É um Blog para divulgar, preservar e mostrar a importância da: História, Memória, Literatura, Medicina e Arte em nossas vidas.
domingo, 31 de maio de 2026
sábado, 30 de maio de 2026
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Arte & Medicina - Os fumadores - 1626
40. Portraits de trois artistes en buveurs et fumeur (Simon de Vos, Jan Cossiers, Johann Geerlof). Autre titre : Les Fumeurs (Retratos de três artistas que bebiam e fumavam (Simon de Vos, Jan Cossiers, Johann Geerlof). Outro título: Os Fumantes) — 1626
Ficha Técnica
Artista: Simon de Vos (1603–1676)
Título original: Portraits de trois artistes en buveurs et fumeurs
(Simon de Vos, Jan Cossiers, Johann Geerlof)
Título em português: Retratos de três artistas como bebedores e fumantes
Outro título: Les Fumeurs (Os Fumantes)
Data: 1626
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 63 × 93 cm
Localização atual: Musée du Louvre, Paris, França
Crédito da imagem: Fotografia
da autora, acervo pessoal
O
COTIDIANO EM CENA: Entre o Vinho e a Fumaça
“A amizade, como a arte, ilumina até
os detalhes mais sombrios da vida.”
Autor desconhecido
Esta tela, um retrato triplo de 1626, mostra Simon de Vos entre dois
amigos artistas, Jan Cossiers (1600–1671) e Johan Geerlof, em
Aix-en-Provence-França, onde residiam diversos artistas dos Países Baixos.
A obra utiliza a técnica do chiaroscuro, inspirada no Caravagismo de
Utreque (artistas barrocos influenciados por Caravaggio). O quadro retrata os
três jovens fumando cachimbo e bebendo, em uma composição intimista. As figuras
apresentam traços característicos das primeiras pinturas de Simon de Vos:
rostos robustos, olhos levemente afastados. Uma inscrição intrigante do pintor
diz: “Fecit Simon Cossiers Geerlof Anno 1626”. A frase pode ser interpretada
como um trocadilho ou como uma homenagem aos dois amigos artistas.
A paleta utilizada combina tons escuros com detalhes de renda branca,
criando contraste e luminosidade. Os rostos, iluminados a partir do lado
esquerdo da tela, se destacam sobre um fundo neutro. A posição das cabeças, três
quartos, fullface e perfil, transmite diferentes facetas de uma única amizade,
conferindo à obra profundidade psicológica e equilíbrio formal.
Embora a pintura não trate de questões médicas diretamente, ela documenta
o consumo de álcool e tabaco no século XVII. Esses hábitos, comuns entre
artistas e elites urbanas, eram vistos como sociabilidade e lazer. Hoje,
sabemos que o álcool e o tabaco têm efeitos adversos à saúde, incluindo doenças
cardiovasculares, respiratórias e transtornos por uso de substâncias. A obra
funciona, assim, como um registro histórico das práticas cotidianas antes da
medicalização moderna do comportamento humano.
Biografia resumida Simon de Vos (1603-1676)
Simon de Vos nasceu em 1603, em
Antuérpia-Bélgica, e faleceu em 1676, aos 72 anos, na mesma cidade. Durante sua
carreira, fez uma estadia em Roma, onde entrou em contato com as tendências
barrocas italianas. Até 1640, seu estilo se assemelhava ao de seus contemporâneos
Dirck Hals e Pieter Codde.
Após 1640, sob a influência de Peter
Paul Rubens e Antoine van Dyck, passou a dedicar-se a obras históricas e
religiosas de grandes dimensões. Entre suas realizações destacam-se: Série de doze pinturas sobre a
Criação, descrita no Gênesis (1635–1644), parcialmente na Catedral de Sevilha; A
Adoração dos Magos (1643); O Martírio de São Pedro (1648). Em 1626,
Simon de Vos casou-se com a irmã do pintor Adriaen van Utrecht,
estabelecendo-se em seu estúdio em Antuérpia, onde passou a maior parte de sua
vida.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
ARTE & MEDICINA - 96. As Duas Fridas — 1939
96. Las dos Fridas (As Duas Fridas) — 1939
Descrição Técnica
Autora: Frida Kahlo (1907-1954)
Título: Las dos Fridas (As Duas Fridas)
Ano: 1939
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 173 x
173,5 cm
Localização atual : Museu de Arte Moderna do México, Cidade do México
Crédito
da Imagem: Domínio público
AS DUAS
FRIDAS: dor, identidade e anatomia emocional
“Pinto a
mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”
Frida Kahlo
Na tela “As duas Fridas”, em primeiro plano, vemos duas mulheres
sentadas, sobre um banco verde, de mãos dadas. São duas representações da
própria Frida Kahlo. A da direita está vestida com saia longa e
blusa de mangas curtas, de cores fortes, como as roupas das índias mexicanas
Tehuanas, segurando um talismã com um retrato de Diego criança; a figura da
esquerda está vestida como uma europeia: saia longa branca, bordada com flores
vermelhas, e uma blusa branca de renda, com gola alta e mangas bufantes.
