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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CONFEITOS DE NATAL

Paula Ângela
                                            
Por Paula Ângela Bastos Cardoso de Sales 


         Enfim, é Natal. Natal pra deixar reluzir nossos corações como verdadeiras árvores natalinas, coloridas e brilhantes. Parece poético demais, mas é assim que deve ser pois quando o amor transborda não tem como não virar poesia, essa poesia que vem da alma.
         O espírito do Natal pode nos levar para muitos lugares, às vezes bem próximos de nós, outras vezes guardados no íntimo de nossas recordações. Essas recordações natalinas, então, parecem  que possuem um lugar reservado e especial para serem acessadas quando se fizer necessário. Nada mais propício do que o dia de Natal, 25 de Dezembro de 2011, Natal repleto de lembranças de antigos natais e cheio de esperanças para o futuro.
         O Natal do passado, repleto de recordações, vive na minha memória e tudo começa à frente de uma grande casa, desproporcional até para as demais que a circundavam. O portão era de madeira pintada de branco, alinhada com o muro baixinho com um pequeno portão de ferro... Adiante palmeiras imponentes guardavam o lugar, como se fossem escudeiros de um templo, do meu templo, onde tudo parecia existir só para mim.
         Ao redor, muitas árvores coloridas. As lâmpadas de cor não piscavam, enfeitavam a folhagem como frutos multicoloridos, quentes e pulsantes como pequenos corações. Da varanda de piso vermelho encerado dava pra ver tudo, a natureza também de gala para o grande dia, o dia de Natal.
         Os rostos tão familiares se faziam em sorrisos para os festejos. Era uma alegria receber os filhos que vinham de tão longe para estar junto dos pais, além daqueles que costumeiramente os visitavam. Abraços, beijos, apertos de mão, selam o encontro. Os olhares de cumplicidade insinuam uma curiosidade para saber tudo que se passou na breve ausência, o que mudou e o que permanecia igual.
         A minha visita tinha uma atenção especial para uma grande dama. A dama da noite também simbolizava o Natal, tão enfeitada quanto e tão reluzente também. O Natal é data de certo requinte, de ornamentos finos, onde as famílias se permitem abrir a cristaleira empoeirada e beber as cidras nas taças coloridas, como se fossem  o melhor espumante que há. A prataria da casa e as louças saem dos armários; a toalha de linho também. A dona da casa surge assim, como algo precioso, guardado, saído do escuro dos armários para brilhar no grande dia.
         A mesa da sala de jantar alarga-se para receber as iguarias, afinal há de se providenciar mais alguns lugares à mesa. A memória desses sabores é tão única que nada parece igual. No canto da mesa, um recipiente de vidro com a tampa decorada, são castanhas de caju confeitadas, verdadeiras joias de açúcar. É difícil conter o desejo de sumir com aquele vidro, eternizando aquele momento por dias, dissolvendo o açúcar na boca até romper com o suave crocante das castanhas. Podia-se comer de tudo, mas no Natal não podiam faltar essas castanhas, exaltadas com muito orgulho por sua criadora; não que em outras casas não houvesse as mesmas, mas aquele sabor só seu, era inigualável...
         No quintal, a vegetação também se enfeitava de vaga-lumes para o Natal, piscando alternados sob o manto estrelado da noite. No ar, um perfume de jasmim que  lembrava o cheiro das caixas de presente, também do armário de perfumes, cheio de talcos e loções. Esses cremes mágicos prometiam muito, promessas que se desfaziam com o tempo, com o surgir das rugas, dos fios brancos, da aspereza inevitável da pele, do tempo que não tardava a chegar...
         Quando a chave girava e a porta se abria, os odores se misturavam e o jasmim lá do quintal também estava lá junto à lavanda e orquídea. A porta decorada tinha fotos de bebês, lembrança pueril dos filhos ou do início de tudo, da vida, da juventude da pele em sua plenitude. Lugar sugestivo para se guardar produtos de beleza, encantos e disfarces para o mundo, reservando o que há de melhor por dentro. Agora, posso me lembrar das castanhas, confeitadas com a sua maquiagem doce de açúcar, guardando o que há de melhor por dentro.
         O relógio não hesitava a soar as doze badaladas. Era meia- noite e um Natal assim só não é melhor porque ansiamos sempre pelos próximos, tão especiais quanto os daquele dia.
         Ao fim da noite, no canto da mesa, o vidro das castanhas ainda guardava algumas joias. Muitas vezes não hesitei em eternizar aqueles momentos só para mim. Os confeitos de Natal representam muito desse dia, dia para saber o que mudou e o que permanece igual. O mundo mudou, mais do que se podia imaginar, mas o meu amor por tudo que passou permanece igual. Quem sabe um dia, volte o tempo, volte também o sabor desse Natal, dos confeitos de Natal.
                                                                                                     Dezembro de 2011


