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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Arte & Medicina - O Xamã Dançante da Gruta dos Três Irmãos
Le Chamane Dansant (Le Sorcier)
Grotte des Trois-Frères, França, c. 13.000 a.C.
Desenho de Henri Breuil
Imagem: Wikimedia Commons (domínio público)
« L’art pariétal paléolithique est essentiellement magique.
Il ne vise pas à représenter le réel,
mais à agir sur lui. »
— Henri Breuil
Tradução livre:
“A arte parietal paleolítica é essencialmente mágica.
Ela não visa representar o real,
mas agir sobre ele.”
Em 1914, três jovens — Max, Jacques e Louis Bégouën — desceram às
entranhas calcárias do vale do Volp, no sul da França, e tocaram uma caverna
selada por milênios, que se abriu pulsante de imagens. A caverna,
posteriormente batizada de Gruta dos Três Irmãos (Grotte des
Trois-Frères), localizada no departamento de Ariège, constitui um dos mais
significativos testemunhos visuais da relação entre arte, ritual e cura na
Pré-História.
Ali, nas paredes úmidas e irregulares, surgem figuras de homens que
vestem animais — corpos em metamorfose. O mais enigmático deles, o Xamã
Dançante, também conhecido como O Feiticeiro da Grotte des Trois-Frères,
é uma das imagens mais intrigantes da arte rupestre paleolítica. Ele não caça,
não luta, não domina. Ele dança. E, ao dançar, cura.
Datada de aproximadamente 13.000 a.C., no período Magdaleniano
Superior, essa representação integra o conjunto da arte parietal
paleolítica europeia e tem sido interpretada como uma figura xamânica associada
a práticas de transe, cura e mediação espiritual. Como uma das primeiras
representações simbólicas de um curador, o Xamã Dançante encarna aquele que
reúne o conhecimento do corpo, da natureza e do sagrado — um médico ritual
da Pré-História.
Do ponto de vista técnico, a figura foi executada por meio da combinação
de gravura e pintura, utilizando pigmentos naturais — sobretudo carvão
vegetal — aplicados diretamente sobre a superfície calcária da caverna. Os
traços lineares, finos e precisos exploram o relevo natural da rocha para
sugerir movimento e volume. Trata-se de um ser híbrido — parte humano, parte
animal — com aproximadamente 75 cm de altura e 50 cm de largura,
ostentando chifres de cervo, cauda, corpo humano e postura dinâmica, sugerindo
dança, deslocamento ou transe. Esses elementos são frequentemente associados às
práticas xamânicas, nas quais o curador do grupo entrava em estados alterados
de consciência para diagnosticar doenças, afastar espíritos malignos e
restaurar o equilíbrio do corpo e da comunidade.
Nas sociedades pré-históricas, pinturas, gravuras e esculturas estavam
intimamente ligadas a rituais de caça, fertilidade, proteção e cura. O Xamã
Dançante, nesse contexto, pode ser compreendido como um registro visual de
práticas terapêuticas coletivas, nas quais imagem, gesto e som atuavam de forma
integrada. O xamã, como médico ancestral, desempenhava múltiplas funções:
sacerdote, artista, líder espiritual e curador. Sua autoridade não advinha de
instrumentos técnicos, mas do domínio do simbólico, do corpo e do imaginário
coletivo.
Do ponto de vista médico-antropológico, essa figura evidencia que a
medicina nasceu inseparável da arte, do mito e da espiritualidade. Antes da
anatomia e da farmacologia, o cuidado com a saúde estava ligado à interpretação
simbólica da doença, ao ritual e à restauração do equilíbrio entre o indivíduo
e o mundo.
Ao ser inserido neste livro, Arte & Medicina, o Xamã
Dançante da Gruta dos Três Irmãos funciona como um marco fundador dessa
relação. Ele nos lembra que a medicina não surgiu apenas como ciência, mas como
experiência humana integral, envolvendo corpo, mente, emoção e cultura. Mesmo
na contemporaneidade, práticas como arteterapia, musicoterapia, dançaterapia
e medicina psicossomática resgatam essa antiga compreensão: a de que o
gesto artístico pode curar, aliviar e reorganizar o ser humano.