Os corações das duas estão expostos e ligados por veias
braquiocefálicas. O da Frida mexicana está intacto e o da europeia está aberto,
dilacerado, com as estruturas internas (válvulas, músculos papilares e cordas
tendíneas) visíveis. A veia subclávia
direita da Frida europeia está partida, gotejando e presa por uma pinça
cirúrgica que ela controla para estancar, ou não, a hemorragia. Os detalhes das
mãos e dos corações, mostram que a Frida mexicana apoia e mantém viva a Frida
europeia. Ao fundo, um céu tempestuoso
e carregado de nuvens reforça a atmosfera de sofrimento emocional e
instabilidade psicológica que permeia a obra. A pintura foi realizada em 1939,
período em que Frida enfrentava a dolorosa separação de Diego Rivera, fato que
influenciou profundamente o conteúdo simbólico da tela.
Em 1950, onze anos após pintar a obra, Frida
registrou em seu diário uma lembrança da infância relacionada à dualidade
presente na pintura:
“ORIGEM
DAS DUAS FRIDAS = Lembranças. Eu devia ter 6 anos quando vivi intensamente a
amizade imaginária com uma menina mais ou menos da mesma idade. Não me lembro de sua imagem e nem de sua cor. Mas sei
que era alegre. Ela ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse
peso algum. Eu a seguia em todos os seus movimentos e enquanto ela dançava eu
lhe contava meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Mas ela sabia pela
minha voz todas as minhas coisas (…)”
A dualidade do quadro “As duas Fridas” nos remete,
também, à Frida e a sua amiga imaginária de infância, que dançava alegremente,
enquanto ela sofria com as sequelas da poliomielite, que havia sido acometida.
Em 1947, Instituto Nacional de Belas Artes da Cidade do
México adquiriu “As duas Fridas” por 4.000 pesos. Uma reprodução deste quadro está no Museu Frida-Kahlo (Casa
Azul), em Coyoacán, no México, maravilhando os visitantes.
Breve
Biografia de Frida Kahlo (1907–1954)
Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu
em Coyoacán, no México, em 6 de julho de 1907. Filha do fotógrafo alemão
naturalizado mexicano Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón y González, de
ascendência indígena e espanhola, Frida tornou-se uma das artistas mais
importantes da história da arte latino-americana.
Aos seis anos de idade, contraiu Poliomielite,
enfermidade que deixou sequelas permanentes em sua perna direita, levando-a a
usar saias longas durante toda a vida. Posteriormente, enfrentou inúmeros
problemas de saúde e foi submetida a mais de trinta cirurgias. Em 1925, aos
dezoito anos, sofreu um grave acidente quando o ônibus em que viajava colidiu
com um bonde. O impacto provocou múltiplas fraturas na coluna vertebral, na
pelve e na perna direita, além de ferimentos internos severos causados por uma
barra de ferro que atravessou seu corpo. Durante o longo período de
recuperação, começou a pintar autorretratos, transformando a dor física e
emocional em expressão artística. Em 1928, ingressou no Partido Comunista
Mexicano, ocasião em que conheceu Diego Rivera, com quem se casou no ano
seguinte. O relacionamento foi intenso e conturbado, marcado por separações,
reconciliações e infidelidades. O divórcio ocorreu em 1939, seguido de um novo
casamento em 1940.
A produção artística de Frida Kahlo é
profundamente autobiográfica e marcada pela representação do corpo ferido, da
dor, da maternidade frustrada e da identidade feminina. Em suas pinturas,
anatomia, sofrimento e emoção fundem-se em imagens simbólicas que aproximam
arte e medicina. Frida Kahlo faleceu em 13 de julho de 1954, em Coyoacán, aos
47 anos, vítima de embolia pulmonar. Sua obra permanece como um dos maiores
testemunhos visuais da relação entre sofrimento físico, identidade e criação
artística.
