GARAPA
Por: ana margarida furtado arruda rosemberg
“Sabe lá o que é
não ter e ter que ter pra dar
sabe lá, sabe lá”
Esquinas – Djavan
“Garapa”, um documentário sobre a fome, de 2009,
produzido pelo cineasta José Padilha, é fruto de mais de 45 horas de filmagens.
Para a elaboração
do documentário, três famílias cearenses em estado de insegurança
alimentar foram acompanhadas
durante quatro semanas.
Em Garapa, Padilha sacode seu público, o de classe
média alta, jogando na cara verdades escamoteadas pela sociedade e escancarando
que a sociedade negligencia o problema da fome que ainda atinge grande parte da
população brasileira.
A fome, quase
sempre divulgada em números frios ou imagens de crianças desnutridas de países
africanos, nos choca profundamente. Porém, são imagens congeladas. Vemos a fome
congelada. Não a sentimos na pele. Ela é parada, não se move.
Em 1944, Cândido Portinari retratou a fome em uma de suas mais belas telas, “Os
Retirantes”, mostrando os fugitivos da seca nordestina, uma realidade social
invisível, na década de 1940.
Em 1886, o pintor venezuelano Cristóval Rojas plasmou
a fome, a doença e a morte, no quadro “A Miséria”, uma das mais tocantes telas
já produzidas. Centenas de obras de arte mostram a fome imóvel. “GARAPA” mostra
a fome em movimento.
O título do documentário vem do hábito de mães de
família, na falta de leite, prepararem uma infusão de água com açúcar para
enganar a fome das crianças.
Entre os 12 milhões de brasileiros que, em 2008,
segundo dados da ONU, passavam fome no Brasil, Padilha selecionou três famílias
cearenses que viviam em condições sub-humanas, miseravelmente, em moradias
insalubres e travavam uma batalha insana e diária em busca da sobrevivência
alimentar.
Padilha mostra a fome por dentro. É exasperante acompanhar o dia a dia dessas
famílias que, como no mito grego de Sísifo*, a cada dia com o nascer do sol,
saem em busca de encontrar algum alimento para nutrir-se e recomeçar tudo de
novo no dia seguinte.
Assim, vive boa parte da população
brasileira. Além da falta de alimentos existe carência do básico para uma
vida digna. Faltam saúde, roupa, higiene, moradia digna e educação. Para
completar, o alcoolismo, sério problema social, agrava o quadro de miséria
dessas famílias.
O filme, captado em preto e branco, sem música, mostra
a condição penosa dessas famílias repetidamente até a exaustão, denunciando na
telona uma situação que a maior parte dos brasileiros desconhece. “GARAPA” é um
soco no estômago do espectador.
Abre o documentário, que representou o Brasil no
“Festival Internacional do filme de Berlim”, em 2009, uma citação de Josué de
Castro sobre a fome e, no final, para encerrar, a seguinte frase: “durante o
tempo da sessão, 1.400 crianças morreram de causas relacionadas à fome ao redor
do Mundo".
Padilha frisou que “GARAPA” não é um filme que retrata
somente a sociedade brasileira, pois quadros semelhantes se repetem na China,
na Índia, na África, onde o problema da fome atinge parcelas da população.
Padilha garante que GARAPA é o mais universal de seus
filmes, ao mostrar que a mulher é o esteio da família em situação de
insegurança alimentar, em qualquer lugar do mundo.
Para o diretor do filme, a solução da fome no mundo, o
mais grave problema social da humanidade, exigiria um investimento de US$ 30
bilhões por ano. Entretanto, em 2008, o Mundo gastou US$ 1,5 trilhão em armas. Isso
diz muito sobre a nossa espécie, Homo sapiens.
*Sísifo, por contrariar os deuses, recebeu uma punição
exemplar: rolar diariamente uma pedra montanha acima até o topo. Ao chegar ao
topo, o peso e o cansaço promovidos pela fadiga fariam a pedra rolar novamente
até o chão e no outro dia ele deveria começar tudo novamente e assim para todo
o sempre. Essa punição era um modo de envergonhar Sísifo por sua esperteza e
habilidade usadas para tramar contra os deuses.
ana margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 14 de julho de 2024