A pintura do Xamã Dançante revela, portanto, uma concepção de cura
anterior à medicina científica, na qual o corpo, o gesto, o ritmo e a imagem
desempenham papel terapêutico fundamental. Inserida em uma abordagem
interdisciplinar entre Arte e Medicina, essa obra evidencia que a necessidade
humana de compreender e aliviar o sofrimento encontra, desde os primórdios, na
expressão artística um meio essencial de cuidado e significado. Assim, a figura
pré-histórica do xamã dançante permanece atual, simbolizando a origem profunda
e ancestral do ato de cuidar.
ana margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 29 de dezembro de 2025
O Abade Breuil
Henri Édouard Prosper Breuil (1877–1961), sacerdote, pré-historiador e arqueólogo francês, ficou
conhecido por seu trabalho pioneiro no estudo da arte rupestre. Caminhando
entre dois altares — o da fé e o da pedra — soube ajoelhar-se tanto diante do
mistério teológico quanto diante da parede pintada há milhares de anos.
Foi um dos mais eminentes arqueólogos de seu tempo, destacando-se
sobretudo na investigação da Pré-História e sendo autor de estudos fundamentais
sobre as cavernas de Lascaux e Altamira. Munido de lápis,
cadernos e paciência, Breuil copiou linhas frágeis, corpos sobrepostos e
sombras animais — não como um técnico, mas como alguém que pressente o sagrado.
Para ele, aquelas figuras não eram decoração primitiva, mas gestos rituais,
traços de um pensamento que antecede a palavra e cura antes do remédio.
Na Gruta dos Três Irmãos, Breuil reconheceu algo essencial: a arte nasce
onde o corpo sofre, teme e deseja sobreviver. Suas interpretações — muitas
vezes contestadas — abriram caminho para compreender a imagem como prática
simbólica, ligada à caça, à morte, à fertilidade e ao transe. Ao morrer, em
1961, deixou mais do que estudos: deixou um método de escuta. Ensinou
que olhar a arte paleolítica é aceitar que a origem da imagem não está na
beleza, mas na necessidade vital de significar a dor.
Referências
BREUIL, Henri. Quatre cents siècles d’art pariétal. Montignac:
Centre d’Études et de Documentation Préhistoriques, 1952.
CLOTTES, Jean; LEWIS-WILLIAMS, David. Les chamanes de la préhistoire:
transe et magie dans les grottes ornées. Paris: Éditions du Seuil, 1996.
ELIADE, Mircea. O xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase.
Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
GOMBRICH, Ernst Hans. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro:
LTC, 2019.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Anthropologie structurale. Paris: Plon,
1958.
LYONS, Albert S.; PETRUCELLI, R. Joseph. Histoire de la médecine.
Paris: Lavoisier, 1997.
NOVAES, Sylvia Caiuby. Imagem, magia e imaginação: desafios ao
conhecimento antropológico. São Paulo: Edusp, 2008.
TURNER, Victor. Le phénomène rituel: structure et anti-structure.
Paris: Presses Universitaires de France, 1990.
Epígrafe extraída e adaptada do pensamento de Henri
Breuil, especialmente de
Quatre cents siècles d’art pariétal
(1952).
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
ARTE & MEDICINA - Cuevas de las Manos
Cuevas de las Manos
(Caverna das Mãos)
(c. 9.000 a.C.)
Descrição
Localização: Sítio Pré-Histórico do Rio Pinturas
Província: Santa Cruz, Patagônia
País: Argentina
Tipo: Cultural
Identificação: 936
Área geográfica: América Latina e Caribe
Ano de registro: 1999 (23ª sessão)
Imagens: Wikimedia Commons (Domínio Público)
No desfiladeiro profundo do rio Pinturas,
localizado na província de Santa Cruz, Patagônia, Argentina, onde a pedra se
abre como uma ferida antiga, a Cueva de las Manos conserva um dos gestos
mais elementares da humanidade: a mão que se imprime para não desaparecer. Ali,
antes da escrita e da anatomia, o corpo fala por contato — toca a rocha e nela
permanece. O que se vê são vestígios: mãos em negativo, sopros minerais,
contornos de vida. São corpos que não narram feitos, mas afirmam presença.
“Estive aqui”, parecem dizer. “Este foi o meu corpo.”
Reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO desde
1999, a Cueva de las Manos é um sítio pré-histórico de excepcional
riqueza em pinturas rupestres. A caverna, de grandes dimensões e difícil
acesso, possui aproximadamente 20 metros de profundidade, 10 metros de altura e
15 metros de largura. Uma das mais antigas expressões artísticas dos povos
sul-americanos, integra um conjunto de importantes sítios arqueológicos da
América Latina, entre os quais se destacam Monte Verde, no Chile; Pedra Furada,
no Brasil; e Piedra Museo, na Argentina.
As pinturas, identificadas pelo especialista
Francisco Moreno em 1876, retratam o cotidiano dos Tehuelches — grupo de etnias
ameríndias da Patagônia — e de seus ancestrais, antigos povos
caçadores-coletores.
As paredes calcárias acolhem centenas de marcas: mãos sobre mãos, tempos sobre tempos. A técnica é simples e precisa: o sopro. Esse método consistia em introduzir pigmentos minerais no interior de um canudo — geralmente confeccionado a partir de ossos de pequenos animais —, posicionar a mão sobre a parede calcária e soprar. Os pigmentos, ao serem borrifados sobre a rocha, produziam a impressão negativa dos dedos e das palmas das mãos, pois, ao atravessar o canudo de osso, encontravam a mão aberta e fixavam sua ausência. O resultado é paradoxal: o corpo se ausenta para permanecer.
Outras técnicas também foram utilizadas, como a
impressão positiva da mão, obtida ao pintar diretamente a palma antes de
pressioná-la contra a parede, e a técnica conhecida como cracher (do
francês cuspir), que consistia em misturar o pigmento com água,
colocá-lo na boca e cuspir ao redor da mão, delineando seu contorno.
Ao longo das paredes rochosas da caverna
distribuem-se, além das centenas de marcas de mãos, cenas de caça, figuras
humanas e representações de guanacos, emas, felinos e outros animais.
As cores — vermelho da hematita, branco do
calcário, negro do manganês ou do carvão, amarelo do ocre — não são apenas
escolhas estéticas. São matérias do mundo, colhidas do solo, das plantas, dos
animais. Em alguns casos, do próprio sangue. A imagem nasce, assim, de uma
economia vital: o corpo pinta com aquilo que o cerca e com aquilo que o
constitui.
A datação por carbono-14 indica que as pinturas
pertencem a diferentes períodos. As cenas de caça remontam a cerca de 13 mil
anos, enquanto as representações de mãos em negativo foram produzidas entre
aproximadamente 9 mil e 13 mil anos atrás.
Na Caverna das Mãos, observa-se a predominância de
mãos esquerdas sobrepostas em quase toda a extensão das paredes. Das 829 mãos
catalogadas, apenas 31 correspondem a mãos direitas, o que sugere que a maioria
dos indivíduos era destra.
O sentido dessas mãos nos escapa. Essas pinturas
permanecem envoltas em mistério. O que expressam? Alegria? Angústia? Um ritual
religioso? Uma forma primitiva de arte? Um símbolo de pertencimento? Não
sabemos. Talvez representem cerimônias de iniciação de jovens ou atos de
submissão às regras sociais do grupo. São apenas conjecturas. Nada sabemos com
certeza.
A Cueva de las Manos não oferece respostas.
Oferece contato. Ensina que, desde muito cedo, o humano precisou inscrever o
corpo no mundo para suportar o tempo. E que toda imagem — como toda cicatriz —
é uma tentativa de não desaparecer por completo.
Nunca saberemos, de fato, o que essas mãos
significaram, pois, como escreveu o poeta francês Charles Baudelaire:
“O passado é um fundo abismo onde não chegam nossas
sondas.”
ana margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 18.12.2025
Referências
AGUIRRE, Marta; GRADIN, Carlos. Cueva de las
Manos: arte rupestre en la Patagonia. Buenos Aires: EUDEBA, 1999.
BRADLEY, Richard. Image and audience: rethinking
prehistoric art. Oxford: Oxford University Press, 2009.
CLOTTES, Jean. What is Paleolithic art? Cave
paintings and the dawn of human creativity. Chicago: University of Chicago
Press, 2016.
LEROI-GOURHAN, André. O gesto e a palavra.
Lisboa: Edições 70, 1983.
UNESCO. Cueva de las Manos, Río Pinturas.
Paris: UNESCO World Heritage Centre, 1999.




























































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