Tela de Roberto Hinckley, 1882, primeiro procedimento cirúrgico com anestesia geral pelo éter em 16 de outubro de 1846.
Publicado no Jornal do Médico .
Link, abaixo
https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Abril-2023.pdf
BREVE
HISTÓRIA DA ANESTESIA
“Então
o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma
das suas costelas e fechou a carne em seu lugar; E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou
uma mulher, e levou-a a Adão”.
Gênesis 2:21-22 - Bíblia
Segundo historiadores da
medicina, a primeira anestesia foi feita por Deus quando induziu um sono profundo
em Adão e retirou-lhe uma costela. Portanto, Deus foi o primeiro anestesista e
o primeiro cirurgião.
Sem entrar em
considerações religiosas e filosóficas, limito-me a descrever uma breve
história da anestesia seguindo documentos escritos.
A prática anestésica
surgiu em meados do século XIX, mas o conhecimento é muito mais antigo. Entre 430
e 424 a.C., o historiador grego Heródoto de Halicarnasso relatou em seus
escritos como os citas, uma tribo do “Mar Negro”, no sul da Rússia, induziam um
estado de estupor ao inalar vapores de cânhamo. As inalações de vapores para
entrar em estado de transe também eram praticadas pela Pítia de Delfos, guardiã
do templo de Apolo. Pode-se estabelecer que o cânhamo foi o primeiro anestésico
inalatório, mas este processo nunca foi usado na antiguidade para cirurgia.
Na Idade Média, os
barbeiros ou cirurgiões da Escola Médica de Salerno faziam as vezes dos
anestesistas. Eles causavam intensa dor e desmaios nos pacientes colocando o
dedo em suas feridas ou faziam uma mistura de duas plantas, meimendro, uma planta da família das solanáceas
e o ópio. O paciente era amarrado para evitar que se movesse ao acordar e um
afastador de língua era colocado para evitar que ele mordesse a língua.
No século VIII, a
referida Escola de Salerno recebeu importantes textos médicos gregos referentes
ao ensino da cirurgia. Os escritos gregos foram traduzidos para o árabe e chegaram
ao mundo cristão por meio de uma tradução dupla. Depois de Salerno, esses
conhecimentos chegaram à “Escola de Medicina de Montpellier” e daí para o resto
da Europa. Os documentos dessa época relatam uma preparação anestésica aplicada
através de um lenço ou esponja colocada no nariz, chamadas de “esponjas
soporíficas”.
O uso de esponjas soporíferas,
havia sido descrito na Antiguidade por Dioscórides, e foi usada pelo Lombardo Hugo
de Lucca (Borgognoni, Ugo de Lucca 1220), cirurgião da cidade de Bolonha, e que
participou das Cruzadas na Terra Santa. A Lombardia foi o centro de transmissão
do conhecimento.
Na Idade Média, o médico
francês Guy de Chauillac advertiu contra o uso de “esponjas soporíficas”,
devido ao perigo que seu uso acarretava. A famosa médica alemã, Santa Hildegard de
Bingen, no século XII, deu remédios aos enfermos para capacitá-los a resistir as
dores.
No século XIX, os
derivados do ópio continuaram sendo o principal analgésico eficaz, antes do uso
do sono químico geral com éter e depois com clorofórmio.
O inventor
da anestesia foi o dentista americano William Thomas Green Morton (1819-1868). O
grande feito aconteceu, em 1846, no anfiteatro cirúrgico do “Massachusetts
General Hospital”, nos EEUU. Morton tinha idealizado um aparelho inalador de
éter que foi usado durante a cirurgia de um jovem de 17 anos, Gilbert Abbot, portador
de um tumor no pescoço. A cirurgia foi realizada com êxito pelo cirurgião John
Collins Warren (1778-1856).
O termo anestesia foi dado pelo professor americano
de anatomia e fisiologia, Oliver Wendell Holmes, em carta dirigida a William
Morton. Ele designou por este termo um estado de inconsciência induzido pela
inalação de gás para reduzir a dor do ato cirúrgico.
No início do século XX, a
cocaína foi utilizada como anestésico local, em particular para cirurgia
ocular, até ao desenvolvimento dos seus primeiros derivados sintéticos,
Stovaïne de Ernest Fourneau (1904) e Novocaïne de Alfred Einhorn (1906).
Em 1867, foi realizada a primeira
anestesia no Brasil, pelo médico Roberto Jorge Haddock Lobo, no Hospital
Militar do Rio de Janeiro.
ana margarida furtado
arruda rosemberg
Braga-Portugal 15.04.2023



.jpg)























