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| ana margarida furtado arruda rosemberg - Iguatemi - Fortaleza, 24.11.2023 |
Como historiadora, amante
da França e de bons filmes, fui, com a minha filha Jana, no dia 24/11/2023, ao
UCI Kinoplex Iguatemi Fortaleza, assistir ao filme “Napoleão” (Napoléon,
2023) do diretor britânico Ridley Scott, roteiro de David Scarpa e, nos papeis principais, Joaquim
Phoenix e Vanessa Kirby.
A data era simbólica,
pois naquele dia, 18 anos antes, o Rosemberg partia deixando um vazio sideral.
Assistir ao longa-metragem citado, seria uma maneira de homenageá-lo, já que
ele nutria grande admiração por Napoleão Bonaparte (1769-1821).
Para mim foi um deleite
ver a explosão na telona da superprodução de 200 milhões de dólares, com
2h38min, apesar de muitas inconsistências históricas e de truncagens na
biografia retratada.
O filme aborda a vida de
Napoleão - de oficial da artilharia a imperador da França – a partir,
principalmente, de sua relação amorosa com sua mulher Joséphine e das
principais batalhas travadas com sua “Grande Armée”.
Qualquer filme sobre Napoleão Bonaparte, um
dos maiores comandantes da história, considerado um gênio da estratégia de
guerra, estudado em escolas militares de todo mundo,
apontado como um dos líderes mais célebres e controversos da humanidade,
amado e odiado, causa polêmica.
Segundo
o jornalista, escritor e historiador francês, David Chanteranne, foram feitos
700 filmes sobre Napoleão desde a criação do cinema pelos irmãos “Auguste e
Louis Lumière”, em 1895. Ele frisou:
"Nos
Estados Unidos, na Itália, na Rússia e até mesmo na Ásia, isso mostra que todos
estão tentando se apossar de Napoleão porque ele é, eu diria com uma palavra
inglesa, um 'self-made man', em referência à expressão que
define pessoas que se tornaram bem-sucedidas e ricas por meio de seus
próprios esforços.… Bem, ainda se fala dele na América do Sul, na Ásia e na
África também, porque ele é um personagem que já foi contado em todos os seus
aspectos. De fato, um livro (sobre ele) foi escrito todos os dias desde
sua morte. Portanto, está claro que as pessoas em todo o mundo estão tentando
decifrar o mistério de Napoleão".
O jornalista Peter Bradshaw, no jornal “The Guardien”, deu cinco
estrelas ao filme chamando-o de "filme biográfico emocionante" e
disse:
“Scott não nega os prazeres antiquados do
espetáculo e da emoção. Phoenix é a chave para tudo: uma performance tão
robusta quanto o vidro de Borgonha ele bate de volta: envaidecido, taciturno,
fervilhante e triunfante".
Nicholas Barber, da BBC, chamou de espetaculares as sequencias das
batalhas.
Por outro
lado, jornalistas dos jornais franceses: “Le Point”, “Le Monde” e “Le
Figaro” publicaram críticas negativas. O historiador francês Patrice
Gueniffey, autor de uma biografia monumental de Napoleão, comentou:
"Nada
é plausível, nem o personagem, nem a história que é contada".
Scott retrucou as críticas, em uma entrevista à BBC,
dizendo:
“Os
franceses não gostam nem deles mesmos”. “O público para quem mostrei em Paris adorou".
Ao falar da
grandiosidade da figura histórica de Napoleão, Scott frisou:
“Dois mil e quinhentos
livros foram escritos sobre ele, eu não consigo pensar em nenhum líder,
político, rei, quem seja, que tenha sido tão abordado. O que há nele de tão
fascinante?”.
Se a intenção de Scott era causar polêmica, ele
conseguiu. O filme está sendo um sucesso de bilheteria na França,
ficando em terceiro lugar das maiores bilheterias no final de semana da
estreia, 23/11/2023, atrás apenas dos EEUU e Reino Unido.
A meu ver,
o filme está sendo criticado na comunidade acadêmica, porque Scott faz
revisionismo, rejeitando as orientações de sua equipe de historiadores, com
relação a abordagem factual.
A “liberdade poética” é aceita em filmes
históricos, mas, nesse filme, as críticas são pertinentes em passagens que
nunca aconteceram, como: Napoleão e seu exército bombardeando as pirâmides do
Egito.
Scott
perdeu a oportunidade de mostrar que, em 1799, o exército de Napoleão descobriu
a “Pedra de Roseta”, um fragmento de uma estela erigida no “Egito Ptolomaico”,
que levou a decifração dos hieróglifos pelo francês Jean-François Champollion
(1790-1832), criando a fascinante egiptologia e inspirando uma explosão de
egitomania na Europa.
