Fortaleza, 09 abril de 2002.
Maninha querida,
“Valeu a pena? Tudo vale a pena
se a alma não é pequena”. E tua alma era imensa, tão grande quanto a vastidão
do “Mar Portuguez”, cantado em versos por Fernando Pessoa, teu poeta preferido.
Tua vontade de viver e servir a todos
foram ainda maiores. Tua vida, Maninha, valeu, sim, valeu a pena...
Fizeste dela uma grande festa e atravessaste sorrindo, feliz, amando, doando-te
e contagiando a todos com tua alegria, simpatia e bondade. Eu tive o privilégio de compartilhá-la
contigo e de conhecer profundamente tua alma generosa. Minhas amigas eram tuas,
e as tuas, minhas também. Dessa forma, tivemos amigas duplicadas.
Tua história foi rica. Foste uma
filha exemplar. Adoravas o papai e a mamãe e era por eles que tu chamavas
quando vivias teus últimos dias. Foste uma mãe e avó dedicada e desprendida.
Dando tanto amor, recebeste também muito amor e dedicação dos teus filhos e
neto. Sonhaste com uma filha e foste mãe de todas as tuas irmãs, cunhadas,
sobrinhas e de tuas amigas mais íntimas. Teus filhos te deram noras que foram
filhas, e minhas filhas, Maninha, foram tuas também. Teu coração foi tão
generoso que foste mãe dos teus irmãos,
cunhados, sobrinhos e do teu maior amigo.
Como profissional, foste grande,
competente, inteligente, responsável e extremamente ética. Espalhaste o teu saber não só no Ceará, mas em muitos Estados do
Brasil. Hoje, és reconhecida pela valiosa contribuição que deste ao Tribunal de
Contas dos Municípios, onde angariaste inúmeros amigos. Recebeste dos
Conselheiros a homenagem de um voto de pesar, um minuto de silêncio e o
enaltecimento da grande municipalista que foste.
Tua ânsia de ajudar a todos
extravasou-se na luta pela libertação das mulheres sufocadas pela opressão
machista e pelos sistemas sociais retrógrados. Militamos juntas na União das
Mulheres Cearense, participando dos movimentos políticos pela emancipação da
mulher aguilhoada, objetivando elevá-la à condição da dignidade humana. Tu te irmanaste também, com todo o
fervor, em outra luta: a da libertação dos sofredores das camadas
economicamente desvalidas. Por isso, erigiste como teus ídolos aqueles que
dedicaram a vida na luta contra as injustiças sociais, dentre eles Che Guevara.
Maninha, tu jamais tiveste
preconceito de classe social, sexo, raça e religião, e dispensaste a mesma
atenção a todos, convivendo em igualdade com tuas domésticas, os mais pobres e
as minorias oprimidas. No entanto, Maninha, foste alvo de discriminação porque
ousaste amar acima dos preconceitos
sociais, com todo o fogo da paixão. Foste transparente, autêntica e honesta.
Tive o privilégio de te
acompanhar no teu lento sofrimento e constatar de perto teu heroísmo e tua
capacidade de enfrentá-lo. Saiba Maninha, que ele não foi em vão; pois em nós
ficou o teu exemplo de bravura. Em meio a tanta agonia, tiveste a felicidade de
realizar um grande sonho: o de ser avó outra vez! Tiveste, também, a sorte de
ser assistida e cuidada por um médico
abnegado, dedicado, extremamente competente e ético, que lutou heroicamente
junt à Clêide para salvar tua vida. Eu,
Maninha, impotente para te curar, procurava de todas as maneiras amenizar a tua
dor. As músicas do Chico Buarque foram um lenitivo. Lembras da década de 60
quando o conhecemos? Foi através de ti, dos teus discos, que passei a admirá-lo.
Ambas, mergulhamos com a mesma profundidade
na alma desse poeta e atravessamos a vida embaladas por suas canções.
Por ti, agradeço à todas as
pessoas que nos teus últimos dias
estiveram ao teu lado, cuidando de
ti, acarinhando, acalentando,
aliviando as tuas dores, orando e sofrendo contigo. Agradeço aos tios,
primos, irmãos, amigos, sobrinhos, cunhados e cunhadas que te visitaram. A
todos que por ti oraram. Agradeço, enfim, Maninha, aos que te velaram e aos que
estão aqui presentes reverenciando a tua memória. Não morreste! Ficaste
encantada, deixando um vazio imenso e uma saudade eterna. Para falar dessa
saudade que sinto, te ofereço a canção daquele que julgaste gênio por sua obra
e maestria:
“PEDAÇO DE MIM”
Chico Buarque
1977-1978
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um
parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus”
Adeus querida irmã e um beijo tão
grande e carinhoso como o último que tu me deste.
Ana
