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domingo, 24 de agosto de 2014

POR: JANA ARRUDA - SIMPLES ASSIM

 
 Jana Arruda - Fotógrafa e Pedagoga

 http://verdeeamarelo.net/simples-assim/
 

SIMPLES ASSIM 

Mudar de lugar, viajar
Descobrir o novo
Andar de bicicleta
Chorar de rir
Comer pipoca de panela
Sentar, levantar, esticar
Aprender outras línguas
Saltar de para-quedas
Fazer com as próprias mãos
Sentir, andar à pé por aí
Correr pra pegar o metrô
Morrer de amor
Chorar nas despedidas
Odiar despedidas
Pisar na areia
Ouvir música
Preferir muitas cores
Pular, dançar
Mergulhar no mar
Viver de paixão
Enxergar o que mais ninguém vê
Pisar em folha seca
Se perder nas ruas de Veneza
Dividir uma casquinha de sorvete
Andar de roda gigante
Cortar o cabelo bem curtinho e depois deixar crescer
Inovar
Se achar em um país distante
Ir, voltar
Seguir o coração
Sonhar, realizar
Amar
Fotografar

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

ARRIVEDERCI ROMA


Ana Margarida - Fontana della Bacaccia - Roma

Ana Margarida e Jana - Fontana della Bacaccia - Piazza di Spagna- Roma

Depois de um giro de 30 dias, saindo de Roma, e passando por Nápoles, Pompéia, Berlim, Paris, Bruges e Romênia, estava de volta à Cidade Eterna com a minha filha, Jana, e meu genro, Dani. O dia era 5 de maio de 2011, o último de uma longa e inesquecível viagem pelo Velho Mundo. Resolvemos passá-lo na Villa Borghese, mais especificamente no Museo Borghese. Chegamos de metrô e adentramos a Villa pela magnífica Porta Pinciana, que fica no final da Via Veneto.
A referida Villa, refúgio das barulhentas ruas de Roma, é um imenso parque público de seis quilômetros de circunferência e possui museus, galerias, academias, zoológico, fontes, templos, estátuas etc. A história da Villa remonta ao século XVII quando, em 1605, o Cardeal Scipione Borghese, sobrinho do Papa Paulo V, transformou em parque, uma antiga vinha. No inicio do século XIX, o príncipe Camillo Borghese reuniu a coleção de arte da família, no Casino Borghese, hoje galeria e museu. A coleção de esculturas ocupa todo o andar térreo (Museo Borghese) e a coleção de quadros fica no andar superior (Galleria Borghese).
Depois de uma agradável caminhada pela Vialle Galeria Borghese, margeada por magníficos ciprestes, chegamos ao predio do museu. A bela construção alberga uma fantástica coleção de esculturas de Gian Lorenzo Bernini como: Apolo e Dafne; Davi; O Rapto de Proserpina; Eneias, Anquises e Ascânio e Hermafrodita adormecido, além de pinturas de Caravaggio, Raphael e Ticiano. Porém, o ponto alto do museu é a estonteante escultura de Pauline Borghese, irmã de Napoleão Bonaparte. Entre 1805 e 1808, Pauline pousou seminua, como Vênus, para o escultor Antonio Canova. Seu marido, Camillo Borghese, enciumado, escondeu a obra de arte até de Canova. Por ironia, hoje, milhares de turistas do mundo inteiro derramam olhares concupiscentes nesta bela deidade.
O Rapto de Proserpina é para mim a mais incrível escultura de Bernini. Os corpos entrelaçados de Plutão e Proserpina com os dedos de Plutão penetrando nas carnes viçosas da amada me deixou perplexa, diante de tanta técnica e habilidade com o duro mármore. A lenda grega de Hades raptando Perséfone para as profundezas da terra, por tê-lo encantado com sua beleza, foi traduzida na cultura romana como o Rapto de Proserpina, por Plutão. Reza a lenda que Deméter, deusa das colheitas, mãe de Perséfone, ficou tão enfurecida por Hades ter raptado sua filha que castigou o mundo, destruindo suas plantações. Zeus interveio e Hades aceitou que Perséfone passasse a metade do ano com sua mãe. Assim, durante o verão e a primavera ela ficava com sua mãe e, no inverno e outono, épocas sem colheitas, com Hades.
