 |
| PROF. LUIS ARRUDA FURTADO |
 |
| OS CINCO PRIMEIROS APOSTÓLICOS, ACOMPANHADOS. | | |
LUIS FURTADO É O PRIMEIRO DA FRENTE DA ESQUERDA PRA DIREITA
 |
| ESCOLA APOSTÓLICA EM CONSTRUÇÃO |
 |
| ESCOLA APOSTÓLICA EM CONSTRUÇÃO |
Revmo.
Pe. Hugo Furtado
DD
Diretor desta Escola
Revmo. Pe. José Teles Arruda
Meus
senhores
Minhas
senhoras
Caros
Ex-Apostólicos
Ao ser convidado a falar nesta solenidade
comemorativa do cinquentenário de fundação de nossa querida Escola Apostólica,
vieram-me à mente as primeiras palavras do poema dedicado à Nossa Senhora e
escrito pelo Pe. José de Anchieta nas areias de Iperoíg: “Eloquar an Sileam?”
Seria aconselhável tomar a segunda opção, de vez que aqui se encontram muitos
ex-apostólicos que, melhor do que eu, poderiam se desempenhar desta
incumbência. Mas, como fui um dos cinco baturiteenses que fundaram esta Escola,
em agosto de 1927, não me ficaria bem recusar tão amável convite.
Minhas palavras são dirigidas especialmente aos
ex-apostólicos e, de modo particular, àqueles que foram meus contemporâneos de
18 de agosto de 1927 a 23 de setembro de 1933. Não usarei o tratamento
convencional dos discursos, mas o tratamento amistoso de “você”, com que nos
tratávamos aqui antigamente. Esta festa é para mim, mais de recordações e de
nostalgia, do que propriamente de alegria. Aqui passei a minha adolescência e
parte de minha meninice, e não estou bem seguro de mim de poder continuar
falando, porque eu sinto uma grande, uma enorme, uma vasta saudade a
devastar-me a alma. Ainda há pouco, quando passei por entre as duas palmeiras
imperiais que ladeiam a entrada deste prédio, denominadas pelo Pe. Alexandrino
Monteiro de São Pedro e São Paulo, as Sentinelas de Escola, senti, não sei se
foi ilusão minha ou excesso de emoção de minhalma agradecida, senti como se
elas me reconhecessem e vissem em mim o menino que há cinquenta anos passou
entre elas – na época também pequenas – com a alma imbuida dos melhores
propósitos para dar entrada nesta casa.
Pela crença na comunhão dos Santos, acredito, estar
presente aqui o extraordinário Pe. Antônio Pinto, idealizador, propugnador e fundador
desta Escola, sacerdote, que percorreu o Brasil inteiro e alguns países de
Europa à cata de donativos para a construção deste prédio. O Comendador Ananais
Arruda, com seus 91 anos bem vividos, e que muito contribuiu para esta Escola,
é testemunha do esforço, do trabalho, do sacrifício e das difuculdades superadas para que esta
casa se tornasse realidade. Aqui estão presentes os nossos dois primeiros
diretores. O Pe. José Celestino, de porte imponente, mas de alma boníssima; o
Pe. Luiz Baecher, que, embora sendo alemão, não possuia a altivez típica de seu
povo; o Pe. Pinheiro, o ecônomo da casa; o nosso inesquecível e querido Pe.
Teixeira, prefeito por muitos anos, o responsável por nossa formação, o nosso
orientador, o sacerdote que permanecia continuamente entre nós, o que
substituia o pai de cada um. Para tornar nossas férias mais amenas, lia-nos,
como somente ele sabia ler, à sombra de frondosas árvores, livros como Tom
Playfair, Percy Wynn, Fabíola e tantos outros; o Pe. Artur Redondo, nosso
diretor espiritual e professor de inglês e francês, sacerdote reconhecidamente
virtuoso, que exhalava de si um ar sobrenatural e em quem se podia notar uma
auréola de santo a circundar-lhe a fronte; o nosso inolvidável e querido Pe.
Alexandrino Monteiro, escritor, poeta, e compositor, que acompanhava ao
harmônio os hinos religiosos. Foi nosso professor de português, latim e grego,
sacerdote a quem muito devo e cujo método de ensino adotei, com absoluto êxito,
durante 35 anos de magistério; o nosso primeiro Mestre de Noviços, o Pe.