Referências
Frida Kahlo. Diário de Frida Kahlo: Um
íntimo autorretrato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.
Herrera, Hayden. Frida: A Biografia de
Frida Kahlo. São Paulo: Globo Livros, 2011.
Tibol, Raquel. Frida Kahlo: Uma Vida Aberta.
São Paulo: Paz e Terra, 1999.
As duas Fridas. 1939. Óleo sobre tela. Acervo
do Museo de Arte Moderno.
Jamis, Rauda. Frida Kahlo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
ARTE & MEDICINA - 97. A Coluna Partida - Frida Kahlo
97. La columna rota (A Coluna Partida) - 1944
Descrição Técnica
Artista: Frida
Kahlo (1907-1954)
Título: La
columna rota (A Coluna Partida)
Ano: 1944
Técnica: óleo sobre masonita
Dimensões: 39,8 x 30,7 cm
Localização: Museo Dolores Olmedo
Xochimilco, Cidade do México, México
Crédito
da Imagem: Domínio público
A COLUNA
PARTIDA: dor crônica, corpo fragmentado e resistência
“Pés, para
que os quero, se tenho asas para voar?”
Frida Kahlo
Na tela La
columna rota, a dor física e emocional constitui o tema central da
composição. Em primeiro plano, Frida Kahlo aparece em pé, com o tronco nu
envolto por um espartilho metálico que sustenta uma coluna jônica fraturada no
lugar de sua coluna vertebral. A imagem transforma o corpo da artista em
metáfora visual do sofrimento e da fragilidade humana.
Frida
segura um tecido branco que cobre parcialmente a parte inferior de seu corpo,
conferindo delicada sensualidade à figura, apesar da evidente condição de
sofrimento. Seu rosto, banhado por lágrimas, mantém expressão firme e olhar
intenso, revelando postura estoica diante da dor crônica que marcou sua
existência. Inúmeros pregos espalhados pelo corpo simbolizam as dores
lancinantes e constantes que a artista suportava diariamente. Ao fundo, uma
paisagem árida e rachada prolonga visualmente a ideia de ruptura e devastação
física. O horizonte desolado e o mar distante reforçam a sensação de
isolamento, solidão e vulnerabilidade emocional vivida por Frida Kahlo.
A pintura
foi realizada em 1944, após uma delicada cirurgia na coluna vertebral. Durante
o difícil pós-operatório, Frida permaneceu longos períodos acamada e obrigada a
utilizar coletes ortopédicos metálicos para sustentar o corpo e aliviar
parcialmente as dores. Nesse contexto, a obra converte-se em poderoso
testemunho autobiográfico da experiência da dor crônica.
O médico
geriatra Desmond O'Neill publicou, em 7 de maio de 2011, no British Medical
Journal, um estudo destacando a importância da obra de Frida Kahlo para a
compreensão da dor em pacientes. Segundo O’Neill, a artista possui
extraordinária capacidade de representar visualmente o sofrimento físico e
emocional, tornando-se símbolo de identificação para pessoas acometidas por
dores crônicas.
Diversos
estudiosos também estabelecem paralelos entre La columna rota e o
martírio de São Sebastião, frequentemente representado transpassado por
flechas. Assim como o santo, Frida converte o sofrimento corporal em expressão
simbólica de resistência, transcendência e sobrevivência. No contexto da arte e
medicina, a obra representa um dos mais impactantes registros visuais da
experiência subjetiva da dor, evidenciando como a arte pode traduzir aspectos
emocionais e existenciais frequentemente inacessíveis aos discursos médicos
tradicionais.
Breve Biografia de Frida Kahlo (1907–1954)
Magdalena
Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu em Coyoacán, México, em 6 de julho de 1907,
e faleceu na mesma cidade, em 13 de julho de 1954, aos 47 anos, vítima de
embolia pulmonar. Filha do fotógrafo Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón y
González, Frida tornou-se uma das artistas mais importantes da arte
latino-americana do século XX. Aos seis anos de idade, contraiu Poliomielite,
enfermidade que deixou sequelas permanentes em sua perna direita. Além das
limitações físicas decorrentes da doença, enfrentou diversos problemas de saúde
ao longo da vida.
