Nicotina é um alcaloide (substância orgânica
nitrogenada existente nas plantas e em alguns fungos), encontrado nas
folhas do tabaco (Nicotiana tabacum), planta originária das
Américas. Absorvida por via oral ou pulmonar, chega ao cérebro em
segundos e depois, dissolvida no sangue, vai sendo excretada
rapidamente. Quando os neurônios percebem que ela está escapando dos
receptores, provocam um grau de ansiedade que só quem foi fumante sabe o
que representa. É a crise de abstinência.
Entre as mais de 4.700 substâncias nocivas presentes no cigarro, a
nicotina é a responsável pela dependência, que é maior do que a de
drogas como a cocaína e a heroína. As primeiras tragadas que o indivíduo
dá na vida, em geral, são acompanhadas de tontura, enjoo, mal-estar.
Depois, trazem sensação de prazer fugidio e, a seguir, alterações de
humor causadas pela privação da droga. Assim, cigarro após cigarro, o
organismo do fumante e também o do não fumante que convive no mesmo
ambiente vai sendo minado e a saúde dos dois acaba seriamente
comprometida.
NICOTINA ALCALINA E NICOTINA ÁCIDA
Drauzio – Professor, gostaria que o senhor explicasse o mecanismo de que se vale a nicotina para chegar ao cérebro.
José Rosemberg – A nicotina pode
ser alcalina ou ácida. A ácida é ionizada, não atravessa as mucosas da
boca. Precisa percorrer a árvore brônquica até alcançar os alvéolos,
onde o ambiente alcalino favorece sua alcalinização. Através dos
pulmões, ela se difunde por todos os vasos e chega no cérebro.
A absorção da nicotina alcalina, que não é ionizada, ocorre na boca e
a droga é levada pelo sangue diretamente para o cérebro. Por isso,
enganam-se os fumantes de charuto e cachimbo que não tragam. Não faz
diferença tragar ou não, uma vez que a nicotina atravessa as células da
boca, vai para o sangue e chega ao cérebro do mesmo jeito.
O grande segredo, portanto, para estimular o consumo da droga é
utilizar nicotina alcalina, porque essa tem maior capacidade de
penetração e gera maior dependência. Quem descobriu isso foi a Phillip
Morris que adicionou amônia ao tabaco e produziu o cigarro Marlboro. O
sucesso de vendas desse cigarro rico em amônia, que liberava rapidamente
a nicotina, foi tão grande que essa empresa desbancou a British America
Tobacco, da qual a Souza Cruz era a subsidiária brasileira, e assumiu a
liderança mundial de vendas. Hoje, não há mais novidade. Todos os
fabricantes adicionam elementos alcalinos à nicotina.
Drauzio – Por que as pessoas fumam mais quando tomam álcool?
José Rosemberg – A razão é simples. O álcool
acidifica a urina. Essa acidificação faz com que a nicotina seja
eliminada mais rapidamente, porque ela não é absorvida pelos túbulos
renais. Sem a droga, o fumante fica ansioso e acende outro cigarro. Por
isso, quem fuma e toma álcool acaba fumando muito mais.
AÇÃO NOS CENTROS NERVOSOS
Drauzio – Como a nicotina age nos centros nervosos?
José Rosemberg – Quem fuma um
cigarro dá seguramente dez tragadas em média. Se fumar um maço por dia,
serão duzentas tragadas em vinte e quatro horas e 73 mil num ano, o que
resula em 73 mil impactos no cérebro por ano. O conceito de que a cada
tragada corresponde um impacto cerebral não é verdadeiro. Aliás, nenhuma
droga age dessa forma no cérebro.
O que acontece? A ação da nicotina é permanente no cérebro. Quando
está presente, todos os centros nervosos – o dopamínico, o mesolimbo, o
núcleo acumbens – a reconhecem e uma série de centros e neurônios
nicotínicos, com várias subunidades, atuam se revezando: quando uns
caem, outros começam a funcionar. Portanto, a nicotina continua agindo
no cérebro, mesmo à noite, enquanto a pessoa dorme e não está fumando.
Drauzio – Como se explica que algumas
pessoas consigam manter-se como fumantes moderados e fumem no máximo dez
cigarros por dia, enquanto outras fumam três ou quatro maços?
José Rosemberg – Essa pergunta é
fundamental, porque até mesmo parte dos médicos desconhece a resposta
que é importante para o tratamento do fumante. O grau de dependência
varia de acordo com as características genéticas, coisa que não se sabia
até alguns anos atrás.