Charles Coppex, homem de uma cultura polimorfa e de profunda devoção ao Coração
de Jesus. Costumava dizer que, para se ser feliz, era necessário se ter paz de
consciência e sossego de espírito e acrescentava, e tino prático; o Pe. Pacheco,
que ao ser trasnferido para Belém despediu-se de nós que nos achávamos na
Caridade, através do sinal Morse, transmitido por lâmpada elétrica; o Pe.
Peixoto, nosso professor de latim e grego no segundo ano de Noviciado; o Pe.
Veloso, o Pe. Pequito, o Pe. Cheseaux, o Pe. Viellendents, o Pe. Rocha e todos
os que sucederam. Entre os irmãos coadjutores, o nosso enfermeiro, Irmão Bosco;
o Irmão Fernandes, motorista e encarregado da carpintaria; o Irmão Rodrigues,
porteiro e o Irmão Oliveira, nosso
cosinheiro. A todos o nosso preito de saudade e gratidão. Desejo fazer menção
especial a dois Irmãos que ainda residem nesta Escola, o Irmão Silva e o Irmão
Ribeiro, que foi meu colega de noviciado.
Cinco fomos os baturiteenses fundadores da Escola.
Os números foram dados por ordem de idade. Daniel Franco, nº 1; Luis Dória, nº
2; Job Saraiva Furtado, nº 3; José Saraiva Furtado, nº 4; e Luis Arruda Furtado,
nº 5. O José Furtado morreu nesta Escola, vítima de um acidente, em 1930, aos
15 anos; Luis Dória, alguns anos depois, em Fortaleza, e Daniel Franco há dois
ou três anos, em Baturité. Aos companheiros desaparecidos, a nossa saudade.
Vivos, somente Job Saraiva Furtado, aqui presente, e eu. Meus amigos, há uma
bela imagem empregada pelo Pe. Aloisio Furtado, nosso contemporâneo e que
infelizmente se encontra enfermo nesta Escola, a quem desejo completo
restabelecimento, no seu livro “Se o grão não morre”, contando que: “Homero, o
imortal autor da Ilíada, velho, cego, tacteante, procurando reconstituir os
sítios de determinada cidade e ferindo as pedras com o bastão, teria exclamado:
Il linc Troia, alí foi Tróia. E voltou Homero para a estrada de Ítaca, chorando
a eterna Ílion de seus sonhos destruida.” Olhando-se para o passado e vendo-se
a nossa Escola no presente, poderia compará-la àquela florescente cidade,
outrora dominadora da África, a rainha do Mediterrâneo, a lendária e
esplendorosa cidade de Aníbal, a Cartago púnica e romana, destruida e nunca
mais reedificada. Poderia compará-la também a Pompéia, não devastada pelas
lavas incadecentes do Vesúvio, mas subjugada, contra gosto, pelos imperativos e
injuções do século em que vivemos. Poderia compará-la ainda a Jerusalém, em que
não ficou pedra sobre pedra, derruida, derrocada, ante o impacto das forças
imbatíveis das legiões romanas. Dada, porém, a minha formação clássica, aqui
obtida, prefiro compará-la à Troia. Todos nós somos testemunhas do apogeu, dos
tempos áureos desta Escola. Eu mesmo vi muitas destas paredes subirem e quantas
destas pedras, ainda mornas pela explosão de dinamite em uma pedreira aqui ao
lado, eu as tive em minhas mãos de adolescente; essas pedras são testemunhas
mudas de que aqui foi Troia.
Na nossa capelinha, de tão gratas recordações para
os mais antigos, já não se oficiam os atos religiosos. Naquele páteo, que
nenhum de nós jamais esquecerá, não se jogam mais foot-ball, basket-ball e
outros jogos. Nesses corredores não se ouvem mais a algazarra, a gritaria e a
alegria palpitante de vida dos apostólicos. Essa velha escada já não sente mais
o pisar ritmado, nem em tempo de férias, a correria desenfreiada que tantos
dissabores causava ao Pe. Teixeira. Esse velho corrimão, já não sente mais o
deslisar de mãos finas de meninos e adolescentes. Nesses vastos salões já não
se realizam mais as academias e sessões lítero-musicais, nem as prédicas e
aulas de nossos mestres. Quem não se lembra daquele trecho de nosso livro de
português “Última corrida de touros em Salvaterra”? Quem já terá esquecido o
nosso livro de inglês “Estrada Suave”? Quem não se lembra da admirável
gramática portuguesa de Eduardo Carlos Pereira, da incomparável gramática
latina de Lobera, de nosso livro grego de Ragón? Quem não se lembra do “De
bello Gallico”, de Júlio César? Do “De viris illustribus”, de Cornélio Nepote?
