segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

PRIMÓRDIOS DO PROGRAMA DE CONTROLE DO TABAGISMO DA SESA

Publicado no Jornal do Médico

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PRIMÓRDIOS DO PROGRAMA DE CONTROLE DO TABAGISMO DA SESA (1991-2000)


Até o ano de 1990, a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (SESA), como as demais Secretarias de Saúde dos outros estados do Brasil, não desenvolvia um programa específico para o controle do tabagismo.

Em nosso meio, esta tarefa era desempenhada pela Sociedade Cearense de Pneumologia e Tisiologia, desde 1984, quando foi criado o Comitê Cearense Antifumo, tendo à frente o Dr. Geraldo Madeira Sobrinho e contando com a colaboração de Vinicius Brasileiro, Martins Vicente Leitão, Luiz Aires Leal, Wilson Acioly e Maria do Carmo Pinheiro.

Em 1986, os pneumologistas do Hospital de Messejana e da Sociedade Cearense de Pneumologia e Tisiologia se organizaram para combater o tabagismo, sob a coordenação do Dr. Leopoldo Vasconcelos. O grupo era composto pelos doutores: Josias Cavalcante, Madeira Sobrinho, Márcia Alcântara, Socorro Maia e Ilca Ponciano.

Em 1988, o Dr. Josias Cavalcante assumiu a coordenação do Programa Cearense de Combate ao Fumo da Sociedade Cearense de Pneumologia e Tisiologia agregando vários órgãos, como: Secretarias de Saúde do Estado e Município, Secretaria de Educação do Estado, Comitê Cearense Antifumo, Igreja Adventista, Comissão de Prevenção ao Uso Indevido de Drogas e Federação Cearense de Atletismo.

Sob a coordenação do Dr. Josias Cavalcante, a luta antitabágica no Ceará deu um grande salto, sedimentando, assim, a luta contra o fumo em nosso meio. Entretanto, a campanha era realizada praticamente em Fortaleza, com pouca penetração nos municípios pelas dificuldades de um programa que não contava com verbas próprias. Para isso, era necessário que o Governo do Estado do Ceará, através da Secretaria de Saúde, assumisse a luta.

Em 1989, fui selecionada para participar de um curso no Rio de Janeiro, patrocinado pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) e ministrado pela Dra. Vera Luiza da Costa e Silva, com a finalidade de implantar um Programa Nacional de Controle do Tabagismo, em parceria com as Secretarias Estaduais de Saúde.   

No início de 1991, partindo do zero, passei a coordenar o Programa Cearense de Combate ao Fumo da SESA. Inicialmente, éramos três: Eu, Ana Margarida Rosemberg (coordenadora), Ilzenira Pontes (técnica) e Valmisa França (secretária).

Em maio do mesmo ano, realizamos o evento “Mesa Redonda sobre Tabagismo e Saúde”, que serviu como marco para o início das atividades.

Em 31 de maio de 1993, o programa foi oficializado, solenemente, pela então secretária de saúde, Dra. Anamaria Cavalcante e Silva, através das portarias de nº 571/93 e nº 572/93, juntamente com a Comissão Cearense de Combate ao Fumo.

 Em 3 de dezembro de 1993, foi realizado o I Workshop Cearense sobre Tabagismo, que contou com a participação de convidados especiais como os drs.: José Rosemberg e Mário Rigatto e da “Prata da Casa”, os drs.: Josias Cavalcante e Waldeney Rolim. Marco histórico na luta contra o tabagismo no Ceará, este evento foi coroado de êxito, agregando 120 profissionais de saúde de todos os municípios, mudando o curso da luta antitabágica em nosso Estado.

 A partir de 1994, contando com o apoio do Comitê Cearense de Combate ao Fumo (Ong) e da assessoria do Prof. Dr. José Rosemberg, Presidente do Comitê Brasileiro de Combate ao Tabagismo (Ong) e do competente apoio do Dr. Anastácio Queiroz, então Secretário de Saúde, a partir de 1995, o Programa de Controle do Tabagismo (PCT da SESA) iniciou o processo de municipalização de suas ações.

