sexta-feira, 30 de agosto de 2024

LANÇAMENTO DO LIVRO MARIO RIGATTO - LEGADO DE UM PROFESSOR DE MEDICINA - 30.08.2024










APRESENTAÇÃO DO LIVRO

“MARIO RIGATTO – VIDA E LEGADO DE UM PROFESSOR DE MEDICINA”

Por: ana margarida furtado arruda rosemberg

                                                          "Verba volant, scripta manent"

"Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de várias histórias."

Clarice LISPECTOR - Os Desastres de Sofia (conto).

É missão das mais honrosas apresentar o livro “MARIO RIGATTO – VIDA E LEGADO DE UM PROFESSOR DE MEDICINA” de autoria da Profa. Dra. Helena Pitombeira, aqui no HEMOCE - Templo Sagrado da Medicina Cearense.

É, também, motivo de alegria e prazer tecer considerações sobre essa vultosa e relevante obra que, além de resgatar a vida e o legado de Mario Rigatto, para familiares e amigos, enriquecerá os anais da História da Medicina.

Por outro lado, é grande a responsabilidade de expor um livro de conteúdo raro, pois trata-se do memorial de um dos maiores luminares da medicina brasileira do século XX.

Rompendo o abismo e a pátina do tempo, Helena evoca o passado e nos brinda, depois de 24 anos da partida de seu amado, com uma obra primorosa revestida de uma aura que exala amor, carinho e reconhecimento do legado de Mario Rigatto.

A frase que abre livro “SAUDADE É UM ELOGIO AO PASSADO” e o texto que antecede o sumário foram retirados da “Aula da Saudade”, proferida por Rigatto no término do curso médico, da turma de 1974, da UFC, e que ensejou o espraiamento dessas aulas por todo o Brasil.  

O elogio ao passado levou a autora, em parceria com sua amiga e cunhada, Helena Rigatto Kauer, a gestar esse livro, uma grande colcha de retalhos afetivos, como ressaltou sua filha Maria Helena.

Helena cerziu a colcha com textos seus e de Mario, além de tocantes depoimentos de familiares e amigos.  Depois, embelezou-a com fotos históricas de documentos e momentos mágicos da vida de Rigatto e de seus ancestrais.

O livro, impresso nas oficinas da gráfica Expressão Gráfica e Editora, com a Coordenação Editorial de Ítalo Gurgel, Projeto Gráfico/Capa de Geraldo Jesuíno e fotografias do acervo da família, é carinhosa e generosamente dedicado aos sete filhos de Mario Rigatto: Virginia, Paulo, Beatriz, Luiz, Marília, Maria Helena e Roberto.

Os Agradecimentos são dirigidos à Helena Rigatto Kauer, com quem a autora divide os méritos do livro, ao dr. Carlos Antônio Mascia Gottschall, ao jornalista Ítalo Gurgel, ao professor Geraldo Jesuíno, à Tereza Gurgel e a todos que dedicaram a Rigatto textos de profundo sentimento, no dizer de Helena.

O Prefácio de Carlos Gottschall, discípulo, amigo e companheiro de trabalho de Mario Rigatto por quatro décadas, além de amoroso, enaltece ao virtudes e as belas facetas da personalidade do amigo e engrandece suas atividades profissionais.

é um resumo da vida de Rigatto, com foco em suas atividades profissionais.

A Apresentação de Maria Helena, filha de Rigatto e Helena, fala do pai encantando plateias, lembra um pai carinhoso e atencioso com os filhos, mostra o esforço de sua mãe em selecionar fotos e organizar o livro com ajuda de sua tia Leninha e ressalta que a obra é uma visita intimista aos amigos e espaços percorridos por Rigatto.

Os Capítulos são teias que se interligam em uma dança mágica para contar a história de Rigatto, enveredando-se por outras histórias.

Como nos ensina o provérbio chinês, atribuído a Confúcio, “Uma imagem vale mais que mil palavras”, Helena recheou oito, dos dez capítulos, com imagens.

O Capítulo I, OS RIGATTOS E OS PILLMANNS DO RIO GRANDE DO SUL, evoca as raízes italianas e alemãs de Mario, reverenciando os antepassados.

O Capítulo II, INFÂNCIA FELIZ, JUVENTUDE IRREQUIETA, nos apresenta um Rigatto que, apesar de ter perdido o pai com apenas 12 anos, não perdeu a alegria de viver.

O Capítulo III, SERVIÇO MILITAR E O AMOR PELO ESPORTE, ressalta o orgulho de Rigatto em servir à pátria e a paixão pelo remo, esporte que cultuou durante toda a vida.

O Capítulo IV, IMENSA DEDICAÇÃO À FAMILIA, nos brinda com a transcrição da homenagem que Rigatto fez à sua mãe, Anna Luiza, em sua posse na Academia Nacional de Medicina, no dia 12.08.1991, e, também nos fala de sua dedicação sem limites à ampla família.   

Os Capítulos V, VI, VII, VIII e IX são consagrados à vida profissional de Rigatto, como médico, professor e pesquisador. É dado um estaque especial às campanhas antifumo, que Rigatto abraçou com pioneirismo, lançando, em 1975, no Rio Grande do Sul, a primeira campanha formal de luta antitabágica no Brasil; enaltece o pesquisador que mostrou a existência de seis corações do homem e o conferencista sedutor, mestre da palavra que encantava e deleitava qualquer auditório e que proferiu 1035 conferências.   

Como cientista, a produção de Rigatto foi abrangente:  430 publicações nacionais e internacionais, 82 artigos, 147 resumos, seis livros publicados, 57 capítulos de livros, 18 teses orientadas, 110 ensaios, 239 temas livres, 195 participações em congressos.

O Capítulo X, MARIO RIGATTO NÃO MORREU – DEPOIMENTOS, é composto por 33 comoventes relatos de filhos, irmãos, familiares e amigos.

Dois textos fecham o livro com “Chave de Ouro”. A homenagem que Helena presta a sua cunhada, “ODE A UMA GRANDE AMIGA, HELENA RIGATTO KAUER” e a notável biografia de Rigatto, destacando a homenagem póstuma do Conselho Federal de Medicina – Comenda Mario Rigatto – Medicina e Humanidades Médicas.

O estilo da escrita de Helena remete a “teoria do iceberg” elaborada pelo afamado escritor estadunidense Ernest Hemingway (1899-1961), ganhador do Nobel da Literatura, em 1954, com seu magnífico livro “O Velho e o Mar”.   