Das Fábulas de Fedro? Das Metamorfoses, de Ovídeo? Das Odes, de Horácio? Das
Églogas e de Eneida, de Virgílio? Das cartas e orações, de Cícero? Será
possivel que vocês já esqueceram do nosso primeiro livro de latim? Desse latim
que nos foi transmitido com pronuncia lusitana, que ainda mantenho como
recordação de nossos mestres; desse latim que o Ministério da Educação retirou do
currículo escolar brasileiro; latim que a Igreja católica manteve vivo por
quase dois mil anos; latim que acompanhava a vida do católico, do berço ao
túmulo, do “Ego te Baptismo” ao “Ego te Absolvo” da extrema-unção; latim que
deu o nome continente inteiro, qual seja o Continente Latino-Americano. Lingua
flexiva indo-europeu itálica, fonte e mãe, segundo um grande gramático, das mais
belas linguas faladas pelos povos modernos. Quem já esqueceu a “Seletina”,
“Deus creavit coelum et terram intra sex dies”?
Qual de vocês não volta ao passado e se reencontra num desses salões, ao
ouvir emocionado a primeira estrofe de Eneida de Virgílio, o expoente máximo da
literatura latina na poesia? Quem não se emociona?
“Arma virumque cano: Troiae que primus ab oris
Italiam, fato profugus, Lavinaque venit
Littora, multum ille e terris jactatus at alto
Vi Superum, saevae memorem lunonis ob iram”?
Quantas vezes não lemos, analisamos e decoramos
trechos daquele outro monumental poema , “Os Lusíadas”, em que Camões canta a
epopéia e os feitos da gente lusitana, o qual, à semelhança de virgílio,
começou:
“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana”.
Quem já esqueceu o grande Marco Túlio Cícero, o
maior orador do Império Romano, o qual,
dizia o Pe. Alexandrino Monteiro, teria sido santo se tivesse vivido no
Cristianismo? Quem já esqueceu a mundialmente conhecida Primeira Catilinária:
“Quousque tandem abutere, Catilina, patientia
nostra?
Quamdiu etiam furor iste tuus nos eludet?
Quem ad sese effrenta jactabit audacia?
Oh tempora, o mores, Oh tempos, oh costumes, dizia o
grande Cícero.
Nesses salões já não se ouve um José Machado, um
Everton Comarú, um Antônio Valente, um Afonso Mota, um Ivan Távora ou eu
próprio, a ler com ênfase a belíssima
perolação de segunda catilinária, em que Cícero pede ao Senado que, derrotadas
todas as forças inimigas de terra e mar, implore aos deuses para que defendam
do nefando crime dos maus cidadãos a
belíssima, florentissima e potentissima cidade de Roma. E todos os deuses
imortais do Império,
“Quos
vos, Quirites, precari, venerari atque implorare
Debetis, ut quan urbem pulcherrimam,
florentissimam
Copiis terra marique superatis, a
perditissimorum civium
Nefario scelere defendant.”
Quantos de vocês não declamaram, no Sítio Uruguiana
e noutros sítios, aquela página de Vieira sobre o fim do mundo, o qual
arrebatou uma multidão que o ouvia:
“Abrasado, finalmente, o mundo e
consumido pela violência Do
fogo tudo o que a soberba dos homens construiu e edeficou sobre a terra, quando já não se
verão, neste formoso e dilatado Mapa, senão umas poucas cinzas, reliquias de
sua grandeza e desengano de nossa vaidade, soará no ar uma trombeta espantosa,
não metafórica, mas verdadeira, que isso quer dizer a repetição de S. Paulo,
Canet, enim, tuba. E, obedecendo aos impérios daquela voz, abrir-se-ão em um
momento as selputuras e aparecerão, no mundo, os mortos, vivos.”
Quem não se lembra de Ovídio que, desterrado por
Augusto, enviou ao Império o belo poema “Os Tristes”, que tantas vezes serviu
de exercícios mnemônicos em nossas aulas, tão do agrado do Pe. Monteiro?
