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quarta-feira, 4 de abril de 2012

VOCÊ SE LEMBRA, MANINHA?


Festa das bonecas 
 centenário de Baturité, 9 de agosto de 1958.

Na frente da E. pra D.:
Fafá, Maninha, Edna, Lucia e Vanda

Fátima, representando uma boneca portuguesa
Centenário de Baturité

Maninha

Ana Margarida (representando Baturité Centenária) 
 R. Luiz, seu par,
no centenário de Baturité


                                        
VOCÊ SE LEMBRA MANINHA?

                      Por: Maria Vanda Teixeira de Arruda Furtado


Já se foram tantos anos, que até perdi a conta. Na tão decantada Cidade Jardim, o silêncio da  noite era permanentemente quebrado pelo garrular de crianças, que enchiam as calçadas, ora com seus gritos de “manjôo”!!!, ora com cantigas de roda, hoje tão esquecidas, que soavam harmoniosas, enchendo de alegria e misto de saudade, a querida rua SETE.
Tudo tinha vida e sentido! As jardineiras formadas por Ficus Benjamin, caprichosamente recortados, eram as mais perfeitas casas de bonecas que se podia desejar. E aquela rua era só nossa... Como nossos, também, eram os palcos improvisados, no interior de nossas casas, onde nos sentíamos mais estrelas que as próprias de Hollywood.
E, por que não falar do desfile das bonecas na grande festa centenária? Dos dramas tão bem dirigidos por minha saudosa mãezinha, nas instalações do Círculo Operário, que nos reportavam ao mundo dos sonhos e nos faziam sentir princesas, rainhas e anõezinhos?  Tal como um Dunga que, na peça Branca de Neve, representado por Raimundo Luiz, deu asas à fantasia, e resolveu munir-se de uma lanterna que teria vindo do exterior, e que, com certeza, o ajudaria bastante quando adentrasse a gruta na caça aos diamantes. Antes, porém, para resistir à corrida até a casa do tio, dono do tão propalado equipamento, devorou quase tudo que estava servido na minúscula mesa dos anões.
O tempo passou. Sim, o tempo, porque nós somos importantes demais para passarmos. Estaremos sempre na memória dos que amamos, na realização plena do nosso Criador.
Mãe amorosa, competente profissional, você Maninha, não deixou para trás, nem o seu jeito simples de criança feliz, contagiando a todos com sua alegria, com uma  inquietude própria de quem tem pressa de viver, de aproveitar os bons momentos da vida para praticar o bem, para  ajudar o próximo, para, muitas vezes, no papel de “Cupido”, antecipar-se as flechadas do mesmo. Para dizer para todos, arremedando reportagem, que o mundo é lindo e que a vida é bela. Que é muito bom viver!
E eu fico a imaginar com qual alegria você terá sido recebida na sua nova vida, que, além de ser muito bela, lhe trará um mundo bem mais lindo e duradouro.

SEJA ETERNAMENTE FELIZ!!!      
ESTEJA COM DEUS!!!

Fortaleza, 09 de abril de 2002.


terça-feira, 3 de abril de 2012

CARTA PARA A MANINHA



Hoje, dia 3 de abril de 2012, está completando 10 anos do falecimento da Maninha. Em sua homenagem, transcrevo uma carta que fiz na ocasião e que foi publicada no jornal "O POVO", em 27 de maio de 2002.
        
                                                                 
                                                                                                        Fortaleza, 09 abril de 2002.
      
   Maninha querida,                                                      

“Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. E tua alma era imensa, tão grande quanto a vastidão do “Mar Portuguez”, cantado em versos por Fernando Pessoa, teu poeta preferido. Tua vontade de viver e servir a todos  foram ainda maiores. Tua vida, Maninha, valeu, sim, valeu a pena... Fizeste dela uma grande festa e atravessaste sorrindo, feliz, amando, doando-te e contagiando a todos com tua alegria, simpatia e bondade.  Eu tive o privilégio de compartilhá-la contigo e de conhecer profundamente tua alma generosa. Minhas amigas eram tuas, e as tuas, minhas também. Dessa forma, tivemos amigas duplicadas.
                  
Tua história foi rica. Foste uma filha exemplar. Adoravas o papai e a mamãe e era por eles que tu chamavas quando vivias teus últimos dias. Foste uma mãe e avó dedicada e desprendida. Dando tanto amor, recebeste também muito amor e dedicação dos teus filhos e neto. Sonhaste com uma filha e foste mãe de todas as tuas irmãs, cunhadas, sobrinhas e de tuas amigas mais íntimas. Teus filhos te deram noras que foram filhas, e minhas filhas, Maninha, foram tuas também. Teu coração foi tão generoso que foste mãe  dos teus irmãos, cunhados, sobrinhos e do teu maior amigo.