Podando seus textos, Hemingway dizia que o significado mais intenso de suas histórias está imerso, está nas entrelinhas.

Em seu livro de memórias, “Paris é uma festa”, ele explica que a parte omitida fortalece a história, comparando-a a um iceberg.

Como frisou Maria Helena na apresentação do livro “Com certeza nem tudo foi dito aqui. Esta obra não tem a pretensão de ser completa, mas sim de ser sincera, traduzindo através de seus textos e imagens o amor que Mario Rigatto espalhou.”

O livro de Helena, de uma elegância ímpar, ostenta em sua capa azul marinho uma foto icônica de Mario Rigatto, com sua emblemática gravata borboleta, adornada com sua artística assinatura.

Na quarta capa, o romântico texto de Rigatto: 

“De acordo com o poeta, a sede do amor é o coração. Alguns anos depois de eu me haver dedicado ao estudo do pulmão, partindo de uma formação de cardiologista, comecei a ter serias dúvidas sobre a legitimidade dessa localização do amor. Afinal de contas, o que pode o amor fazer ao coração? Acelerar-lhe um pouco a frequência? Por outro lado, o pulmão tem muito a ver com a nossa vida afetiva. Pois não é com o pulmão que nós rimos? Não é com o pulmão que choramos? Não é o pulmão que soluça? Não é do pulmão que partem todas as interjeições afetivas, de onde nascem todos os ais de amor? E aos meus relutantes companheiros cardiologistas, tenho ponderado: o que pode uma discreta taquicardia sinusal comparada à respiração arfante de uma mulher apaixonada?

Obrigada pela atenção!

Fortaleza, 30 de agosto de 2024

Hemoce-UFC

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

SAUDAÇÃO A MARIO RIGATTO


Dr. Mario Rigatto

SAUDAÇÃO A MARIO RIGATTO

Por: ana margarida furtado arruda rosemberg 

Em maio último, por ocasião de um seminário sobre tabagismo em Porto Alegre, tive a felicidade de dedicar algumas palavras ao nosso querido Dr. Mario Rigatto.

Hoje, a felicidade é maior, pois vou fazê-lo em nossa terra, em nosso Ceará sofrido, que teve o privilégio de ter sua colaboração durante três décadas.

Não vou falar do Mario Rigatto discípulo brilhante do curso de medicina de Porto Alegre e de pós-graduação que concluiu no Canadá e na Inglaterra;

do renomado médico pneumologista e livre docente de Medicina Interna da UFRS; 

do chefe do Serviço de Pneumologia do Hospital das Clínicas de Porto Alegre; 

do pesquisador original e criativo do Conselho Nacional de Pesquisa; 

do Presidente da Sociedade de Cardiologia do Rio Grande do Sul; 

do fundador e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia; 

do Presidente do Departamento de Fisiologia Cardiovascular e Respiratória da Sociedade Brasileira de Cardiologia; 

do organizador do primeiro curso de pós-graduação em área médica do Brasil, 

do membro atuante, por muitos anos, da Associação Brasileira de Escolas Médicas;

do vice-reitor da UFRS;

do membro das academias Sul-Rio-Grandense e Nacional de Medicina e de inúmeras sociedades médicas no exterior; 

do cientista com suas pesquisas, trabalhos e livros publicados;

do remador premiado.

Não, eu não vou falar desse Mario Rigatto, pois muitos já o fizeram.

O que hoje me proponho a homenagear é o conferencista sedutor, mestre da palavra que convencia, deleitava e persuadia qualquer auditório e que atravessou a vida vestido de gala, pronto para a festa, encantando a todos com sua alegria contagiante.

O Mario Rigatto que ouso homenagear é o artífice, pioneiro, ao lado do Prof. Rosembeg da luta antitabágica no Brasil e que teve o mérito de ser membro, como o Prof. Rosemberg do primeiro Grupo Assessor para o Controle do Tabagismo, do Ministério da Saúde.

É aquele que em reunião histórica internacional, realizada em São Paulo, propôs a criação do Comité Latino-Americano Coordenador do Controle do Tabagismo, tornando-se seu primeiro presidente.

Conheci o Dr. Mario Rigatto nos idos de 1973, quando eu era estudante de medicina, pois a convite da UFC ele esteve em várias ocasiões ministrando cursos e palestras aos estudantes e professores daquela época.

A minha turma teve o prazer e o deleite de ouvi-lo durante três anos e tão impressionada ficou que o convidou para ministrar a Aula da Saudade, criada por nós, em 1974, e que até hoje faz parte das comemorações de todos os formandos em nosso Estado.

O Dr. Mario Rigatto, já naquela época, fazia campanha contra o tabagismo e isso foi decisivo para que eu enveredasse na luta que abracei com garra e amor.

Das aulas ministradas no início da década de 70, guardo com muito carinho e de cor, alguns trechos. Em certa ocasião, por encerramento de uma delas, ele falou:

“De volta agora ao meu Rincão longínquo, vou por à prova o velho adágio popular que diz: Como o vento é para o fogo é a distância para o amor, se é pequeno apaga-o logo e se é grande torna-o maior”.

E o amor de Mario Rigato tornou-se cada vez maior. Não só pelo Ceará que adotou como seu segundo estado, mas, também, e principalmente, pela Dra. Helena Pitombeira, essa mulher encantadora que teve a ventura de tornar-se sua esposa.

Em outra ocasião falou: “Dizem que a sede do amor está no coração. Mas, o que pode o amor fazer com o coração? A sede do Amor está nos pulmões, pois é com os pulmões que a gente respira, é com os pulmões que a gente suspira e com os pulmões a gente emite todos os sussurros, todos os gemidos e todos os Ais de Amor”.

Falando da intimidade entre o alvéolo e o capilar, comparou como um namoro à antiga, bastante íntimo pra prosseguir e bastante recatado para que se antecipassem as consequências.

Como disse Affonso Berardinelli Tarantino, em pronunciamento feito por ocasião da entrega do prêmio Excelência em Pneumologia, ao Dr. Mario Rigatto, em agosto de 1999, no Rio de Janeiro: 

“certamente o genoma de Rigatto estava impregnado de um saber e de uma sabedoria provindos de seus ancestrais da bela Toscana. Quem sabe se essa capacidade ímpar de encantar do mais simples ao mais seleto auditório, mantendo-os hipnotizados como num transe de prazer intelectual, não resulte da clonagem de algum nobre daquela região, considerado como o cérebro da península?”.