No dia 4 de agosto de 1994, no Hotel Novotel, na beira-mar de Fortaleza, foi oficializada a Ong, Capítulo do Ceará do Comitê Coordenador do Controle do Tabagismo no Brasil (CCCTB-CE). Com a assessoria do Prof. José Rosemberg e o apoio do CCCTB-CE, o PCT da SESA realizou anualmente os seguintes eventos:  Três “Workshop sobre Tabagismo”, (1993 a 1995); Cinco “Semanas de Combate ao Fumo” (1993 a 1998), cinco “Caminhadas contra o Fumo” (1993 a 1997), realizadas anualmente em comemoração ao Dia Mundial de Combate ao Fumo (31 de maio); sete “Corridas Rústicas - Largue o Cigarro Correndo”, ( 1993 a 1999) em comemoração do Dia Nacional de Combate ao Fumo (29/08);  oito “Cursos Municipalização de Controle do Tabagismo”, realizados anualmente para implantação do PCT nos municípios e diversas campanhas através de outdoors.   

O ponto alto de nossas realizações foi o “II Congresso Brasileiro sobre Tabagismo e I Congresso Latino-Americano sobre Tabagismo” que contou com a parceria do INCA e do Comitê Coordenador do Controle do Tabagismo no Brasil. O referido congresso aconteceu, de 3 a 6 de junho de 1996, com a participação de 18 convidados internacionais e mais de 500 congressistas.

O PCT da SESA, de 1991 até o ano 2000, realizou inúmeras cursos em diversos municípios do Estado para implantação das ações de controle do tabagismo e outros fatores de risco de Câncer nas escolas, unidades de saúde e empresas.

O Prof. Rosemberg escreveu diversos livros sobre tabagismo que foram editados pela Secretaria de Saúde do Estado do Ceará. Inúmeras palestras sobre os malefícios do tabaco foram ministradas em escolas, empresas e unidades de saúde. 

A partir do ano 2000, o programa passou a ser coordenado pela Enf. Liliane Maria Porto que deu continuidade as ações desenvolvidas, com competência e dedicação. O êxito das ações para o controle do tabagismo no Ceará e no Brasil foi medido pelas pesquisas realizadas anualmente pelo Ministério da Saúde (MS).

Em 1988, segundo pesquisa do IBGE, 33% da população adulta do Brasil era fumante. Em 2019, esse percentual caiu para 9,8% (homens – 12,3% e mulheres 7,7%), segundo estudo Vigitel Brasil 2019 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico).  

A significativa redução de fumantes no Brasil ocorreu graças à educação da população e às leis antifumo, principalmente a Lei dos Ambientes Livres da Fumaça de Tabaco. Muito ainda temos a caminhar, mas podemos dizer que essa luta está ganha.

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 10.02.2022

Síntese extraída dos Anais da ACM 2021, volume 19, páginas 383 a 387.

 


PESESHET (II milênio a.C.) – a primeira médica do mundo

Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo.

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                                  PESESHET (II milênio a.C.) – a primeira médica do mundo

No Antigo Egito, Merit Ptah (2700 a.C), descrita como “médica-chefe”, poderia ser a primeira mulher médica na história da ciência, mas sua existência real é questionada. Em 2019, um estudo publicado no Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, conduzido pelo historiador Jakub Kwiecinsk, da Universidade do Colorado, USA, concluiu que ela nunca existiu.

Tendo existido ou não, a verdade é que ela já foi consagrada. Há poucos anos, astrônomos da “International Astronomical Union (IAU)” batizaram uma cratera no planeta Vênus com o nome de Merit Ptah.

Por outro lado, Peseshet, que viveu sob a 4ª Dinastia, é citada como a primeira mulher médica da história. As informações sobre ela foram reveladas durante uma escavação em Gizé, ao norte do Vale dos Reis.

O egiptólogo egípcio Selim Hassan (1887-1961) descobriu durante a referida escavação de Gizé, uma estela do Reino Antigo representando uma mulher com a seguinte legenda: Peseshet, Supervisora das Doutoras. Na tumba de Akhethetep, filho de Peseshet, ela foi mencionada como “Supervisora das Mulheres Curandeiras”. 