Polêmicas à parte, vou
escrever as minhas impressões sobre o filme:
As cenas, que viajam
entre as batalhas, a conturbada vida amorosa do casal e a atuação política de
Napoleão, esmiúçam com maestria a reconstituição de grandes batalhas, como:
Toulon, 1793; Austerlitz, 1805; e Waterloo, 1815; a tomada do poder no “18 de Brumário”, golpe de Estado em
novembro de 1799; e a coroação de Napoleão como Imperador da França, em
02/12/1804, na Catedral de Notre-Dame de Paris.
A referida coroação é
mostrada através da reconstituição impecável do quadro de Jacques-Louis David,
“Le Sacre de Napoléon, 1807” (Coroação de Napoleão).
A tela, com dez metros de
largura e seis de altura, do acervo do Louvre, mostra o momento em que Napoleão
tira a coroa das mãos do Papa Pio VII, se coroa e coroa Joséphine, na presença
de familiares, políticos e elite francesa. Há uma cópia dessa tela no Château
de Versailles.
As cenas que retratam a
conturbada vida amorosa do casal e o fascínio que Joséphine exercia sobre
Napoleão, são inspiradas nas mais de 250 cartas que ele escreveu para sua
amada.
Joséphine de Beauharnais
(1763-1814), uma experiente mulher de 32 anos, viúva, que por um triz não
perdeu a cabeça na Revolução Francesa (RF), como o seu primeiro marido, o
aristocrata Alexandre de Beauharnais (1760-1794), tinha dois filhos, Eugène de Beauharnais (1781-1824) e Hortense de Beauharnais (1783-1837), quando, em 1795,
conheceu Napoleão.
Foi em um jantar da alta sociedade que Bonaparte se
encantou pela sofisticada e bela Joséphine, natural da Ilha de Martinica.
Pragmática, ela passou a ver nele segurança e estabilidade, após os horrores
passados na prisão.
Em março de 1796, selaram os destinos e dois dias
depois de casados, Napoleão partiu para liderar o exército francês na Itália.
As infidelidades de ambos os lados foram superadas e Napoleão criou os filhos
de Joséphine dedicando-lhes amor legítimo.
Durante 14 anos, desde a ascensão de Bonaparte
nas fileiras do exército, passando por sua nomeação como Primeiro
Cônsul e sua autoproclamação como Imperador, Joséphine esteve ao seu
lado. Ela personificava o poder de Napoleão a tal ponto que ele dizia:
“Eu ganho batalhas, mas Joséphine ganha
corações”.
A falta de um herdeiro fez com que Napoleão pedisse
o divórcio e contraísse núpcias com Marie-Louise d'Autriche (1791-1847) que lhe deu um filho, Napoleão
II (1811-1832). Mesmo separados, Napoleão e Joséphine continuaram amigos e as
últimas palavras de Napoleão, ao morrer exilado na Ilha de Santa Helena, como
retratado no longa-metragem, foram: "França, exército e Joséphine".
CONCLUINDO:
As expectativas dos
franceses foram frustradas no filme de Scott, como na maioria dos filmes e
livros dedicados a figura de Napoleão, por tratar-se de um mito grande demais
para caber em um filme.
Os franceses construíram
para Napoleão na Église du Dôme, no imponente Musée
des Invalides (Museu dos Inválidos), o mais suntuoso túmulo de
Paris, com uma cúpula barroca folheada a ouro, que pode ser vista de vários
pontos da capital francesa.
O túmulo em forma de
esquife, ricamente decorado, tem um tampo representando o acento de um trono.
Os restos mortais de Napoleão, vestido de uniforme com o chapéu sobre as
pernas, estão dentro de seis caixões, a saber: ferro, mogno, chumbo (2), ébano
e carvalho.
A data da “Queda da
Bastilha”, “14 juillet”, início da Revolução Francesa, é o “Dia Nacional da
França”. Os revolucionários Jacobinos (Robespierre, Danton, Marat, Camille
Desmoulins, entre outros) estão espalhados pela capital francesa nas placas de
ruas, estátuas, praças etc. A Marselhesa, hino dos revolucionários, é o hino da
França. Os ideais revolucionários Liberté, Égalité, Fraternité
estão escritos nas entradas das escolas, hospitais e demais instituições
públicas. “Vive la Republique” é o grito dos franceses.
A “República Francesa”,
conquistada pelos revolucionários, foi defendida pelo militar Napoleão Bonaparte no "Cerco de Toulon", em 1793, e no "13 Vendémiaire", batalha travada entre as forças republicanas e manifestantes pró-monarquistas, nas ruas de Paris, em 5.10.1795.
Após a queda de Napoleão, em 1815, houve a restauração da monarquia na França, mas por pouco tempo, pois os revolucionários haviam conquistado os corações e as mentes dos franceses.
