sábado, 29 de janeiro de 2022

TRIBUTO AO DR. ANTÔNIO PEDRO MIRRA NO MOMENTO DE SUA PARTIDA


      Entrega ao Presidente José Sarney do Projeto para a criação do Programa Nacional de Combate ao Fumo. Brasilia 29 de janeiro de 1986  

Conheci o dr. Pedro Mirra através do meu marido, professor José Rosemberg, em São Paulo, no início da década de 90 do século XX.

Ele frequentava amiúde o nosso apartamento, deixando no ar, nas conversas que versava com o Rosemberg sobre estratégias de luta contra o tabaco, que fazia parte do grupo que iniciara na década de 1970, uma luta tenaz contra a mortal pandemia que assolava o Brasil – o tabagismo.  

Vivenciando cada um em sua especialidade médica, ele oncologista e Rosemberg, pneumologista, os dramas dos brasileiros que sofriam e morriam em consequência do tabagismo, resolveram abraçar, junto a Mario Rigatto e outros, a difícil luta. Foram desbravadores até surgir Vera Luiza da Costa e Silva, divisora de águas nessa cruzada.  

Poderia elencar o currículo médico do Dr. Pedro Mirra, dando ênfase a sua luta contra o tabagismo como Coordenador da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira (AMB) e como Presidente da Comissão Antitabagismo da FSP-USP.

Entretanto, pelo valor histórico e por Pedro Mirra ter participado, vou tecer comentários sobre o evento, “Seminário sobre Tabagismo”, promovido pelo Instituto Brasileiro para Investigação do Tórax (IBIT), sob a coordenação do Dr. José Silveira, ocorrido em março de 1979, em Salvador, Bahia.

Neste evento foi elaborado o documento histórico batizado de “CARTA DE SALVADOR (O tabagismo – Um novo desafio)”, na qual vários líderes médicos, entre eles o jovem dr. Pedro Mirra, alertavam os poderes públicos, às instituições médicas e à população sobre os malefícios do tabaco.  Como desdobramento da Carta de Salvador, a AMB, em julho daquele ano, lançou o Programa Nacional Contra o Fumo. Signatários da Carta (*)

Pedro Mirra partiu no dia 27 de janeiro de 2022, sendo o último a nos deixar nessa orfandade de pioneiros da luta contra o tabagismo no Brasil. Envolvido na cruzada contra o cigarro desde 1975, Mirra teve a felicidade de ver o êxito da luta que abraçou, com a queda drástica do consumo de tabaco no Brasil.

Foi graças a ação do Programa de Controle do Tabagismo e outros Fatores de Risco de Câncer do INCA que, seguindo a trilha aberta pelos pioneiros,  a luta foi vitoriosa

A Pedro Mirra nosso preito de eterna gratidão.


Fortaleza, 29.01.2022

ana margarida furtado arruda rosemberg


(*) Foram signatários da Carta de Salvador:

 JOSÉ SILVEIRA – Superintendente Técnico do IBIT (entidade promotora do encontro);

JAIME SANTOS NEVES – Professor de Pneumologia da Escola de Medicina do Espírito Santo – relator; 

ANTONIO CARLOS PEÇANHA MARTINS – Presidente da Associação baiana de Medicina;

JOSÉ ROSEMBERG – Professor titular da Faculdade de Medicina da PUC-SP e Diretor Geral do Centro de Ciências Médicas e Biológicas da PUC-SP; 

MÁRIO RIGATTO – Vice-reitor da Universidade de Porto Alegre; 

EDMUNDO BLUNDI – Professor da PUC- Rio de Janeiro; 

ANGELO RIZZO – Professor da Universidade Federal de Pernambuco; 

ANTÔNIO PEDRO MIRRA – diretor do Departamento de Cirurgia Torácica da Fundação Antônio Prudente- São Paulo.

 


domingo, 23 de janeiro de 2022

BASÍLICA DE SAINT-DENIS

 

POSTADO NO JORNAL DO MÉDICO

https://jornaldomedico.com.br/2022/01/basilica-de-saint-denis/


A Basílica de Saint-Denis é uma igreja de estilo gótico localizada no centro da cidade de Saint-Denis, no departamento francês de Seine-Saint-Denis, na região de Île-de-France.