Selim Hassan publicou, em 1930, o resultado de suas descobertas, nas quais estimou em (2.700 a.C.) a data em que Peseshet viveu. Ela também era diretora das sacerdotisas e, como tal, tinha que cuidar das mulheres da corte e da família do faraó, treinar parteiras e cuidar dos funerais de altos dignitários.

Não há dúvidas sobre a existência de  Peseshet e que havia na época um corpo profissional oficial de médicas do qual Peseshet era a diretora.

Pelo exposto, Peseshet é a detentora do título de primeira médica do mundo.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 25 de fevereiro de 2022


REFERÊNCIAS

https://es.wikipedia.org/wiki/Selim_Hassan

https://fr.wikipedia.org/wiki/Peseshet

https://en.wikipedia.org/wiki/Peseshet

https://super.abril.com.br/historia/mulher-considerada-a-primeira-medica-da-historia-provavelmente-nunca-existiu/

RECORDANDO A GUERRA DO IRAQUE - Resistência Imponderável

 


Resistência Imponderável

            O Iraque, país que tem oito mil anos de história, invadido pelas tropas americanas e britânicas, arde em chamas, em meio ao massacre de sua população maltrapilha e faminta. Berço da nossa civilização, pois foi ali na região que fica entre os rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia, que surgiram a agricultura, a escrita, as primeiras cidades, o Código de Hamurabi etc. Sumérios, Babilônicos, Assírios, Persas, Gregos e muitos outros povos se sucederam na região  rica em água e petróleo.

Ur, tida como a mais antiga cidade do mundo, terra natal de Abraão, o pai das religiões monoteístas como judaísmo, cristianismo e islamismo, corre sério risco de ser destruída pelas “bombas inteligentes” dos agressores. Sítios pré-históricos dos períodos Paleolítico e Neolítico que guardam informações valiosas sobre a origem da civilização correm o mesmo risco. Apesar de tudo isso ser patrimônio da humanidade, o que está em jogo é o massacre de milhares de pessoas inocentes e indefesas que estão tendo suas vidas ceifadas precocemente.

Os EUA apesar de abrigarem somente 6% da população do planeta acham que podem, através da força, dominar outros povos e suas riquezas. Acreditam ter o regime democrático mais perfeito que qualquer outro e se acham com o direito de exportá-lo. Porém, que democracia é essa que passa por cima da ONU e das manifestações de protesto no mundo inteiro e invade um país com a desculpa de querer libertar o seu povo? Será que esse povo quer realmente ser libertado pelos invasores? Será que a democracia ocidental é o regime ideal para os povos do oriente médio? Ou será que os americanos estão querendo o “ouro preto” que brota abundante naquela região? 

Saddam Hussein, apesar de ditador, conseguiu unificar o Iraque, ainda que por caminhos perversos, e somente seu povo tem o direito de tirá-lo do poder.  Os arrogantes: Bush, Blair, Colin Powell, Dick Cheney, Donald Rumesfeld, Condoleezza Rice, Tommy Franks subestimaram a resistência de Saddam Hussein e seu povo quando resolveram fazer uma guerra cirúrgica de curta duração. Acharam que o povo iraquiano iria se levantar contra o ditador e que o exército abandonaria a luta. 

Apesar da superioridade bélica da maior potência do planeta contra um país debilitado pelos 12 anos de embargo da ONU, a guerra não vai ser curta e muito menos cirúrgica como foi apregoada aos quatro ventos. O povo resiste e essa resistência é imponderável. Os homens bombas estão entrando no palco da guerra e amedrontando soldados americanos e britânicos que não sabem bem porque matam seus irmãos iraquianos.

                 O sargento Ali Jaffar Moussa Hamadi, mulçumano e xiita, foi o primeiro combatente iraquiano a lançar um ataque suicida ficando na história da resistência iraquiana contra a invasão de seu país. Homens bomba estão se multiplicando naquela região, principalmente nos territórios ocupados da Palestina. Se os iraquianos realmente usarem essa arma, o desfecho da guerra será inimaginável. Os americanos podem destruir com suas bombas e mísseis todo o Iraque e matar Saddam Hussein, mas não ganharão essa guerra, pois não conquistarão as mentes e os corações dos iraquianos.

