AS EPIDEMIAS QUE ASSOLARAM O CEARÁ NO SÉCULO XIX
ana
margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza 31/05/2020
A ORIGEM DAS EPIDEMIAS
A história da humanidade
caminha com a história das epidemias, desde que os Sapiens domesticaram os
animais.
Os humanos surgiram há
cerca de 2,5 milhões de anos, na África Oriental, a partir dos Australopithecus, um gênero anterior de
primatas.
Por volta de 2 milhões de anos atrás, alguns desses seres se aventuraram
em vastas áreas do Norte da África, da Europa e da Ásia.
Os humanos da Europa e da Ásia Ocidental
deram origem ao Homo neanderthalensis (neandertais).
Os humanos das outras regiões da Ásia originaram o Homo erectus, que sobreviveu por quase 1,5 milhão de anos, sendo a
espécie humana de maior duração.
Segundo Harari, dificilmente a nossa espécie
quebrará esse recorde. Na Ilha de Java, na Indonésia, viveu o Homo Soloensis. Em Denisova, na Sibéria,
viveu o Homo denisova. Muitas
outras espécies viveram em cavernas e ilhas.
Enquanto esses humanos evoluíam
na Europa e na Ásia, a evolução na África Oriental continuava nutrindo novas
espécies como: Homo rudolfensis, Homo ergaster, e, finalmente, nossa
espécie: Homo sapiens. Foi, portanto,
na África que surgimos, há cerca de 200 mil anos.
Segundo Yuval Noah Harari, em seu livro Sapiens, é uma falácia conceber essas
espécies em uma linha reta de descendência.
A verdade é que, de 2 milhões de
anos a 10 mil anos atrás, o mundo foi habitado por várias espécies humanas ao
mesmo tempo.
Há 100 mil anos, existiam pelo menos seis espécies humanas
diferentes. Apenas a nossa espécie, Homo
sapiens, sobreviveu.
Surgimos há, aproximadamente, 200 mil anos, na África
Oriental, e, há cerca de 70 mil anos, nos espalhamos na península Arábica e território
da Eurásia. Começamos a dominar o resto do planeta terra e levamos as demais espécies humanas à extinção.
Inicialmente, éramos
nômades e nos alimentávamos de caça, pesca, raízes e frutos. Por estarmos expostos
aos traumas, morríamos facilmente.
Quando nos espalhamos pelo norte da África e
Eurásia, nos concentramos em algumas regiões, como: a Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, o Egito ao longo do rio Nilo, a China no Vale do rio Amarelo e no Vale do rio
Indo.
Há 12 mil anos, quando a nossa espécie se fixou para
iniciar a agricultura, começou o que chamamos de “civilização”.
A agricultura, ao
ofertar maior quantidade de alimentos, possibilitou um significativo aumento na
reprodução de nossa espécie. Por outro lado, as doenças apareceram pelo contato
com os animais.
No momento em que começamos a estocar grãos, como o trigo, o rato
proliferou disseminando suas doenças.
Ao mesmo tempo que existiam os agricultores,
existiam os pastores. Na sociedade pastoril, houve a domesticação de animais como:
aves, porcos, cavalos, ovelhas, cachorros e gatos. O contato com esses animais, principalmente,
aves e porcos, nos legou muitas doenças.
Com o cachorro ocorreu o inverso, pois, além de não nos passarem doenças, eles ajudaram na domesticação do gado.
A
gripe é uma das doenças que as aves nos legaram. Já o resfriado vem do cavalo. As epidemias de gripe e varíola surgiram há
milênios. Existem relatos de epidemias na era romana. A varíola já foi
identificada em múmias egípcias. A tuberculose óssea, Mal de Pott, também. A malária,
causada por um protozoário, convive com a nossa espécie há milênios.
AS DOENÇAS CHEGAM À AMÉRICA
AS DOENÇAS CHEGAM À AMÉRICA
Os europeus introduziram
várias doenças em toda América, dizimando milhares de nativos. No Brasil, os
portugueses trouxeram a gripe, a varíola, a tuberculose e outras enfermidades.
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| Flagelados da seca do Ceará 1877/78 |
No Ceará, as doenças que
adquiriram caráter epidêmico foram: varíola, febre amarela, cólera mórbus e
sarampo.
As pandemias que aqui aportaram
foram as famosas gripes: espanhola, asiática e Hong Kong.
A gripe espanhola
(H1N1), em 1918/20, considerada a maior pandemia do século XX, matou, no Mundo,
entre 50 e 100 milhões de pessoas; a gripe asiática (H2N2), em 1957/58, matou 2
milhões; a gripe Hong Kong (H3N2), em 1968/70, matou 1 milhão.
