98. Retirantes (Retirantes)
— 1944
Ficha Técnica
Autor: Cândido Portinari (1903-1962)
Título: Retirantes (Os Retirantes)
Ano:1944
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões:190
x 180 cm
Localização atual: Museu de Arte de São Paulo (MASP) – Brasil
Crédito da Imagem:
OS RETIRANTES: fome, doença e
exclusão social
“Os retirantes vêm vindo com
trouxas e embrulhos /
Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos /
Doloridos como fagulhas de carvão aceso.”
Cândido Portinari
Na tela Retirantes, integrante da série composta
também pelas obras Criança Morta e Enterro na Rede, Cândido
Portinari retrata uma família anônima de retirantes nordestinos, composta por
nove pessoas: três adultos, uma adolescente e cinco crianças. A composição
apresenta dois planos distintos: o primeiro plano e o plano de fundo. No
primeiro plano, observam-se duas unidades compositivas. À esquerda, uma unidade
menor formada por um velho apoiado em um cajado e uma adolescente segurando uma
criança nos braços. À direita, uma unidade maior reúne uma mulher com uma
trouxa sobre a cabeça e um recém-nascido nos braços, além de um homem
acompanhado de três crianças. No plano de fundo, a tela divide-se em duas áreas
principais. A porção superior, ocupando aproximadamente dois terços da
composição, apresenta um degradê de azul que vai do tom escuro ao branco. Na
região mais clara observam-se esboços de montanhas e, no canto superior
direito, a lua. O terço inferior exibe tonalidades marrons repletas de pedras e
carcaças de animais, enfatizando a devastação provocada pela seca.
As personagens aparecem desnutridas e fragilizadas,
vítimas da fome e das condições extremas do sertão nordestino. A pele
ressequida e castigada pelo sol reforça a dramaticidade da cena. A paisagem
árida, construída com tons acinzentados, azulados e escuros, produz atmosfera
fúnebre, intensificada pelos urubus que sobrevoam o grupo, sugerindo a
proximidade constante da morte. A mulher, carregando um recém-nascido envolto
em tecido branco, apresenta expressão marcada pela angústia e pelo sofrimento.
O homem, maltrapilho e de olhar assustado, usa chapéu de palha, leva uma trouxa
ao ombro e conduz uma criança pela mão. O menino localizado à frente apresenta
abdome distendido, característica associada popularmente à “barriga d’água”,
manifestação frequentemente relacionada à Esquistossomose causada pelo verme Schistosoma
mansoni. À esquerda, o velho apoiado no cajado revela sinais evidentes de
desnutrição e expressão de horror. A adolescente sustenta uma criança
extremamente magra e debilitada.
Todos os personagens demonstram sofrimento
profundo, traduzido pelas expressões faciais e pela debilidade física. A obra
retrata o drama histórico da migração de famílias nordestinas que abandonavam
suas terras assoladas pela seca em busca de sobrevivência nas regiões Sul e
Sudeste do Brasil. Utilizando elementos do expressionismo e do cubismo,
Portinari transforma a pintura em denúncia social da fome, da miséria e das
desigualdades brasileiras. No contexto da arte e medicina, a obra constitui
poderoso documento visual sobre desnutrição, doenças parasitárias, pobreza
extrema e sofrimento humano coletivo.
Biografia de Cândido Portinari
(1903-1962)
Filho de imigrantes italianos,
Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, Cândido Portinari nasceu em 30
de dezembro de 1903, na Fazenda Santa Rosa, próxima à cidade de Brodowski,
interior de São Paulo e faleceu, em 1962, no Rio de Janeiro. De origem humilde, tornou-se um
dos maiores artistas brasileiros do século XX. Ainda criança demonstrou talento para o desenho e, em 1918, participou
da restauração da igreja de Brodowski, auxiliando pintores e escultores
italianos itinerantes. Em 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na
Escola Nacional de Belas Artes.
Em 1928, conquistou a Medalha de
Ouro do Salão Nacional de Belas Artes com a obra Retrato de Olegário Mariano,
recebendo prêmio de viagem à Europa. Durante os dois anos que passou em Paris,
Portinari teve contato com importantes artistas, frequentou museus e conheceu
sua futura mulher, a uruguaia Maria Martinelli (1912-2006). Em Paris, vendo sua
terra à distância, escreveu: “Vou pintar aquela gente com aquela roupa e com
aquela cor...”
Em 1931, Portinari retornou ao Brasil casado
com Maria, que foi seu esteio, suporte e âncora, por proporcionar-lhe total e
exclusiva dedicação à pintura. Em 1935,
com a obra “Café”, importante marco de sua pintura social, Portinari conquistou
menção honrosa e inúmeros elogios de críticos americanos, na Exposição
Internacional de Arte Moderna do Instituto Carnegie, em Nova Iorque.
Portinari retratou a história e a cultura do
povo, revelando, assim, a alma do brasileiro. Sensível ao sofrimento de sua
gente, mostrou, em cores fortes, os plantadores de café, os trabalhadores, a
dor e a miséria dos retirantes nordestinos. Sua faceta lírica o fez pintar os
meninos de Brodowski, com suas brincadeiras, danças e cantos.
