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sexta-feira, 23 de março de 2012

O INSTITUTO N. S. AUXILIADORA – SEGUNDA PARTE: maio, mês de Maria.

Ana , R. Luiz e Goretti
Ana e R. Luiz
Atrás da E. pra D.: Edna, Maninha e Lúcia. Na frente: Ana e Goretti


Em 1958, já alfabetizada, passei para o 1º ano primário do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, em Baturité.  A Goretti, que era um ano mais nova do que eu, entrou para a alfabetização. Juntas, passamos a bisbilhotar o colégio. Desvendamos a clausura no 3º andar que era vedada para nós, alunas, pois lá ficavam os aposentos das freiras. Um dia, subimos escondidas, entramos no dormitório e vimos uma fila de camas com cortinados.
No 2º andar ficava o dormitório da alunas internas, além da sala de estudos e outras salas de aulas.  As alunas internas usavam um macacão para tomar banho, pois as freiras não permitiam que o corpo, templo do Espírito Santo, fosse tocado. Será que elas tomavam banho assim? Para trocar a roupa era necessário cobrir o corpo com um lençol. Via-se pecado em tudo, até nas unhas pintadas.
Todos os anos, no mês de maio, mês de Maria, havia a coroação de Nossa Senhora Auxiliadora, pelos anjinhos. Tudo era muito fascinante: a roupa de cetim colorida, as asas transparentes com algodão nas pontas, a aureola e as mãos postas. Lúcia, Maninha, Edna, eu e a Goretti éramos anjinhos. No dia 31 de maio, lindo mês da Mãe do Céu, as festividades encerravam-se com a coroação de Maria. O altar era armado e ornamentado com os anjinhos. Um deles coroava a nossa Senhora, sob aplausos e cânticos.
Sempre tive boa memória e, por isso, as freiras me ensinavam musiquetas para eu cantar no palco, nas mais diversas comemorações. Ainda hoje me lembro de uma, em francês:

Où vas-tu Basile sur ton blanc cheval perché?
Je vais à la ville le vendre au marché
Ton cheval claudique mais vois-tu pour t’obliger
Contre une vache magnifique je peux l’échanger

Refrain:
Sitôt dit sitôt fait bonne affaire se dit Basile
Sitôt fait sitôt dit Basile est un dégourdi.

Où vas-tu Basile avec cette vache à lait?
Je vais à la ville la vendre au marche
Ta vache a la fievre la vendre est bien compliqué
Contre ma plus belle chèvre veux-tu la troquer.
Refrain:

Embalando uma bonequinha, lembro-me que eu cantava em italiano.

L’altro gorno mia cara ninna
Mi promessa la bambina  nuova
Oh! Como e bella la bambina mia
Quase quase é piu bella de me.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2004.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O INSTITUTO N. S. AUXILIADORA – PRIMEIRA PARTE: alfabetização


Instituto N. S. Auxiliadora das irmãs Salesianas, em Baturité, década de 1950

Instituto N. S. Auxiliadora das irmãs Salesianas, em Baturité, década de 1950

Instituto N. S. Auxiliadora das irmãs Salesianas, em Baturité, década de 1950

Comendador Ananias Arruda, freiras e alunas salesianas.

