| Vovó Aida, Naná e Pepê |
Muitos me
perguntam, com visivel estranhamento, por que chamo minha neta, Ana Letícia, de
Naná e meu neto, Pedro Augusto, de Pepê.
Tudo começou quando eu estava cursando o
mestrado de História Social, na PUC-SP, e meu neto estava sendo gestado.
Lendo
e dissecando o livro de Gilberto Freyre, “Casa-Grande & Senzala”, descobri
uma interessante curiosidade que me deu a ideia de chamá-lo de Pepê e, assim, homenagear as amas negras, escravas no Brasil Colônia.
Transcrevo, abaixo,
o texto da página 243, da 2ª edição do livro de Freyre, editado pela SCHMIDT,
em 1936.
Em português arcaico, a segunda edição deste livro é uma verdadeira
preciosidade, pois o mesmo já possui mais de 50 edições. Além do mais, é uma
herança do querido Rose. Boa leitura!
"A linguagem
infantil também aqui se amolleceu ao contato da creança com a ama negra.
Algumas palavras, ainda hoje duras ou acres quando pronunciadas pelos
portugueses, se amaciaram no Brasil por influencia da bocca africana. Da bocca africana
alliada ao clima - outro corruptor das linguas européas, na fervura, por que
passaram na america tropical e sub-tropical. O processo de reduplicaçao da syllaba
tonica, tão das linguas selvagens e das linguas das creanças, actuou sobre
varias palavras dando ao nosso vocabulario infantil um espacial encanto. O
"doe" dos grandes tornou-se "dodoe" dos meninos. Palavra
muito mais dengosa. A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que
com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só
deixando para a boca do menino branco as syllabas molles. Dahi esse português
de menino que no Norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste
mundo. Sem rr nem ss; as syllabas finaes molles; palavras que só faltam desmanchar-se
na bocca da gente. A linguagem infantil brasileira, e mesmo a portuguesa, tem
um sabor quasi africano : cacá, pipi, bumbum, ten-tem, nênem, tatá, papá,
papato, lili, mimi, au-au, bambanho, côcô, didinho, bimbinha. Amollecimento que
se deu em grande parte pela acção da ama negra junto á creança; do escravo
preto junto ao filho do senhor branco. Os nomes proprios foram dos que mais se
amaciaram, perdendo a solemnidade, dissolvendo-se deliciosamente na boca dos
escravos. As Antonias, ficaram Dondons, Totonhas; as Therezas, Tetés; os
Manoeis, Nezinhos, Mandús, Manés; os Franciscos, Chicos, Chiquinhos, Chicós; os
Pedros, Pepês; os Albertos, Bebetos, Betinhos. Isto sem fallarmos das Yayás,
dos Yoyôs, das Sinhás, das Manús, Calús, Bembens, Dedés, Marocas, Nocas,
Nonocas, Gegês.”
Por isso, dobrei as
sílabas fortes de meus netos. No caso do Pepê, foi a primeira. No caso da Naná, foi a
última. Como os franceses chamam Ana de Aná, ficou Naná, uma doçura...
Ana Margarida
Furtado Arruda Rosemberg
Fortaleza, 31 de
julho de 2012
