Situada a cinco quilômetros ao norte de Paris, foi, originalmente, fundada como abadia. Em 1144, o monge Suger, o Pai da Catedral Gótica e o Pai da Monarquia Francesa, transformou a abadia na primeira catedral gótica da França. Em 1966, passou a ser a catedral da diocese de Saint-Denis.

Reza a lenda que Denis foi martirizado no local da atual igreja. Um relato do início do século VI, conta que uma cristã chamada Catulla teria enterrado seu corpo em um campo pertencente a ela. Após o Édito de Milão, foi erguido um mausoléu que se tornou objeto de um culto ao santo.  

Jacques de Voragine escreveu uma coletânea de narrativas hagiográficas, que foram reunidas, em 1260, pelo dominicano Tiago Voragine, com o nome de: “A Lenda Dourada”. Uma delas popularizou o mito do cefalóforo de Saint-Denis, quando ele teria caminhado com a cabeça entre as mãos até o lugar onde queria ser enterrado.  É difícil para a pesquisa atual separar a verdade histórica das tradições lendárias.

Saint-Denis tornou-se a necrópole dos reis e rainhas da França. A partir do século VII, quase todos os reis e rainhas foram sepultados ali. Durante a Revolução Francesa, além do rei Louis XVI e Maria Antonieta, literalmente perderem suas cabeças, as estátuas dos reis que decoravam a fachada da basílica foram decapitadas. Os revolucionários violaram as tumbas e jogaram seus despojos em fosso de cal e usaram a basílica para armazenar grãos. Posteriormente, Napoleão Bonaparte a restaurou.

Abaixo, transcrevo um trecho da famosa carta de Paris, que o Professor Rosemberg fez ao amigo Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988.

“Para não quebrar o encanto vamos direto a Igreja de St. Denis (séc. X). Aqui neste matagal de túmulos góticos estão os reis da França, as Rainhas e os Infantes. Com a renascença esses monumentos se tornaram mais suntuosos. Catarina de Médicis, que morreu 30 anos após Henrique II, teve muito tempo para erigir suntuoso mausoléu para seu marido. Quando se viu esculpida como morta (como mandava a tradição) ela que deixava apodrecer seus desafetos no Caveau des Oubliettes, era muito sensível, e horrorizada, desmaiou. Os nobres que ali estavam, todos raquíticos, não tiveram forças para levantá-la. Chamaram os escudeiros para essa tarefa. Aventou-se, porém, que isso configuraria crime de lesa-majestade, pois o augusto corpo real não podia ser tocado por mãos plebéias. Então não houve outro remédio senão deixá-la caída sobre a laje fria à espera de que ela abrisse os olhos”.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 21 de janeiro de 2022

domingo, 16 de janeiro de 2022

ÉGLISE SAINT-SÉVERIN - PARIS

Postado no Jornal do Médico

 https://jornaldomedico.com.br/2022/01/16/eglise-saint-severin-paris/

 

ÉGLISE SAINT-SÉVERIN - PARIS

Em Paris encontramos na rue des Prêtres-Saint-Séverin, no Quartier Latin (5º arrondissement), pertinho da Catedral de Notre Dame, a Igreja de Saint-Séverin.

A história desta Igreja católica romana, uma das mais antigas de Paris, tem início no século VI, com o devoto eremita Séverin, que costumava rezar em um pequeno oratório rudimentar. Após sua morte, foi erguida no local uma modesta igreja românica.

No século IX, a referida igreja foi destruída pelos vikings e, posteriormente, reconstruída. Em 1448, durante a “Guerra dos Cem Anos”, a Igreja Saint-Séverin foi parcialmente destruída pelo fogo. Depois, ela foi reconstruída em estilo gótico, passando por várias reformas e transformações ao longo dos séculos seguintes. A partir de 1520, a Igreja passou a ter a aparência que tem hoje.