Como profissional, foste grande, competente, inteligente, responsável e extremamente ética. Espalhaste  o teu saber não só no Ceará, mas em muitos Estados do Brasil. Hoje, és reconhecida pela valiosa contribuição que deste ao Tribunal de Contas dos Municípios, onde angariaste inúmeros amigos. Recebeste dos Conselheiros a homenagem de um voto de pesar, um minuto de silêncio e o enaltecimento da grande municipalista que foste.

Tua ânsia de ajudar a todos extravasou-se na luta pela libertação das mulheres sufocadas pela opressão machista e pelos sistemas sociais retrógrados. Militamos juntas na União das Mulheres Cearense, participando dos movimentos políticos pela emancipação da mulher aguilhoada, objetivando elevá-la à condição  da dignidade humana.  Tu te irmanaste também, com todo o fervor,  em outra luta: a  da libertação dos sofredores das camadas economicamente desvalidas. Por isso, erigiste como teus ídolos aqueles que dedicaram a vida na luta contra as injustiças sociais, dentre eles Che Guevara.

Maninha, tu jamais tiveste preconceito de classe social, sexo, raça e religião, e dispensaste a mesma atenção a todos, convivendo em igualdade com tuas domésticas, os mais pobres e as minorias oprimidas. No entanto, Maninha, foste alvo de discriminação porque ousaste amar  acima dos preconceitos sociais, com todo o fogo da paixão. Foste transparente, autêntica e honesta.

Tive o privilégio de te acompanhar no teu lento sofrimento e constatar de perto teu heroísmo e tua capacidade de enfrentá-lo. Saiba Maninha, que ele não foi em vão; pois em nós ficou o teu exemplo de bravura. Em meio a tanta agonia, tiveste a felicidade de realizar um grande sonho: o de ser avó outra vez! Tiveste, também, a sorte de ser assistida e cuidada por um  médico abnegado, dedicado, extremamente competente e ético, que lutou heroicamente junt  à Clêide para salvar tua vida. Eu, Maninha, impotente para te curar, procurava de todas as maneiras amenizar a tua dor. As músicas do Chico Buarque foram um lenitivo. Lembras da década de 60 quando o conhecemos? Foi através de ti, dos teus discos, que passei a admirá-lo. Ambas, mergulhamos com a mesma profundidade  na alma desse poeta e atravessamos a vida embaladas por suas canções.

Por ti, agradeço à todas as pessoas que nos teus últimos  dias estiveram ao teu lado,  cuidando de ti,  acarinhando,  acalentando,  aliviando as tuas dores, orando e sofrendo contigo. Agradeço aos tios, primos, irmãos, amigos, sobrinhos, cunhados e cunhadas que te visitaram. A todos que por ti oraram. Agradeço, enfim, Maninha, aos que te velaram e aos que estão aqui presentes reverenciando a tua memória. Não morreste! Ficaste encantada, deixando um vazio imenso e uma saudade eterna. Para falar dessa saudade que sinto, te ofereço a canção daquele que julgaste gênio por sua obra e maestria:

“PEDAÇO DE MIM”
Chico Buarque
1977-1978

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus”

Adeus querida irmã e um beijo tão grande e carinhoso como o último que tu me deste.

                                                                                                                               Ana

AS SETE FACETAS DE MEU PAI

Miguel Edgy - Lisboa - Portugal - 1921

Edgy em Lisboa com seus pais e irmãs - 1924

Edgy  - primeira comunhão -  Pará - 1927

Edgy e Adelina - Fortaleza - Parque da Criança - 1943

Edgy - Capitão do Exército - 1945

Edgy - década de 1960

Edgy , esposa e filhos



 ESTE TEXTO FOI ESCRITO POR OCASIÃO DE SEU FALECIMENTO EM SET. DE 2010

Como um diamante que explode a luz em sete cores, meu pai, Capitão Edgy Távora Arruda, durante sua longa e profícua existência, irrompeu seu talento profissional em sete facetas. Foi militar, administrador público, historiador, professor, memorialista, jornalista e escritor.

Ao tentar falar sobre sua vida e seu grandioso legado em tão exíguo tempo, fico pensando quais das facetas devo abordar.

 O militar cumpridor de seus deveres? O competente administrador público de conduta ilibada? O historiador apaixonado? O professor brilhante e dedicado? O memorialista sonhador e empreendedor? O jornalista amante da verdade? O escritor singular?

 São tantas as facetas de meu pai que confesso a impossibilidade de abordá-lo em sua totalidade. Entretanto, sinto-me à vontade em apresentar sua faceta de historiador, por ter dele herdado, ao lado de seu neto, Luiz Gustavo, a paixão pela História.

Meu pai foi um historiador na mais completa acepção da palavra. Possuidor de uma inteligência privilegiada, uma memória invejável e, sobretudo, uma fantástica eloquência, difundiu seu saber na atmosfera das salas de aula.  Com simplicidade, sabedoria, entusiasmo e paixão, transmitiu seus vastos conhecimentos.

