terça-feira, 23 de julho de 2024

JM - RD 07.2024 - GARAPA - Por: ana margarida

 



GARAPA 

Por: ana margarida furtado arruda rosemberg 


“Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar

sabe lá, sabe lá”

Esquinas – Djavan

 

“Garapa”, um documentário sobre a fome, de 2009, produzido pelo cineasta José Padilha, é fruto de mais de 45 horas de filmagens.

Para a elaboração  do documentário, três famílias cearenses em estado de insegurança alimentar foram  acompanhadas durante  quatro  semanas.                          

Em Garapa, Padilha sacode seu público, o de classe média alta, jogando na cara verdades escamoteadas pela sociedade e escancarando que a sociedade negligencia o problema da fome que ainda atinge grande parte da população brasileira.           

 A fome, quase sempre divulgada em números frios ou imagens de crianças desnutridas de países africanos, nos choca profundamente. Porém, são imagens congeladas. Vemos a fome congelada. Não a sentimos na pele. Ela é parada, não se move.


Em 1944, Cândido Portinari retratou a fome em uma de suas mais belas telas, “Os Retirantes”, mostrando os fugitivos da seca nordestina, uma realidade social invisível, na década de 1940.

Em 1886, o pintor venezuelano Cristóval Rojas plasmou a fome, a doença e a morte, no quadro “A Miséria”, uma das mais tocantes telas já produzidas. Centenas de obras de arte mostram a fome imóvel. “GARAPA” mostra a fome em movimento.

O título do documentário vem do hábito de mães de família, na falta de leite, prepararem uma infusão de água com açúcar para enganar a fome das crianças.

Entre os 12 milhões de brasileiros que, em 2008, segundo dados da ONU, passavam fome no Brasil, Padilha selecionou três famílias cearenses que viviam em condições sub-humanas, miseravelmente, em moradias insalubres e travavam uma batalha insana e diária em busca da sobrevivência alimentar.


Padilha mostra a fome por dentro. É exasperante acompanhar o dia a dia dessas famílias que, como no mito grego de Sísifo*, a cada dia com o nascer do sol, saem em busca de encontrar algum alimento para nutrir-se e recomeçar tudo de novo no dia seguinte.

Assim, vive boa parte da população brasileira. Além da falta de alimentos existe carência do básico para uma vida digna. Faltam saúde, roupa, higiene, moradia digna e educação. Para completar, o alcoolismo, sério problema social, agrava o quadro de miséria dessas famílias.

O filme, captado em preto e branco, sem música, mostra a condição penosa dessas famílias repetidamente até a exaustão, denunciando na telona uma situação que a maior parte dos brasileiros desconhece. “GARAPA” é um soco no estômago do espectador. 

Abre o documentário, que representou o Brasil no “Festival Internacional do filme de Berlim”, em 2009, uma citação de Josué de Castro sobre a fome e, no final, para encerrar, a seguinte frase: “durante o tempo da sessão, 1.400 crianças morreram de causas relacionadas à fome ao redor do Mundo".

Padilha frisou que “GARAPA” não é um filme que retrata somente a sociedade brasileira, pois quadros semelhantes se repetem na China, na Índia, na África, onde o problema da fome atinge parcelas da população.  

Padilha garante que GARAPA é o mais universal de seus filmes, ao mostrar que a mulher é o esteio da família em situação de insegurança alimentar, em qualquer lugar do mundo.

Para o diretor do filme, a solução da fome no mundo, o mais grave problema social da humanidade, exigiria um investimento de US$ 30 bilhões por ano. Entretanto, em 2008, o Mundo gastou US$ 1,5 trilhão em armas. Isso diz muito sobre a nossa espécie, Homo sapiens.

