Pedacinho do paraíso encravado no sopé da serra de Baturité, o sítio do meu tio ficava atrás da casa de meus avós. Extensão de nosso quintal, era pra lá que fugíamos às tardes, depois do dever de casa, nos finais de semana e nas férias.
Havia uma casinha logo na entrada e, à esquerda, um caminho estreito e íngreme, com muitas pedras, que descíamos com cuidado.
Malícia, uma plantinha abundante nas margens do caminho, fechava-se, automaticamente, quando, a tocando, dizíamos: “Malícia, o teu pai morreu”. Acreditávamos que ela morria de tristeza e ficávamos tristes. Porém, era uma tristeza fugaz, dada as nossas despreocupações e nosso encantamento constante.
Quando chegávamos embaixo, éramos recompensados pela visão fantástica do rio, dos mangueirais, das sirigueleiras, das goiabeiras, das bananeiras e da exuberante vegetação.
Para completar o cenário, tínhamos a serra de Baturité com seus tons azulados que contrastavam com o verde das mangueiras e a pureza transparente do rio.
Ansiosos, subíamos no pé de siriguela que ficava logo à direita e que quase sempre, nos meses de safra, estava carregado.
As mais cobiçadas eram as vermelhinhas. Depois, as amareladas (de vez) que comíamos com prazer. As verdes eram poupadas.
Aventurávamos nos galhos mais finos e altos com a destreza de quem os conhecia com familiaridade, só para atingir as mais cobiçadas.
Os passarinhos concorriam conosco, pois muitas vezes elas estavam bicadas. Quando não dava pra alcançá-las, tentávamos derrubá-las com um galho seco.
No sítio do meu tio, a vida florescia exuberante. Era um verdadeiro viveiro de passarinhos: pintassilgos, tico-ticos, rolinhas, andorinhas, bem-te-vis, beija-flores, canários, sabiás, codornas, curiós e outros mais, viviam de galho em galho, livres, fazendo seus ninhos, bicando goiabas, siriguelas, mangas e bananas; bebendo água fresca e pura do rio e gorjeando sons maviosos que enchiam nossos ouvidos de prazer.
As sinfonias dos passarinhos e o cantar das águas quebravam o silêncio daquele lugar.
Pássaros maiores sobrevoavam o rio e, com seus vôos rasantes, mergulhavam o bico para pegar peixes que eram abundantes nos meses de inverno, quando o leito do rio se fartava d’água.
Nos meses de verão, refrescávamos nas suas águas puras, transparentes e límpidas que desciam da serra de Baturité e iam formar o Putiú e depois o Aracoiaba.
Conhecíamos todos os meandros daquele rio e os seus mistérios. Havia um poço encantado que nos metia medo e fascínio. Havia os locais mais rasos, os mais fundos, os pedregosos e os arenosos. Catávamos pedrinhas para brincar em casa. As redondinhas eram as melhores e, por isso, as mais procuradas.
Pescávamos os peixinhos com as próprias mãos pra, depois, comê-los fritos. Eram piabinhas coloridas, mas quase sempre prateadas.
Pulando de pedra em pedra, alcançávamos a outra margem do rio coberta por um mangueiral tão grande que o sol não penetrava suas imensas copas.
O chão repleto de folhas amareladas, como um tapete dourado, dava um toque especial de outono. As mangas caídas eram tantas que não precisávamos subir nas mangueiras. Elas já estavam ali, ao nosso alcance. Era só lavá-las no rio e depois sorver sua polpa por um pequeno buraco feito em uma das extremidades.
A paz e o silêncio reinantes nessa margem eram quebrados quando pisávamos nas folhas secas. Corríamos em todas as direções, livres, no mais puro contato com a natureza, como borboletas coloridas e esvoaçantes pousando de flor em flor.
Lembro-me de uns balanços feitos de cordas e tábuas, presentes divinos, que desciam das mangueiras. Era um fantástico parque de diversões. Balançávamos o mais alto possível sem medo de altura, pois a vida para nós era pura aventura.
O sítio do meu tio era o mundo paradisíaco das maravilhas da natureza que nos embalava em nossa sonhadora realidade.
Lá vivíamos, eu, meus irmãos, minhas primas e amigas, com a despreocupação infantil como se a vida não tivesse passado e nem futuro, mas somente a beleza do eterno presente.
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 30 de junho de 2003.