Alunas salesianas


Era o inicio de 1957. Eu tinha seis anos e, finalmente, ia estudar. Os meus irmãos: Lúcia, Maninha, Edna e Raimundo Luiz já freqüentavam a escola. Vestir aquela farda e ir para o Colégio das Irmãs Salesianas era um sonho muito desejado. Queria aprender as letras e descobrir o mundo maravilhoso dos livros.
Acordei cedinho e ansiosa para estrear a saia azul marinho pregueada, a blusa branca de mangas compridas, a gravata, o sapato preto e as meias brancas que vinham até aos joelhos.  Cartilha, caderno, tabuada, lápis, borracha, caixa de lápis de cor (com as cores do arco íris), dentro da bolsa nova me fascinavam. Ia cursar a alfabetização, pois nos idos de 1950 não existia o pré-escolar. O papai e a mamãe foram, de jipe, nos deixar na porta da escola.
Quando entrei no colégio o coração disparou. Uma freira me deu a mão e levou-me até a sala de aula. As carteirinhas, a lousa (quadro negro), o apagador e o giz. Dentre as coleguinhas, a Tetê, filha da d. Neila, minha primeira amiguinha.  Irmã Lízia, a primeira professora.  Na hora do recreio, o pátio, a merenda, a capela. Aos poucos fui descobrindo todos os recantos e encantos daquele colégio imenso.
O dever de casa era feito com prazer e, logo, logo, aprendi, o ABC. Juntando as letrinhas fui aprendendo a ler. Abriu-se, assim, um mundo encantado, o mundo do saber. Não podia imaginar que esse mundo era infinito e que me daria tanto prazer.
O local do colégio mais marcante era o auditório, pois lá, todos os dias, íamos cantar. Uma das primeiras músicas ensinadas foi o hino nacional. Uma freira, Irmã Nazaré Teixeira, tocava no piano e a gente cantava:
Ouviram do Ipiranga às margens plácidas.
De um povo heróico o brado retumbante...
Para mim essa música, tão diferente das de roda, era muito difícil de compreender e quando chegava a estrofe:
Do que a terra mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores...
Eu entendia:
Do que a terra Margarida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores ...
Aí, meu coração disparava de emoção por ouvir meu nome assim cantado com tanta melodia, por todas, no hino de meu país.
Outra música que cantávamos com 3 vozes era:
Frère Jacques
Frère Jacques
Dormez-vous?
Dormez-vous?
Sonnez les matines!
Sonnez les matines!
Ding, ding, dong!
Ding, ding, dong!
Mesmo sem nada entender, pois a letra era em francês, a atração foi instantânea pela língua que, ao longo da vida, aprendi a amar e que hoje me dá tanto prazer.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2004

sexta-feira, 16 de março de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – QUINTA PARTE: as travessuras


Filhos do casal Edgy e Adelina, com primos, primas e amigos, em Baturité.

Lucia, Maninha e Edna com amigas

Filhos da casal Edgy e Adelina com primos e primas, em Baturité.


