofrimento endurecido pela fome e pela tragédia social. Os tons cinza, ocre, violeta, lilás, branco e verde conferem à pintura atmosfera lúgubre e melancólica.

Por meio da série Retirantes, Portinari denuncia, em linguagem expressionista, a desigualdade social brasileira e o drama humano provocado pela seca e pela exclusão. No contexto da arte e medicina, a obra constitui poderoso documento visual sobre desnutrição, mortalidade infantil, sofrimento coletivo e vulnerabilidade social.

Breve Biografia de Cândido Portinari (1903–1962)

Filho de imigrantes italianos, Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, Cândido Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903, na Fazenda Santa Rosa, próxima à cidade de Brodowski, interior de São Paulo e faleceu em 6 de fevereiro de 1962, no Rio de Janeiro, aos 58 anos.

Ainda criança demonstrou talento para o desenho e, em 1918, participou da restauração da igreja de Brodowski, auxiliando pintores e escultores italianos itinerantes. Em 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Escola Nacional de Belas Artes.

Em 1928, conquistou a Medalha de Ouro do Salão Nacional de Belas Artes com a obra Retrato de Olegário Mariano, recebendo prêmio de viagem à Europa. Em Paris, entrou em contato com importantes movimentos artísticos modernos e consolidou o desejo de representar o povo brasileiro em sua pintura.

Ao retornar ao Brasil, em 1931, desenvolveu uma produção profundamente voltada às questões sociais. Retratou trabalhadores rurais, retirantes nordestinos, crianças pobres e cenas populares, revelando as desigualdades sociais do país. Obras como Retirantes, Café e os painéis Guerra e Paz tornaram-se marcos da arte brasileira. Portinari também executou importantes murais públicos, incluindo os da Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, do Palácio Gustavo Capanema e da sede da Organização das Nações Unidas.

Militante político e filiado ao Partido Comunista Brasileiro, candidatou-se a cargos públicos e sofreu perseguições ideológicas durante parte da vida. Sua arte permaneceu coerente com seu compromisso humanista e social. Portinari produziu mais de cinco mil obras e recebeu reconhecimento internacional, incluindo a condecoração da Legião de Honra concedida pelo governo francês.

Nos últimos anos de vida, sofreu grave intoxicação pelo chumbo presente nas tintas que utilizava, desenvolvendo Saturnismo que causou sua morte. A obra de Portinari permanece como um dos maiores testemunhos visuais da realidade social brasileira, unindo arte, denúncia e profundo humanismo.


Referências

Cândido Portinari. Portinari Poeta. Rio de Janeiro: Projeto Portinari, 1990.

Fabris, Annateresa. Cândido Portinari. São Paulo: Edusp, 1996.

Projeto Portinari. Acervo e documentação histórica de Cândido Portinari.

Criança Morta. 1944. Óleo sobre tela. Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

Abril Cultural. Gênios da Pintura: Portinari. São Paulo: Abril Cultural, n. 6, 1967.

Schwarz, Roberto. Sequências Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Scliar, Moacyr. A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

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