Em 1925,
aos dezoito anos, sofreu um grave acidente de trânsito quando o ônibus em que
viajava colidiu com um bonde. O impacto provocou múltiplas fraturas na coluna
vertebral, na pelve e na perna direita, além de severas lesões internas
causadas por uma barra metálica que atravessou seu corpo. Em decorrência dessas
lesões, foi submetida a mais de trinta cirurgias. Em 1929, casou-se com o
muralista Diego Rivera. O relacionamento intenso e conturbado foi marcado por
separações, reconciliações e um divórcio em 1939, seguido de novo casamento no
ano seguinte.
Grande parte da produção artística de Frida Kahlo é autobiográfica e centrada no corpo ferido, na dor, na identidade feminina e na experiência emocional do sofrimento. Em 1944, após mais uma cirurgia na coluna e durante um doloroso período de recuperação, pintou La columna rota, transformando sua experiência física em uma das imagens mais emblemáticas da relação entre arte e medicina.
Referências
Frida Kahlo. Diário de Frida Kahlo: Um
íntimo autorretrato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.
Herrera, Hayden. Frida: A Biografia de
Frida Kahlo. São Paulo: Globo Livros, 2011.
Tibol, Raquel. Frida Kahlo: Uma Vida Aberta.
São Paulo: Paz e Terra, 1999.
Desmond O'Neill. “Frida Kahlo’s Art as a
Representation of Pain”. British Medical Journal, 2011.
La columna rota. 1944. Óleo sobre masonita.
Acervo do Museo Dolores Olmedo.
Sontag,
Susan. A Doença como Metáfora. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
ARTE & MEDICINA 98. Retirantes (Retirantes)
98. Retirantes (Retirantes) — 1944
Ficha Técnica
Autor: Cândido Portinari (1903-1962)
Título: Retirantes (Os Retirantes)
Ano:1944
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões:190
x 180 cm
OS RETIRANTES: fome, doença e
exclusão social
“Os retirantes vêm vindo com
trouxas e embrulhos /
Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos /
Doloridos como fagulhas de carvão aceso.”
Cândido Portinari
Na tela Retirantes, integrante da série composta
também pelas obras Criança Morta e Enterro na Rede, Cândido
Portinari retrata uma família anônima de retirantes nordestinos, composta por
nove pessoas: três adultos, uma adolescente e cinco crianças. A composição
apresenta dois planos distintos: o primeiro plano e o plano de fundo. No
primeiro plano, observam-se duas unidades compositivas. À esquerda, uma unidade
menor formada por um velho apoiado em um cajado e uma adolescente segurando uma
criança nos braços. À direita, uma unidade maior reúne uma mulher com uma
trouxa sobre a cabeça e um recém-nascido nos braços, além de um homem
acompanhado de três crianças. No plano de fundo, a tela divide-se em duas áreas
principais. A porção superior, ocupando aproximadamente dois terços da
composição, apresenta um degradê de azul que vai do tom escuro ao branco. Na
região mais clara observam-se esboços de montanhas e, no canto superior
direito, a lua. O terço inferior exibe tonalidades marrons repletas de pedras e
carcaças de animais, enfatizando a devastação provocada pela seca.
As personagens aparecem desnutridas e fragilizadas,
vítimas da fome e das condições extremas do sertão nordestino. A pele
ressequida e castigada pelo sol reforça a dramaticidade da cena. A paisagem
árida, construída com tons acinzentados, azulados e escuros, produz atmosfera
fúnebre, intensificada pelos urubus que sobrevoam o grupo, sugerindo a
proximidade constante da morte. A mulher, carregando um recém-nascido envolto
em tecido branco, apresenta expressão marcada pela angústia e pelo sofrimento.
O homem, maltrapilho e de olhar assustado, usa chapéu de palha, leva uma trouxa
ao ombro e conduz uma criança pela mão. O menino localizado à frente apresenta
abdome distendido, característica associada popularmente à “barriga d’água”,
manifestação frequentemente relacionada à Esquistossomose causada pelo verme Schistosoma
mansoni. À esquerda, o velho apoiado no cajado revela sinais evidentes de
desnutrição e expressão de horror. A adolescente sustenta uma criança
extremamente magra e debilitada.
Todos os personagens demonstram sofrimento
profundo, traduzido pelas expressões faciais e pela debilidade física. A obra
retrata o drama histórico da migração de famílias nordestinas que abandonavam
suas terras assoladas pela seca em busca de sobrevivência nas regiões Sul e
Sudeste do Brasil. Utilizando elementos do expressionismo e do cubismo,
Portinari transforma a pintura em denúncia social da fome, da miséria e das
desigualdades brasileiras. No contexto da arte e medicina, a obra constitui
poderoso documento visual sobre desnutrição, doenças parasitárias, pobreza
extrema e sofrimento humano coletivo.