Além de professor de História, meu pai foi um pesquisador meticuloso, deixando um importante legado histórico. 

Evocando o pretérito, ele desvendou fatos que se desenrolaram outrora, nos velhos tempos, em Monte-Mor o Novo d’América, e que estavam recobertos pela pátina do tempo. Debruçou-se com determinação em documentos históricos, para subtrair a pátina e trazer à luz a história da cidade que tanto amou, Baturité.

A paixão foi o denominador comum de todos os atos de sua vida. Escondida aqui e ali por sua timidez nata, mas surgindo lá em uma atitude, numa ação desassombrada, na frase de um discurso, no desvelo com minha mãe e sua numerosa prole, na organização e registro das convenções da Família Arruda. 

Em todas essas ocasiões, ele foi movido, com a alma incendiada, pela paixão.

Sua existência não se restringiu apenas às noventa e uma voltas e meia que deu em torno do sol, mas a bilhões de voltas, por ter sido um historiador de amplos conhecimentos. 

Como tal, meu pai viu o alvorecer da Terra dentro de uma gigantesca nuvem de gás e poeira há, aproximadamente, cinco bilhões de anos. 

Viu os períodos pré-cambriano e cambriano, e as primeiras formas de vida brotarem nas águas quentes e serenas do mar.

Viu os dinossauros surgirem, dominarem a Terra durante cento e sessenta milhões de anos, e se extinguirem. 

 Viu, há dois e meio milhões de anos, os primeiros hominídeos fabricarem armas rudimentares de pau e pedra, dominarem o fogo e inventarem a roda. 

 Viu, na Mesopotâmia, berço de nossa civilização, surgirem a agricultura, a escrita, as primeiras cidades e o Código de Hamurabi. 

Viu em Ur, nascer Abraão, pai das religiões monoteístas, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. 

Viu Sumérios, Babilônicos, Assírios, Persas e Gregos. Viu as pirâmides do Egito erguerem-se imponentes pelo trabalho de milhares de escravos. 

Viu Tutankhamon, faraó do Egito Antigo, ser sepultado com seus tesouros. Viu Cleópatra, a última rainha egípcia, da dinastia de Ptolomeu, deixar-se picar por uma serpente. 

Viu a Grécia florescer com seus filósofos e Roma expandir seu Império com seus Césares.

  Viu Cristo ser crucificado por nos legar uma forte mensagem de paz e amor. Viu o Império Romano ruir e a Igreja Católica se firmar no Ocidente. 

Viu o feudalismo medieval, as pestes, o renascer das artes e a Revolução Francesa. Viu os reis de França, Louis XVI e Maria Antonieta, subirem ao cadafalso e Napoleão dominar a Europa. 

Viu a descoberta do Novo Mundo e o massacre impetrado pelos Europeus, ditos civilizados, aos índios da América. 

Viu o homem escravizar o próprio homem. Viu os negros africanos derramarem suor e sangue para fazer a riqueza do Brasil. 

Viu a abolição da nossa escravatura e a proclamação da República. Viu, na Inglaterra, o brotar da Revolução Industrial. Viu a Revolução Comunista e Nicolau II, o último Czar da Rússia, ser massacrado com toda a sua família. 

Viu a barbárie de duas guerras mundiais no Século XX, o holocausto dos judeus e a bomba atômica.

Viu muito mais, mas viu, principalmente, seus pais atravessarem a vida em uma perfeita união. 

Viu os oito irmãos, tios, avós, primos, sobrinhos, cunhados e cunhadas. Viu amigos fiéis e muitos admiradores.

 Viu, fascinado, minha mãe adentrar de branco a Igreja do Patrocínio, em sua pureza virginal, para com ele entrelaçar sua vida. Viu quinze filhos, trinta e quatro netos e treze bisnetos, além das noras e genros.

Finalmente, viu a concretização do seu sonho de historiador. O sonho de criar o Museu e a Fundação Comendador Ananias Arruda, e manter o jornal “A Verdade” em circulação.

Por tudo o que realizou, meu pai é merecedor da gratidão e admiração não só dos que aqui estão reverenciando sua memória, mas de todos os familiares e amigos que angariou durante sua longa jornada terrena.

A morte é uma fatalidade biológica, dizia Rosemberg. Devemos recebê-la estando quites com a vida pelas realizações que fizemos para enobrecê-la. 

Neste contexto, meu pai partiu com os maiores dividendos e, por isso, devemos cultuar sua memória e preservar o seu legado para a posteridade. Assim, ele não morrerá nunca, estará presente sempre, SEMPRE...

                             
          
    Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg 

                    Fortaleza-CE, 29 de setembro de 2010