No século XXI, a
gripe suína (H1N1), em 2009/10, matou, no Mundo, milhares de pessoas: 18.449 (confirmados - OMS) e 151.700 – 575.400
(estimados - CDC e OMS).
Atualmente, a Covid-19 está escrevendo sua história
pandêmica em nosso meio.
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| Flagelados na estação de Iguatu aguardando o trem para Fortaleza - 1877 |
Das doenças que assolaram o Ceará, a varíola foi a que mais matou.
Até a grande epidemia de 1877/78/79, a mesma era endêmica com alguns surtos
epidêmicos isolados. Nas grandes secas,
porém, por causa das condições nutricionais da população e da formação de aglomerados
nas vilas e cidades, adquiria caráter epidêmico.
Segundo Barão de Studart,
em seu livro “Climatologia, epidemias e endemias do Ceará”, a varíola atingiu
os cearenses em:
1804 (Fortaleza, Aracati)
1814 (Fortaleza)
1818 (Fortaleza)
1825 (vários lugares com
vítimas da seca)
1826/28 (Crato e Jardim
com 13 mil mortes)
1845 (vários lugares com
vítimas da seca)
1849 (Acarati, Fortaleza
e Sul da Província)
1854 (Aracati)
1855 (Aracati, Granja e
Sobral)
1857/58 (Fortaleza,
Maranguape, Cauhipe, Siupé, Aracati, Sobral)
1859 (Fortaleza, Jubaia,
Pacatuba, Acarape, Tabatinga)
1860 (Icó, Lavras)
1877/78/79 (todo o Ceará)
1890 (Fortaleza)
1891 (Fortaleza)
A epidemia de 1877/78/79
foi avassaladora. Conhecida como a tragédia dentro de uma tragédia, aconteceu
durante a “Grande Seca” ou “Seca dos Três Setes”, pois atravessou três anos
(77/78/79).
Naquela ocasião, milhares
de pessoas famintas se aglomeraram em Fortaleza, em péssimas condições
sanitárias, propiciando uma disseminação atroz da varíola.
A cidade passou de
42 mil habitantes para 114 mil. Os flagelados encheram as praças, os prédios
públicos e a periferia da cidade. Lá ficavam em abarracamentos sem condições
sanitárias.
A varíola, que era chamada
de “bexiga” pela população, atingiu 150 mil pessoas no Ceará.
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| Rodolpho Teóphilo (1853-1932) |
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| Barão de Studart ( 1856-1938) |
Segundo Rodolpho ⁷,
o farmacêutico que testemunhou os horrores dessa epidemia, em apenas dois meses
de 1877, a varíola matou 27.378 retirantes que se aglomeravam nos arrabaldes de
Fortaleza.
Em 1878, o total de mortos foi de 24.849. O Lazareto da Lagoa Funda,
que tinha capacidade para 300 doentes, colapsou. Foram improvisados outros
lazaretos na periferia da cidade, bem precários, com capacidade para cinco mil
variolosos, mas a quantidade de doentes era em torno de 40 mil.
Os lazaretos
(inicialmente locais para isolar os hansenianos) eram grandes galpões
construídos para receber as pessoas acometidas de qualquer doença contagiosa,
principalmente durante as epidemias. Eram locais onde os doentes iam esperar a
morte.
Em 1855/6, no bairro Lagoa Funda, em Fortaleza, foi construído um
lazareto que ficou conhecido como: o lazareto da Lagoa Funda.
No livro “A fome”, Rodolpho Teóphilo descreve o referido lazareto,
durante a epidemia de varíola de 1878, como um lugar de terror. Os gemidos e os
gritos dos variolosos moribundos eram comoventes.
As enfermarias regurgitavam de doentes com a
pele em carne viva e putrefatas. Muitos perdiam a consciência. Outros,
alucinados de dor, erguiam-se dos leitos completamente desvairados, enquanto a
carne putrefata caía no chão. Alguns,
metiam as unhas nas pústulas e arrancavam as crostas com pus e sangue e as
comiam, enlouquecidos.
As pessoas morriam sem
assistência médica. Muitos habitantes de
Fortaleza faleceram pela varíola. No dia 31 de dezembro de 1878, faleceu
Marieta Raja Gabaglia, mulher do Presidente da Província, José Júlio de Albuquerque Barros, mostrando
que o vírus não distinguia classe social.
O transporte dos cadáveres era feito
pelos próprios retirantes, por quantias insignificantes. Só a miséria podia
fazer com que um homem se sujeitasse a conduzir o cadáver podre de um bexigoso
a uma distância de cinco km, por quinhentos réis, disse Rodolpho Teóphilo.