               Que o sacrifício desse povo sirva para a união dos árabes e as manifestações de protesto contra a guerra, que brotam pelo mundo afora, sirvam para a humanidade encontrar um caminho de PAZ.                   

       Ana Margarida F. Arruda Rosemberg

       São Paulo, 31 de março de 2003.  

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

MADELEINE BRÈS – a primeira médica francesa

Publicado no Jornal do médico.

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                                                         MADELEINE BRÈS (1842-1921) 

Madeleine Brès nasceu em 26 de novembro de 1842, em Bouillargues-França, e faleceu em 30 de novembro de 1921, em Montrouge-França. Aos doze anos, foi com sua família para Paris. Com quinze casou-se com Adrien-Stéphane Brès.

Em 1861, os diplomas franceses foram abertos às mulheres. Sonhando em ser médica, Madeleine precisou obter o consentimento do marido, para cursar a faculdade.

Em 1866, ao apresentar-se ao Decano da Faculdade de Medicina de Paris, Charles Adolphe Wurtz, pedindo permissão para estudar medicina, teve a aceitação de Wurtz com a condição de obter primeiro uma licenciatura em Artes e Ciências.

 Conquistando a licenciatura, após três anos de estudo, Madeleine conseguiu o direito de cursar o curso de medicina. Mesmo assim, a decisão do reitor foi mal recebida na comunidade médica. 

O Dr. Henri Montanier escreveu, em 1868, na Gazeta do Hospital, que: “para fazer uma mulher médica, é preciso fazê-la perder sua sensibilidade, sua timidez, sua modéstia, endurecendo-a diante das coisas mais horríveis e aterrorizantes. Quando a mulher chegar a isso, eu me pergunto, o que ela terá como mulher?”  

Em 1869, Madeleine tinha 27 anos, era mãe de três filhos, quando, finalmente, iniciou seus estudos de medicina.  

Com a Guerra Franco-Prussiana (19 de julho de 1870 - 10 de maio de 1871), houve a saída de um bom número de médicos para o front. Madeleine foi nomeada como estagiária provisória, até julho de 1871, obtendo grande experiência.  

Viúva e mãe solteira de três filhos, decidiu ser pediatra. Ela preparou sua tese sobre o tema da mama e lactação, apresentando-a em 3 de junho de 1875. Recebeu honras em sua tese e tornou-se a primeira mulher francesa doutora em medicina. 

Tecnicamente, Madeleine não foi a primeira mulher a obter um doutorado em medicina na França: a inglesa Elizabeth Garrett Anderson o fizera cinco anos antes. Mas foi a primeira francesa a conquistá-lo.

Durante sua carreira, trabalhou como professora de higiene e lecionou para diretores de creches em Paris. Madeleine liderou a revista Higiene de la Mujer y el Niño e foi autora de vários livros sobre cuidados infantis. Na Suíça, estudou organização e operação de creches. 

Madeleine faleceu pobre, aos 79 anos, deixando um grande legado para a pediatria e as portas da Faculdade de Medicina de Paris abertas para as futuras médicas francesas.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza,18 de fevereiro de 2022

sábado, 12 de fevereiro de 2022

CENTRO GEORGES POMPIDOU - PARIS

Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo,

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O Centro Georges Pompidou (Centre Nacional d’art et de culture Georges-Pompidou), localizado no quartier Saint-Merri, no 4º arrondissement de Paris, entre o Quartier des Halles e o Marais, foi inaugurado em 31 de janeiro de 1977.

O Centro Pompidou nasceu do desejo de Georges Pompidou, então Presidente da França e amante da arte moderna, de criar, no coração de Paris, uma instituição dedicada à arte moderna e contemporânea que convivesse com livros, desenhos, música, artes cênicas e cinema.

O Beaubourg, como o chamam os franceses, abriga o Museu Nacional de Arte Moderna e conserva uma das duas mais importantes coleções de arte moderna e contemporânea do Mundo, a primeira da Europa, com 113.675 obras de arte.

Em suas dependências há exposições temporárias, teatros, cinemas e a Biblioteca de Informação Pública (Bpi), a primeira biblioteca pública de leitura da Europa.