Na rua 15 de Novembro, em Baturité, na década de 1950, tinha uma casa abandonada  que  para nós era mal-assombrada e nos causava grande pavor. Sempre que por lá passávamos,  metíamos o pé em desembalada carreira com medo das almas do outro mundo. A respiração ficava ofegante e o coração quase saia pela boca até virarmos o beco do cine, quando desacelerávamos aliviadas.  Em compensação existiam outras casas que nos acolhiam como se nossas fossem. As opções eram muitas. Recordo-me bem das seguintes: vovó Noemy, tio Ananias, Tiinhas, dona Noemy e seu Edmundo, Laurenice, dona Neila, Mirian, Ângela Brito, Márcia e Mércia, Helena Elba, Roberto Lucena e muitas outras. As portas não tinham trancas. Por isso, em todas elas brincávamos como na casa de nossos pais.
A Lúcia, além do piano, tocava acordeon. A Maninha imitava, mas quase nada tocava. A Edna era a dançarina que sonhava ser um dia uma grande bailarina. E tanto ela pelejou que na ponta dos pés dançou.
O Raimundo Luiz, o mais levado, arranhou com a agulha da radiola do meu pai, um disco raro. Foi um Deus nos acuda quando o papai chegou. Certa vez, ele fugiu do colégio e fez muitas travessuras. Com aqueles olhos verdes, herdados da minha mãe, seduzia qualquer um e era o queridinho da tia Luizinha, tia Rosinha e tio Ananias.
Lembro-me que em um dia resolvemos quebrar a rotina e fomos até a maternidade, eu a Goretti e o Raimundo Luiz, só para bisbilhotar. Como ninguém nos barrou fomos entrando em todos os lugares. De repente, uma visão de tirar o fôlego: uma mulher parindo. Gravei na retina, para sempre, aquela mulher com as pernas abertas pintadas de mercúrio cromo. Uma freira correu e fechou a porta em nossa cara. Ficamos apavorados e com muito medo. Não sei como, mas a mamãe soube da travessura, pois quando chegamos em casa ganhamos uns bolos nas duas mãos. Também, às vezes, brigávamos e nos agarrávamos pelos cabelos, arranhando-nos com as unhas, mas eram brigas de irmãos que logo, logo se resolviam.
Um dia, eu e a Goretti matamos a curiosidade de ver uma mulher nua, olhando pela brecha da porta do banheiro, uma de nossas empregadas tomando banho. Os seios fartos, o sexo cabeludo, a descoberta, o pecado. Nossa consciência pesou e fomos contar ao padre. Para nós tudo era pecado!  
No quintal tinha um tanque grande, pintinhos, galinhas e os pombinhos da Goretti.  No tanque tomávamos banhos inesquecíveis, num canto do quintal fazíamos o guisado em panelinhas de barro. O portão de lado com uma pesada tranca dava saída para o cine beco. Quando chovia mais forte corríamos pra tomar banho de bica. Que banhos maravilhosos! Os barquinhos de papel descendo pelas coxias atiçavam a nossa imaginação. Tudo era festa, alegria e fantasia!
            À noite, depois do jantar, íamos brincar na calçada.  Nas noites de lua cheia contávamos as estrelas, os carneirinhos de nuvens e espiávamos a estrela d’Alva. Depois, começavam as brincadeiras: quem é que tem o anel? Tínhamos que adivinhar. Além dessa, tinha a do grilo. Cadê o grilo? Está lá atrás. Porém, a melhor de todas era a do general. Cada um de nós recebia uma denominação: generalíssimo, general de divisão, general de brigada, coronel, tenente coronel, major, capitão, tenente, sargento, cabo e rapadura melada.
 Generalíssimo passou em revista as suas tropas e sentiu falta do capitão.
-O capitão não falta, quem falta é o coronel.
-O coronel não falta, quem falta é o major.
-O major não falta, quem falta é o general de brigada.
-O general de brigada não falta, quem falta é o tenente coronel.
E assim a noite passava até a hora de deitar.
Tudo era fantasia na nossa infância. Um tempo feliz que permanecerá para sempre, indelével, em  minha memória.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2002.

PS: Os dizeres da brincadeira do generalíssimo foram alterados porque a Lúcia e a Edna lembraram-se das expressões usadas na época. 

 

 


quinta-feira, 15 de março de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – QUARTA PARTE: a rede


Atrás, da E. pra D.: Maninha, Lúcia e Edna. Sentadas, da E. pra D.: Ana, Goretti, Clêide e Fátima

Atrás, da E. pra D.: Edna, Maninha com o Miguel nos braços e Lúcia com a Teca nos braços. Sentados, da E. pra D.: Goretti, Fátima,R. Luiz, Clêide e Ana


A rede! Quanto simbolismo teve pra nós!  Nela brincávamos de barquinho, de balanço, de bonecas e tudo mais. Nela dormíamos. Cinco em cada quarto. Embaixo de cada,  a bacia para aparar o xixi solto. No canto do quarto, o candeeiro para espantar as almas do outro mundo e o uninol. 

A rede era o nosso refúgio e parque de diversões. Uma vez, de tão cheia, o armador arrebentou e caímos todos no chão. A Clêide sangrando no rosto, a mamãe chorando abraçada ao papai, pensando que ela tinha perdido a visão. Que nada! Foi só um arranhão.  

A rede! Amalgamada à vida do nordestino ela está presente desde o seu nascimento até a sua morte. Ao nascer é o berço que o embala, na doença é a maca que o transporta ao hospital e na morte é o caixão que o leva à última morada. Nela, o nordestino dorme a vida inteira, as crianças brincam, os adultos namoram, as mulheres parem seus filhos. 