Empregando agora as palavras pronunciadas pelo Prof. Rosemberg, 

“Rigatto amava a vida no que ela proporciona na ciência, na literatura, na arte, no amor ao próximo, na ternura do afeto de quem se ama, nas múltiplas manifestações humanas, na exuberância da natureza. Orador nato, postura elegante, terno de alvura gritante e sua indefectível gravata borboleta, simbolizando a agilidade do voo de seus pensamentos e conceitos, difundia seu saber na atmosfera dos anfiteatros, eletrizando a assistência.

Das aulas da saudade e de suas inúmeras conferências, estão impregnadas na comunidade médica cearense as lembranças profundas do professor, do poeta, do humanista.

Devemos agora cultivar sua memória, mantê-lo em nossos corações e imitar seu invulgar comportamento, sua rica vida profícua e produtiva servindo de paradigma não só para nós, seus amigos, como para as gerações futuras de médicos. Assim, Mario Rigatto não morrerá nunca. Estará sempre presente. Sempre!”.

Ana Margarida

Fortaleza, 30 de junho de 2001

Reunião da Sociedade Cearense de Pneumologia  e Tisiologia (SCPT)

Hotel Olimpo - Fortaleza-CE






terça-feira, 20 de agosto de 2024

90 anos de José Rosemberg Marina Park Hotel - Fortaleza-CE 25.09.1999

O aniversário de 90 anos de José Rosemberg foi comemorado em São Paulo-SP, em 19.09.1999. 

Em Fortaleza, houve outra comemoração, no dia 25.09.1999, no Marina Park Hotel, para alguns  amigos. 

Nesse evento,  o dr. Mario Rigatto  fez uma bela  homenagem  e o Prof. Rosemberg  agradeceu. Foi um momento  mágico.  Abaixo, fotos e as transcrições  das respectivas  falas.












segunda-feira, 5 de agosto de 2024

A PERFORMANCE DA FESTA DOS DEUSES - Por : ana margarida furtado arruda rosemberg

 






A PERFORMANCE DA “FESTA DOS DEUSES” NOS JO PARIS 2024

“A Festa dos Deuses” (Le Festin des Dieux, em francês), uma pintura de 1635/40, do pintor holandês Jan van Bijlert (1597-1671), foi recriada por Thomas Jolly para a cena FESTIVITÉ da Abertura dos JO Paris 2024.

O quadro, que pertence ao acervo do Museu Magnin de Dijon-França, retrata o banquete que ocorreu no Monte Olimpo para celebrar o casamento de Tétis, uma nereida, e Peleu, rei de Ftia.

Na referida pintura podemos observar muitos deuses e deusas da mitologia grega. No primeiro plano, encontra-se Baco (Dionísio) seminu sentado no chão e segurando um cacho de uvas, enquanto ao seu lado um centauro dança; no centro de uma grande mesa coberta com uma toalha branca vemos Apollo, deus das artes, segurando uma lira. À esquerda estão Minerva, Diana, Marte e Vênus acompanhada do Cupido. Flora, a deusa da primavera, está por trás deles. Reconhecemos, ainda, Hércules com sua clava e Netuno com seu tridente. Na extrema direita, vemos o pomo da discórdia sobre a mesa, colocado por Eris.

A ausência de alguns deuses e deusas se deve, provavelmente, ao corte sofrido pela tela na parte esquerda; a presença do pavão de Juno sugere isso.

 Nos séculos XVI e XVII, o tema da festa dos deuses era popular na Holanda. “O Casamento de Psique e Cupido”, de Hendrick Goltzius (1558-1617), desencadeou uma abundante produção de obras que ilustram esse assunto.

A performance inspirada na obra de Jan van Bijlert, durante a abertura dos JO 2024, causou grande polêmica porque muitas pessoas interpretaram que se tratava de uma releitura da obra de Leonardo da Vinci – A Última Ceia. Um verdadeiro deboche ao cristianismo, bradaram.

Os produtores do evento desmentiram que a inspiração tivesse sido o famoso afresco de Da Vinci, fato reforçado pelas declarações do diretor artístico, Thomas Jolly, negando a inspiração no quadro de Da Vinci.

Neste ano de 2024 (abril-setembro), o Museu do Louvre está apresentando a exposição “L’OLYMPISME – UNE INVENTION MODERNE, UNE HÉRITAGE ANTIQUE”, resgatando a criação dos primeiros JO na Grécia antiga e mostrando como essas fontes iconográficas foram utilizadas para a reinvenção dos JO Modernos.

Na linha do tempo da exposição, constatamos que os JO da Grécia antiga eram festas pagãs dedicadas aos deuses e deusas do Olimpo. 

Os primeiros Jogos datam de 776 a.C., em Olímpia, homenageando Zeus. 

Em 582 a.C., os Jogos foram em Delfos, em homenagem a Poseidon; em 573 a.C., em Nemeia, em homenagem a Zeus; em 566 a.C., em Atenas, em homenagem a deusa Atena.

Em 393 d.C., foi a última edição dos JO, pois o imperador romano Teodósio 1 (347-395) aboliu os jogos que durante muitos séculos reunia atletas de várias cidades do mundo grego.

Por ter se convertido ao cristianismo, que cultuava um único Deus, Teodósio não aceitava uma festividade pagã que exaltava o corpo e cultuava vários deuses e deusas.

Os JO ficaram enterrados durante 15 séculos até serem ressuscitados pelo francês  Charles Pierre Fredy de Coubertin (1863-1937), o Barão de Coubertin, considerado o pai das Olimpíadas Modernas. 

Em junho de 1894, na presença de 15 países, Coubertin fundou na Sorbonne, em Paris, o órgão precursor do Comitê Olímpico Internacional.

Em abril de 1896, começava em Atenas, Grécia, a primeira edição dos JO da Era Moderna.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 05.08.2024

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

DIVAGAÇÕES SOBRE A VELHICE - Por: José Rosemberg

 


DIVAGAÇÕES SOBRE A VELHICE1

José Rosemberg2

Agradeço sensibilizado a deferência do convite para participar desse importante evento. Congratulo-me com a Professora Dra. Suzana Medeiros, Coordenadora do Programa de Estudos de Pós Graduação em Gerontologia, e com todos os professores organizadores desta IV Semana de Gerontologia.