A metabolização da nicotina ocorre no fígado, num sistema chamado
citocromo 450. Normalmente, 80% dela são metabolizados em 15 minutos.
Entretanto, até bem pouco tempo não se sabia que a metabolização cai
quando no DNA um dos 20 alelos, isto é, das 20 variedades do gene
CYP2A6, é heterozigótico ou nulo. Há indivíduos que têm dez desses
alelos geneticamente heterozigóticos e, embora metabolizem menos
nicotina e tenham menos propensão para criar dependência, fumam mais. Já
se descobriu, também, que o gene DRD2, quando heterozigótico, confere
ao portador enorme compulsão para o consumo de tabaco e de qualquer
outra droga.
Indivíduos que têm o gene CYP2A6 consomem grande quantidade de tabaco
e têm no sangue grande quantidade de cotinina, o primeiro metabólito da
composição da nicotina. Quando metabolizam pouca nicotina, têm muita
nicotina no sangue e pouca cotinina, porque, apesar de circular pelo
sangue, a nicotina não alcança os outros órgãos.
Se a ação da nicotina for muito forte, há uma pausa negativa na
resposta dos centros cerebrais, principalmente do núcleo acumbens e dos
centros dopamínicos (a dopamina é responsável pela sensação de prazer
maior). Como isso aumenta a vontade de fumar e a ansiedade, a pessoa
precisa fumar de novo para compensar as unidades que foram sideradas.
Há mais de cem anos, o grande poeta e escritor Oscar Wilde definiu o
cigarro como objeto do prazer requintado, mas que deixa descontente.
Hoje, conhecemos a explicação genética desses efeitos: a queda da
dopamina provocada pela fase negativa dos centros nervosos faz com que o
fumante se sinta mal e precise fumar outra vez.
Drauzio – Existe como medir o grau de dependência da nicotina?
José Rosemberg – Não existe um
método para medir a dependência. Existe o questionário de Fagerström do
qual constam várias perguntas. Por exemplo, quanto tempo o indivíduo
leva para fumar o primeiro cigarro pela manhã, quantos cigarros fuma por
dia, se acorda à noite para fumar, etc. Quanto mais pontos fizer, maior
será o grau de dependência.
Já se sabe, porém, que 30% dos fumantes não se tornam
nicotino-dependentes ou apresentam grau baixo de dependência. Nesses
casos, simples aconselhamento será suficiente para convencê-los a parar
de fumar. Nos outros 70%, o número de recaídas costuma ser muito alto.
DEPENDÊNCIA NA MULHER
Drauzio – É mesmo mais difícil para a mulher largar de fumar?
José Rosemberg – A diversidade genética é maior nas
mulheres do que nos homens. Com mais frequência, o gene integral CPY2A6
está presente nelas. Consequentemente, mesmo quando decidem parar de
fumar, a capacidade maior de decompor a nicotina faz com que sejam mais
frequentes as recaídas.
Além disso, pesam fatores psicológicos. A nicotina consome calorias
e, geralmente, o indivíduo ganha um ou dois quilos quando pára de fumar,
mas depois seu peso equilibra. Se tiver um problema genético hormonal,
acabará engordando mais. Ora, mulheres têm pavor de engordar e muitas
continuam fumando por medo de ganhar peso. Elas não sabem que fumante
magro morre mais por doenças do que não fumante gordo.
FUMANTES PASSIVOS
Drauzio – Em quanto tempo a nicotina de cada cigarro é excretada?
José Rosemberg – A
nicotina se decompõe em duas horas. No entanto, a cotinina leva de 30 a
40 horas para ser decomposta. Se a dosarmos no sangue, saberemos se o
indivíduo fumou ou teve contato com fumantes no dia anterior.
Está provado que, mesmo não fumando, a pessoa será
um fumante passivo, se trabalhar em ambiente onde as outras pessoas
fumam. Experiência com aeromoças não fumantes, dosando a nicotina e a
cotinina antes de embarcarem em Nova York e, depois, quando
desembarcavam em Tóquio, demonstrou que aquelas que trabalhavam com o
serviço de bordo na área dos fumantes tinham quantidade dessas drogas no
sangue igual à das pessoas que fumaram cinco cigarros.
