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quinta-feira, 1 de março de 2012

A CASA DE MEUS PAIS - TERCEIRA PARTE: nossas babás

Tia Zita e nove sobrinhos, filhos de Edgy e Adelina - Baturité 1957

Na década de 1950, em Baturité, minha mãe trabalhava na prefeitura ao lado do meu pai, que era prefeito da cidade. A sua ausência em casa era mitigada por babás carinhosas e dedicadas, tão diferentes das de hoje, frias, técnicas e profissionais. 

As babás de antigamente se integravam de uma forma tal à família que passavam a fazer parte dela. Lá em casa não foi diferente. 

Foram muitas: Geraldina, Dorinha, Raimunda Cobra, Raimunda Onça, Dona Nascimenta, Lídia, Guiomar, Josina, Nenzinha e outras mais. 

Ah! As nossas babás! Uma, pra cada. A minha era a Lídia; a da Gorreti, a Guiomar; a da Edna, a Dorinha que de tão pequena não agüentou o peso da Bolota e com ela foi ao chão. 

Na hora de dormir, a rede, o bico, a mamadeira, o lençol, a canção de ninar, papai, mamãe e elas a nos embalar.

Tutu  Marambá, não venhas mais cá.
Que a mãe da menina te manda matar.

Boi, boi, boi.
Boi da cara preta.
Pega esta menina que tem medo de careta.

Dorme neném que eu tenho o que fazer.
Vou lavar vou engomar camisinha pra você.       
Ah! Ah! Ah! Oh! Oh! Oh!

Meu pai embalava os filhos a cantar:

Edgar chorou quando viu a Rosa, gingando toda prosa,
Com uma linda baiana que ele não deu
Coitado do Edgar (bis)

Chorou de dar pena
Chamou Madalena
Entregou o pandeiro
E desapareceu
Coitado do Edgar (bis)

Madalena disse que Edgar não tem razão
Aquela baiana não foi ninguém quem lhe deu.
Rosa trabalhou o ano inteiro e fez serão
Não sei porque Edgar se aborreceu.
Coitado do Edgar (bis)

Minha mãe cantava:
Roda pião, bombeia pião.
O pião entrou na roda pião.
Roda pião bombeia pião.
Sapateia no tijolo oh! Pião.
Roda pião, bombeia pião.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – SEGUNDA PARTE: A prole

Ana Margarida

Clêide

Edna

fátima

Goretti

Maninha

Raimundo Luiz

Vovó Adelina e Vovô Lulu, Lucia, Maninha, Edna, R. Luiz e Ana

Adelina e Edgy com Lúcia, Maninha e Edna



Adentrando a casa de meus pais, em Baturité, o primeiro quarto à direita era o deles. Tinha uma cama grande, um guarda-roupa, uma cômoda e um bercinho, ocupado por um recém-nascido, quase sempre. 

Minha mãe e suas barrigas anuais. Parideira incansável... pariu quinze filhos! Não abortou nenhum. Os gritos sufocados, a parteira aparando a criança, enfim, o choro, o filho, fruto do amor, nos braços. O momento sublime, tantas vezes experimentado. O paraíso, na terra vivido. 

Minha mãe embalando o recém-nascido, o sono leve, as noites mal-dormidas, porém feliz amamentando e cuidando da cria. O resguardo, a quarentena, a vovó Adelina, as canjas de galinha, o batizado no 7º dia. 

Os filhos multiplicando-se a cada ano. Um no colo, outro na barriga e outros mais a lhe puxar a saia. O amor transbordando, incondicional. A criançada alegrando o lar, correndo sem parar. 