Na escultura Eneias, Anquise e Ascânio, Bernini descreve a continuidade da vida, representando três gerações. Eneias, fugindo de Tróia, carrega nos ombros seu pai, Anquise, e, ao seu lado, o filho, Ascânio. Em Apolo e Dafne, Bernini nos mostra o desespero da ninfa Dafne tentando fugir de Apolo, no momento em que ela se transforma em um loureiro. Reza a lenda que Apolo, deus do Olimpo, com sua arrogância e seu arco de prata, irritou o Cupido que lançou duas flechas, uma de amor, em Apolo, e a outra que afastava o amor, em Dafne. Apolo, doente de amor, começou o assédio sobre Dafne que correu desesperada pela floresta. Com ajuda de seu pai, Dafne foi transformada em uma árvore. Alucinado, Apolo se agarrou à mesma, chorando e dizendo que os ramos do loureiro sempre o acompanhariam, em sua coroa, em seus eternos triunfos. Por isso, nos Jogos Olímpicos, estes ramos adornam as cabeças dos atletas vencedores.
Diante dos bustos dos césares romanos lembrei-me do Rose e de seu método mnemônico de associar os nomes dos imperadores romanos aos dos 12 pares cranianos. No andar superior, apreciamos a obra-prima de Ticiano, Amor Sagrado e Profano, entre outras obras de Rubens, Cranach, Caravaggio e Raphael. Saímos do museu e fizemos um tour pela imensa Villa apreciando as fontes, as estátuas neoclássicas de Byron, Goethe e Victor Hugo, os templos de Diana e Faustina, mulher do imperador Antonino Pio, e o templo jônico dedicado a Esculápio, deus da medicina.
Deixamos o Villa e fomos até a Piazza di Spagna que estava repleta de turistas e de flores. Sentei-me na borda da Fontana della Bacaccia, implantada na base da bela e monumental escadaria de 135 degraus que leva à igreja Trinità dei Monti. A Fontana é obra de Bernini e foi inspirada por uma embarcação que, durante a inundação do rio Tibre, em 1598, chegou à praça. Admirei as altas casas em tons de ocre, cor típica das construções de Roma, e os turistas que faziam fila para encher suas garrafas com água da fonte, ou simplesmente tirar fotos ao lado da velha Bacaccia. Muitos indianos vendiam rosas vermelhas e mergulhavam os bouquets nas águas da fonte para reanimá-las. Quando minha filha e meu genro retornaram das compras, pedi para tirarem minha foto diante da fonte e, assim, registrar aqueles momentos.
Finalmente, descemos a Via Condotti, cruzamos a Via del Corso e chegamos ao Restaurante Alfredo, na Piazza Augusto Imperatore, ao lado do Mausoleo Augusto. Neste tradicional restaurante, de mais de cem anos, nós nos despedimos de Roma com o famoso fettuccine all’Alfredo. A história de sucesso do restaurante começou com Douglas Fairbanks e Mary Pickford, dois famosos atores do cinema mudo, que frequentaram o restaurante durante a lua de mel passada em Roma, no começo do século XX.
Em retribuição às gentilezas dispensadas pelo dono do restaurante, o casal ofertou uma colher e um garfo de ouro maciço com uma dedicatória “Para o rei dos macarrões, Alfredo”. Muitas pessoas famosas tiveram a honra de experimentar o fettuccine com esses talheres. Apesar de não me enquadrar nesta legião, também, fui contemplada com a colher de ouro, em uma das duas vezes que lá estive com o Rose. As paredes do restaurante são revestidas de fotos de personalidades do mundo inteiro que já experimentaram o fettuccine. Admiramos Chico Buarque, Marieta Severo, Caetano, Pelé, Ava Gardner, Sofia Loren, Charlton Heston, Clark Gable, Cristina Onassis, Gina Lollobrigida, Liz Taylon, Kennedy, vários reis de diversos países etc. Reconfortados, voltamos ao nosso hotel e, baixinho, disse para mim mesma: Voltarei um dia! Arrivederti Roma!
 Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
 Fortaleza, 23 de maio de 2011.