Em ambos os lados da praça, dois edifícios adjacentes abrigam o Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica/Música (Ircam) e o ateliê de Brancusi, que abriga esculturas desse artista romeno, criando as condições de trabalho desse genio das artes.

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988, em que ele descreve o Centro Georges Pompidou.

 

  “Por que nesta praça cercada de prédios centenários, encravaram esta construção do futuro séc. 21, de acrílico, cimento e vidro?   É o Centro Cultural Pompidou. Para cá trouxeram o Museu de Arte Moderna. São incríveis as exposições permanentes e especiais. Destas, tive a sorte de ver em 1979 a exposição Paris-Moscou e, em 1980, a Paris-Cairo. Combinamos não entrar nos locais regurgitantes de turistas. Porém, não obstante as cinco milhões de pessoas que aqui vieram em 1987 (não dá pra acreditar), vamos entrar, pois duas coisas precisam ser revistas: O instituto do som no subsolo, onde esse fabuloso Pierre Boulez descobre novos instrumentos e sons, e a biblioteca de concepção ultrarrevolucionárias. Peçamos, por farra, algo esdrúxulo como o comportamento da mulher e a moda na década de 1820. Dentro de uns 20 minutos receberemos microfilmes, extratos de obras, artigos, ilustrações e “tapes” de televisão com todos os esclarecimentos e bibliografia Entremos na cabine apropriada e vejamos todo esse material. Como funciona o arquivo da biblioteca não dá para entender.”

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 4 de fevereiro de 2022


domingo, 6 de fevereiro de 2022

BREVE HISTÓRIA DA MEDICINA

 Publicado no Jornal do Médico - janeiro de 2022

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   BREVE HISTÓRIA DA MEDICINA 

 “Só se domina completamente uma ciência, conhecendo sua História” 

 Auguste Comte

A fascinante história das grandes contribuições de todos os povos à medicina, ciência e arte universal, surgiu com os primeiros humanos. Segundo o historiador Yuval Noah Harari, em seu livro “Sapiens”, a evolução do gênero Homo, na África, ocorreu há 2,5 milhões de anos. Diferentes espécies desses humanos se espalharam da África para a Eurásia, há 2 milhões de anos. Os neandertais surgiram na Europa e no Oriente Médio, há 500 mil anos. O Homo sapiens surgiu na África Oriental, há 200 mil anos.  De dois milhões de anos até 10 mil anos atrás, o Mundo foi habitado por várias espécies humanas ao mesmo tempo.  Há 100 mil anos conviviam, pelo menos, seis espécies.    

A “Revolução Cognitiva”, ocorrida há cerca de 50 mil anos, com mudanças nos padrões de processamento mental, fez com que os sapiens deixassem as savanas africanas, se espalhassem por diversas partes da Terra e subjugassem as outras espécies. Somos hoje a única espécie sobrevivente.     

A paleopatologia (estudo das alterações que aparecem em restos humanos e de animais) mostra que as enfermidades e os traumatismos sempre estiveram presentes entre os animais. Restos ósseos humanos de origem pré-histórica evidenciam calos de fratura e sinais de osteomielites. Nas múmias do Antigo Egito foram encontradas arteriosclerose, pneumonias, infecções urinárias, cálculos, tuberculose e parasitas. Em Tebas, Egito, foram descobertas 44 múmias de Faraós e Sacerdotes (3700 a 1000 a.C.) com o “Mal de Pott” (Tb óssea).  O faraó Amenóphis IV e sua esposa Nefertiti (1360 a.C.) foram tuberculosos.  

No Peru, em uma múmia de uma índia (1100 a.C.) foi encontrada uma lesão pulmonar e identificado, no DNA do bacilo, a IS 6110, do M. tuberculosis. A Tuberculose era endêmica em animais, no paleolítico, antes de afetar os homens. O organismo infectante era o Mycobacterium bovis ou uma variante. Segundo Joseph H. Bates, MD e William Steady, MD, as primeiras infecções humanas foram eventos isolados, resultante da ingestão de carne infectada ou leite contaminado, muito antes do homem viver em comunidades, no neolítico. O desenvolvimento da agricultura (7000 a.C.) e a domesticação dos animais (gados, porcos e ovelhas) causou o aumento dos agrupamentos humanos, surgindo comunidades com mais de 25000 pessoas e aumento do contágio de muitas doenças.      