Biografia de Cândido Portinari
(1903-1962)
Filho de imigrantes italianos,
Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, Cândido Portinari nasceu em 30
de dezembro de 1903, na Fazenda Santa Rosa, próxima à cidade de Brodowski,
interior de São Paulo e faleceu, em 1962, no Rio de Janeiro. De origem humilde, tornou-se um
dos maiores artistas brasileiros do século XX. Ainda criança demonstrou talento para o desenho e, em 1918, participou
da restauração da igreja de Brodowski, auxiliando pintores e escultores
italianos itinerantes. Em 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na
Escola Nacional de Belas Artes.
Em 1928, conquistou a Medalha de
Ouro do Salão Nacional de Belas Artes com a obra Retrato de Olegário Mariano,
recebendo prêmio de viagem à Europa. Durante os dois anos que passou em Paris,
Portinari teve contato com importantes artistas, frequentou museus e conheceu
sua futura mulher, a uruguaia Maria Martinelli (1912-2006). Em Paris, vendo sua
terra à distância, escreveu: “Vou pintar aquela gente com aquela roupa e com
aquela cor...”
Em 1931, Portinari retornou ao Brasil casado
com Maria, que foi seu esteio, suporte e âncora, por proporcionar-lhe total e
exclusiva dedicação à pintura. Em 1935,
com a obra “Café”, importante marco de sua pintura social, Portinari conquistou
menção honrosa e inúmeros elogios de críticos americanos, na Exposição
Internacional de Arte Moderna do Instituto Carnegie, em Nova Iorque.
Portinari retratou a história e a cultura do
povo, revelando, assim, a alma do brasileiro. Sensível ao sofrimento de sua
gente, mostrou, em cores fortes, os plantadores de café, os trabalhadores, a
dor e a miséria dos retirantes nordestinos. Sua faceta lírica o fez pintar os
meninos de Brodowski, com suas brincadeiras, danças e cantos.
Em 1939, nasceu João Candido, filho único do
casal Portinari. João se dedica, desde
1979, ao “Projeto Portinari” e define o seu pai com a palavra “Amor”, pois em
sua obra a luta por valores humanos e socais é permanente.
Portinari realizou exposição individual em
Nova Iorque e em Paris, entre outras cidades; pintou os murais da Biblioteca do
Congresso Americano, em Washington; do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de
Janeiro; decorou a Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, em Belo
Horizonte, com os murais “São Francisco” e “Via Sacra”;
pintou os painéis: “Tiradentes”, “A Primeira Missa no Brasil” e os da Igreja
Matriz de Batatais-SP; pintou, entre
outras séries, “Meninos de Brodowski” e “Os Retirantes”(Criança Morta, Enterro
na Rede e Retirantes) onde denuncia a profunda desigualdade social do Brasil.
Em 1941, demonstrando singelo amor por sua
avó paterna Pellegrina, que doente não podia se locomover para ir à Igreja
rezar, Portinari pintou, em um dos cômodos da residência da família, em
Brodowski, a “Capela da Nonna”. Para a
decoração, Portinari pintou os santos prediletos de sua avó, em tamanho
natural, usando como modelos os familiares e amigos.
Portinari foi um dos maiores pintores
brasileiros de todos os tempos, deixando um legado de mais de cinco mil obras
de arte. Participou de exposições em vários países do mundo. Foi consagrado em
São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Nova Iorque, Montevidéu, Varsóvia, entre
outras cidades. O governo francês o condecorou com a medalha “Legião de Honra”
(1946).
Já doente, intoxicado pelo chumbo das tintas,
aceitou, em 1952, a incumbência de pintar dois painéis para a ONU, “Guerra e
Paz”, de 10 x 14 m cada, concluindo-os, em 1956. O tema da guerra foi inspirado
por “Quatros Cavaleiros do Apocalipse”, da bíblia, e o da Paz, pela tragédia
grega Eumênides, de Esquilo, em visão livre.
O artista Enrico Bianco disse que
"Guerra e Paz" são as duas grandes páginas da emocionante
comunicação, que o pintor entrega à humanidade. Segundo seu filho, João
Candido, esta grandiosa obra universal é um diálogo entre o trágico e o lírico,
entre a fúria e a ternura, entre o drama e a poesia.