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O ENCANTO DO NATAL


                                            Por Núbia Maria Arruda Bastos Cardoso

 

                   Entro no túnel do tempo. Retrocedo um, dois, cinco, dez, vinte, trinta anos. A viagem é vertiginosa. Só o meu louco anseio em voltar justificaria tal pressa. Cheguei...
                   Era uma pequena cidade do interior, Lá ainda não chegara o asfalto, a televisão, o telefone... Um casarão amarelo de muitas janelas me deteve. Era aquilo que eu desejava rever em meus sonhos. Entro devagar. Vovó, como sempre jogava “paciência”. Vovô, ao pé do rádio, tentando sintonizar estações do sul... As mesmas cadeiras, estilo marquesa, estavam no lugar de sempre. Uma pequena cadeira de balanço esperando pela costumeira dona. Com passos rápidos, alcanço a sala vizinha. Era Natal. A um canto, a árvore enfeitada, feita quase sempre às vésperas da grande noite. No outro lado, a imensa lapinha com presépio, animais, reis magos, lagos de espelho, areia... Alguém dedilhava alguma canção ao piano...
                   Um imenso corredor se abria na minha frente. Muitas crianças lá brincavam e entre elas, eu...Umas com carrinho, outras com patins, outras deitadas no chão olhando para o teto que era altíssimo. Quartos e mais quartos, lado a lado...Lá, um quarto era sagrado. Relicário de imensos e insondáveis mistérios que a infância não sabia decifrar. Lá, morava a dona da cadeira de balaço. Alguém de idade. Dona de bombons e biscoitos deliciosos. Só com muito prestígio se poderia dar uma olhadela naquele santuário.
                   Uma mesa gigante se sobressaía na imensa sala de jantar. Do aparador, bolos e doces deliciosos. Da tela de sua porta se poderia sentir o odor saboroso do que havia em seu interior.
                   Um grande quarto estava com as portas fechadas. Vozes excitantes de adultos eram ouvidas, mas não entendidas. Era véspera do natal. Anos e anos aquele ritual se repetia( só anos depois entendi o porquê...) Presentes estavam sendo embalados e separados para que quando “Papai Noel”chegasse, executasse sua missão corretamente...
                   Continuo andando. Da cozinha exalava um odor forte de pernil, peru, farofa, bolos, doces numa miscelânea de odores realmente atraente. No fogão de ferro, a lenha ardia para executar sua missão.
                   Chega a noite. Correria. Banhos. Roupa nova. Os pequenos vão dormir. Os grandes esperam ansiosos, pela missa do galo, no Patronato. Meus avós vão à frente. Sonolentos, todos acompanhávamos o ritual da missa em Latim. Minha avó liderava os cânticos.Comungávamos todos. Em nossa cabeça a vontade louca de voltar e acordar no outro dia.
                   Chegávamos a casa. Luzes acesas. Ambiente festivo. A felicidade estampada no semblante da imensa família, dos adultos às crianças. A grande ceia esperava: nozes, castanhas, avelãs, guloseimas que nós, crianças, não podíamos saborear, só os grandes, diziam...
                   O dia 25 amanhecia mais cedo que os outros: bolas, carros, bonecas, bicicletas desfilavam pelo corredor. Era um barulho infernal...Ninguém conseguia dormir mais. Durante muito tempo papéis eram ansiosamente rasgados...Alegrias e decepções...
                   Quebrou o encanto. Já estou de volta. Muitos natais se passaram...O líder da grande família ainda vive. Ela, não. A cidade é outra. A casa é outra. A alegria é outra. Era do computador, da televisão, do vídeo-cassete, da máquina...
                   No último natal, ele, em seu mutismo habitual, estava cercado por muitas pessoas, mas incrivelmente só, vivendo dos dias felizes do passado que o tempo levou... Aproximei-me:
                   -Feliz Natal, vovô! Tudo bem?
                   Ele: - Não, só muitas recordações...
                   Mal sabe ele que, com a partida dela, quebrou-se para sempre o encanto de meus natais! 

      Transcrito do “Jornal do Leitor” do Jornal “o Povo”, de Fortaleza, de 07 de janeiro de 1987.