A Medicina do Oriente é muito antiga. Ayurveda é o nome dado ao conhecimento médico desenvolvido na Índia há cerca de 7 mil anos, o que faz dela um dos mais antigos sistemas medicinais da humanidade.  A medicina ayurvédica é a mãe da medicina, pois seus princípios e estudos foram a base para o desenvolvimento da medicina tradicional chinesa, árabe, romana e grega.  

Os egípcios fizeram grandes avanços na medicina graças ao sofisticado processo de mumificação de corpos que possibilitou muitas informações sobre a anatomia humana. O médico e escriba egípcio Imhotep é considerado o primeiro médico da história.    

Reza a mitologia grega que Asclépio (em grego) ou Esculápio (latim) é o “Deus da Medicina”. Filho de Apolo, ele foi educado pelo Centauro Quíron que, sendo detentor do conhecimento médico, ensinou a ele a arte de ressuscitar os mortos.  Tal fato desencadeou a ira de Zeus que o fulminou com um raio.       

Hipócrates (Cós, 460 a.C.–Tessália, 377 a.C.), considerado o “Pai da Medicina”, rejeitou a superstição e as práticas mágicas da "saúde" primitiva e criou a teoria dos quatro humores corporais (sangue, fleugma, bílis amarela e bílis negra). Esta teoria influenciou Galeno e dominou o conhecimento até o século XVIII. Sua obra, um conjunto de 70 escritos, constitui o Corpus hippocraticum. Hipócrates descreveu os sintomas de várias doenças, inclusive os da Tuberculose: “Tosse persistente com escarro, sede intensa e impotência geral (caquexia). O doente sucumbe miseravelmente pela consumpção ao final de um ano.”

A Medicina grega foi levada para o Egito e Ásia Menor por conta das conquistas de Alexandre III da Macedônia (356-323 a.C.), que construiu o maior império do Mundo. A fundação de Alexandria, em 332 a.C., deu origem a um novo centro da cultura, onde se preservaram os escritos hipocráticos e das várias escolas médicas gregas, na famosa biblioteca fundada por Ptolomeu I (c. 285 a. C). Grandes personalidades da medicina estudaram na famosa Escola: Praxágoras de Cós; Herófilo; Crisipo de Cnidos; Erasístrato; Sorano de Éfeso; Arécio da Capadócia; Galeno de Pérgamo e outros. Herófilo, “Pai da Anatomia” e Erasístrato foram os dois maiores expoentes médicos da Escola de Alexandria.  

A medicina na Roma Antiga era mágica e sobrenatural, com vários deuses responsáveis pela saúde.  Cláudio Galeno (Pérgamo, 129 – Sicília, 200), por volta de 170, realizou uma experiência que iria mudar o curso da medicina: demonstrou, pela primeira vez, que as artérias conduzem sangue e não ar, como se acreditava.

Com a queda do Império Romano e o início da Idade Média, a medicina viu o ressurgimento das práticas supersticiosas e religiosas. O cristianismo dizia que os males do corpo só podiam ser curados por intervenção divina. A medicina na Europa, como toda a cultura clássica greco-romana, se abrigou nos mosteiros.  

Em 820, os Beneditinos fundaram um hospital em Salerno e passaram a exercer a medicina ao lado dos médicos leigos. Os monges tinham conhecimento dos autores clássicos, como Hipócrates e Galeno, enquanto os leigos eram médicos práticos de pouca cultura. O primeiro grande hospital cristão foi construído por São Basílio, em Cesária, na Capadócia (Turquia), no ano 370. O primeiro hospital do mundo ocidental foi erguido em Roma, por volta do ano 390, por uma dama romana chamada Fabíola. Ela fundou o hospital para os doentes que recolhia nas ruas da cidade. Foi o primeiro hospital cristão, público e gratuito da civilização ocidental. A Escola Médica de Salerno foi a primeira escola Europeia de medicina medieval. A Escola Médica de Montpellier, no sul da França, cedo destacou-se como centro de ensino médico na Idade Média.  