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988, em que ele se refere a Igreja Saint Severin

“Hoje é domingo. Se vocês forem à missa eu os acompanharei, se não forem iremos do mesmo modo, porque Henrique IV tinha razão: “Paris vale uma missa”. Não iremos, porém, a St. Germain, St. Sulpice, nem a Notre Dame e outras similares. Nestas as missas, embora com mais pompa e brilho, são semelhantes às da Candelária no Rio e da Sé aqui em S. Paulo. Vamos assistir uma missa empolgante, que nos aproxime mais do Eterno, se é que ele existe. Vamos à St. Severin, outra maravilha gótica esquecida, edificada no século XIII. A histérica sobrinha de Luís XIV (não sei por que a chamavam de Grande Mademoiselle) brigou com sua paróquia e por pirraça resolveu dotar St. Severin com tudo que fosse novidade para maior eficiência do culto; inclusive trouxe da Alemanha notável órgão que aqui está intacto até hoje. Ao som celestial desse instrumento ouviremos ferventes oratórios. Depois, silêncio... Aí começa um sussurro, que vai se avolumando, de vozes sem modulações que no crescendo avassalam toda a nave e se eleva pela abside. É o mais autêntico canto gregoriano do século XI dos frades beneditinos da Abadia de São Pedro de Solesmes, os quais se notoriarizaram pelo cantochão que desenvolveram. Imensa paz nos invade e aí percebemos como o gregoriano e o gótico se fundem para criar fundo clima de religiosidade. É como se fossemos transportados para 800 anos atrás. A St. Severin é de gótico flamejante e sua maravilha está no duplo deambulatório do coro; miríades de nervuras do nartex retumbam nas colunas semelhantes a palmeiras. Não há dúvida, a maior manifestação artístico-estética da Idade Média é o gótico”.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 14 de janeiro de 2022

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

BREVE HISTÓRIA DA CIRURGIA PLÁSTICA

 

Publicado no JM, link abaixo.

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BREVE HISTÓRIA DA CIRURGIA PLÁSTICA

O marinheiro britânico Willie Vicarage teve seu rosto desfigurado por um tiro durante a Batalha de Jutlândia (1916), na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Foi submetido às intervenções cirúrgicas de Gilles

Créditos: acervo Sir Harold Delf 

Por volta do segundo milênio a.C., na Índia e na China, as amputações nasais, auriculares e genitais dos povos vencidos, feitas por muitas tribos, proporcionaram um campo fértil para o desenvolvimento de cirurgias reparadoras.

No “Código de Hamurabi”, o primeiro código de leis da história das civilizações, formulado pelo rei Hamurabi da Suméria, por volta de 1750 a.C., na Mesopotâmia, a atividade médica era regulamentada com castigos que variavam desde lesões corporais até a morte do cirurgião que não obtivesse êxito.

O papiro de Edwin Smith, c. 2.500 a.C., no Egito Antigo, faz referências a tratamentos cirúrgicos de fraturas mandibulares, nasais e cranianas. 

No século V a.C. os novos conceitos religiosos e filosóficos de Buda na Índia, Lao Tse e Confúcio na China, preconizando a preservação do corpo para a vida pós-morte, causaram o declínio da cirurgia.

Na Grécia Antiga, a dissecação de cadáveres era proibida, mas dissecavam-se animais. Hipócrates, século V a.C., descreveu procedimentos relativos à cirurgia.

Ptolomeu Soter que, após a morte de Alexandre Magno, governou o Egito, permitia a dissecção humana “in vitro” nos condenados à morte. Assim, houve avanço no estudo da anatomia e fisiologia. O anatomista Erasístrato de Chio (310 a.C. – 250 a.C.), Pai da fisiologia, fundou com Herófilo a Escola de Anatomia de Alexandria que teve a cirurgia bem desenvolvida.

Aulus Cornelius Celsus (c. 25 a.C. - c. 50 d.C) em seu livro “De Medicina” fez referências à cirurgia plástica. Galeno, século II d.C., realizou cirurgias reconstrutivas.