Foi-me solicitado falar sobre a velhice, minhas atividades e convivência com o envelhecimento. 


Direi de saída que com os meus 91 anos “bien sonnés” como dizem os franceses, pertenço a uma pequena coorte de cerca de 5,5 milhões, constituindo apenas 3.2% do total de brasileiros, segundo o IBGE 2000. Acima dos 90 anos, existem 24.576 pessoas das quais 60% são mulheres. 


É um minúsculo contingente que vem conseguindo permanecer neste mundo de competições, sofrimentos, agruras, decepções e fracassos, felizmente mesclados com amor, felicidade, confraternização, amizade e algumas realizações exitosas.


Minha vida foi ensinar e pesquisar na área biomédica, com incursões em outros ramos da atividade intelectual. Leciono desde os meus tempos acadêmicos quando estudante de Farmácia e depois de Medicina. Minha primeira aula universitária foi como livre docente na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sou Professor Titular de Tuberculose e Pneumologia, fundador da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba. Ali, proferi a primeira aula, em 27 de março de 1955.


Fui Diretor da Faculdade durante 13 anos. Criei o Centro de Pesquisas Médicas e Biológicas. Essa Instituição era agregada à nossa PUC. Foi longa a luta pela sua integração definitiva nesta prestigiosa Universidade. Felizmente, o Grão Chanceler Dom Paulo Evaristo Arns e a Reitoria aceitaram meus argumentos não obstante à posição contrária de setores que temiam os custos de uma Escola de Medicina. Ganhou esta pelo status de pertencer a uma das mais consagradas Universidades e ganhou a PUC por contar com uma Instituição de Ciências da Saúde, beneficiando vasta área de população sofrida, atendendo assim, à sua missão como Universidade Pontifícia Católica.


1- Esta conferência foi pronunciada em 29 de novembro de 2001, dentro da programação da IV Semana de Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo.


2- Prof. Titular de Tuberculose e Pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba, da Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo.


Fui membro do Conselho Universitário por 18 anos. Assisti de perto ao vandalismo de que foi vítima esta sede por elementos retrógrados da repressão. Sou o único Professor fundador da Faculdade em atividade. Quase todos os professores e assistentes desta foram meus alunos. Passaram pela disciplina que dirijo 3852 alunos, hoje médicos espalhados pelo Brasil, muitos em altas funções universitárias e em cargos de Saúde Pública. Creio ser um dos mais antigos docentes em exercício da PUC.  

Felizmente, esta não tem a obsoleta figura da aposentadoria compulsória, o que me permitirá trabalhar e ensinar enquanto as forças e os neurônios me ajudarem. 

Os Césares romanos morriam em pé. Doentes no leito, exigiam ser levantados para morrer. Como não sou César Romano, sou apenas o que os roceiros de S. José dos Campos me diziam: “burro bom morre arreado”.

São duas as linhas de trabalho que escolhi como padrão: A tuberculose, desde os bancos acadêmicos, e o tabagismo, no qual me embrenhei há 30 anos. Ocupei cargos científicos e administrativos oficiais de tuberculose. Pertenci ao quadro de peritos da Organização Mundial de Saúde. Publiquei 204 trabalhos e 12 livros. 

Tenho obras laureadas pela Academia Nacional de Medicina e Associação Paulista de Medicina. Fui agraciado com a Comenda "PALMES ACADÉMIQUES", pelo governo francês, sob a presidência de Charles De Gaulle, pelos meus estudos sobre a vacina BCG na tuberculose e hanseníase. 

A OMS me conferiu a medalha "TABACO E SAÚDE" pelas pesquisas sobre tabaco e luta contra o tabagismo. A câmara municipal de S. Paulo conferiu-me o título de "Cidadão Paulistano". Estou citado na Grande Enciclopédia Larousse Cultural e na Enciclopédia Delta Larousse. Evidente que esses frutos foram colhidos com muito mais transpiração do que inspiração.

DEMOROU MUITO PARA O MUNDO SE TORNAR GRISALHO

Foi lento o aumento da expectativa de vida no mundo. Entre os romanos, a vida média era apenas de 26 anos. Galileu, com 68 anos, e uns poucos outros foram exceções. Na Europa, entre os séculos XVII e XVIII, subiu para 35 e 40 anos. Voltaire, com 64 anos, e mais umas oito dezenas de portentos passaram dos 70. A aceleração da expectativa de vida deu-se no século XX. Em 1950, os com 60 e mais anos constituíam 8.1% da população mundial, subindo a 10%, em 2000, e a estimativa para 2050 é de 22.1%, isto é, o dobro em 50 anos.


No Brasil, na década de 90, houve um aumento médio de 2.6 anos. Em 1950, a média era 43 anos, dando um salto em 2000 para 68.6 anos. As mulheres em todas as latitudes têm mais longa expectativa de vida. No Brasil, na atualidade, ela é de 72.6 anos e 64.8 anos para os homens. A relação, idoso criança em 1970, era de 10.5 subindo em 2000 para 19.8.


No geral, a expectativa de vida sempre foi maior nos países ricos em comparação com os pobres.


A POBREZA É INIMIGA DA VELHICE!


O aumento progressivo da esperança de vida está intimamente vinculado à sua melhor qualidade, decorrente essencialmente das conquistas sociais e do progresso técnico biomédico, com sua aplicação à saúde pública. Esse contexto reflete-se no mundo rico, onde a expectativa de vida é acima de 80 anos, havendo países com 88 anos. 


Em contraste, no continente africano, notadamente nos países ao sul do Sahara, onde as condições socioeconômicas são as mais baixas, com mais de 40% infectados com o vírus HIV (AIDS), dos quais mais de 20% co-infectados com o bacilo da tuberculose, a expectativa de vida está entre 35 e 45 anos.


No Brasil, temos boa demonstração da vinculação da expectativa de vida com os quadros econômicos sociais. Segundo o IBGE, no ano 2000, nas macrorregiões Sudeste e Sul, a esperança de vida está entre 71.3 e 71.6 anos. Já na macrorregião Nordeste, cai a 63.2 e 64.4 anos. A relação adulto-criança é bem menor nas macrorregiões Norte e Nordeste, respectivamente, 9.8 e 14.3 que nas regiões Sul e Sudeste, respectivamente, 22.7 e 23.9; isto é, em relação às crianças e jovens há menos idosos naquelas macrorregiões que nestas últimas.

