segunda-feira, 11 de maio de 2026

ARTE & MEDICINA 98. Retirantes (Retirantes)

 

98.  Retirantes (Retirantes) — 1944


Ficha Técnica

Autor: Cândido Portinari (1903-1962)

Título: Retirantes (Os Retirantes)

Ano:1944

Técnica: óleo sobre tela

Dimensões:190 x 180 cm

Localização atual:  Museu de Arte de São Paulo (MASP) – Brasil

Crédito da Imagem:

OS RETIRANTES: fome, doença e exclusão social

“Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos /
Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos /
Doloridos como fagulhas de carvão aceso.”
Cândido Portinari

Na tela Retirantes, integrante da série composta também pelas obras Criança Morta e Enterro na Rede, Cândido Portinari retrata uma família anônima de retirantes nordestinos, composta por nove pessoas: três adultos, uma adolescente e cinco crianças. A composição apresenta dois planos distintos: o primeiro plano e o plano de fundo. No primeiro plano, observam-se duas unidades compositivas. À esquerda, uma unidade menor formada por um velho apoiado em um cajado e uma adolescente segurando uma criança nos braços. À direita, uma unidade maior reúne uma mulher com uma trouxa sobre a cabeça e um recém-nascido nos braços, além de um homem acompanhado de três crianças. No plano de fundo, a tela divide-se em duas áreas principais. A porção superior, ocupando aproximadamente dois terços da composição, apresenta um degradê de azul que vai do tom escuro ao branco. Na região mais clara observam-se esboços de montanhas e, no canto superior direito, a lua. O terço inferior exibe tonalidades marrons repletas de pedras e carcaças de animais, enfatizando a devastação provocada pela seca.

As personagens aparecem desnutridas e fragilizadas, vítimas da fome e das condições extremas do sertão nordestino. A pele ressequida e castigada pelo sol reforça a dramaticidade da cena. A paisagem árida, construída com tons acinzentados, azulados e escuros, produz atmosfera fúnebre, intensificada pelos urubus que sobrevoam o grupo, sugerindo a proximidade constante da morte. A mulher, carregando um recém-nascido envolto em tecido branco, apresenta expressão marcada pela angústia e pelo sofrimento. O homem, maltrapilho e de olhar assustado, usa chapéu de palha, leva uma trouxa ao ombro e conduz uma criança pela mão. O menino localizado à frente apresenta abdome distendido, característica associada popularmente à “barriga d’água”, manifestação frequentemente relacionada à Esquistossomose causada pelo verme Schistosoma mansoni. À esquerda, o velho apoiado no cajado revela sinais evidentes de desnutrição e expressão de horror. A adolescente sustenta uma criança extremamente magra e debilitada.

Todos os personagens demonstram sofrimento profundo, traduzido pelas expressões faciais e pela debilidade física. A obra retrata o drama histórico da migração de famílias nordestinas que abandonavam suas terras assoladas pela seca em busca de sobrevivência nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Utilizando elementos do expressionismo e do cubismo, Portinari transforma a pintura em denúncia social da fome, da miséria e das desigualdades brasileiras. No contexto da arte e medicina, a obra constitui poderoso documento visual sobre desnutrição, doenças parasitárias, pobreza extrema e sofrimento humano coletivo.

Biografia de Cândido Portinari (1903-1962)

Filho de imigrantes italianos, Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, Cândido Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903, na Fazenda Santa Rosa, próxima à cidade de Brodowski, interior de São Paulo e faleceu, em 1962, no Rio de Janeiro.  De origem humilde, tornou-se um dos maiores artistas brasileiros do século XX. Ainda criança demonstrou talento para o desenho e, em 1918, participou da restauração da igreja de Brodowski, auxiliando pintores e escultores italianos itinerantes. Em 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Escola Nacional de Belas Artes.

Em 1928, conquistou a Medalha de Ouro do Salão Nacional de Belas Artes com a obra Retrato de Olegário Mariano, recebendo prêmio de viagem à Europa. Durante os dois anos que passou em Paris, Portinari teve contato com importantes artistas, frequentou museus e conheceu sua futura mulher, a uruguaia Maria Martinelli (1912-2006). Em Paris, vendo sua terra à distância, escreveu: “Vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor...”

Em 1931, Portinari retornou ao Brasil casado com Maria, que foi seu esteio, suporte e âncora, por proporcionar-lhe total e exclusiva dedicação à pintura.  Em 1935, com a obra “Café”, importante marco de sua pintura social, Portinari conquistou menção honrosa e inúmeros elogios de críticos americanos, na Exposição Internacional de Arte Moderna do Instituto Carnegie, em Nova Iorque.

Portinari retratou a história e a cultura do povo, revelando, assim, a alma do brasileiro. Sensível ao sofrimento de sua gente, mostrou, em cores fortes, os plantadores de café, os trabalhadores, a dor e a miséria dos retirantes nordestinos. Sua faceta lírica o fez pintar os meninos de Brodowski, com suas brincadeiras, danças e cantos.

