quinta-feira, 27 de novembro de 2025

ARTE & MEDICINA - Rafael Sanzio - A TRANSFIGURAÇÃO


Pormenor de A Transfiguração

Ficha Técnica

Artista: Rafael Sanzio (1483–1520)
Obra: A Transfiguração (La Trasfigurazione)
Data: 1517–1520
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 405 × 278 cm
Gênero: arte religiosa
Número do Inventário: MV 40333
Local: Museus do Vaticano – Cidade do Vaticano
Fonte da Imagem: Wikimedia Commons (domínio público)

 

“Ille hic est Raphael timuit quo sospite vinci
rerum magna parens et moriente mori.” (Latim)

“Aqui jaz Rafael. Enquanto viveu, a Natureza temeu ser por ele vencida;
quando morreu, temeu morrer com ele.” (Português)

Epitáfio de Rafael Sanzio escrito por Pietro Bembo

 

Encomendada, em 1517, pelo cardeal Giulio de Medici (futuro Papa Clemente VII), A Transfiguração ergue-se como o último sopro criador de Rafael Sanzio, uma obra que parece nascer entre dois mundos: o da luz divina e o da carne que sofre.

A transfiguração narrada pelos Evangelhos é um instante suspenso, em que Jesus, no alto do Monte Tabor, deixa entrever a glória oculta em sua humanidade. Diante de Pedro, Tiago e João, seu rosto transforma-se, suas vestes ardem em brancura, e o céu se abre para revelar a presença de Moisés e Elias (Mateus 17:1-13,  Marcos 9:2-8),Lucas 9:28-36). Ao descer do monte, Jesus encontra uma multidão em pânico diante de um menino possuído por demônios e o cura com uma única palavra (Mateus 17:14–21; Marcos 9:14–29; Lucas 9:37–43).

Rafael reuniu, na mesma respiração da tela, o ápice da luz e o abismo da dor humana, retratando duas cenas distintas dos Evangelhos em uma única pintura monumental. Assim construiu uma narrativa visual que alterna entre o divino e o humano, entre a luminosidade e a sombra.

Na parte superior, Jesus paira entre nuvens, envolto por um vento que parece atravessar a pintura. As vestes ondulam como se fossem feitas de claridade, e os braços abertos sugerem tanto bênção quanto entrega. Moisés, com as tábuas, e Elias, com um livro, o ladeiam como pilares de uma antiga promessa. Abaixo deles, os três apóstolos se prostram, impotentes diante da luminosidade que fere os olhos. À esquerda, duas pequenas figuras em oração, que não pertencem à passagem bíblica, são os santos Justo e Pastor, a quem é dedicada a catedral de Narbona, da qual o patrono da pintura, o cardeal Giulio de Medici, era arcebispo.

A parte inferior é o lugar onde a humanidade grita. Ali, na sombra que contrasta com o esplendor do alto, uma multidão se aperta, inquieta, desesperada. À direita, um menino convulsionado arqueia o corpo em um gesto que mistura sofrimento e rigidez, como se a dor o moldasse em estátua viva. Olhar perdido, mandíbula tensa, braços distorcidos, signos que a ciência renascentista mal compreendia, mas que a medicina moderna reconhece como convulsão, talvez epilepsia, talvez outro distúrbio neurológico agudo.

Enquanto o alto da tela fala de transcendência, o baixo fala de crise; enquanto o céu se abre em luz, o corpo humano se fecha em espasmo. E é nesse abismo entre milagre e aflição que Rafael constrói um dos diálogos mais profundos entre arte e medicina. A pintura torna-se quase um estudo clínico, não frio, mas compassivo; não científico, mas profundamente humano. Rafael, que não era médico, tornou-se aqui anatomista da dor. Seu pincel registra o que um neurologista moderno reconheceria à primeira vista como uma crise epiléptica tônico-clônica.

Historiadores, médicos e neurologistas veem no menino sinais próprios da doença: o olhar desviado, o corpo rígido, a torção dos membros, a boca entreaberta como se o ar lhe faltasse. O Evangelho de Marcos menciona espuma, queda, espasmos, ecos bíblicos que encontram no pincel de Rafael uma versão corporal precisa, intensa, inesquecível. Outros estudiosos sugerem diagnósticos menos literais: distúrbios psicossomáticos, síndromes raras. Mas, ao fim, pouco importa o nome. Importa o gesto: o artista captura a fragilidade humana em sua forma mais vulnerável.

Breve biografia de Rafael Sanzio 

Rafael, filho de Raffaello Santi e de Màgia di Battista Ciarla, nasceu em Urbino, em 1483, uma cidade italiana que respirava arte como poucas. Órfão aos 12 anos, cresceu entre pincéis, pigmentos e silêncios de ateliê. De Perugino herdou a suavidade; de Leonardo, o mistério; de Michelangelo, a força. E uniu tudo isso à própria música interior, a harmonia que o tornou único.

Chamado a Roma, em 1508, pelo Papa Júlio II para decorar as Stanze Vaticanas, onde produziu obras-primas como A Escola de Atenas, Rafael dirigiu uma oficina numerosa e dinâmica, ampliando sua influência sobre toda uma geração de artistas. Além da pintura, destacou-se como arquiteto, sucedendo Bramante na direção das obras da Basílica de São Pedro.

Morreu precocemente em 6 de abril de 1520, dia do seu aniversário, aos 37 anos, deixando A Transfiguração inacabada em seu ateliê, repousando sobre um cavalete e respirando tinta fresca. Sua morte causou grande abalo em Roma e consolidou sua imagem como gênio renascentista. Segundo seu biógrafo Giorgio Vasari, o Papa Leão X chegou a cogitar nomeá-lo cardeal. Seu corpo permaneceu por algum tempo em uma das salas onde demonstrara sua genialidade. Foi honrado com funeral público e sepultado no Panteão de Roma.

A Transfiguração, finalizada por seus discípulos, guarda esse último fôlego. É pintura, é oração, é estudo anatômico, é prenúncio do maneirismo que viria. No encontro entre glória e convulsão, a obra recorda que o humano e o divino não se excluem: coexistem, dialogam, sofrem e resplandecem. Frequentemente considerada sua obra-prima, reúne em uma única tela espiritualidade intensa, drama humano e virtuosismo técnico, elementos que ecoam de modo singular no diálogo entre arte e medicina.

ana margarida furtado arruda rosemberg 

Fortaleza,  27 de novembro  de 2025


REFERÊNCIAS

ABRIL CULTURAL. Gênios da Pintura – Raffaello. Rio de Janeiro: Abril Cultural, 1968. (Coleção Gênios da Pintura, n. 61).


BEZERRA, Armando J. C. As Belas Artes da Medicina. Brasília: Conselho Federal de Medicina, 2003.


CLARK, Kenneth. O Renascimento. Rio de Janeiro: Zahar, várias edições.


DANIEL, Malcolm; METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Raffaello Sanzio da Urbino. Nova York: The Metropolitan Museum of Art, 2004.


GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, várias edições.


KEMP, Martin. Medicine and the Making of Art. Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, Oxford University Press, v. 55, n. 1, p. 1–22, 2000.


KEMP, Martin. Leonardo da Vinci: The Marvellous Works of Nature and Man. Oxford: Oxford University Press, 2006.


KEMP, Martin; WALLACE, Robert. Art, Anatomy and Medicine. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.


PANZERI, Gianni. Rafael: A Harmonia da Pintura. Lisboa: Edições 70, 1996.


PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. Nova York: W. W. Norton, 1997.


VASARI, Giorgio. Vidas dos Artistas. São Paulo: Martins Fontes, várias edições.

 

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