“Cum subit illius tristissima noctis
imago,
Que mihi supremum tempus in Urbe fuit,
Cum repeto noctem qua tot mihi cara
reliqui,
Labitur ex oculis nunc quoque gutta
meis”.
Estávamos no 5º ano, no segundo semestre de 1931, quando o Pe.
Monteiro passou, como tema de aula, um sacerdote rezando o breviário nas
regiões frígidas da Alasca e que teria tropeçado em um binóculo mágico, através
do qual se podia ver o mundo inteiro e o que nele se fazia.
Ocorrendo um feriado inesperado, não fizemos a
composição e na próxima aula, nos trouxe o Pe. Alexandrino em magníficos versos
alexandrinos o poema “O Missionário do Alaska”, que, composto há 46 anos, retrata com absoluta
fidelidade o mundo de hoje:
“Das regiões boreais, na gélida planura,
Eu vejo o missionário. O que é que lá
procura?
Ali ouro não há, nem pedras preciosas,
Nem cousa que sacie as almas ambiciosas.
Mas, sim, a neve eterna, a aragem
desabrida,
A morte, a cada instante, a ameaçar-lhe a vida.”
Meus amigos, nem eu, nem nenhum de vocês, há muito,
não assistimos uma benção do Santíssimo Sacramento, mas duvido que tenham
esquecido aqueles cantos, com melodias tão suaves, que a gente não esquece
nunca:
“Tanqum ergo Sacramentum
Veneremur cernui
Et antiquum documentum
Novo cedat ritui,
Praestet fides supplementum
Sensuum defectui.”
E aquele não menos belo canto de S. Tomás à
Eucaristia:
“Adoro Te devote, latens Deitas,
Quae sub his figuris vere latitas,
Tibi se cor meun totum subjicit,
Quia Te contemplans totum deficit.”
As nossas Noites de Natal! Quantas recordações nos
trazem! Perto da meia noite, descíamos essa velha escada e nos reuníamos na
capelinha e acompanhados pelo Pe. Monteiro ao harmônio, cantávamos com devoção
e unção:
“Adeste, fideles, laeti triumphantes,
Venite, venite in Betleem,
Natum videte Regem Angelorum.”
Aeterni Parentis, splendorem aeternum,
Velatum sub carne videbimus
Deum infantem, pannis involutum.”
E na Semana Santa, com quanta piedade cantávamos o
“Stabat Mater dolorosa,
Iuxta crucem lacrimosa,
Dum pendebat Filius.
Eia, Mater, fons amoris,
Me sentire vim doloris
Fac ut tecum lugeam.
Fac ut ardeat cor meum
In amando Christum Deum
Ut Sibi complaceam.”
Acompanhando o ano litúrgico vinha em seguida o mês
de março, dedicado a S. José, Padroeiro da Igreja Católica, patrono do Ceará e
dos operários, Esposo de Maria Santissima, Pai adotivo de Jesus Cristo. Festa
desse homem notável, cujas virtudes o Evangelista sintetisou em duas palavras:
“Vir justus”, Varão justo.
Após a missa, no dia 19 de março, cantávamos:
“Te, Ioseph, celebrent, agmina coelitum,
Te cuncti ressonent, Christiadum chori.
Tu clarus meritis, iunctus es inclitae
Casto foedere Virgini.
Nobis, Summa Trias, parce precantibus,
Da, Ioseph meritis, sidera scandere.”
Vem depois o mês de maio, mês da primavera, mês das
flores. Mês em que colocávamos nossas melhores composições e a Ave Maria em
idiomas estrangeiros aos pés de um quadro de N. Senhora. Mês de Maria
Santíssima, Mãe de Jesus Cristo, Corredentora do Gênero Humano, Onipotência
suplicante, no dizer de S. Agostinho, exaltada no Antigo e Novo Testamento
decantada por poetas e oradores; Rainha dos mártires e Confessores, Rainha da
Companhia de Jesus, Estrela Matutina, porta do céu, Virgem das virgens, apesar
de alguns pseudo- cientistas e falsos teólogos quererem negar-lhe a virgindade.
Maria Santíssima, meus amigos, foi, é e será eternamente a Virgo Dei Genitrix,
a Virgem Mãe de Deus, ainda que por uma partenogênese divina.
“Salve, Mater, Misericordiae,
Mater Dei et mater veniae,
Mater spei et mater gratiae
Mater plena sanctae laetitiae.”