 Os grandes expoentes da medicina moderna e contemporânea são:

Andreas Vesalius (1514 -1564) autor “De Humani Corporis Fabrica”, um atlas de anatomia de 1543;

William Harvey (1578 - 1657), médico britânico, que descreveu com detalhes o sistema circulatório;

Antony Van Leeuwenhoek (1632 - 1723) cientista holandês, construtor de microscópios. Em 1674, conseguiu observar bactérias de 1 a 2 micras desvendando o mundo dos microrganismos;

Edward Jenner (1749 -1823), médico britânico que inventou a vacina antivariólica - a primeira imunização deste tipo na História;

Crawford Williamson Long (1815-1878), médico e farmacêutico norte-americano,
que fez, pela primeira vez, uma cirurgia, em 1842, com anestesia, tendo utilizado o éter como anestésico;

Louis Pasteur (1822 -1895), cientista francês cujas descobertas tiveram enorme importância na história da química e da medicina. A ele se deve a criação da pasteurização e as vacinas antiantraz e antirrábica;

Robert Koch (1843 - 1910), médico, patologista e bacteriologista alemão que descobriu o bacilo da tuberculose;

Jean-Martin Charcot (1825-1893), médico francês, “Pai da Neurologia Moderna”, diferenciou a neurologia da psiquiatria.

Philippe Pinel (1745 - 1826), médico francês, “Pai da Psiquiatria”, notabilizou-se por ter considerado que os seres humanos que sofriam de perturbações mentais eram doentes e que deviam ser tratados como doentes e não de forma violenta;

Wilhelm Conrad Röntgen (1845 - 1923), físico alemão que, em 1895, produziu e detectou  radiação eletromagnética (RX);

Alexander Fleming (1881 - 1955), médico e bacteriologista britânico, descobriu a proteína antimicrobiana chamada lisozima e o antibiótico penicilina, obtido a partir do fungo Penicillium notatum;

Joseph Lister (1827-1912), médico, cirurgião e pesquisador britânico, pioneiro nas técnicas de antissepsia nas cirurgias, considerado o "Pai da Cirurgia Moderna”.

Albert Calmette (1863 - 1933), bacteriologista francês, descobridor da vacina BCG contra a tuberculose, juntamente Camille Guérin (1872-1961), veterinário e biologista francês;

Maurice Hugh Frederick Wilkins (1916 - 2004), físico da Nova Zelândia, agraciado com o Nobel de Física/Medicina de 1962, juntamente com Francis Crick e James Watson, por suas contribuições na descoberta da estrutura em dupla hélice do DNA.

Novas perspectivas se abriram para a medicina com a decifração do código genético do sapiens.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 10/1/2022  

 


POMPEIA RESSUSCITA SEUS ESCRAVIZADOS


Publicado no Jornal do Médico - novembro de 2021

 https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Novembro-2021-app.pdf


POMPEIA RESSUSCITA SEUS ESCRAVIZADOS


Quarto para escravos descoberto no dia 6 de novembro de 2021 em Pompeia. PARQUE ARQUEOLÓGICO DE POMPEYA / EFE

Fonte: https://brasil.elpais.com/cultura/2021-11-10/o-massacre-de-400-escravizados-que-define-o-mundo-romano.htm

 

Em seu livro Invisible Romans (2011), Robert C. Knapp, professor emérito de clássicos da Universidade da Califórnia, Berkeley, nos mostra que nós só conhecemos do Império Romano a vida dos imperadores, filósofos, senadores, enfim, dos poderosos.

 Knapp, em Invisible Romans, finalmente, ilumina os habitantes invisíveis de Roma, como: trabalhadores, donas de casa, prostitutas, libertos, escravizados, soldados, gladiadores, bandidos, ao mostrar que os privilégios da elite romana se devem a labuta desses cidadãos.   

Moses Finley (1912-1986), historiador americano radicado na Inglaterra, especialista na economia do mundo greco-romano, definiu a Antiguidade como uma sociedade de escravizados, em que milhões de pessoas eram obrigadas a trabalhar exaustivamente, sem nenhum poder sobre seus destinos, correndo riscos de serem vendidas, maltratadas e assassinadas.