Vários estudos chegaram à mesma conclusão: passar o dia inteiro num
ambiente ao lado de fumantes é o mesmo que fumar de cinco a dez
cigarros, porque as substâncias cancerígenas do tabaco evolam-se e
homogeneízam-se na atmosfera. Depois de duas horas, não faz diferença
estar sentado longe ou perto do fumante. Por isso, separar fumantes dos
não fumantes em bares e restaurantes, embora tenha valor psicológico,
não tem nenhum valor científico, porque todos os frequentadores serão
intoxicados pela nicotina.
Drauzio – O senhor poderia explicar o que acontece com os não fumantes expostos a ambientes onde se fuma?
José Rosemberg - Está provado que o
fumante passivo corre risco maior de infarto e de câncer de pulmão.
Estudo realizado em 22 países sobre essas doenças mostrou que sua
incidência está acima de 50% nos não fumantes que frequentam lugares
onde se fuma.
Câncer de pulmão é tido como fator A na poluição tabágica ambiental por
causa da capacidade de angiogênese da nicotina, ou seja, de sua
capacidade para criar novos vasos sanguíneos. Assim, onde houver uma
célula cancerosa, esses novos vasos a nutrirão melhor e ela se
reproduzirá mais depressa.
Por outro lado, o gene CYP2A6 tem a propriedade de ativar nitrosamina
da qual derivam quatro substâncias tóxicas cancerígenas específicas do
tabaco e que não existem em nenhuma outra planta. Uma delas é tão
cancerígena que basta uma pincelada no dorso de um hamster para provocar
tumor cancerígeno. Como essas substâncias se difundem na atmosfera dos
lugares onde se fuma, um dos pontos fundamentais da Convenção-Quadro
aprovada por 192 países, em 2003, refere-se à poluição tabágica
ambiental como fator de morte. Por essa razão, fumar deve ser proibido
em todos os lugares públicos, uma vez que o homem moderno passa a maior
parte do tempo em ambientes fechados, nos quais 80% da poluição resultam
do consumo de tabaco.
Drauzio – E ao ar livre, existe perigo?
José Rosemberg - A poluição nicotínica pode ser forte mesmo ao ar livre. Exame de sangue feito nos guardas da Trafalgar Square,
em Londres, revelou presença de nicotina e de monóxido de carbono, este
por causa dos automóveis, e a nicotina porque as pessoas fumavam na
rua, a céu aberto.
Outro exemplo é o da Praça Vermelha em Moscou, que tem a sua volta o
Kremlin, a Igreja de São Pedro, shoppings e museus. Essas construções
impedem que o ar circule facilmente. Antes de a União Soviética ser
desfeita, formavam-se filas de 20 a 30 mil pessoas que fumavam enquanto
aguardavam a vez de aproximar-se do túmulo de Lênin. Estudo realizado na
época mostrou que a quantidade de nicotina ali represada era tão grande
que, nos últimos anos do governo comunista, foi proibido fumar nessa
praça.
CRISE DE ABSTINÊNCIA
Drauzio – O senhor e eu já fomos fumantes e experimentamos a crise de abstinência de nicotina na pele. Como o senhor venceu esse problema?
José Rosemberg – Fui fumante na mocidade. Estudei na
França durante dez anos. Apesar de já estar formado em medicina, levava
vida de estudante, com pouco dinheiro. Por isso, fumava Gauloise
,um cigarro barato, sem filtro, um verdadeiro quebra-peito e um charuto
muito vagabundo. Quando só restava um pedacinho e não era possível mais
segurá-lo entre os dedos, colocava-o na panela de um cachimbo para
fumá-lo até o fim.
Um dia, Etienne Bernard, meu professor de tisiologia, me disse –
”Rosemberg, você é médico, vai ser tisiólogo, e fuma. É uma vergonha!” –
e eu lhe prometi, como costumam fazer os fumantes: “Tal dia, à
meia-noite, paro de fumar”.
Ítalo Svevo, escritor italiano precursor da ficção moderna nascido no
século XIX, também marcava datas para largar de fumar. Dizia que,
quando houvesse dois 9 no dia do mês ou no número do ano, pararia de
fumar. É obvio que nunca parou, mas eu cumpri o que havia prometido.
Passei muito mal durante um mês inteiro. Nervoso, não conseguia me
concentrar. Tenho a impressão, porém, que não possuo esse gene
homozigótico integral e a vontade foi diminuindo aos poucos. No entanto,
veja o que é a dependência de nicotina. Na época, eu tinha 25, 26 anos,
mas ainda hoje, quase setenta anos depois, sonho que estou fumando e a
sensação é muito gostosa.
Drauzio – O senhor largou de fumar há quase setenta anos e ainda sonha que está fumando?