Com a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), agravada pelas invasões bárbaras, surgiram os feudos cercados de muralhas. A religião assumiu o poder e houve um retrocesso na medicina.  Durante 10 séculos o pensamento científico ficou resguardado nos mosteiros.

Na Península Ibérica, dominada pelos árabes durante 700 anos, houve a preservação e enriquecimento dos conceitos de Hipócrates e Galeno, mas a cirurgia era proibida.

No século IX, surgiram as escolas médicas de Salermo e Montpelier e, depois, as Universidades de Bologna e Pádua. O Papa Sixto V, em meados do século XVI, autorizou as dissecções anatômicas que já aconteciam de maneira sigilosa. Com o renascimento e a invenção da imprensa, houve avanço da medicina.

O primeiro Tratado de cirurgia plástica foi escrito pelo médico italiano Gaspare Tagliacozzi (1546-1599), “De curtorum Chirurgia per incitionem”, no qual ele descreve várias operações, em particular seu método de rinoplastia.

Com o uso crescente da arma de fogo, houve necessidade da cirurgia reparadora.

 Em 1838, surgiu o termo “cirurgia plástica” quando Eduard Zeis intitulou seu livro de: “Handbuch der plastischenirurgie”

            No século XIX, a cirurgia plástica teve um desenvolvimento considerável, graças à criatividade de cirurgiões como Dieffenbach.   

O médico britânico Joseph Constantine Carpue (1764-1846) realizou em Londres, em 14 de janeiro de 1815, a primeira operação de cirurgia reconstrutiva no Ocidente. A operação envolveu um reparo do nariz com pedaços de pele da testa e uma prótese de cera inspirada nas práticas indianas.

             Entretanto, a história da cirurgia estética está ligada à do século XX. As primeiras intervenções autorizadas são a correção de orelhas em abano por Ely, depois a rinoplastia endonasal por Roe.

A “Primeira Guerra Mundial” está na origem da criação de unidades de cirurgia maxilofacial, necessária devido ao número espantoso de feridos na face.

 Nessas unidades atuaram grandes cirurgiões como: Blair, Davis, Dufourmentel, Virenque e principalmente Morestin e Gillies.

Na França, vários cirurgiões: Noël, Passot, Bourguet, Dartigues mostraram grande criatividade e descreveram técnicas que inspiraram intervenções modernas.

 Após a “Segunda Guerra Mundial”, as sociedades nacionais e internacionais de cirurgia plástica se multiplicaram.

Com a vinda para o Brasil da família real portuguesa, em 1807, D. João VI criou, estimulado pelo cirurgião-mor do reino José Maria Picanço, em fevereiro e em abril de 1808, as Escolas de Cirurgia, respectivamente a primeira na Bahia e a segunda no Rio de Janeiro.

           Os primeiros trabalhos relativos à cirurgia plástica datam de 1842. Alguns trabalhos produzidos e publicados sobre cirurgia plástica, são: “Considerações sobre o lábio leporino”, Joaquim Januário Carneiro (1842); “Considerações sobre rinoplastia”, João Baptista Lacerda (1843), “Diferentes causas de destruição dos lábios e paredes laterais da boca”, Pedro A. Vieira da Costa (1852), “Do princípio nervoso da queiloplastia e genoplastia”, Alexandre Mendes Calasa (1853), “Operações que reclamam as lesões dos lábios”, José Soriano de Souza (1860).

            Sobre queimaduras há muitas publicações como as de Joaquim Manoel de Almeida Vieira (1868); Paulino Pires da Costa Chastine (1869); João Telles de Menezes (1870); Casemiro Francisco Borges (1871); Francisco Dias César (1871); José Antonio Ribeiro de Araújo (1873); José Maria Velho Silva Junior (1873); Laurindo P. de Almeida Franco (1878); Antonio Calmon Oliveira Mendes (1878).

            No começo do século XX, novas Faculdades de Medicina surgiram em: Porto Alegre, RS (1899); Belo Horizonte, MG (1911); Curitiba, PR (1912); São Paulo, SP (1913) e Belém, PA (1919) e, posteriormente, outras faculdades se espraiaram pelo Brasil dando impulso em todo o território nacional a Cirurgia Plástica.