Napoleão, por ter vindo das escolas militares reais, ser filho do
iluminismo de Voltaire e Rousseau e ter feito parte da Revolução Francesa, tem um lado universal. Ele implementou políticas liberais fundamentais na
França e em toda a Europa Ocidental; criou as escolas de ensino secundário, conhecidas
como lycées; promoveu a ciência; reintroduziu os laços com a religião,
desfeitos pelos revolucionários, colocando o judaísmo, o protestantismo e o
catolicismo em pé de igualdade; organizou as finanças criando o Banco da França;
criou o “Código Napoleônico”, copiado em mais de 70 nações em todo o mundo.
Andrew Roberts, historiador britânico, frisou:
"As ideias que sustentam nosso mundo
moderno — meritocracia, igualdade perante a lei, direitos de propriedade,
tolerância religiosa, educação secular moderna, finanças sólidas etc. — foram
defendidas, consolidadas, codificadas e estendidas geograficamente por
Napoleão. Além disso, ele também acrescentou uma administração local racional e
eficiente, o fim do banditismo rural, o incentivo à ciência e às artes, a
abolição do feudalismo e a maior codificação de leis desde a queda do Império
Romano"
Os alemães Friedrich Hegel (1770-1830) e Friedrich Nietzsche (1844-1900) o admiravam. Hegel comparou Napoleão a “Prometeu”, por ter transformado
a Europa Feudal, difundindo os ideais iluministas da Revolução Francesa;
Nietzsche o viu como o exemplo mais extremado da "vontade de poder”.
Por outro lado, os escritores russos Liev Tolstói (1828-1910) e Fiódor
Dostoiévzki (1821-1881) o criticaram. Tolstói, autor de “Guerra e Paz”, o culpava
pelas mortes e pela destruição causadas pelo conflito, de 1812, entre seu país
e o Império francês. Dostoiévski viu Napoleão como o protagonista de sua
obra-prima, “Crime e Castigo”.
Beethoven que admirava
Napoleão, dedicou-lhe a 3ª Sinfonia (Heroica).
Quando Bonaparte se autoproclamou imperador, Beethoven, em um acesso de
raiva, rasgou a dedicatória e escreveu: “À memória de um grande homem”. Na
visão de muitos historiadores, Napoleão tinha que se coroar imperador para
enfrentar os países monarquistas.
Na França, Bonaparte sempre foi admirado pela maioria dos franceses que
o viam como: l'empereur, sinônimo de gloire, quando a França
desfilava vitoriosa de Lisboa a Moscou, levando
os ideais da Revolução Francesa.
No Bicentenário do Nascimento de Napoleão, em 1969, o então presidente
francês Georges Pompidou (1911-1974) declarou:
"Não há nome mais glorioso do que o de
Napoleão. Partindo do nada, desprovido de tudo, ele conseguiu tudo".
Em maio de 2021, no bicentenário da morte de Napoleão, esta visão passou
a ser questionada. Ele foi chamado de “Misógino” pela ministra da Igualdade de
Gênero da França, Élisabeth Moreno, por ter, em seu “Código Civil”, consagrado o poder de pai de família sobre a
mulher.
Em defesa de Napoleão, o historiador Patrice Gueniffey disse que o
código reflete a sociedade camponesa e patriarcal da época. Napoleão foi,
também, criticado pelo deputado Alexis Corbière, da “França Insubimissa”, que
bradou:
"A República não pode prestar homenagem
oficial àquele que foi seu coveiro, pondo fim à primeira experiência
republicana de nossa história para criar um regime autoritário".
Napoleão foi chamado de “Ancestral dos ditadores do Século XX”. Jean Tulard,
historiador francês, especialista em Napoleão, retrucou dizendo:
"O seu
autoritarismo (...), o seu sentido de Estado forte, o seu desprezo pelo regime
parlamentar, o seu imperialismo e sobretudo o seu gênio para a propaganda; tudo
pode fazer-nos pensar que sim". Mas "não há em Napoleão nem a
ideologia assassina, nem o delírio racista daqueles que se apresentaram como
seus sucessores".
Tulard reconhece que o documento que mais
incrimina a memória de Napoleão é a lei de 20 de maio de 1802, sob o Consulado,
que restaurou a escravidão nas colônias francesas, abolidas, em 1794, durante a
Revolução Francesa. Entretanto, Tulard afirma:
“Napoleão agiu por cálculo econômico em uma época
em que a escravidão fervilhava em todos os lugares, chocando apenas poucos
defensores dos direitos humanos que viviam à frente de seu tempo”.
Agora, em
novembro de 2023, Napoleão chega aos cinemas mundiais para um duplo julgamento:
do filme e da figura histórica.
ana
margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 30
de novembro de 2023