José Rosemberg – Nesses anos todos,
tive uma ou outra recaída, que consegui superar, mas até hoje guardo
uma coleção de cachimbos, cara e bonita, que mostro de vez em quando.
Cito esse exemplo de que parar de fumar não é uma decisão determinada
só pela vontade do fumante. Ele é um dependente de nicotina e pode ter
um problema genético que necessita de tratamento.
Drauzio – Algumas pessoas não conseguem deixar de fumar nunca.
José Rosemberg – Não há tratamento para os 5% de fumantes com dependência muito forte da nicotina. Esses estão fadados aa morrer fumando.
TRATAMENTO
Drauzio – Em que consiste o tratamento para os fumantes?
José Rosemberg – Podemos contar com a reposição de
nicotina e com os antidepressivos. Além disso, descobriu-se uma
substância chamada Metoxalem, que tem a propriedade de decompor o gene
CYP2A6 e, quando ele não é codificado, a tendência para fumar é menor.
Estudos clínicos e em ratos de laboratório já provaram a eficácia dessa
substância e espera-se de daqui a quatro ou cinco anos esteja à
disposição no mercado. Além dessa há outra, a Nortriptilina, com ação
semelhante, porém, menos intensa.
A grande esperança, porém, está na vacina contra a nicotina, que já
tem nome – Nicvacs – e está na fase dois de pesquisa clínica. O processo
de obtenção é mais ou menos o seguinte: liga-se a nicotina, que tem
peso molecular muito baixo, a uma proteína de peso molecular alto.
Fundem-se as duas. Prepara-se um anticorpo que reconhece essa junção e
não atravessa a membrana cerebral. O indivíduo pode tragar que a
nicotina não chega ao cérebro, porque foi anulada pelos anticorpos.
Drauzio – Mas não fica a vontade permanente de fumar?
José Rosemberg – A vontade de fumar vai caindo aos
poucos e, mesmo que não desapareça, a pessoa não sentirá prazer, porque a
nicotina não chegará ao cérebro. Espera-se que daqui a dez anos ou um
pouco antes, talvez, essa vacina esteja à disposição para ser
comercializada.
Drauzio – Será uma grande conquista…
José Rosemberg – Especialmente para
os jovens, porque as campanhas educativas são absolutamente inócuas
para eles. Não adianta chegar para um menino de 14 anos e dizer que terá
um câncer aos 40, se continuar fumando. Ele se julga eterno e tem
certeza de que essas coisas só acontecem com os outros. No entanto, se
tomar a vacina contra o tabaco, a vontade de fumar irá diminuindo.
Na verdade, os pediatras têm importância fundamental nesse trabalho,
porque crianças e adolescentes estão começando a fumar cada vez mais
cedo. Os pediatras sabem que filhos de pais fumantes têm maior
incidência de pneumonia, broncopneumonia, bronquiolite, amidalite,
sinusite e de até surdez. Aconselhando os pais a não fumarem, eles
estarão desempenhando papel importante na luta contra a epidemia
tabágica pediátrica que estamos vivendo.
MENSAGEM PARA OS FUMANTES
Drauzio – Que mensagem o senhor pode deixar para os fumantes?
José Rosemberg – Se você fuma e tem
filhos, lembre-se de que está prejudicando tremendamente a saúde de
suas crianças. Muitas doenças que elas adquirem na infância, porque são
fumantes passivas, irão repercutir na idade adulta.
Se você não consegue deixar de fumar, pelo menos tenha força de vontade
para não fumar em casa. Não adianta acender o cigarro na sala de jantar
enquanto a criança dorme no quarto. Se dosarmos a nicotina na urina de
seu filho, veremos que ele respirou o ar poluído pelo cigarro que você
fumou.
Não é novidade que a expectativa de vida do fumante é, em média, de
20 a 25 anos menor do que a do não fumante. Você não acha um absurdo
concordar em viver menos? Procure um centro de tratamento. Há muitos e
são gratuitos.O Incor e a Escola Paulista de Medicina, por exemplo,
oferecem esse tipo de assistência. Além da dependência física, existe um
componente psicológico muito forte provocado pelo hábito de fumar que
precisa de atenção especial. Eu e muitos outros vencemos essa batalha.
Você vencerá!
Sabemos que o Capitão foi considerado um dos melhores prefeitos de Baturité. Estamos (nós baturiteenses) devendo um reconhecimento.
Luiz Carlos
www.putiu.net@hotmail.com