Em 1939, nasceu João Candido, filho único do casal Portinari.  João se dedica, desde 1979, ao “Projeto Portinari” e define o seu pai com a palavra “Amor”, pois em sua obra a luta por valores humanos e socais é permanente.

Portinari realizou exposição individual em Nova Iorque e em Paris, entre outras cidades; pintou os murais da Biblioteca do Congresso Americano, em Washington; do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro; decorou a Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, em Belo Horizonte, com os murais “São Francisco” e “Via Sacra”; pintou os painéis: “Tiradentes”, “A Primeira Missa no Brasil” e os da Igreja Matriz de Batatais-SP;  pintou, entre outras séries, “Meninos de Brodowski” e “Os Retirantes”(Criança Morta, Enterro na Rede e Retirantes) onde denuncia a profunda desigualdade social do Brasil.

Em 1941, demonstrando singelo amor por sua avó paterna Pellegrina, que doente não podia se locomover para ir à Igreja rezar, Portinari pintou, em um dos cômodos da residência da família, em Brodowski, a “Capela da Nonna”.  Para a decoração, Portinari pintou os santos prediletos de sua avó, em tamanho natural, usando como modelos os familiares e amigos.

Portinari foi um dos maiores pintores brasileiros de todos os tempos, deixando um legado de mais de cinco mil obras de arte. Participou de exposições em vários países do mundo. Foi consagrado em São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Nova Iorque, Montevidéu, Varsóvia, entre outras cidades. O governo francês o condecorou com a medalha “Legião de Honra” (1946).

Já doente, intoxicado pelo chumbo das tintas, aceitou, em 1952, a incumbência de pintar dois painéis para a ONU, “Guerra e Paz”, de 10 x 14 m cada, concluindo-os, em 1956. O tema da guerra foi inspirado por “Quatros Cavaleiros do Apocalipse”, da bíblia, e o da Paz, pela tragédia grega Eumênides, de Esquilo, em visão livre.         

O artista Enrico Bianco disse que "Guerra e Paz" são as duas grandes páginas da emocionante comunicação, que o pintor entrega à humanidade. Segundo seu filho, João Candido, esta grandiosa obra universal é um diálogo entre o trágico e o lírico, entre a fúria e a ternura, entre o drama e a poesia.

Sua faceta de poeta o levou a escrever poemas, com temas sociais, traduzindo poeticamente sua obra plástica. Em um texto, Portinari escreveu:

"Impressionavam-me os pés dos trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés sofridos com muito e muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil era distingui-los. Os pés e a terra tinham a mesma moldagem variada. Raros tinham dez dedos, pelo menos dez unhas. Pés que inspiravam piedade e respeito. Agarrados ao solo eram como os alicerces, muitas vezes suportavam apenas um corpo franzino e doente. Pés cheio de nós que expressavam alguma coisa de força, terríveis e pacientes."

Portinari ilustrou, através da “Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil”, as obras literárias: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1944) e “O Alienista” (1948).

Atuante no movimento político-partidário, Portinari candidatou-se pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) a deputado federal (1945) e a senador (1947) sem conseguir eleger-se. Perseguido no Brasil, por ser comunista, exilou-se durante algum tempo, no Paraguai. Portinari nunca se afastou de suas convicções ideológicas. Sua militância política é absolutamente fiel e coerente com sua pintura. Ironicamente, Portinari foi proibido de participar da inauguração dos painéis “Guerra e Paz”, ao ter o visto de entrada nos EEUU negado, por pertencer ao PCB, e faleceu sem vê-los expostos na ONU.

Em 1960, quando nasceu sua neta Denise, ele escreveu: “Minha neta me libertará da solidão”. Denise foi retratada pelo avô inúmeras vezes, em telas líricas.

Portinari faleceu no dia 6 de fevereiro de 1962, aos 58 anos, intoxicado pelo chumbo das tintas (saturnismo). Presentes no velório: Juscelino Kubitschek; Hermes Lima, representando o Presidente João Goulart; os líderes comunistas na clandestinidade, Luís Carlos Prestes e Carlos Marighela; o líder anticomunista e governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. A Presidência da República emitiu nota de pesar e foi decretado luto oficial de três dias no Estado da Guanabara. Portinari, ícone do modernismo brasileiro, ao colocar o homem como tema central de sua arte, nos lega uma mensagem de humanismo universal.

Referências

Cândido Portinari. Portinari Poeta. Rio de Janeiro: Projeto Portinari, 1990.

Fabris, Annateresa. Cândido Portinari. São Paulo: Edusp, 1996.

Projeto Portinari. Acervo e documentação histórica de Cândido Portinari.

Retirantes. 1944. Óleo sobre tela. Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.

Schwarz, Roberto. Sequências Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Scliar, Moacyr. A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Abril Cultural. Gênios da Pintura: Portinari. São Paulo: Abril Cultural, n. 6, 1967.

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