MOSTEIRO DOS JESUÍTAS DE BATURITÉ - 90 ANOS DE HISTÓRIA
O dia 3 de
dezembro de 1922 entrou para a história do Ceará. Na manhã daquele dia, o sol banhava
intensamente as verdejantes serras que circundavam a provinciana cidadezinha de
Baturité. A comitiva do Sr. Arcebispo de Fortaleza, Dom Manoel da Silva Gomes,
chegou ao cimo do morro acompanhada pelo Coronel Ananias Arruda, Padre Antônio
de Oliveira Pinto, Monsenhor Manoel Cândido dos Santos e o Juiz de Baturité, Dr. Ábner Vasconcelos. Integravam o séquito comandado
por Dom Manoel o Ministro da Viação, o Presidente do Estado do Ceará, um
representante da Inspetoria de Secas e outro da Rede de Viação Cearense.
Todos queriam
participar dessa solenidade, inclusive, jornalistas, religiosos e pessoas do
povo, haja vista marcar o início da saga dos
jesuítas em Baturité. Era a colocação da Pedra Fundamental para a construção de
uma Escola Apostólica. Dom Manoel benzeu solenemente a pedra que foi retirada
das ruínas da antiga Igreja dos Jesuítas, na cidade de Aquiraz, no Ceará, que fora demolida
quando os jesuítas foram expulsos, em 1748.
Em uma
cavidade preparada especialmente para abrigar a referida pedra, foram colocadas
também várias moedas em circulação, um exemplar do jornal “A Verdade”, e um
precioso pergaminho, no qual o Dr. Andrade Furtado, redator chefe do jornal “O
Nordeste” lavrou uma ata histórica da cerimônia,
que foi assinada pelo Arcebispo, pelos membros da sua comitiva
e por muitos dos presentes. O mestre Abel Maia
redigiu, para a posteridade: Pedra, Ruínas, Igreja Aquiraz P.P. Jesuítas
1748, primeira pedra E. Apostólica P.P. Jesuítas de Baturité, 3-XII-1922.
A partir
daquele instante, Ananias Arruda ficou responsável pelo andamento da obra que
foi iniciada no dia 3 de janeiro de 1923. Além dele, Dona Libânia de Holanda
contribuiu significativamente para a construção. O Padre Pinto fez uma
verdadeira peregrinação pelo Brasil e outros países,
angariando recursos para o arrojado projeto da Escola Apostólica. Foi um
renomado engenheiro de São Paulo quem projetou sua construção numa área de
terra de 110 metros de frente por 78 de fundos.
Em 15 de
agosto de 1927, concluída a parte lateral do prédio, a Escola Apostólica dos
Padres Jesuítas de Baturité foi solenemente inaugurada, com a benção de suas
dependências pelo Arcebispo de Fortaleza, Dom Manuel da Silva Gomes, sendo então celebrada uma missa campal com a
participação de um grande número de pessoas.
Foram Jesuítas
fundadores: Padre José Celestino – Reitor; Padre Paulino Vielledent – Ministro;
Padre Joaquim Teixeira – Prefeito dos Apóstolo; Padre Felipe Pinheiro; Padre
Alexandrino Monteiro; Irmão Bosco; Irmão Fernandes e Irmão Oliveira. Os
primeiros cinco alunos chegaram no dia 18 de agosto do mesmo ano. Quatro deles
de Baturité: Edmundo Silveira Flores, Luiz Dória, José Furtado e Luis Arruda
Furtado.
Celeiro de
cultura, a Escola prestou inestimável serviço à Região Nordeste do Brasil, justo por difundir conhecimentos, preparando jovens para o apostolado. Desse modo, os jesuítas, com sua Escola Apostólica, transformaram Baturité em um oásis de
conhecimento. Centenas de jovens de Baturité, de outras cidades do Ceará e do
Nordeste estudaram na Escola Apostólica. Ensinava-se ali
teologia, ciências gerais, história, matemática, latim, italiano, francês,
português e até grego. Recitava-se a “Odisséia” de Homero, a “Divina Comédia”
de Dantes, “Édipo o Rei” de Sófocles, o teatro de Corneille e Racine e os
“Sermões Discursos” de história universal de Bossuet. Baturité foi, portanto,
uma ampla janela de cultura.