Há um fosso profundo quanto ao prolongamento da vida nas áreas desenvolvidas do mundo em confronto com as em desenvolvimento e subdesenvolvidas.


Além das baixas condições socioeconômicas dessas últimas, grandes contingentes da população têm menor ou nenhum acesso às atenções de saúde, e são muito mais assoladas por doenças transmissíveis endêmico-epidêmicas. Para citar apenas um só exemplo entre centenas, temos a tuberculose com 95% do total dos doentes, concentrados nos países em desenvolvimento, e com 98.8% do total de sua mortalidade. 


É grave como esse fosso entre as duas áreas ricas e pobres está se aprofundando. Força é reconhecer que o modelo econômico vigente no mundo é incapaz e, inclusive, desinteressado de sequer minorar essa discrepância. A humanidade está a braços com este lastimável problema.


Na recente reunião da Organização Internacional do Comércio, foi informado que nos últimos 30 anos o PIB no mundo cresceu em média 2.3% ao ano, cerca de 10% no período, enquanto a pobreza multiplicou-se por 10, ou seja, cerca de 1000%. Na reunião na Dinamarca, do chamado grupo dos setenta e sete, que engloba 132 países em desenvolvimento, declarou-se que há no Mundo um bilhão e cem milhões (20% do total da população mundial) de pessoas na situação de indigência sem acesso a qualquer recurso. 


Informou-se mais, que nos últimos 20 anos os ricos dobraram e os pobres multiplicaram-se. O governo brasileiro informou, na ocasião, que temos 17 milhões de indigentes sem qualquer tipo de amparo, e outros 25 milhões são pobres com acesso à comida, porém sem às outras necessidades básicas.


Um terço da humanidade, dois bilhões, vivem com um dólar por dia. Quatro bilhões e quatrocentos milhões vivem no Mundo em desenvolvimento, dos quais 60% sem saneamento básico, 25% sem moradia, 30% sem água limpa e 20% sem acesso à saúde pública. Para essa imensa maioria confinada no mundo pobre, a velhice está distante e é uma proeza passar dos 50 anos.


O SONHO DE PROLONGAR A VIDA

Viver! Viver o maior tempo possível tem sido aspiração universal. Os alquimistas medievais empenharam-se, em vão, na busca do elixir da longa vida. Modernamente, essa esperança se reacende com o advento da biologia molecular e, mais recentemente, com a decifração do genoma humano. 


Algumas proteínas sugerem que podem favorecer o prolongamento do metabolismo com suas funções vitais. Em alguns seres inferiores, identificaram-se genes que aumentam o tempo de sua vida. Na mosca drosófila descobriu-se um gene que prolonga sua longevidade. 


Ainda não se decodificou gene do DNA capaz de dilatar a existência do ser humano. Ao contrário, recentemente, identificou-se um gene (denominado klotho), muito comum nos recém-nascidos e pouco frequentes nos idosos, que poderia reduzir o tempo de vida. Pessoas com duas cópias desse gene teriam maior risco de morrer aos 65 anos.


Esticar a vida sem a plenitude que faculte um desempenho eficaz, não é compensatório. Filósofos do século XIX argumentavam que se a morte é uma fatalidade biológica, pelo menos, se deveria conseguir morrer jovem, o mais tarde possível.


 Biólogos otimistas afirmam que, com os recursos técnicos hoje disponíveis, poder-se-á atingir os 115 e até os 120 anos com as funções fisiológicas e mentais normais. Surgem perspectivas de se atingir idades ainda mais avançadas. Espera-se conseguir a desaceleração, geneticamente, dos processos bioquímicos responsáveis pela deteriorização das células, retardando seu envelhecimento, sendo, por exemplo, que 20 anos atuais correspondam a 5 anos futuramente.


Aos que indagam, por que não aspirar a vida eterna, Freud argumentou que viver eternamente com atividade mental seria insuportável pelo acúmulo dos complexos. Bernard Shaw com seu conhecido humor relatou o inconveniente da vida eterna em sua obra teatral “Back to Mathusalem”.


Os homens conseguiram isolar e aumentar a expressão do gene da eternidade, com a firme decisão de não aceitar a morte, gene este que se transmitia pelas gerações. Aos 300 anos de idade, as pessoas são crianças entretidas nos seus brinquedos. Aos 900 anos ficam adultas, não envelhecem e tornam-se perpetuas. Surge então séria complicação. A esperança, tão importante para os mortais, de usufruir uma vida longa, desapareceu com a certeza da eternidade. A existência tornou-se insípida. A eternidade levou ao marasmo e tornou-se insuportável.


Na realidade, a incerteza do amanhã é um dos maiores estímulos da vida. Esses se esvaem nos idosos, porque a certeza do fim é inexoravelmente mais próxima a cada dia que passa.

FISIOLOGIA DO ENVELHECIMENTO

São múltiplas as transformações orgânicas do envelhecimento, cuja velocidade e intensidade nas pessoas é altamente variável. Dos fatores intercorrentes pinçamos apenas os mais notórios. 


O DNA perde progressivamente o controle sobre as funções vitais orgânicas. Sucedem mutações de genes devido ao verdadeiro bombardeio dos chamados radicais livres oxidantes. Não há vitamina E, ou qualquer outro antioxidante, que interfira eficazmente contra esse ataque contínuo. Existe uma molécula hormonal DHEA, que coopera com o aumento do metabolismo.


No idoso, sua concentração no sangue cai a 10%. As secreções endocrínicas em geral tornam-se lentas. Ocorrem mutações somáticas. A massa muscular diminui e sua força degrada-se. A mucosa intestinal vai perdendo a faculdade de absorção dos alimentos o que diminui a nutrição orgânica. 


A histoarquitetura pulmonar degrada-se; processa-se uma bronquiolização dos alvéolos, prejudicando a hematose e diminuindo a capacidade funcional respiratória. Cai a acuidade visual e auditiva. Entre as modificações metabólicas, a mais prejudicial é a peroxidação lipídica, que atua sobretudo no cérebro. Este se reduz no peso e surgem atrofias nas circunvoluções. Há evidência de diminuição de neurônios. O maior número desses, por falta de estímulos, se entorpecem ou se tornam inativos. Com isso, a memória tende a cair, sobretudo a cognitiva, permanecendo, em certos graus, a semântica. Os reflexos e as respostas neuromusculares são mais lentos. Há evidência de aumento proporcional da neuroglia em relação aos neurônios.