Em 1939, nasceu João Candido, filho único do
casal Portinari. João se dedica, desde
1979, ao “Projeto Portinari” e define o seu pai com a palavra “Amor”, pois em
sua obra a luta por valores humanos e socais é permanente.
Portinari realizou exposição individual em
Nova Iorque e em Paris, entre outras cidades; pintou os murais da Biblioteca do
Congresso Americano, em Washington; do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de
Janeiro; decorou a Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, em Belo
Horizonte, com os murais “São Francisco” e “Via Sacra”;
pintou os painéis: “Tiradentes”, “A Primeira Missa no Brasil” e os da Igreja
Matriz de Batatais-SP; pintou, entre
outras séries, “Meninos de Brodowski” e “Os Retirantes”(Criança Morta, Enterro
na Rede e Retirantes) onde denuncia a profunda desigualdade social do Brasil.
Em 1941, demonstrando singelo amor por sua
avó paterna Pellegrina, que doente não podia se locomover para ir à Igreja
rezar, Portinari pintou, em um dos cômodos da residência da família, em
Brodowski, a “Capela da Nonna”. Para a
decoração, Portinari pintou os santos prediletos de sua avó, em tamanho
natural, usando como modelos os familiares e amigos.
Portinari foi um dos maiores pintores
brasileiros de todos os tempos, deixando um legado de mais de cinco mil obras
de arte. Participou de exposições em vários países do mundo. Foi consagrado em
São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Nova Iorque, Montevidéu, Varsóvia, entre
outras cidades. O governo francês o condecorou com a medalha “Legião de Honra”
(1946).
Já doente, intoxicado pelo chumbo das tintas,
aceitou, em 1952, a incumbência de pintar dois painéis para a ONU, “Guerra e
Paz”, de 10 x 14 m cada, concluindo-os, em 1956. O tema da guerra foi inspirado
por “Quatros Cavaleiros do Apocalipse”, da bíblia, e o da Paz, pela tragédia
grega Eumênides, de Esquilo, em visão livre.
O artista Enrico Bianco disse que
"Guerra e Paz" são as duas grandes páginas da emocionante
comunicação, que o pintor entrega à humanidade. Segundo seu filho, João
Candido, esta grandiosa obra universal é um diálogo entre o trágico e o lírico,
entre a fúria e a ternura, entre o drama e a poesia.
Sua faceta de poeta o levou a escrever
poemas, com temas sociais, traduzindo poeticamente sua obra plástica. Em um texto, Portinari escreveu:
"Impressionavam-me os pés dos
trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma
história. Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés sofridos com muito e
muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil
era distingui-los. Os pés e a terra tinham a mesma moldagem variada. Raros
tinham dez dedos, pelo menos dez unhas. Pés que inspiravam piedade e respeito.
Agarrados ao solo eram como os alicerces, muitas vezes suportavam apenas um
corpo franzino e doente. Pés cheio de nós que expressavam alguma coisa de
força, terríveis e pacientes."
Portinari
ilustrou, através da “Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil”, as obras
literárias: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1944) e “O Alienista” (1948).
Atuante no movimento político-partidário,
Portinari candidatou-se pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) a deputado
federal (1945) e a senador (1947) sem conseguir eleger-se. Perseguido no
Brasil, por ser comunista, exilou-se durante algum tempo, no Paraguai. Portinari
nunca se afastou de suas convicções ideológicas. Sua militância política é
absolutamente fiel e coerente com sua pintura. Ironicamente, Portinari foi
proibido de participar da inauguração dos painéis “Guerra e Paz”, ao ter o
visto de entrada nos EEUU negado, por pertencer ao PCB, e faleceu sem vê-los
expostos na ONU.
Em 1960, quando nasceu sua neta Denise, ele
escreveu: “Minha neta me libertará da solidão”. Denise foi retratada
pelo avô inúmeras vezes, em telas líricas.
Portinari faleceu no dia 6 de fevereiro de
1962, aos 58 anos, intoxicado pelo chumbo das tintas (saturnismo). Presentes no
velório: Juscelino Kubitschek; Hermes Lima, representando o Presidente João
Goulart; os líderes comunistas na clandestinidade, Luís Carlos Prestes e Carlos
Marighela; o líder anticomunista e governador do Estado da Guanabara, Carlos
Lacerda. A Presidência da República emitiu nota de pesar e foi decretado luto
oficial de três dias no Estado da Guanabara. Portinari, ícone do modernismo brasileiro,
ao colocar o homem como tema central de sua arte, nos lega uma mensagem de
humanismo universal.
Referências
Cândido Portinari. Portinari Poeta. Rio de
Janeiro: Projeto Portinari, 1990.
Fabris, Annateresa. Cândido Portinari. São Paulo:
Edusp, 1996.
Projeto Portinari. Acervo e documentação histórica de
Cândido Portinari.
Retirantes. 1944. Óleo sobre tela. Acervo do Museu de
Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.
Schwarz, Roberto. Sequências Brasileiras. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Scliar, Moacyr. A Paixão Transformada: História da
Medicina na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Abril Cultural. Gênios da Pintura: Portinari. São
Paulo: Abril Cultural, n. 6, 1967.