Sua faceta de poeta o levou a escrever
poemas, com temas sociais, traduzindo poeticamente sua obra plástica. Em um texto, Portinari escreveu:
"Impressionavam-me os pés dos
trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma
história. Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés sofridos com muito e
muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil
era distingui-los. Os pés e a terra tinham a mesma moldagem variada. Raros
tinham dez dedos, pelo menos dez unhas. Pés que inspiravam piedade e respeito.
Agarrados ao solo eram como os alicerces, muitas vezes suportavam apenas um
corpo franzino e doente. Pés cheio de nós que expressavam alguma coisa de
força, terríveis e pacientes."
Portinari
ilustrou, através da “Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil”, as obras
literárias: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1944) e “O Alienista” (1948).
Atuante no movimento político-partidário,
Portinari candidatou-se pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) a deputado
federal (1945) e a senador (1947) sem conseguir eleger-se. Perseguido no
Brasil, por ser comunista, exilou-se durante algum tempo, no Paraguai. Portinari
nunca se afastou de suas convicções ideológicas. Sua militância política é
absolutamente fiel e coerente com sua pintura. Ironicamente, Portinari foi
proibido de participar da inauguração dos painéis “Guerra e Paz”, ao ter o
visto de entrada nos EEUU negado, por pertencer ao PCB, e faleceu sem vê-los
expostos na ONU.
Em 1960, quando nasceu sua neta Denise, ele
escreveu: “Minha neta me libertará da solidão”. Denise foi retratada
pelo avô inúmeras vezes, em telas líricas.
Portinari faleceu no dia 6 de fevereiro de
1962, aos 58 anos, intoxicado pelo chumbo das tintas (saturnismo). Presentes no
velório: Juscelino Kubitschek; Hermes Lima, representando o Presidente João
Goulart; os líderes comunistas na clandestinidade, Luís Carlos Prestes e Carlos
Marighela; o líder anticomunista e governador do Estado da Guanabara, Carlos
Lacerda. A Presidência da República emitiu nota de pesar e foi decretado luto
oficial de três dias no Estado da Guanabara. Portinari, ícone do modernismo brasileiro,
ao colocar o homem como tema central de sua arte, nos lega uma mensagem de
humanismo universal.
Referências
Cândido Portinari. Portinari Poeta. Rio de
Janeiro: Projeto Portinari, 1990.
Fabris, Annateresa. Cândido Portinari. São Paulo:
Edusp, 1996.
Projeto Portinari. Acervo e documentação histórica de
Cândido Portinari.
Retirantes. 1944. Óleo sobre tela. Acervo do Museu de
Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.
Schwarz, Roberto. Sequências Brasileiras. São
Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Scliar, Moacyr. A Paixão Transformada: História da
Medicina na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Abril Cultural. Gênios da Pintura: Portinari. São Paulo: Abril Cultural, n. 6, 1967.
ARTE & MEDICINA - 99. Criança Morta
99. Criança morta (Criança Morta) — 1944
Autor – Cândido Portinari (1903-1962)
Título – Criança
Morta (Criança Morta)
Ano – 1944
Técnica – óleo sobre tela
Dimensões – 190
x 180 cm
Localização atual – Museu de Arte de São
Paulo (MASP) – Brasil
Crédito da Imagem:
CRIANÇA MORTA: fome,
luto e sofrimento social
“A obra de Portinari atinge a beleza de um cântico
auroral por sobre as misérias do mundo e particularmente de seu país; é
testemunho e resgate.”
Carlos Drummond de Andrade
A tela Criança
Morta integra a série composta também pelas obras Retirantes e Enterro
na Rede. Nela, Cândido Portinari retrata, de forma profundamente dramática,
uma família de retirantes nordestinos lamentando a morte de uma criança, vítima
da seca tragédia histórica e social que assola o Nordeste brasileiro há
séculos.
A
composição organiza-se em dois planos. No primeiro plano, destacam-se seis
figuras humanas. No centro da cena, uma mulher agigantada encontra-se sentada
sobre um caixote, inclinando o corpo para frente enquanto segura nos braços uma
criança morta, nua e extremamente raquítica. O corpo da criança aparece
disposto horizontalmente, com a cabeça e o braço direito pendentes, evocando a
composição clássica da Pietà, de Michelangelo.