Lúcia, a primogênita; Maninha, a sapequinha (seus cachinhos castanhos, o papai guardou) e a Edna, de tão gordinha foi apelidada de bolotinha. Enfim, um menino, Raimundo Luiz, para alegria de meu pai. Depois, quatro meninas. Eu; Goretti, de cachinhos dourados, era o meu par; Clêide; de tão loirinha parecia uma bonequinha holandesa e a Fátima, uma portuguesa. Novamente, outro menino para alívio de meu pai, era o Miguel Antônio. Em seguida, Teca e Ângela fazendo um par de bonecas; João José e a Carminha, um casal loirinho. Para completar os quinze, Carlinhos, bem gordinho e Isabel, a caçulinha, mas isso foi bem depois, em Fortaleza, nos idos anos sessenta. 

Minha mãe cuidando dos filhos doentes: sarampo, catapora, caxumba e outras viroses da infância. Nenhum de pólio, pois todos ela vacinou. As febres elevadas, as toalhas molhadas, as noites em claro, os zelos, os desvelos, os caldos, as compressas de angu de farinha para as dores de barriga. Foram tantos os cuidados... 

Minha mãe pudica. Sempre vestida! Sua fé indômita, a comunhão diária, a missa dominical, o terço, a mantilha e o missal. No oratório, em casa, a imagem da Sagrada Família. No Natal, a magia da lapinha. O menino Jesus na manjedoura (presente de sua avó), Maria e José de cada lado, os carneirinhos e os reis Magos. 

Na Sexta-feira Santa, o  jejum e a abstinência de carne, os filhos à sua volta e ela a nos contar o sofrimento de Jesus na cruz. As lágrimas correndo em nossos olhos, com pena de tanto padecer de Cristo para nos salvar. O silêncio sepulcral de meio dia às 3h da tarde, entre a crucificação e o último suspiro. 

Finalmente, o sábado, a aleluia, a alegria, o Jesus ressuscitado! Minha mãe rezando, rezando tanto um rosário sem fim, ensinando-nos a rezar de joelhos e mãos postas:


“Boa noite menino Jesus, eu vos dou o meu coração e prometo ser boazinha. Anjo da Guarda guiai-me, Nossa Senhora de Fátima protegei-me, São Luiz de Gonzaga conservai minha inocência. À benção papai do céu, à benção mamãe do céu, faça feliz sua filhinha. Protegei o papai, a mamãe, meus irmãos, meus avós, meus tios, meu padrinho e minha madrinha. À benção papai! À benção mamãe”


Abençoados, embalados e velados por eles, íamos dormir o sono profundo sem preocupações e pesadelos. Cada um em sua rede, cinco em cada quarto. O urinol, o xixi solto, a bacia e o candeeiro para espantar as almas do outro mundo.


Minha mãe chorando dentro da rede. Chorando a morte do vovô Lulu, seu pai, as lágrimas inundando seu rosto e o papai a consolá-la. Mais uma vez, em outra rede, chorando tanto a morte precoce do irmão querido! Chorando o filho doente (água na pleura), na época doença mortal, mas ela não se abateu e foi pra Fortaleza em busca de curá-lo. E assim, com tantos desvelos e cuidados os quinze filhos vingaram.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – PRIMEIRA PARTE: o Cine Beco

Minha mãe - Maria Adelina

Meu pai - Miguel Edgy


Sentados da E. pra D.: Ana Margarida, Goretti, R. Luiz, Clêide e Fátima. Em pé, da E. pra D.: Maninha, Lúcia e Edna

Da E. pra D.: Edna , Lúcia e Maninha


Da E. pra D.: Lúcia com a Fátima no colo, Goretti, Edna, Ana, R. Luiz e Maninha com a Clêide no colo.


Da E. pra D.: Lúcia, Maninha, Edna, R. Luiz, Ana e Goretti.

Da E. pra D.: Goretti, Ana, R. Luiz, Edna, Maninha e Lúcia.

Da E. pra D.: Goretti, Ana, R. Luiz, Edna, Maninha e Lúcia com a Clêide no colo.


Nos anos cinquenta do século XX, década de minha infância, morávamos em Baturité, na Rua 7 de Setembro.