Quando, em
1977, o Prof. Luis Arruda Furtado proferiu um magnífico discurso para comemorar
os 50 anos da Escola Apostólica, lamentou ele o
abandono a que fora
a mesma relegada. Fazendo votos para que a Escola voltasse a brilhar, fez uma
bela imagem metafórica que transcrevo abaixo:
“Diz Virgílio
na Eneida, que sentindo Enéas ser insustentável a situação de Troia, teria
abandonado seus muros, levando aos ombros seu velho pai Anquises. Deixo, hoje,
os muros desta Escola, levando aos ombros recordações guardadas por meio
século, reminiscências acumuladas por 50 anos, que eu mesmo não sei como não as
perdi, não as deixei cair uma a uma, pelos invios e tortuosos caminhos da vida.
Mas, ao passar por entre as minhas duas velhas amigas, as palmeiras imperiais,
São Pedro e São Paulo, faço votos para que esta Escola, amoldando-se às
necessidades do século hodierno, reabra as suas portas. Faço votos para que o
vento do cimo da montanha, descendo por entre as verdes frondes dos laranjais e
dos mangueirais, ao espraiar-se pela planície lá embaixo, não murmure mais aos
ouvidos dos que passam: “Illinc campus ubi Troia fuit”, ali é o local onde foi
Troia, mas brade alto e bom som, “Illinc condita nova Hierosolima”, ali se
ergue uma nova Jerusalém”.
E uma “Nova
Jerusalém” foi erguida. Os votos do Prof. Luis
Furtado foram concretizados. Hoje, 35 anos após o memorável discurso, a Escola
se adaptou ao novo século e desafia o tempo. Com a denominação de Mosteiro dos
Jesuítas, a antiga Escola Apostólica foi revitalizada. Missas, retiros,
congressos, eventos, catequeses e grupos de oração lhe dão uma vida nova,
vibrante e perene.
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Baturité, 2 de dezembro
de 2012
Fonte: gravação feita pelo Capitão Miguel Edgy Távora Arruda com Ananias Arruda e exemplares do Jornal "A Verdade" de 1922.
fotos coloridas - ana margarida arruda rosemberg
foto preto e branco - acervo museu comendador ananias arruda
fotos coloridas - ana margarida arruda rosemberg
foto preto e branco - acervo museu comendador ananias arruda




Visitei a antiga Escola Apostólica, onde hoje sobressai o Mosteiro dos Jesuítas, no alto defronte à Cidade de Baturité, no Ceará - na verdade, uma nova Jerusalém, como bem pintou em 1977, o Prof. Luis Arruda Furtado, no momento em que proferiu um magnífico discurso para comemorar os 50 anos da Escola Apostólica, como se observa seguir: “Diz Virgílio na Eneida, que sentindo Enéas ser insustentável a situação de Troia, teria abandonado seus muros, levando aos ombros seu velho pai Anquises. Deixo, hoje, os muros desta Escola, levando aos ombros recordações guardadas por meio século, reminiscências acumuladas por 50 anos, que eu mesmo não sei como não as perdi, não as deixei cair uma a uma, pelos invios e tortuosos caminhos da vida. Mas, ao passar por entre as minhas duas velhas amigas, as palmeiras imperiais, São Pedro e São Paulo, faço votos para que esta Escola, amoldando-se às necessidades do século hodierno, reabra as suas portas. Faço votos para que o vento do cimo da montanha, descendo por entre as verdes frondes dos laranjais e dos mangueirais, ao espraiar-se pela planície lá embaixo, não murmure mais aos ouvidos dos que passam: “Illinc campus ubi Troia fuit”, ali é o local onde foi Troia, mas brade alto e bom som, “Illinc condita nova Hierosolima”, ali se ergue uma nova Jerusalém”.
ResponderExcluirJosé Maria de Carvalho - Professor.