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 15 de dezembro de 2021

 

REFERÊNCIAS

 

https://www.sbhmhistoriadamedicina.com/historia-das-especialidades-medicas

https://www.em-consulte.com/article/66961/histoire-de-la-chirurgie-plastique

https://fr.wikipedia.org/wiki/Chirurgie_plastique

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0294126003000888

https://www.chirurgie-esthetique-france.fr/scialytique/histoire-de-la-chirurgie-plastique/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Eras%C3%ADstrato

 

domingo, 9 de janeiro de 2022

LE CAVEAU DES OBLIETTES

 


Texto publicado no Jornal do Médico

https://jornaldomedico.com.br/2022/01/09/le-caveau-des-oubliettes-paris/

Le Caveau des Oubliettes, um pequeno bar situado ao lado da Igreja Saint-Julien-le-Pauvre, no bairro de Saint-Michel, a poucos passos da Catedral de Notre-Dame, em Paris, desafia o tempo.

Seu nome se refere à antiga prisão medieval do século XII. Aqui, sob o reinado de Philippe Auguste, os ímpios eram lançados e esquecidos. Ainda são preservados no local, bancos, correntes e poços.

Esse pequeno bar, também conhecido como “o bar da guilhotina”, durante a Revolução Francesa era um porão repleto de prisioneiros que aguardavam a execução.

Transformado em cabaré no alvorecer dos anos 1920, o Caveau des Oubliettes tornou-se um clube de jazz, nos anos 1960, com grande parte de sua arquitetura medieval preservada.

Foi no passado lugar de sofrimento e dor. Hoje, lugar de diversão, é um dos mais populares clubes de música ao vivo (jazz, blues, funk, soul, world music) de Paris. 

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988, em que ele fala do Caveau des Obliettes.

“À noite, atrás da Igreja de St. Julien, entremos num café cantante sui-gêneris, que fica num subterrâneo uns 20 metros de profundidade. É o Caveau des Oubliettes que foi prisão tétrica dos séculos 12 a 18. Luis XI, Carlos, o Belo, e até as rainhas Ana d’Austria e Catarina de Medicis, tão sensível protetora das artes, trancafiavam seus inimigos políticos e simples desafetos, nas masmorras profundas desse Caveau, onde eram esquecidos e apodreciam. (daí o nome des Oubliettes). Desçamos os desgastados degraus de pedra, tendo em cada lance porta de ferro fechando lúgubres celas, até chegarmos num salão regurgitante de espectadores. Mal sentamos e nos oferecem um cognac de 50 anos!   O maître jura pela sua autenticidade e fingimos que cremos. Enquanto degustamos essa “raridade”, artistas de primeira plana executam danças populares medievais, cantam, ao som de instrumentos, autênticos antigos madrigais renascentistas nostálgicos. Por fim vem as “chansons pigalles” apimentadas, maliciosas, eróticas e muito engraçadas. È impressionante pensar que o povo parisiense já cantava essas canções licenciosas quando Estácio de Sá fundava a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro. Enfim, uma noitada mil furos superior a que passaríamos no Moulin Rouge”.


ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 7 de janeiro de 2022

REFERÊNCIAS

http://expressoparis.com/le-caveau-des-oubliettes-o-bar-da-guilhotina/

http://anamargarida-memorias.blogspot.com/2016/05/por-jose-rosemberg-carta-de-paris.html

https://www.parisinfo.com/musee-monument-paris/239393/Le-Caveau-des-Oubliettes

https://www.caveau-des-oubliettes.com/histoire/



sábado, 8 de janeiro de 2022

CARTA DO PROFESSOR ROSEMBERG À DRA. MARGARETH DALCOLMO

 

Professor Rosemberg     
 
  Dra. Margareth Dalcolmo
       

SAINT-JULIEN-LE-PAUVRE

 


Publicado no Jornal do Médico

https://jornaldomedico.com.br/2022/01/02/a-igreja-de-sao-juliao-o-pobre/

Em Paris, a Igreja medieval Saint-Julien-le-Pauvre (na língua francesa) está localizada na rua do mesmo nome, na praça René-Viviani, no Quartier Latin, na margem esquerda do Sena, perto da Catedral de Notre-Dame.