Os
cadáveres eram transportados em redes imundas, amarradas em uma vara, e
conduzidas por dois homens que, para realizarem a difícil tarefa, precisavam
tomar muita cachaça. Outros, nem redes tinham, iam amarrados de pés e mãos a um
longo pau.
No dia 10 de dezembro de
1878, faleceram de varíola, em Fortaleza, 1.004 pessoas. Esse dia entrou para a
história como: “o dia dos mil mortos”.
Entre os retirantes da seca, foram
contratados 64 para servirem de “coveiros”, mas não deram conta de enterrar
tantos cadáveres. Centenas de corpos ficaram insepultos e os “coveiros” ficaram
exaustos. No dia seguinte, uma visão aterradora dominava o cemitério da Lagoa
Funda: urubus sobrevoavam os cadáveres
numa nuvem escura. Carne humana em putrefação era disputada pelos urubus e
cachorros, que foram expulsos com pauladas e pedradas.
Em fevereiro a epidemia
arrefeceu, pois já tinha atingido a população. Depois dessa tragédia, Rodolpho
Teóphilo aprendeu a fazer a vacina e, enfrentando resistência do governo e da
população pobre e analfabeta, conseguiu, em 1904, vacinar a população, debelando
a varíola em Fortaleza. Em 1980, a varíola foi erradicada no Mundo.
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| Rodolfo Teófilo vacinando populares no Ceará. Atrás um vitelo - Foto do acervo da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz |
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| Rodolpho Teóphilo vacinando uma criança no isolamento de variolosos - Fort 1907 |
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| Casa de Rodolpho Teóphilo e sede do Instituto Vacinogênico do Ceará Bairro Benfica - Fortaleza - final do século XIX - esta casa foi demolida |
A febre amarela surgiu no
Ceará, em 1851, vinda do Maranhão através de passageiros do navio São
Sebastião. Na época, Fortaleza tinha 15.000 habitantes. Cerca de 6.000
adoeceram e 251 vieram a óbitos. No interior, foram registrados 14.440 casos
com 252 óbitos.
Para combater a febre
amarela foram aterrados vários pântanos em Fortaleza para evitar os miasmas,
pois eles acreditavam que a causa das doenças eram os miasmas. Indiretamente
essas medidas serviram, pois diminuíram os focos dos mosquitos transmissores da
doença. A partir dessa epidemia a febre amarela tornou-se endêmica.
A cólera chegou ao Ceará
em 1882, depois de ter arrasado os outros estados do Nordeste. A epidemia
atingiu quase todas as cidades do interior. Dois terços da população cearense
foi contaminada adoecendo. Vieram a óbito 12. 500 pessoas.
Essas epidemias sempre
estiveram na história da humanidade. Hoje, com o crescimento populacional e a
eficácia dos meios de transportes, os microrganismos se espalham com maior
facilidade, mas, por outro lado, temos uma arma poderosa para vencê-los, a
INFORMAÇÃO.
Cientistas compartilham informações e compreendem os mecanismos por
trás das epidemias e o modo de combatê-las.
Enquanto os medievos nunca puderam
saber a causa da peste negra, os cientistas, em poucos dias, identificaram o
genoma do coronavírus e já estudam o desenvolvimento de uma vacina e
medicamentos para cura da doença que nos assola. Diante de uma tragédia como
uma pandemia, a solidariedade e a cooperação afloram nas pessoas, mostrando a
importância de domesticar laços simbólicos para se ampararem e se ajudarem. Só
a cooperação e a solidariedade entre os povos serão capazes de fazer a
humanidade enfrentar e vencer as pestes.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA, José Policarpo. História da Saúde Pública no
Ceará. Fortaleza: Edições UFC, 1994
CACALCANTE NETO, João de Lira. O poder e a peste: a vida de Rodolfo
Teófilo. 2ª edição, Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 2001.
PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époque:
reforma urbana e controle social (1860-1930). 2ª edição. Fortaleza: Edições
Demócrito Rocha, 1999.
HARARI, Yuval Noah. Sapiens - Uma breve História da Humanidade.
26ª edição, Porto Alegre-RS: L&PM, 2017.
STUART, Guilherme Barão de. Climatologia, epidemias e
endemias do Ceará. Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 1997.
TEÓFILO, Rodolfo. Varíola e Vacinação no Ceará.
Fortaleza, Oficinas do Jornal do Ceará, 1904.
UJVARI, Stefan Cunha. A História da Humanidade contada
pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos. 2ª edição. São
Paulo: Editora Contexto, 2012.
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