O dia mal clareara naquela manhã de 16 de outubro de 1793. Na
pequena mesa ainda queimavam duas velas iluminando debilmente o escuro e
fúnebre cárcere da Conciergerie, que durante os últimos 70 dias abrigara a Rainha
da França. Lá fora, os tambores rufavam por toda a cidade de Paris, anunciando
mais um espetáculo da Revolução que logo iria se desenrolar em praça pública. Rosália,
uma camponesa, entrou na cela com um caldo, trêmula e cheia de piedade. Maria
Antonieta após passar a noite em claro resolveu escrever uma carta para sua
cunhada, recomendando os filhos.
Vencida pelo cansaço, deitou-se na cama com seu vestido
preto de viúva do Rei da França, mas era preciso levantar-se e despir-se para
pôr um vestido branco, pois assim deveria comparecer ao cadafalso naquela manhã
histórica. O carcereiro, que guardava sua cela, tinha ordem de não se afastar e
a Rainha, para esconder sua nudez dos olhos daquele homem rústico do povo,
colocou-se em um pequeno vão entre a parede e a cama e começou a despir-se. O
corpo fenecido pelo tempo e sofrimento já não era o mesmo da adolescente de 14
anos que outrora, em uma ilha no meio do rio Reno, ao despir-se, resplandeceu
iluminando a antecâmara daquele luxuoso pavilhão e os olhos do séqüito de
nobres austríacos, que acompanhavam a arquiduquesa naquela suntuosa
cerimônia.
Completamente nua e linda, no esplendor de sua pureza
virginal, com seus cabelos de um louro muito claro, seus olhos de um azul
profundo, seu corpo esbelto, delicado e gracioso de adolescente, recebeu a mais
fina seda francesa para cobrir sua nudez e sair dali como Delfina da França. Do
outro lado do Reno, em uma luxuosa carruagem, o Rei Louis XV e seu neto, futuro
Rei Louis XVI, aguardavam, com ansiedade, a chegada da Delfina que deixava para
sempre o palácio de Schoenbrunn, o convívio alegre com seus irmãos, suas
brincadeiras infantis e o carinho de sua mãe, Maria Teresa, para seguir o seu
destino de Rainha da França.
24 anos depois, Maria
Antonietta despia-se novamente. Agora, naquela triste cela, úmida e escura, da
Conciergerie com sua magnífica arquitetura gótica, porém lúgubre para a
prisioneira. Maria Antonietta não tinha mais o brilho da juventude, porém seu
corpo resplandecia mais uma vez, iluminando o cárcere escuro, com sua alma
purificada pelos sofrimentos enfrentados, com resignação, nos últimos quatro
anos. Rosália ajudou a pôr o modesto vestido branco de algodão, a colocar um
véu de mussolini no pescoço e a cobrir, com uma touca, os cabelos completamente
brancos, apesar de ter apenas 38 anos. Seu rosto estava cansado e envelhecido,
mas conservava a misteriosa força magnética de encantar as pessoas.
Maria
Antonietta desejava a morte, mas precisava reunir forças para morrer com
dignidade, precisava mostrar aos franceses como morre uma Habsburgo, filha de
Maria Teresa. Às 10h00min, entrou o carrasco Sanson para lhe cortar os cabelos
e ela, sem a menor reação, deixou também que lhe amarassem as mãos nas costas
com uma corda. Estava decidida a salvar sua honra e não demonstraria algum
sinal de fraqueza.
Lá
fora esperavam por ela, uma carroça puxada por um cavalo e uma multidão de 10
mil pessoas, que se apinhavam para mais um dia de espetáculo oferecido pela
guilhotina, em nome de “liberté, égalité et fraternité”. Sentada na dura tábua
da carroça, a Rainha da França olhava firme para frente sem oferecer à
curiosidade da multidão um sinal de medo ou de dor. Parecia nada ver e nada
ouvir. Nenhum tremor lhe agitou os lábios, nenhum estremecimento passou pelo
seu corpo. Senhora absoluta de seu destino parecia ter consciência do momento
histórico que vivia.
A
carroça parou diante do patíbulo. Maria Antonietta subiu os degraus do palco de
madeira com a mesma graça e agilidade com que outrora subia as escadarias de
mármore do “Palais de Versailles”. O silêncio se apossou daquela praça. Os
carrascos pegaram-na pelos ombros e a deitaram sobre o patíbulo e, acima, a
lâmina da guilhotina brilhava de tão afiada. Uma puxada na corda, um lampejo no
cutelo, um golpe surdo e a imortalidade para Maria Antonietta.
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2 de novembro de 2004.
*Este relato se
restringe a fixar dois momentos da vida de Maria Antonietta, marcados com sua
nudez. No primeiro, com todo esplendor, ela entrou para vida como Delfina e
futura Rainha da França e no segundo, trágico, despida de sua realeza, entrou
para a História.