Tradicionalmente um local de culto católico romano, Saint-Julien-le-Pauvre passou a ser uma Igreja Greco-Melquita-Católica, com o rito bizantino, no final do século XIX, sob a Terceira República Francesa.

Seu nome se refere a Saint Julien l'Hospitalier, porque na Idade Média um hospício que recebia peregrinos e viajantes pobres estava associado à Igreja. Entretanto, por ser uma das mais antigas Igrejas de Paris, cuja origem remonta ao início do século VI, não se sabe que santo foi o primeiro padroeiro da Igreja. Saint-Julien du Mans e Saint-Julien de Brioude também são considerados patronos da Igreja.

Em 886, os vikings destruíram a Igreja original.  Por volta de 1125, uma segunda Igreja foi construída e dada ao priorado Cluniac da comuna francesa de Longpont-sur-Orge. A Igreja que vemos hoje foi restaurada pelos monges de Longpont, por volta de 1160.

Naquela época, a rue du Fouarre, que passava perto do leito da Igreja, era um dos principais locais de ensino da Universidade de Paris. As aulas eram ministradas no meio da rua, e os alunos sentavam-se na palha, daí o nome da rua. Na Igreja realizavam-se as assembleias gerais da Universidade de Paris, durante as quais líderes eram eleitos.

A Igreja também estava localizada em uma das rotas de peregrinação de Saint-Jacques-de-Compostelle.

Em 1651, o priorado deixou de existir e a Igreja tornou-se uma capela do Hôtel-Dieu (hospital). Durante a Revolução Francesa, a Igreja foi transformada em armazém. Em 1826, voltou a ser uma capela de hospital, com uma vida espiritual muito limitada.

 Em 1873, a Igreja fechou suas portas.

Em 1889, o Padre Alexis Katoub desenvolveu o projeto de uma paróquia greco-melquita-católica, e conseguiu que a Igreja fosse colocada à disposição desta nova paróquia. Dessa forma, os católicos orientais têm seu próprio local de culto em Paris, e as missas são celebradas de acordo com o rito de São João Crisóstomo.

Em 14/04/1921, a Igreja serviu de palco para um grupo dadaísta. O polêmico evento envolveu escritores, como: Tristan Tzara, André Breton, Philippe Soupault e o artista Francis Picabia. Atualmente, a Igreja é também um local de show de músicas clássicas.                                                                                                                                                                             

Na Praça René Viviani, ao norte da Igreja, encontra-se a árvore mais antiga de Paris, plantada, em 1602, por Jean Robin, jardineiro-chefe dos reis Henrique III, Henrique IV e Luis XIII. Acredita-se que traga sorte para aqueles que a tocam suavemente. É conhecida como a árvore de bengala e árvore da sorte.

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988, referente à Igreja.

“Ainda temos tempo de ver Saint-Julian-le-Pauvre, Igreja gótica de interesse histórico. Edificada em 1160, destaca-se pelos seus magníficos capitéis, verdadeiros rendilhados de pedra. O interesse histórico é que aí se realizavam as assembleias da Universidade de Paris; admiremos a bela e imensa poltrona, creio de bronze, onde se sentava o Reitor. Esse ritual acabou no início de 1500, quando os estudantes enfurecidos com a eleição fraudulenta de um novo Reitor, quebraram a cara do Magnífico, destruíram os móveis e o coro da Igreja. As bandalheiras e safadezas universitárias têm tradição e os estudantes de hoje, quando malham o reitor, não estão inovando nada”.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 28/12/2021

REFERÊNCIAS

https://diretodeparis.com/saint-julien-le-pauvre/

https://fr.wikipedia.org/wiki/%C3%89glise_Saint-Julien-le-Pauvre_de_Paris

http://anamargarida-memorias.blogspot.com/2016/05/por-jose-rosemberg-carta-de-paris.html

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Saint-Julien-le-Pauvre

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Cluny_Abbey

 


SAINTE-CHAPELLE DE PARIS

 


Publicado no Jornal do Médico

https://jornaldomedico.com.br/2021/12/26/a-sainte-chapelle-de-paris/

A Sainte-Chapelle (Capela Sagrada), uma das obras-primas da arquitetura gótica, é um belíssimo e deslumbrante templo de Paris, edificada na Île de la Cité (Ilha da cidade), entre 1242 e 1248.