 A nossa casa fazia esquina com um beco estreito (cine beco) que ligava a nossa rua à Rua 15 de novembro. Na frente da casa, duas jardineiras altas eram separadas por um batente e uma porta. Adentrando, três degraus, um corredor comprido que ia até à sala de jantar, três quartos à direita e três à esquerda, um pátio interno, uma cozinha com um fogão à lenha, um banheiro e um grande quintal com um tanque, nossa piscina.

O primeiro quarto à esquerda era o escritório de meu pai;  bureau, radiola, filmadora, projetor, máquina fotográfica, duas estantes repletas de livros, enciclopédias, revistas “O Cruzeiro”, “Seleções”, o jornal “A Verdade”, fotografias, rolos de filmes, discos e outros objetos adornavam-no.  Duas fotos grandes, separadas por um crucifixo de prata, ornavam as paredes. Meu pai, ainda bem moço, com sua farda de capitão do exército, quepe e seu olhar apaixonado e sonhador.  Minha mãe, linda, com  cachos dourados, vestido preto de renda e seus olhos verdes e serenos, transparecendo sua alma completamente apaixonada. Formavam um belo casal!

 Uma janela dava para a jardineira e a outra para o beco. Através da última, meu pai projetava na parede do outro lado do beco, para a alegria de todos, os mais maravilhosos filmes de nossa infância. Era o cine beco! Entrada franca!

Resquício do cine que meu pai possuiu na Rua 15 de Novembro e que, ao se eleger prefeito, vendeu para D. Emília, o cine beco fazia o maior sucesso! Nele, assistíamos alguns curtas metragens. Lembro-me dos filmes: os golfinhos e o balé aquático.  

Os melhores e mais esperados eram àqueles produzidos e dirigidos pelo meu pai. Nós e nossos primos e primas (Núbia, Liana, Vera, Regina, Níobe, Glória, Tetê, Ico, Luis Achilles etc), estrelas e astros de cinema, na tela projetados, nas ocasiões mais diversas: na cadeirinha de balanço, na cadeira alta, na bicicleta da Lúcia, no velocípede do Raimundo Luiz, correndo na praça, brincando de roda, nas festas de aniversários e nos batizados.  

O sucesso era total! Um dos filmes mudo, em preto e branco, mostrava, na cadeira alta, a Lúcia com um papel e um lápis escrevendo uma carta para a vovó. Pela leitura labial ela dizia: papai, mamãe e vovó. A Maninha, linda de cachinhos, com um lápis na boca repetia a mesma coisa e a Edna, também. Na pracinha dos Correios, a Maninha e a Lúcia abraçadas. Todos nós fomos filmados na cadeira alta. Em outro filme, a Lúcia tocando seu acordeon, o papai bem moço no escritório, em Fortaleza, falando ao telefone. Imagens na casa da vovó Adelina, mostravam a mamãe com as irmãs e irmãos. Em outro filme, a vovó Adelina, o vovô Lulu, filhos, genros e noras no Passeio Público, em Fortaleza. O noivado do tio Nelson com a tia Teresa, o casamento da tia Mazé e imagens no Colégio Salesiana, nas formaturas das tias: Juca, Tereza e Mazé foram feitas pelo meu pai. Aliás, o papai filmou e fotografou toda a família. 

 Não conheci o cine da Rua 15 de Novembro, mas a mamãe contava que o próprio papai manejava o projetor e dirigia a sessão. As crianças tinham entrada franca. Eram filmes de Cawboys, aventuras de Tarzan, Jim das Selvas, o Zorro, as comédias do gordo e do magro e os filmes de Charles Chaplin.  Carlitos, o genial palhaço, o eterno vagabundo, o inesquecível, o rei do riso, chegou à Baturité pelas mãos de meu pai. Os dramas eram  só para os adultos.  

Muitos clássicos foram projetados! Casablanca, com sua magia e bela história de amor, foi um deles. O vigário de Baturité, escandalizado com a fita, fez uma carta de protesto para a minha avó. Mal podia imaginar que casablanca tornar-se-ia um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos.


               Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
                              São Paulo, 2002.