Além desses percalços, o idoso é obrigado a pensar com os mesmos neurônios que recebeu ao nascer. Muitos deles, lesados pelos radicais livres ou porque desaparecem, apagam informações preciosas outrora adquiridas queimando as pestanas em noites de vigília. 

Somam-se a isso tudo, as dores nas articulações, na coluna, a dispepsia que impede de degustar uma suculenta feijoada, a perda do apetite para tantas coisas boas da vida, hipertrofia da próstata, a falta das cuecas folgadas que não mais se confeccionam e, o pior, o desaparecimento de entes queridos e de tantos amigos da infância, dificilmente substituídos, porque nas idades avançadas, novos amigos são raros. É a fria solidão. Conviver com essa degradação é uma arte, é exigir grande dose de conformismo. Fausto de Goethe deve ter pensado nisso tudo quando vendeu a alma ao diabo para manter a mocidade.

PATOLOGIA DO ENVELHECIMENTO

Não há fórmula segura para preservar interferências patológicas no envelhecimento. Dieta alimentar, não tomar álcool, não fumar (se tabagista, abandonar o tabaco o mais rápido possível) evitar o sedentarismo, e outras precauções são condutas que favorecem o envelhecimento com saúde, embora sempre relativas.


Dos males que assolam a velhice, em primeira plana, estão os distúrbios cardiocirculátórios:

hipertensão, aterosclerose (quando cerebral, provoca insanidade mental), angina do peito, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC). Dos múltiplos agentes favorecedores das doenças cardiovasculares, o mais atuante é o tabagismo. Este concorre com um terço e até metade da mortalidade por infarto do coração e um quarto dos AVC. Bronquite crônica e enfisema pulmonar, que constituem a chamada “Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica”, por si, já grave pela incapacitação ao trabalho e por conduzir à insuficiência cardiorespiratória, torna os pulmões mais vulneráveis às doenças infecciosas bacterianas e viróticas. 


O tabagismo é responsável por 80% dos casos de doença pulmonar obstrutiva crônica. Com o avançar da idade, cresce a frequência do câncer do pulmão e de outros tipos de câncer extrapulmonares. O tabagismo é um dos principais agentes causais; ele é responsável por 90% dos casos de câncer do pulmão e de 30% dos demais cânceres.


Outras doenças também aumentam sua incidência na velhice, porém aqui comentaremos apenas duas que são degenerativas: “Doença de Parkinson” e “Alzeimer”; esta última é a degradação dramática da personalidade, e identificaram-se genes favorecedores desse mal.


Para essas duas doenças, os tratamentos pouco ou nada rendem. Novas perspectivas descortinam-se com o advento tecnológico, no nível celular e cerebral, como em campos mais complexos da organização neurocerebral, visando aprofundar-se nos fenômenos cognitivos e neurobiológicos.


É verdadeiramente revolucionária a possibilidade que se abre para a formação de novos neurônios a partir de células totipotentes. As técnicas de transferência do núcleo de células, desembocaram na atual clonagem humana para fins terapêuticos. Em animais têm-se conseguido produzir alguns subtipos de neurônios, como: astrocitos e dendritos. Registra-se obtenção de neurônios dopaminérgicos de grande importância clínicas. 

Para as duas doenças cerebrais citadas, para outros distúrbios mentais, e casos de destruição parcial do tecido cerebral, abrem-se novos caminhos promissores de recuperação. Essas pesquisas estão em fase inicial, são de técnica altamente complexa e encerram problemas de bioética em discussão, que logo deverão ser dirimidos. Esses novos ângulos terapêuticos beneficiarão notavelmente a velhice pela recauchutagem com novos neurônios, rejuvenescendo a performance mental dos idosos.

EVOLUÇÃO DA PERSONALIDADE, NO CORRER DOS ANOS ATÉ A VELHICE. O PERIGO DA

CRISTALIZAÇÃO DAS IDÉIAS NO IDOSO

Sartre, interpelado certa ocasião disse: “a mocidade sabe muito no varejo, enquanto o idoso sabe tudo no atacado”. Já nos meados do século XVI, Henri Estienne no seu livro “Apologie pour Herodote” exclamou: “si jeunesse savait, si vieillesse pouvait”. Tinha razão; a velhice não pode, mas sabe, ao contrário da mocidade que pode, mas menos sabe. Porém cuidado! A sabedoria no velho pode cristalizar se o que é um desastre.


 Dos efeitos dos radicais livres no idoso, citados em item anterior, extrai-se uma profunda ilação. Na juventude, o cara tem ideais radicais e julga-se capaz de lutar por eles. Na velhice, o quadro pode ser diferente, porque o cérebro abarrotado de radicais, que são livres para matar seus neurônios, afoga os ideais radicais da mocidade e solapam sua energia para brigar pelos ideais que antes acalentou.


É o jovem revolucionário que quer reformar o mundo, contestador do “stablishement”, que na velhice se torna conservador, acomodado e até reacionário. Que tristeza! Nesse panorama, Salacrou concebeu peça de teatro, “L’inconnue d’Arras”, e criou o personagem Máxime, que na maturidade dialoga consigo próprio quando tinha 20 anos. Dois atores representam o personagem, um quando jovem e o outro quando idoso. São duas pessoas antagônicas: juízos, anseios, ideais, conceitos morais e políticos, sofreram profundas modificações, são dois entes distintos em um só corpo. Máxime jovem, sarcasticamente, critica a traição que, Máxime velho cometeu dos ideais da mocidade.


Evidente que com a idade nossos conceitos podem se alterar; o perigo é cristalizá-los, congelando-os. Bérgson, em sua obra “Durée et simultaneité”, define a primeira como o conhecimento que tomamos da consciência. Esta é maleável, movediça. O que se é neste momento, não é o mesmo do instante anterior, porque as reações orgânicas físicas alteram-se continuamente, qualitativa e quantitativamente. 


Do mesmo modo, a percepção do que se é, também se modifica com os novos conhecimentos. Schopenhauer, “No mundo como vontade e como representação”, formulou esse conceito de outra forma: “pensa-se metafisicamente, porém age-se fisicamente”. Com tudo isso a “dureé” implica no tempo vivido e como é vivido. É o célebre “cogito ergo sum” de Descartes, que hoje sabemos não ser tão imutável, ao contrário, altamente variável. 