domingo, 11 de dezembro de 2011

A CHEGADA DO CAPITÃO MIGUEL DE ARRUDA À BATURITÉ

 
Por   Miguel Edgy Távora Arruda*



A República ainda não tem 2 anos; faz apenas 3 que a escravatura foi abolida. É uma bela manhã de julho de 1891.  O sol alto banha de intensa luz as serras, os morros e os vales que circundam a cidadezinha pacata daquele começo da última década do século. Os moradores do beco do Labirinto acorrem às janelas para ver passar uma grande tropa de animais que, lentamente, vai galgando a íngreme ladeira. À frente, montado num fogoso cavalo alazão, vem um senhor de meia idade; 41 anos; esbelto; porte senhoril; farta cabeleira castanha; olhos azuis; corado; a pele branca tostada pelo sol da longa caminhada; fala suave; gestos comedidos. Seu nome: Miguel de Arruda (Miguel Arcanjo de Araújo Costa Lopes de Aguiar Arruda) que, anos depois, os netos chamariam: Pai Arruda. A seu lado, também num belo cavalo, vem sua mulher, Maria do Livramento (Maria do Livramento Bezerra de Araújo Rodrigues de Vasconcelos Arruda) que os netos haveriam de chamar: Mãe Mento. Seguem-se, numa liteira que 4 ex-escravos transportavam revezando-se, sua sogra, Francisca Bezerra Rodrigues de Vasconcelos, que os bisnetos chamariam de Dindinha, e, em diversos animais de sela, duas de suas cunhadas: Antônia Amélia e Maria Elisa, e sete de seus filhos: João, de 16 anos; Vicente, de 15; José, de 14; Antônio, de 13; Jeremias, de 9; Ananias, de 5; e Maria Adelina, de 4. Vem ele de Santo Antônio do Aracati-Açu, Município de Sobral, onde se casara e vivera até então. A longa viagem durara 5 dias, passando por Canindé, onde fora pagar uma promessa, e atravessando toda a Serra, via Mulungu. A Menorzinha, Maria Adelina, vem na lua da sela do cavalo do Zé Dias, escravo liberto de inteira confiança, e o menorzinho, Ananias, vem no meio de uma carga, segurando, com mão firme, o cabresto do animal, sob as vistas do mano mais velhinho, Jeremias, vigilante para que nada aconteça ao irmãozinho menor. A grande tropa de animais de sela e de carga a que se juntam agregados, criados, serviçais, passo a passo, vai entrando na cidade e despertando, aqui e acolá, a curiosidade dos poucos transeuntes. Por fim, para em frente a uma casa na Rua 7 de setembro. Apeiam-se todos e logo começa a azáfama de descarregar os animais e acomodar tudo no novo lar: baús, caçuás, sacas e pertences. E assim passa-se o dia que haveria de se transformar em um marco na vida daquela família. Chegando à Baturité, onde lhe haveriam de nascer mais três filhos, Miguel de Arruda afeiçoa-se a cidade e a adota como sua, transformando-a na terra de seus filhos, netos, bisnetos, trinetos e tetranetos, mesmo que alguns deles nela não tivessem nascido ou não viessem a nascer.

* Este texto, escrito pelo meu pai, foi publicado no SITE da família Arruda, feito pelo meu filho, Daniel Arruda Teixeira.  
http://www.familiaarruda.com.br/