No mês de junho, consagrado ao Coração de Jesus, que
prometeu o penhor da salvação eterna àqueles que fizessem as nove primeiras
sextas-feiras, e todos nós as fizemos aqui, quem não se lembra de ter cantado:
“Coração Santo, Tu reinarás,
Tu nosso encanto, sempre serás.”
E chega, por fim, o nosso feriado, a nossa maior
festa, o dia 31 de julho. Dia de Santo Inácio de Loiola, fundador da Companhia
de Jesus, dessa Companhia amada por uns, mal compreendida por outros e
perseguida por muitos. Braço direito da Igreja, brigada de choque do Papado,
que se faz presente em todos os momentos difíceis da Igreja. Dia do Ínigo de
Loiola, desse homem extraordinário, de força de vontade inquebrantável,
defensor de Pamplona, que cansado de comandar soldados para guerrear nações,
resolveu formar uma outra companhia de soldados para salvar almas e guerrear o
mal.
Nesse momento, Pe. Hugo Furtado, em que celebramos o
cinquentenário da Escola Apostólica, na qualidade de um de seus fundadores, em
meu nome, em nome dos ex-apostólicos aqui presentes e em nome de todos que não
puderam comparecer, desejo deixar registrado o nosso mais sincero
reconhecimento à Companhia de Jesus, o nosso mais profundo sentimento de
gratidão e veneração a todos os nossos mestres, por todo o bem que nos fizeram,
por tudo de bom que nos legaram.
“Glória a Deus , és Inácio general
Desta Companhia real,
Esquadrão de valor imortal,
Que Jesus escolheu para erguer o pendão,
Esmaltado com as letras do nobre brasão:
A maior, a maior Glória de Deus!
Tu repetes na terra a voz do Arcanjo
Miguel,
Que do soberbo Lusbél,
Audaz cerviz a seus pés esmagou
E contigo clama a voz dos bravos teus:
Quem como Deus?
E de amor, em valente, cerrado
esquadrão,
Sem vacilar, sem descansar, sem recuar
eles lá vão.
E o seu grito de guerra, no vale e na
serra,
Por mar e por terra,
Atrôa e aterra Lusbél que se encerra,
Vencido no inferno a tremer.
Eia, irmãos, exclamam:
Por Deus, ou vencer ou morrer!
Na terra, mar e céus: Glória a Deus!
Era essa a nossa Escola do passado e, agora, essa
ausência de jovens que se preparam para o sacerdócio. Esse silêncio
angustiante, silêncio quase sepulcral; silêncio caracteristico de ruinas de
cidades mortas! E até o vento que desce do cimo da montanha e ao passar por
entre as verdes frondes dos laranjais e
mangueirais, ao espraiar-se pela planicie lá embaixo, parece murmurar: “Illinc
campus ubi Troia fuit, ali é o local
onde foi Troia. Perdoem-me a hipérbole: Tal qual Homero, subi a estrada de Ítaca
e encontrei a eterna Ilion, a eterna Troia de meus sonhos de criança,
destruida. E é bem possivel que aquele que se propuser escrever a história da
cidade de Baturité, ao se referir a esta Escola, diga dela o que disse o grande
orador sacro cearense, Pe. Valdivino Nogueira, ao se referir às civiluzações
antigas. É bem possivel que esse historiador diga que “a Escola Apostólica de
Baturité, brilhou um instante como brilham os meteóros e desapareceu na cripta
do tempo inexorável, para nunca mais surgir aos nossos olhos, senão como lívido
fantasma, sacudindo o pó do esquecimento ao branco luar da História”. Mas antes
que tal ocorra, meus caros ex-apostólicos, vamos fazer com que nossa Escola
vibre, ao menos hoje, e que esses salões, essas galerias, essa escada, essas
pedras e essas árvores sintam a nossa presença, reconheçam as nossas vozes e os
nossos passos e reviva os seus tempos áureos do passado.