Essas variações são salutares por impedir a cristalização das idéias e conceitos que geralmente ocorre no idoso, enclausurando sua mente num compartimento fechado, estanque, aferrando-a a clichês antigos, obsoletos, tornando-a opaca às transformações da sociedade e da vida. Essa é talvez a mais triste velhice que coexiste com um mundo que lhe é estranho, no qual não se integra, aumentando-lhe a solidão.


A MATURIDADE E A CULMINÂNCIA DA OBRA CRIATIVA

Com a continuação das induções mentais e pelas constantes mudanças ativadoras da cognição, vai se construindo um sólido edifício de informações os quais vão sendo ordenados com o avanço da idade, enfeixando toda a obra criada. Parece haver base genética aceleradora ou retardadora do processo mental.

Com exceções, as marcantes criações que constituem legados e patrimônios da cultura e da história nos variados campos da atividade humana, são obras de um punhado de dotados entrados em anos de sua existência. O ápice de suas criações foi atingido a partir dos 50 anos de idade e em número significativo entre os 70 e 90 anos. 

É desnecessário e mesmo impossível uma listagem completa. Eis por ordem alfabética alguns que além do seu alto significado para o patrimônio da humanidade, tornaram-se amplamente divulgados e muito populares: Aristóteles, Augusto Conte, Bach, Balzac, Bernard Shaw, Cervantes, Copérnico, Dante, Darwin, Descartes, Dickens, Dostoievski, Freud, Galileu, Goethe, Hipócrates, Joyce, Kant, Kepler, Laplace, Lavoisier, Leonardo da Vince, Levi-Strauss, Marx, Miguelangelo, Molière, Monet, Pasteur, Piaget, Pirandello, Platão, Proust, Rembrandt, Renoir, Rossini, Sartre, Shaskespeare, Sócrates, Spinoza, Verdi, Victor Hugo, Vivaldi, Voltaire.


Evidente esta lista está longe de ser completa. No cemitério central de Viena há uma praça circular com os túmulos de Beethoven, Schubert, Brahms, Weber, Strauss, todos mortos com mais de 50 anos de idade.


Deve-se, porém, acentuar que muitos contribuíram, da mesma forma, para a formação do patrimônio histórico-cultural, quando ainda jovens. Sugere-se que seus cérebros eram geneticamente especializados para um dado setor do saber. No centro do círculo dos túmulos dos gênios da música, já na maturidade, a pouco citados, há um mausoléu simbólico de outro gênio cujo corpo perdeu-se na vala comum: Mozart falecido aos 36 anos; entre os 6 e 9 anos de idade encantou o mundo com suas sonatas. No cemitério “Père Lachaise”, em Paris, outro jovem dorme enternecendo até hoje a humanidade com seus prelúdios e noturnos, Chopin; desapareceu aos 39 anos. Ambos teriam produzido obras ainda maiores se tivessem chegado à maturidade.


Em outro campo do saber, cite-se apenas três relacionados com a cosmologia. Newton com menos de trinta anos revolucionou a matemática e a ótica; suas básicas leis sobre a gravitação foram elaboradas com menos de 40 anos, publicadas na obra fundamental “Principia”, quando tinha 45 anos. 

Modernamente temos o exemplo inusitado de Einstein que, com as teorias da relatividade especial e geral, revolucionou a concepção sobre o universo, terminando-as quando tinha respectivamente 29 e 37 anos. Outro exemplo, esse de nossos dias, é de Stephen Hawking, popularíssimo, totalmente paralisado devido à moléstia esclerose amiotrófica lateral, está contribuindo para os conhecimentos cosmológicos desde os 28 anos de idade com seus estudos e conceitos sobre o espaço-tempo e buracos negros.

O EQUILÍBRIO BENÉFICO ENTRE JOVENS E VELHOS

O PRECONCEITO CONTRA A VELHICE

Com a extraordinária expansão do ensino e os enormes avanços tecnológicos no século XX, abriram-se grandes possibilidades, que antes não havia, de os jovens participarem de todos os campos técnicos, nos estudos mais especializados. Desse modo, estabeleceu-se um equilíbrio benéfico entre jovens e velhos na produção científica, literária, artística e demais campos do saber. 


A produção com os jovens muito ganhou qualitativa e quantitativamente. Sociólogos consideram que os mais idosos também muito ganharam com isso, pois recebem farta informação e numerosos dados já dissecados quanto ao seu valor e alcance, facilitando sua análise crítica global, extraindo deles concepções mais abrangentes, propiciando maior armazenamento de conhecimentos. 


Desse modo, a balança parece pender para as faixas etárias mais elevadas.

Pode ser apenas uma tradição cultural, considerar os idosos como depositários do saber e do bom senso. Esse conceito vem de gerações, desde os tempos bíblicos. No Levítico, afirma-se: “tu te levantarás ante os cabelos brancos e honrarás a pessoa do velho”. Heródoto conta que os gregos consideravam a velhice associada à sabedoria. Na Roma imperial, os idosos eram os “mos majorem”. John Dewey em “Educação e democracia” e Max Veber na sua “Antropologia cultural” consideram que o fato do saber geral concentrar-se mais na velhice, que é fraca fisicamente, simboliza que não é a força que deve governar a humanidade. 


Robert Lowie no “Tratado de sociologia primitiva”, conta como em todas as sociedades dos povos primitivos havia grande respeito e consideração para com os idosos. Aponta, contudo duas exceções; os Scythas periodicamente realizavam assembleias nas quais eram obrigados a estar presentes todos os membros da comunidade, e, no final, o mais idoso era trucidado. Já os Nartes eram mais práticos; periodicamente promoviam lauto banquete no qual a comida destinada aos anciões, continha veneno.


A sociedade moderna não mata os velhos, mas os considera como um peso. Essa postura é assumida, inclusive, em muitas famílias de melhor posição econômico-social. Para as classes pobres os idosos são totalmente indesejáveis. Impossibilitadas de sustentá-los, são jogados nos asilos, a imensa maioria pardieiros, disfarçados em “lar dos velhos”, onde vivem abandonados, ociosos, sem afeto, aumentando, incrivelmente, sua solidão. Vivendo abaixo da condição humana, são totalmente esquecidos. É uma forma bárbara, requintada de matá-los, que as sociedades primitivas não conheciam. 