O estudo da vida dos escravizados na Roma Antiga é limitado, pois quase não há restos materiais dessas pessoas. Porém, a descoberta de um quarto que, certamente, era ocupado por escravos, na Vila de Civita Giuliana, em Pompeia, feita por uma equipe de arqueólogos e anunciada no dia 6 de novembro de 2021, iluminou essa questão.

O jornal “El País”, de 10 de novembro de 2021, divulgou a descoberta com uma matéria cujo título é: “O massacre de 400 escravizados que define o mundo romano - A descoberta de um quarto em uma vila de Pompeia revela as condições de vida de seres humanos que eram tratados como gado”.

Ainda em escavação, o quarto descoberto é um espaço de 16 metros quadrados com três camas e alguns objetos, com apenas uma pequena janela na parte superior. O estudo dos objetos permitirá desvendar melhor a vida cotidiana desses escravizados que tanto contribuíram para a economia daquela sociedade.

Segundo Finley, houve apenas cinco genuínas sociedades escravistas, duas delas na Antiguidade: Grécia e Roma. As outras três nos: Estados Unidos, Caribe e Brasil.  Finley, com suas pesquisas nos idos de 1950, lançou luz sobre a profunda injustiça do mundo romano.  

Jerry Toner, bolsista de Clássicos no Churchill College, Cambridge, especialista em história social e cultural romana escreveu em “Popular Culture in Ancient Rome” que a vida de um escravo não era muito diferente da de um animal doméstico. Era uma vida de trabalho duro, surras e comida escassa, além de abusos sexuais.  

Pompeia, ao ser sepultada pela erupção do Vesúvio, no dia 24 de gosto do ano 79 da era cristã, caiu no esquecimento, mas não morreu. O Vesúvio, morada preferida de Baco, sepultando-a, preservou-a para a posteridade. Pompeia ficou adormecida quase dois mil anos, quando, em 1748, começou a ser ressuscitada com as escavações arqueológicas e reconstituições que ainda prosseguem até os dias atuais.

No início do século XX, houve escavações parciais na Vila Civita Giuliana, que fica a cerca de 700 m a noroeste das paredes da Antiga Pompeia. Atualmente, as escavações foram retomadas e trazem à luz o setor produtivo-servil de uma grande Villa. Certamente, as escavações irão ressuscitar os escravizados de Pompeia.  

ana margarida furtado arruda rosemberg                                  

Fortaleza, 15 de novembro de 2021.

REFERÊNCIAS                                                                        

https://brasil.elpais.com/cultura/2021-11-10/o-massacre-de-400-escravizados-que-define-o-mundo-romano.html

http://anamargarida-memorias.blogspot.com/2012/01/pompeia.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pompeia

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moses_Finley

https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Knapp_(classicist)

http://pompeiisites.org/en/press-kit-en/the-excavations-of-civita-giuliana/

 

 

 

 


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Homenagem ao amigo e Confrade Roberto Misici (1947-2022)

 

                      Roberto e Veula em uma solenidade de posse da ACM, em 22.11.2019


Partiu ontem, 01.02.2022, o amigo e confrade, Roberto Misici, assim de repente, sem nenhuma despedida, deixando seus amigos e familiares mergulhados em saudades.
Filho de Emídio Misici e Letizia Albertina Botelli Misici,
Roberto nasceu em Milão, Itália, em 21/04/1947.
Veio para o Brasil ainda criança, naturalizou-se brasileiro, estudou medicina, fez-se renomado coloproctologista, angariou muitos amigos, principalmente na Academia Cearense de Medicina (ACM). 
Amante das artes, especialmente da ópera, era gentil e dedicado à medicina e à ACM, onde ocupava, desde 11.04.2014, a cadeira número 2, patroneada por Moura Brasil.
Faleceu ontem, deixando consternados sua esposa Veula, seus filhos Mirella e Emídio, seus familiares e amigos. Que todos encontrem conforto nesse momento doloroso e que Roberto durma em paz o sono eterno.

ana margarida
Fortaleza-CE, 02.02.2022