Foto do site: Mosteiro dos Jesuítas
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foto: acervo Museu Comendador Ananias Arruda
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foto: acervo Museu Comendador Ananias Arruda
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| foto: acervo Museu Comendador Ananias Arruda |
A Escola Apostólica dos padres Jesuítas de Baturité foi solenemente inaugurada, em 15 de agosto de 1927.
Os primeiros cinco alunos chegaram dia 18 de agosto do mesmo ano; quatro deles de Baturité: Edmundo Silveira Flores, Luiz Dória, José Furtado e Luiz Arruda Furtado (meu querido tio, irmão de minha mãe, que lá estudou até a idade de 18 anos, quando saiu com imensa bagagem cultural).
Contava meu tio Luiz que, graças ao clima maravilhoso da serra e a alimentação saudável e rica em frutas, verduras e legumes, nunca teve uma gripe sequer. Só foi acometido de “dordolho”.
Contava muitas estórias do tempo que lá passou, porém, a mais impressionante, foi quando perdeu seu amigo e primo José Furtado, que caiu de um pé de pitombas, no sítio caridade, quando o galho, não aguentando o seu peso, partiu-se e ele despencou em um abismo fraturando as costelas e morrendo com hemorragia interna.
Tio Luiz, que estava em sua companhia, ficou encolhido, tremendo feito vara verde, em cima de outro galho, e de lá só saiu quando um padre foi buscá-lo. Foi uma tragédia!
Centenas de jovens de Baturité, do Ceará e do Nordeste estudaram na Escola Apostólica, inclusive meu pai, que muito se orgulhava disso.
Contava ele que foi interno lá bem pequeno e que os padres o obrigavam ao banho diário com água gelada, apesar do frio da serra. Para fugir de tal tortura, meu pai molhava apenas os cabelos e, durante muito tempo, conseguiu ludibriar os padres, que um belo dia descobriram a travessura.
Meu pai participava do coral com sua bela voz. Os padres teciam elogios e ele fazia solos magníficos.
Celeiro de cultura, a Escola prestou inestimável serviço àquela região do Brasil, pois difundiu conhecimentos e preparou centenas de jovens para o apostolado.
Assim, os jesuítas, com sua Escola Apostólica, transformaram Baturité em um oásis de conhecimento encravado no nordeste do país.
Ensinava-se teologia, ciências gerais, história, matemática, latim, italiano, francês, português, e até grego. Recitava-se a “Odisséia”, de Homero, a “Divina Comédia”, de Dantes, “Édipo o Rei”, de Sófocles, o teatro de Corneille, e Racine e os “Sermões Discursos”, de história universal de Bossuet.
Baturité foi, portanto, uma ampla janela de cultura.
A história dos jesuítas começa em Paris, na colina de Montmartre, hoje dominada pela majestosa Igreja Sacré Coeur, de estilo romano-bizantino, e visitada por milhares de turistas do mundo inteiro.
Em 15 de agosto de 1534, em um convento dos padres beneditinos, situado em Montmartre, o piedoso fidalgo espanhol Inácio de Loyola fundou, com um grupo de amigos, a Organização Companhia de Jesus, que foi aprovada pelo papa Paulo III, em 1540.
Crescendo rapidamente através da Europa, em 1626, já contava com 15 mil membros (padres e irmãos) distribuídos em 35 províncias.
Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549, na expedição de Tomé de Souza, tendo como superior o Padre Manuel da Nóbrega.
Desembarcaram na Bahia, onde construíram sua primeira Igreja e ajudaram na fundação de cidade de Salvador. Logo difundiram-se em diversos Estados.
Em 1553, com o 2º Governador Geral Duarte da Costa, chegou ao Brasil o jovem José Anchieta, que fundou o colégio São Paulo, origem da futura cidade.
Em 1554, 26 religiosos, distribuídos por Piratininga, São Vicente, Bahia, Porto Seguro, e Espírito Santo, construíram Igrejas, criaram missões para catequese dos índios, e fundaram colégios.
Em 1570, o beato Inácio de Azevedo e 39 companheiros, mártires do Brasil, foram afogados no mar pelos calvinistas perto das ilhas Canárias.
No ano seguinte, outros 12 missionários jesuítas que vinham para o Brasil sofreram o mesmo martírio.
Provavelmente, o afresco que tem na capela dos Jesuítas de Baturité retrata um desses dois trágicos episódios.
No princípio do século XVII, os jesuítas chegam ao Ceará, Piauí, Maranhão, e daí para toda a Amazônia.
Os primeiros padres que penetraram nos sertões do Ceará foram os Jesuítas Luiz Figueira e Francisco Pinto, em 1607.
Em 1638, Pernambuco é tomada por holandeses protestantes, liderados pelo Conde Maurício de Nassau. A resistência se organizou em uma aldeia dos jesuítas, e dos 33 padres de Pernambuco, mais de 20 foram presos e levados para a Holanda, onde muitos morreram.
Em 1652, apareceu no Nordeste a figura do padre Antonio Vieira. Apesar de seus triunfos oratórios e políticos em defesa da liberdade dos índios, foi expulso pelos colonos do Pará.
Em 1759, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal e houve perseguição implacável aqui no Brasil e em outros países.
Em 1777, com a morte de D. José I e a subida ao poder de D. Maria I, o Marquês de Pombal foi processado e condenado.
Em 1814, o papa Pio VII restaurou a Companhia de Jesus.
A partir de 1845, os jesuítas abriram colégios em diversas capitais do Brasil e Faculdade de filosofia em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Em 1911, voltaram ao norte do Brasil e fundaram o colégio Antonio Vieira, em Salvador, e o colégio Nóbrega, em Recife (1917), que preparou a atual Universidade Católica de Pernambuco.
Fundam residências importantes em Belém, Pará, e São Luiz do Maranhão.
Finalmente, em 1927, para a formação de novos jesuítas construíram a Escola Apostólica e o noviciado de Baturité, no Ceará, e mais tarde o Colégio Santo Inácio, em Fortaleza.
Se fizermos um balanço da ação dos primeiros jesuítas no Brasil, veremos que eles foram o amparo dos indígenas, contra a crueldade dos governantes e a ambição dos colonizadores.
Mais recentemente, tiveram, e têm, um papel fundamental na educação dos jovens, em todo o Brasil.
Ana Margarida F. Arruda Rosemberg
São Paulo, julho de 2003.



