Publicado no Jornal do Médico
Link, abaixo.
https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/JMe%CC%81dico-05-digital-setembro-web.pdf
A PROPÓSITO DO DIA NACIONAL DE COMBATE AO FUMO (29/08)
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Fortaleza, 18/9/2020
Até a década de 1970 as ações de combate ao tabagismo no Brasil foram incipientes, circunscritas e desencadeadas, em sua maioria, por médicos. Alguns pioneiros, como: Mário Rigatto, do Rio Grande do Sul, José Rosemberg, de São Paulo, e Jaime Zlotnik, do Paraná, tornaram-se grandes líderes desta luta.
Em 1976, o Professor José Rosemberg publicou o livro “Tabagismo - Sério Problema de Saúde Pública” e realizou, no ano seguinte, a Primeira Semana Antitabagismo da PUC-SP. Como desdobramento da referida semana, o tema tabagismo foi incluído no currículo médico da Faculdade de Medicina daquela instituição.
Também, em 1976, a Associação Médica do Rio Grande do Sul, através do Professor Mário Rigatto, instituiu o primeiro Programa Estadual de Combate ao Tabagismo do Brasil. Nos anos seguintes, as Sociedades Médicas criaram programas em diversos estados da federação e, somente, na década de 1990 os programas de combate ao fumo passaram para o âmbito dos governos estaduais.
Em janeiro de 1979, Antônio Carlos Campos Junqueira, Antônio Pedro Mirra, Almério de Souza Machado, Glacilda Telles Menezes Stewien, José Rosemberg, Luiz Carlos Calmon Teixeira, Mário Rigatto, Mozart Tavares de Lima, Roberto Bibas e Ruth Sandoval Marcondes lançaram a semente para a concretização de um Programa Nacional de Combate ao Fumo, que foi oficializado, em 12 de agosto de 1979, pela Associação Médica Brasileira.
Em março de 1979, sob a coordenação do Dr. José Silveira, o Instituto Brasileiro de Investigação Torácica – IBIT, na Bahia, realizou um Seminário sobre Tabagismo que resultou na histórica “Carta de Salvador”. Documento de extrema importância, a carta alertava os poderes públicos, às instituições médicas e à população sobre os malefícios do tabaco. Foram signatários da “Carta de Salvador” os seguintes doutores: Angelo Rizzo, Antônio Carlos Peçanha Martins, Antônio Pedro Mirra, Edmundo Blundi, Jaime Santos Neves, José Rosemberg e José Silveira.
Em 29 de agosto de 1980, a Sociedade Médica do Paraná lançou a “Greve do Fumo”, sob a liderança do Dr. Jayme Zlotnik. Em homenagem ao evento, esta data passou a ser o “Dia Nacional de Combate ao Fumo”. Nas primeiras décadas, depois de sua criação, era comemorado em inúmeros municípios do Brasil com uma corrida rústica, cujo slogan, “Largue o Cigarro Correndo”, inspirou centenas de fumantes a abandonarem o vício.
As comunidades religiosas participaram da luta, desde 1979, através da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, Igreja Católica e Centros Espiritas. O Rotary Club, Lions Club e Associação Cristã de Moços abraçaram, também, a causa.
Em 1984, foi criado o Comitê Coordenador do Controle do Tabagismo no Brasil tendo à frente o Professor Mário Rigatto, que foi o seu primeiro presidente. O Comitê esteve durante muitos anos sob a presidência do Professor Rosemberg e desdobrou-se em vários capítulos, nos estados, e, em subcapítulos, nos municípios.
Finalmente, em 1985, o Ministério da Saúde (MS) assumiu oficialmente a luta criando um Grupo Assessor para o Controle do Tabagismo no Brasil. Grupo eclético, composto por diversos representantes da sociedade, atuou junto ao governo para a criação da primeira lei federal de combate ao fumo. A referida Lei de nº 7.488 instituiu o dia 29 de agosto como o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Este grupo era composto pelo Senador Lourival Baptista, José Rosemberg, Mário Rigatto, Antônio Pedro Mirra, Edmundo Blundi, Geniberto Paiva Campos, Germano Gerhardt Filho, Guaracy da Silva Freitas, Jayme Santos Neves, Luiz Carlos Romero, Maria Goretti Pereira Fonseca, Paulo Roberto Guimarães Moreira, Pedro Calheiros Bonfim, Regina Celi Nogueira, Roberto Azambuja, Thomas Szego, Vera Luíza da Costa e Silva e Vitor Manuel Martinez.
Em 1991, a ação do MS foi transferida para o INSTITUO NACIONAL DE CÂNCER-INCA sob a coordenação da Dra. Vera Luiza da Costa e Silva. Divisor de águas na luta contra o tabaco no Brasil, o INCA instalou uma ampla rede de ações com abrangência nacional, concretizando, finalmente, a fase vitoriosa da luta.
Com a municipalização das ações de controle do tabagismo, o programa penetrou nas Empresas, Escolas e Unidades de Saúde em mais de 80% dos municípios brasileiros. Além dessas ações, o INCA realizou, em parceria com as Secretarias Estaduais de Saúde e o Comitê Coordenador de Controle do Tabagismo no Brasil, vários Congressos Brasileiros sobre Tabagismo.
O I Congresso foi realizado no Rio de Janeiro-RJ, em maio de 1994, sob a presidência de José Rosemberg; o II Congresso foi em Fortaleza-CE, em junho de 1996, sob à nossa presidência; o III Congresso foi em Porto Alegre-RG; o IV Congresso foi em Brasília-DF, e o V Congresso foi em Belo Horizonte-MG.
Além desses congressos, inúmeros eventos científicos e esportivos foram realizados, em todo o Brasil, para comemorar o Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio) e do dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto).
A inserção do tabagismo na sociedade brasileira, consequência de um processo histórico e social associado a capacidade da nicotina de causar dependência, teve graves consequências para a saúde pública da população.
As representações do tabagismo no imaginário social, sempre tiveram associadas, por um lado, as propagandas enganosas das multinacionais fumageiras e, por outro, pelas campanhas de saúde pública desencadeadas pelas Ongs e órgãos de saúde/educação do governo. Enquanto as multinacionais fumageiras associavam o vício de fumar à saúde, beleza, sucesso, status etc, os órgãos de saúde pública mostravam outra realidade associando-o a doença e a morte.
Como consequência deste embate, houve uma acentuada mudança das representações do tabagismo no imaginário social, evidenciada pela queda significativa da prevalência de fumantes no Brasil.
Em 1989, segundo pesquisa realizada pelo IBGE, 33% da população adulta brasileira fumava. De 2006 a 2009 o percentual de fumantes caiu de 15.7% para 14.3%, segundo inquéritos realizados pelo INCA. Continuou em queda progressiva, chegando, em 2019, a 9.8%.
Os resultados destes inquéritos nos mostram que a semente lançada pelos desbravadores desta luta não foi perdida em solo estéril. Custou a medrar. Foi lento o seu crescimento, porém floriu e frutificou para o bem e alivio das vítimas do tabaco.
Abriu-se, finalmente, a perspectiva auspiciosa de dias mais promissores e de triunfos sobre a grande pandemia.
REFERÊNCIAS
ROSEMBERG, José. Tabagismo – Sério Problema de Saúde Pública. São Paulo: Almed, 1987, p. 321.
https://www.inca.gov.br/en/node/1415
https://www.saude.pr.gov.br/sites/default/arquivos_restritos/files/documento/2020-04/ap_livro_alertafumo_ok4.pdf