Meus amigos, vivemos numa época em que os desquites
e os divórcios se avolumam de maneira alarmante, e tudo indica que a
instituição divina do matrimônio está chegando ao fim. Viajamos pelo século
mais assombroso que a História da Humanidade já registrou. Por mais de uma vez,
o homem pisou o chão da lua e de lá enviou ao Universo uma mensagem de paz e de
concórdia. No entanto, uma onda de violência, de ateismo e de materialismo
invade o mundo. Vivemos o século da tecnologia e, também, o século do sexo em
que o homem venera a máquina e adora o sexo. Estamos numa época em que o
amor-philos, amor amizade, amor desprendimento, amor abnegação, está sendo
substituido pelo amor-Eros, que outra cousa não é, segundo o escritor Roque
Schneider, senão o relacionamento conjugal epidérmico dos prostíbulos. Século
de reformas, de incompreensões, de violências, abalado por duas grandes guerras
mundiais. Mas, por outro lado, século das maiores descobertas científicas, dos
mais modernos e ultra-sofisticados meios de transporte e comunicação. O
conceito filosófico grego foi invertido e o Homem é hoje o Macrocosmo e o
Universo o microcosmo. Não obstante, como se a espada de Dâmocles pendesse
sobre nossas cabeças, o medo e a ansiedade aflingem o homem moderno, na
expectativa de uma possivel destruição total atômica. Num século tão
conturbado, meus amigos, em que tantos principios filosóficos antagônicos estão em conflito, em que o padrão da moral se
modificou, século de esvasiamento de conventos masculinos e femininos, num
século em que já não se sabe o que é bom ou mau, no século do desnudamento da
mulher, das midi, mini e micro-saias, dos biquines e monoquinis, num século em
que a androgenia parece levar boa parcela da humanidade e uma nova Sodoma,
século de bacanais iguais às de Roma Antiga; séculos dos transplantes de coração
e de cérebros eletrônicos, século da inseminação artificial e do controle da
natalidade, século do enregelamento de cadáveres para uma imaginária
ressurreição futura, século da desintegração do átomo e de viagens
aéro-espaciais , num século tão maravilhosso, mas de tanta corrupção, temos
necessidade urgente, necessidade premente de sacerdotes santos e sábios. Mas,
onde formá-los?
Diz Virgílio na Eneida, que sentindo Enéas ser
insustentável a situação de Troia, teria abandonado seus muros, levando aos ombros
seu velho pai Anquises. Deixo, hoje, os muros desta Escola, levando aos ombros recordações
guardadas por meio século, reminiscências acumuladas por 50 anos, que eu mesmo
não sei como não as perdi, não as deixei cair uma a uma, pelos invios e
tortuosos caminhos da vida. Mas, ao passar por entre as minhas duas velhas
amigas, as palmeiras imperiais, São Pedro e São Paulo, faço votos para que esta
Escola, amoldando-se às necessidades do século hodierno, reabra as suas portas.
Faço votos para que o vento do cimo da montanha, descendo por entre as verdes
frondes dos laranjais e dos mangueirais, ao espraiar-se pela planície lá
embaixo, não murmure mais aos ouvidos dos que passam: “Illinc campus ubi Troia
fuit”, ali é o local onde foi Troia, mas brade alto e bom som, Illinc condita
nova Hierosolima, ali se ergue uma nova Jerusalém, onde jovens se preparam para
o sacerdocio. Ali se ergue uma nova Jerusalém, de onde sairão os apóstolos, os
missionários dos anos 2 mil. E de amor,
em valente, cerrado esquadrão, daqui saiam os soldados de Cristo-Rei, para
engrossarem as fileiras da brigada de choque da Igreja, e desfraldando seu
estandarte, pando, enfunado, côncavo de amor a Deus e aos homens e nele escrito
o dístico, “Quis ut Deus”, quem como Deus, daqui saiam para levar almas a Cristo,
para orientar os bons, para converter os maus, para declarar guerra incessante
ao ateismo. Faço votos, meus caros
ex-apostólicos, para que num futuro não muito distante, daqui saiam os pés evangelizadores
da paz. Para que num futuro não muito longínquo, daqui saiam os pés dos evangelizadores
do bem, para percorrerem o Brasil inteiro, “do Prata ao Amazonas”, do mar às cordilheiras,
batizando, confessando, escrevendo, ensinando, pregando, doutrinando, catequizando,
suando, sofrendo, morrendo,
Ad Maiorem Dei Gloriam.
Para a Maior, a Maior Glória de Deus.
Discurso proferido pelo Prof. Luis Arruda
Furtado em 21.08.1977, por ocasião da festividade comemorativa do cinquentenário
de fundação da Escola Apostólica dos Jesuitas, em Baturité.