Pouquíssimos são os países com legislação mais humanitária de amparo a velhice desvalida. Este dramático problema vem se aguçando à medida que cresce o contingente de velhos. Esse descaso é veementemente denunciado por Simone de Beauvoir no seu livro “La Vieillesse”.


De um modo geral, a sociedade considera o velho, um corpo estranho, um ente ultrapassado, incapaz de atender às solicitações do empreendimento em qualquer ramo. Entre nós, a empresa especializada em recursos humanos, Catto, analisando 7.002 executivos de 31 grandes empresas, constatou o baixo índice de técnicos com mais de 50 anos. Entre os gerentes há, apenas, 15%; em cargos de supervisão, 6.4%; entre os profissionais especializados, 3.8%. 


Em vários países, as empresas estão lentamente mudando o preconceito contra os idosos, valorizando sua experiência combinada com a segurança na tomada de decisões mais importantes. Todavia, as agências de emprego continuam com restrições à colocação de pessoas, mesmo especializadas, com mais de 50 anos.


É comum encarar o velho como um inútil. Um idoso em plena atividade desencadeia em muitas pessoas jovens, admiração associada a uma espécie de desapontamento, por estar, como que desafiando um preconceito arraigado de que o idoso é um inválido. Tenho experiência pessoal sobre o assunto. Com frequência me dizem: “Como! O senhor ainda leciona? Publica livros? Parabéns!” Não escondem o espanto com um misto de decepção. Já deveria confinar-me em casa de pijama lendo estórias em quadrinhos...

ATIVAR OS NEURÔNIOS É A FORMA PARA MANTER-SE JOVEM

Até a década dos anos sessenta do século recém-findo, acreditava-se que o encélafo era imutável, sofrendo apenas interferências genéticas. Com técnicas de biologia molecular, ratos foram submetidos a diversos excitantes por tempo determinado. Os exames histológicos dos neurônios demonstraram aumento de interligações celulares e aumento de dendritos, facilitando a neurotransmissão. Ratos mantidos, pelo mesmo tempo, sem qualquer estímulo não apresentaram essas diferenças nos neurônios. 


Pesquisas clínicas constatam que pessoas submetidas a diversos tipos de estímulos, inclusive atividades com computadores, demonstram que o comportamento encefálico aumenta com respostas mais rápidas da neurotransmissão e a melhora da cognição. Esses dados indicam que a atividade dos neurônios cresce se são excitados com frequência. Do contrário, comportam-se como se estivessem adormecidos, decaindo as respostas aos estímulos com piora da cognição.


Não tenho conhecimento de estudos aprofundados com idosos trabalhadores braçais. Para os que têm atividades intelectuais, a persistência no trabalho, ativa a cognição e a memória. Tenho experiência própria de como a continuação da atividade mental desenvolve mais a capacidade de trabalho. Dois terços do que tenho investigado e escrito efetuaram-se depois dos 50 anos. 


Além da atividade mental, para se manter jovem, uma pitada de amor ajuda e muito. Ainda nisso tenho experiência pessoal; aos 83 anos, caiu-me do céu uma colega pneumologista, como eu, especialista em tuberculose e tabagismo, jovem, loira de cabelos longos, de grande beleza intelectual e física. Para encurtar a estória: Casamo-nos e assim tenho a ventura de um facho de luz iluminando a minha existência, prolongando a minha juventude.


Voltando ao tema, deve ser repetido que a constante ativação dos neurônios influi favoravelmente na cognição. Porém, o idoso enfrenta um óbice sério que é a luta contra o tempo. Os processos fisiológicos são mais vagarosos que nos jovens. Há fórmulas matemáticas para calcular o tempo de reparação celular de ferimentos e, portanto, sua cicatrização é muito mais lenta no idoso. Quanto mais lentos esses processos fisiológicos, tanto mais rapidamente passa o tempo na consciência.


 É um verdadeiro relógio químico. O tempo sideral parece fluir mais depressa à medida que se envelhece. Foi longa a minha existência até os 30 anos e como voou a partir dos 60, fluindo com velocidade crescente. 


Hoje, o tempo para mim tem a velocidade de um avião supersônico. Por mais que corra com os trabalhos e com os compromissos, realizo menos que outrora em relação ao programado. Daí a conclusão: a interligação tempo fisiológico e tempo sideral não é somente psicológica, porque tem consequências práticas. É incrível, mas tem analogias com o postulado da teoria da relatividade, demonstradora de que não existe uma unidade universal chamada “tempo”.


Ao contrário, pela teoria da relatividade, cada observador tem sua própria medida do tempo. Isso pode ser demonstrado com o chamado paradoxo dos gêmeos. Um sai em viagem espacial com a velocidade próxima a da luz, enquanto seu irmão permanece na Terra. 


Ao voltar, o gêmeo viajante verifica que está muito mais moço em relação ao seu irmão que aqui permaneceu deslocando-se muito mais lentamente; o tempo passado foi bem maior e ele está muito mais velho. Essa diferenciação está bem confirmada por experimentos comprovando que com a velocidade os relógios atrasam-se e o tempo flui mais lentamente. Podemos transportar esse paradoxo dos gêmeos, com referência ao envelhecimento da mente.


Imaginemos dois irmãos gêmeos, monozigóticos, com 60 anos de idade e com o mesmo grau cultural e desempenho mental de atividades análogas. Um deles continuou nessa atividade e o outro se aposentou. Passados uns 20 anos, encontraram-se. O primeiro manteve a agilidade e performance mental praticamente iguais as que eram quando se separaram; o segundo, aposentado, passou esse mesmo tempo sem ativar os neurônios, lendo gibis e assistindo os programas de auditório da televisão. Ficou idiotizado.


Já foi dito, não existe nenhum remédio salvador para lutar contra o envelhecimento físico. A sabedoria, contudo, é manter a mente jovem o maior tempo possível. Isso só pode ser conseguido mantendo os neurônios ativos permanentemente. Deve-se o quanto antes escolher um padrão ou padrões de valores, lutando por eles até a velhice, sem esmorecimento; padrões que sejam úteis ao seu bem-estar mental, que é a consciência, e, sobretudo, que sejam úteis à sociedade.


Há 230 anos, Jean Jacques Rousseau nos deixou importante mensagem: “O homem só existe enquanto é útil a humanidade”. Os que são úteis à sociedade existem e não envelhecem. Os que criam e erguem obras padrões, construindo marcos indeléveis, existem para sempre, na memória e cultura da humanidade e jamais envelhecem.