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quarta-feira, 27 de outubro de 2021
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
domingo, 17 de outubro de 2021
Por: ana margarida arruda rosemberg - A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA EM LA BOÉTIE
Statue d'Étienne de La Boétie, place de la Grande Rigaudie, à Sarlat-la-Canéda.
A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA EM LA BOÉTIE
Sejam resolutos em não servir e vocês
serão livres
Etienne de La Boétie
Étienne de La Boétie, escritor humanista, poeta
e jurista francês, nasceu em 1/11/1530, em Sarlat, uma cidade no sudeste
do Périgord, e morreu com 33 anos, em 18/08/1563, em Germignan,
na cidade de Taillan-Médoc, perto de Bordéus.
La Boétie era um estudante de direito, de apenas
18 anos de idade, quando, em 1548, escreveu o ensaio “Discurso da Servidão
Voluntária”, ao sentir na própria pele a brutalidade da repressão a uma revolta
anti-impostos na Guyenne.
Seus escritos refletem a angústia da elite culta
da época, diante da realidade do absolutismo e questionam a legitimidade dos
detentores do poder, a quem La Boétie chama de “senhores” ou “tiranos”.
Segundo La Boétie, é o próprio povo que se escraviza e se
suicida quando, podendo escolher entre ser submisso ou ser livre, renuncia à
liberdade e aceita o jugo, consentindo, dessa forma, o sofrimento.
A servidão, paradoxalmente, é voluntária.
O mecanismo está na criação de uma rede de favores e
concessões, em que um homem deve obediência a outro. É uma teia cuja ponta
leva, em última instância, ao tirano. Ao cabo, os súditos são subjugados uns
por meio dos outros. O tirano se mantém tirano porque os próprios súditos se
mantêm servis.
Somente o hábito do povo à servidão explica a dominação do
tirano. O “segredo de toda dominação”
é fazer com que os dominados participem de sua dominação.
Cria-se uma pirâmide de poder: o tirano domina
cinco, que dominam cem, que dominam mil, assim por diante... Esta pirâmide
desmorona quando os dominados deixam de se entregar de corpo e alma ao tirano.
Então, o último perde todo o poder adquirido.
Antes de morrer, La Boétie deixou, em testamento, seus
escritos a seu amigo Michel de Montaigne, que o homenageou em seu ensaio “Sobre
a Amizade”.
Para La Boétie, a confiança na amizade só é possível quando
uma pessoa conhece a integridade da outra e ambas possuem um bom caráter. Na
tirania isso não é possível, pois o tirano não pode deixar-se conhecer
integralmente, não possui um bom caráter, não confia em ninguém e é
inconstante.
Para ele não pode haver amizade onde existe deslealdade, injustiça e crueldade. A amizade não cabe aos maus e não existe em quem exerce a função de ditador, pois a amizade pressupõe certa equidade.
“Parce que c’était
lui, parce que c’était moi” (“Porque
era ele, porque era eu”)
Com
esta frase, que ficou célebre, Montaigne, explicou as razões de sua
amizade com Étienne de La Boétie.
Hoje, vivendo no terceiro milênio, quase 500 anos após La Boétie escrever o “Discurso da Servidão Voluntária”, nós, Sapiens, pensamos que somos livres com nossos celulares conectados ao Mundo, pela internet, sem percebermos que somos escravos do sistema e que criamos uma pós-submissão singular: somos senhores e escravos de nós mesmos.
ana margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 15 de outubro de 2021
REFERÊNCIAS
LA BOÉTIE, Étienne de. Discurso da servidão voluntária. São Paulo: Martin Claret, 2009.
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/04/politica/1467642464_246482.html
https://fr.wikipedia.org/wiki/%C3%89tienne_de_La_Bo%C3%A9tie
https://jornaldomedico.com.br/2021/10/17/a-servidao-voluntaria-em-la-boetie/


