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| Elizabeth Carvalho |
http://g1.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/videos/v/elizabeth-carvalho-comenta-morte-do-ex-presidente-cubano-fidel-castro/5475785/
Transcrição da fala da jornalista Elizabeth Carvalho no Programa Jornal Globo News 28/11/2016
Eu tenho a
impressão que a morte de Fidel Castro é dessas que o Mundo todo se sente na
obrigação de repercutir e render homenagens a pessoa que ele foi. Todo o Mundo
repercute de uma forma positiva ainda que nos últimos 50 anos ele tenha sido
permanentemente difamado no nosso Mundo Ocidental como um cruel ditador com
imagem de um homem que estava impondo ao seu país um sistema nocivo de um comunismo
que come criancinhas. Essa foi a tônica durante a guerra fria durante todos
esses anos. A morte de Fidel Castro marca, de fato, uma data trágica para a humanidade, porque é uma data, realmente, de uma uma página virada na História. Uma
página onde terminam os grandes líderes que marcaram a História
do século XX. Sim, porque ele era o último deles, uma pessoa da estatura de
Mandela, da estatura de Ho Chí Minh, que levou a cargo a Guerra do Vietnam, e de muitos
outros grandes líderes que levaram a sua nação, impulsionaram a sua nação numa
direção que hoje a gente inclui todos eles dentro de uma pequena expressão
chamada populista.
Mas Fidel Castro foi de fato um homem importantíssimo. A nação
cubana está órfã, hoje. Ela está vivendo uma orfandade de um homem que durante
50 anos conseguiu sobreviver a dezenas de tentativas de assassinatos comandadas
pela CIA e conseguiu manter aquela pequena ilha, grudada quase nos EEUU, independente apesar de submetida a um bloqueio cruel dos EEUU durante todo esse tempo.
E, no entanto,
sobreviveu. Como todos os grandes líderes cometeu excessos, cometeu erros, mas
com Fidel nós estamos enterrando de fato uma era. Estamos, de fato, nos sentindo
órfãos de um tempo. Se nós olharmos hoje certos Estados das nossas
sociedades, ditas democratas, poucos deles irão passar para a História da
Humanidade com a grandeza de Fidel Castro.
Eu acho também que a revolução
cubana foi uma revolução humanista. Uma revolução voltada para o homem. Isso é
uma coisa muito importante. Não foi uma revolução pragmática, econômica.
Cuba, que é
um país que eu visitei muitas vezes, tinha esse aspecto fundamental da dignidade
do homem. O que mais me comovia em Cuba era ver a forma como qualquer pessoa era tratada. Você conversava com um lixeiro na rua, um operário na construção, uma
camareira em um quarto de hotel e todos falavam de igual para igual. Havia uma irmandade
que os unia. Desapareceu aquela ideia de classe social, em que você é melhor do que
aquele. Essa é uma das grandes vitórias da revolução cubana. A vitória de ter conseguido
realmente igualar os homens da nação cubana e permitir a eles uma grandeza de
sentimentos de solidariedade de uns com os outros. Era muito comovente de ver, porque era uma
coisa que eu só via em Cuba. Eu nunca
tinha visto isso em nenhuma outra parte do Mundo. Esse humanismo da revolução cubana
talvez tenha sido a maior contribuição de Fidel e da geração dele para o Mundo.
Hoje, vivemos em um processo exatamente contrário. Vivemos no Mundo absolutamente
individualista, onde cada um está voltado para si mesmo. O espírito
coletivo está desaparecendo. Em Cuba eu
via muito essa generosidade prevalecer entre os cidadãos. Essa generosidade existiu em função de uma
revolução que foi feita com coragem e profunda paixão. A paixão revolucionária
é também uma coisa que desapareceu no mundo de hoje. A revolução cubana foi
feita dessa forma, de uma forma apaixonda.
Fidel encarna
um apaixonado revolucionário, mais do que qualquer outra coisa.
Que mais eu
posso dizer. Eu e muitas pessoas aqui em Paris estamos todos muito chocados. A morte de Fidel tem pra França, que é um país humanista, que é um país que tem os valores de liberdade, de igualdade e de fraternidade, um significado muito doloroso. O significado do
desaparecimento de uma era. Nós estamos aqui profundamente mobilizados, estamos
surpreendidos com essa notícia.
Me vem a
cabeça um elemento que eu acho importante que seja dito Nós vivemos em um continente ligado e
dependente dos EEUU, mais do que o resto do Mundo. Os EEUU é a nação mais
poderosa do Mundo. Ela influi nos destinos da Europa, mais ainda nos destinos da América
do Sul. Nós estamos
umbilicalmente ligados. Uma coisa que é comovederora no povo cubano é ser o povo mais
culto de toda a América Latina. Não há um cubano iletrado. Não há um cubano
incapaz de conhecer a literatura latino americana. Isso é uma
coisa que nenhum dos outros países da América Latina conseguiu conquistar. O grau de cultura que Fidel foi capaz de dar ao seu povo em 50 anos. Não há como
não reconhecer que o povo cubano é o povo mais culto por causa de 50 anos da revolução cubana.
Acho que é
isso que tenho a dizer neste momento.