Construída pelo rei da França, Louis IX (São Luís), para albergar relíquias, como: a Coroa de Espinhos de Cristo e um pedaço da Vera Cruz, é um vasto relicário envidraçado exibindo uma arquitetura elegante e ousada.

            O provável arquiteto, Pierre de Montreauil, a construiu em apenas sete anos (1242-1248), para abrigar as relíquias que o rei da França, Luís IX, comprara do Imperador de Constantinopla, e para ser a capela real do palácio da Île de la Cité.

            Formada por duas capelas sobrepostas, Sainte-Chapelle parece um escrínio de cristal. A capela inferior, dedicada à Virgem, era acessível ao povo e a capela superior era acessível à corte do rei.

As colunas da capela inferior são azuis e vermelhas: as azuis são decoradas com o símbolo da realeza francesa, flores-de lis, e as vermelhas decoradas com castelos de ouro, um símbolo de Castela, pois o rei Luís IX era filho de Blanca de Castilla.

As paredes da capela superior são formadas por 15 vitrais luminosos (janelas) de 15 m de altura, que retratam 1113 cenas do Antigo e do Novo Testamento contando a história do mundo até a chegada das relíquias a Paris. 

As cenas religiosas são retiradas dos livros: gênese, êxodo, livro dos números, livro de Josué, livro dos juízes, livro de Isaías, João Evangelista e a infância de Cristo, a Paixão, à vida de vida de João Batista e o livro de Daniel, o livro de Ezequiel, o livro de Jeremias e o livro de Tobias, os livros de Judith e Job, o livro de Ester, os livros dos reis, a história das relíquias da paixão.

A rosácea sul, com 9 metros de diâmetro, representando o Apocalipse, é deslumbrante.

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988.

“O sol está forte e por isso é o momento propício para revermos a Sainte-Chapelle, maravilha gótica, com 75 metros de altura, sem contrafortes, vãos imensos, portanto quase só de vidro construída no século XIII, ainda não ruiu por milagre. É que foi mandada edificar por Luís IX, que canonizado virou santo. Seu arquiteto era tão desconhecido que seu nome ficou impreciso, Montreuil ou Monteau. Ah, hoje não se fazem mais arquitetos como antigamente! São cerca de 1200 vitrais com luminosidade celestial a contar histórias do Velho e Novo Testamento. Durante a última guerra foram desmontados e guardados em lugar seguro. É uma festa para os olhos; sinfonia de luz, avassalante. Não há no mundo coisa parecida. Coitado de Luís IX erigiu esse templo único para albergar a coroa de espinhos de Cristo, fraldas do Menino Jesus e um relicário contendo leite do seio da Virgem Maria. Um salafrário de Boudouin, nomeado Imperador de Constantinopla, em troca de somas enormes que rasparam as arcas do erário, prometeu enviar-lhe essas relíquias que nunca chegaram. Foi essa santa ingenuidade que santificou esse rei crente e logrou-nos o espetáculo dos vitrais mais antigos de Paris.”

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 24 de dezembro de 2021

REFERÊNCIAS

https://es.wikipedia.org/wiki/Sainte-Chapelle

https://www-sainte--chapelle-fr.translate.goog/?_x_tr_sch=http&_x_tr_sl=fr&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt-BR&_x_tr_pto=sc

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sainte-Chapelle_-_2017.jpg

http://anamargarida-memorias.blogspot.com/2016/05/por-jose-rosemberg-carta-de-paris.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sainte-Chapelle

https://fr.wikipedia.org/wiki/Sainte-Chapelle