Ao redor da
mãe, outras figuras intensificam o sentimento de luto coletivo. À esquerda, um
homem em pé, provavelmente o pai da criança, segura o braço da mulher. Seu
corpo inclina-se levemente para frente, enquanto abundantes “lágrimas de pedra”
escorrem por seu rosto. À frente dele, uma adolescente maltrapilha sustenta a
cabeça da criança morta, também vertendo lágrimas pétreas. À direita da
composição, uma jovem com véu na cabeça segura o pulso de uma criança
desnutrida e assustada. Todas as figuras apresentam corpos esquálidos, pés
descalços, roupas rasgadas e expressões marcadas pelo sofrimento extremo,
evidenciando os efeitos devastadores da fome, da sede e da miséria.
O segundo
plano divide-se em duas áreas: uma superior, formada por um degradê em tons de
azul, e outra inferior, construída em tonalidades terrosas, com pedras
espalhadas e uma cabaça abandonada no chão. A paisagem árida, plana e desértica
reforça a sensação de abandono e desesperança. A cena é intensa e
emocionalmente impactante. As mãos exageradamente grandes da mãe ampliam
simbolicamente a dimensão de sua dor. As lágrimas transformadas em pedras
sugerem sofrimento endurecido pela fome e pela tragédia social. Os tons cinza,
ocre, violeta, lilás, branco e verde conferem à pintura atmosfera lúgubre e
melancólica.
Por meio da
série Retirantes, Portinari denuncia, em linguagem expressionista, a
desigualdade social brasileira e o drama humano provocado pela seca e pela
exclusão. No contexto da arte e medicina, a obra constitui poderoso documento
visual sobre desnutrição, mortalidade infantil, sofrimento coletivo e
vulnerabilidade social.
Breve Biografia de Cândido Portinari (1903–1962)
Filho de
imigrantes italianos, Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato, Cândido
Portinari nasceu em 30 de dezembro de 1903, na Fazenda Santa Rosa, próxima à
cidade de Brodowski, interior de São Paulo e faleceu em 6 de fevereiro de 1962,
no Rio de Janeiro, aos 58 anos.
Ainda
criança demonstrou talento para o desenho e, em 1918, participou da restauração
da igreja de Brodowski, auxiliando pintores e escultores italianos itinerantes.
Em 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na Escola Nacional de Belas
Artes.
Em 1928,
conquistou a Medalha de Ouro do Salão Nacional de Belas Artes com a obra Retrato
de Olegário Mariano, recebendo prêmio de viagem à Europa. Em Paris, entrou
em contato com importantes movimentos artísticos modernos e consolidou o desejo
de representar o povo brasileiro em sua pintura.
Ao retornar
ao Brasil, em 1931, desenvolveu uma produção profundamente voltada às questões
sociais. Retratou trabalhadores rurais, retirantes nordestinos, crianças pobres
e cenas populares, revelando as desigualdades sociais do país. Obras como
Retirantes, Café e os painéis Guerra e Paz tornaram-se marcos da
arte brasileira. Portinari também executou importantes murais públicos,
incluindo os da Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, do Palácio
Gustavo Capanema e da sede da Organização das Nações Unidas.
Militante
político e filiado ao Partido Comunista Brasileiro, candidatou-se a cargos
públicos e sofreu perseguições ideológicas durante parte da vida. Sua arte
permaneceu coerente com seu compromisso humanista e social. Portinari produziu
mais de cinco mil obras e recebeu reconhecimento internacional, incluindo a
condecoração da Legião de Honra concedida pelo governo francês.
Nos últimos
anos de vida, sofreu grave intoxicação pelo chumbo presente nas tintas que
utilizava, desenvolvendo Saturnismo que causou sua morte. A obra de Portinari
permanece como um dos maiores testemunhos visuais da realidade social
brasileira, unindo arte, denúncia e profundo humanismo.
Referências
Cândido
Portinari. Portinari Poeta. Rio de Janeiro: Projeto Portinari, 1990.
Fabris,
Annateresa. Cândido Portinari. São Paulo: Edusp, 1996.
Projeto
Portinari. Acervo e documentação histórica de Cândido Portinari.
Criança
Morta. 1944. Óleo sobre tela. Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis
Chateaubriand.
Abril
Cultural. Gênios da Pintura: Portinari. São Paulo: Abril Cultural, n. 6,
1967.
Schwarz,
Roberto. Sequências Brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Scliar, Moacyr. A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.