*Sísifo, por contrariar os deuses, recebeu uma punição exemplar: rolar diariamente uma pedra montanha acima até o topo. Ao chegar ao topo, o peso e o cansaço promovidos pela fadiga fariam a pedra rolar novamente até o chão e no outro dia ele deveria começar tudo novamente e assim para todo o sempre. Essa punição era um modo de envergonhar Sísifo por sua esperteza e habilidade usadas para tramar contra os deuses.

ana margarida furtado arruda rosemberg 
Fortaleza, 14 de julho de 2024 


sexta-feira, 19 de julho de 2024

Homenagem da Sabrina para o irmão João Lucas - Facebook

Meu irmão, somente hoje, passados 11 dias do pior dia da minha vida, consegui vir aqui para escrever essa homenagem para você. Tem sido dias muito, muito difíceis, você não tem noção.                                             

Lidar com a morte do papai foi extremamente difícil, mas, me dar conta de que você não está mais aqui é surreal, inimaginável, uma dor que rasga a alma.

Ah, meu irmão!!! Quantas saudades! Quantas lembranças!! Como falei na sua missa de sétimo dia: as inúmeras lembranças e recordações do que vivemos juntos ao longo desses 35 anos, é o que tem mantido meu coração aquecido e me dado paz para seguir em frente. Desde as lembranças quando você era um bebezinho; o menino travesso que implicava comigo e fazia questão de bagunçar meu quarto; o adolescente apaixonado por música, assim como o papai; o excelente profissional que você se tornou e o pai carinhoso  e brincalhão.

João, você não tem ideia do quanto você era querido e amado, quantas expressões de carinho e afeto por você, meu irmão: desde os seus colegas de trabalho ao seu amado time do coração- Fortaleza.  

Tem sido muito duro seguir sem você aqui, por isso, te peço: interceda por nós junto do papai, para que Deus e Nossa Senhora continuem nos fortalecendo. Tenha certeza de que sua herança e seu legado estarão muito bem cuidados e protegidos: Amanda e Vitória tem sido a força diária que encontramos para continuar, olhar para elas é olhar para você, meu irmão. Obrigada por ter nos deixado num pedaço tão lindo de você conosco.

Te amo, meu pequeno Colial!

Sabrina Arruda Rosa 



quinta-feira, 18 de julho de 2024

João Lucas partiu! Fortaleza, 08.07.2024

 Mensagem  da Liana para a Fátima 

Minha querida tia Fátima,

Quando perdemos pais, ficamos órfãos. Quando perdemos companheiros, ficamos viúvos. Mas  e quando perdemos filhos?

Não há nome.

Não há. 

Não há palavras capazes de alcançar ou simbolizar tamanha barbaridade.

Não vou cometer a insensibilidade de dizer que imagino o que você está passando ou sentindo. É claro que eu não imagino.

Nem eu, nem ninguém.

Acho que também não preciso dizer que você não está só, que pode contar conosco para toda e qualquer coisa que precisar.

Mas tem algo que preciso dizer. 

Pedir, na verdade:

Pelo amor do DEUS no qual você tem a grandeza de acreditar, não cometa nem por um segundo a crueldade de se culpabilizar ou se perguntar se havia algo que você pudesse ter feito para evitar.

Nosso querido João Lucas foi vítima de uma doença cruel.

Você, assim como tantos da nossa família, venceu a luta contra o câncer, uma doença reconhecidamente violenta e gritante.

Mas a depressão, às vezes silenciosa, é ainda mais traiçoeira. Sorrateira. Maligna.

Quem me dera poder tirar com a mão a dor que você está sentindo, minha querida.

Quem me dera poder pelo menos dizer (ou acreditar) que o tempo a curará. Não posso.

“A saudade é o pior tormento, é pior que o esquecimento…

a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

A dor não passará, mas eu, que não creio, tenho fé de que você conseguirá carregá-la. Sua filha e netas ajudarão. 

Desde pequena, quando eu ia dormir na casa de vocês para ensaiar com a Sabrina as músicas da Xuxa, enquanto o João Lucas corria de um lado para o outro arrastando a fraldinha, tenho em você um exemplo de mãe e mulher fantástica. Sempre vi em você essa fortaleza inabalável, da qual você tanto precisará agora. 

Um abraço apertado, da sua sobrinha que sempre te amou muito,

Liana

09.07.2024