A rede no Nordeste não é privilégio de ninguém, pois tem para os ricos e para os pobres também. As dos ricos são grandes, bordadas, com varandas de crochê ou de renda. As dos pobres são listradas, quadriculadas, sem varandas e bem pequenas. Têm redes de todos os tipos: lisas, brancas, coloridas e dos mais diversos tecidos. Tem rede pensa, rede funda, com punhos quebrados, fundo rasgado e até com o fundo remendado. Tem de algodão fino, algodão grosso, tem de corda, tem de nylon e com fio entrelaçado. Tem a rede de tucum feita com a fibra da carnaúba.  Tem até a das bonecas, pra meninada brincar.  Tem rede berço para os recém-nascidos, tem para as crianças, para os velhos, para os casais, para os gordos e para os magros, tem pra todos os mortais.   


Acordávamos bem cedinho, as babás vestiam nossas fardas, calçavam nossas meias e sapatos, arrumavam as bolsas e saíamos para o colégio “Nossa Senhora Auxiliadora” das irmãs salesianas, onde estudávamos. Na volta, com muita fome, íamos direto almoçar. Papai, mamãe, a mesa grande e farta, a pia, o pátio, a cadeira alta, o gradeado de madeira, as mangas e bananas dentro dos caçuás. 

Depois do dever de casa ganhávamos as calçadas e íamos brincar. Pulávamos das jardineiras, brincávamos de manjôo, esconde-esconde, cobra-cega, pular corda, macaca, arrodeávamos o quarteirão. Nas brincadeiras de roda as cantigas todas sabíamos cantar.
 Atirei o pau no gato...
 Eu fui ao tororó beber água e não achei...
Ai bota aqui, ai bota aqui o seu pezinho...
Cai, cai, balão, cai, cai, balão aqui na minha mão...
Terezinha de Jesus deu uma queda e foi ao chão...
Como pode o peixe vivo viver fora da água fria...
O meu boi morreu, o que será de mim...
Ai eu entrei na roda, ai eu não sei como se dança...
Cachorrinho está latindo lá no fundo do quintal...
Há três noites que eu não durmo, ola lá...
Roda pião, bambeia pião!...
Meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá...
Escravos de Jó jogavam caxangá...
A barata diz que tem sete saias de filó...
Pai Francisco entrou na roda, tocando o seu violão...
Marcha soldado cabeça de papel...
Pirulito que bate, bate, pirulito que já bateu...
Samba Lelê ta doente, ta com a cabeça quebrada...
O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada...
Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...
 A que mais gostávamos era “Se esta rua fosse minha” talvez por sua nostalgia e por falar de amor
“Se esta rua, se esta rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar,
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes,
Só pro meu, só pro meu amor passar.
Nesta rua, nesta rua tem um bosque,
Que se chama que se chama solidão.
Dentro dele, dentro dele mora um anjo,
Que roubou, que roubou meu coração.
Se eu roubei, se eu roubei teu coração,
Tu roubaste, tu roubaste o meu também.
Se eu roubei se eu roubei teu coração,
É porque é porque te quero bem”.

E assim anoitecia...

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, novembro de 2002.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A CASA DE MEUS PAIS - TERCEIRA PARTE: nossas babás

Tia Zita e nove sobrinhos, filhos de Edgy e Adelina - Baturité 1957

Na década de 1950, em Baturité, minha mãe trabalhava na prefeitura ao lado do meu pai, que era prefeito da cidade. A sua ausência em casa era mitigada por babás carinhosas e dedicadas, tão diferentes das de hoje, frias, técnicas e profissionais. 

As babás de antigamente se integravam de uma forma tal à família que passavam a fazer parte dela. Lá em casa não foi diferente. 

Foram muitas: Geraldina, Dorinha, Raimunda Cobra, Raimunda Onça, Dona Nascimenta, Lídia, Guiomar, Josina, Nenzinha e outras mais. 

Ah! As nossas babás! Uma, pra cada. A minha era a Lídia; a da Gorreti, a Guiomar; a da Edna, a Dorinha que de tão pequena não agüentou o peso da Bolota e com ela foi ao chão. 

Na hora de dormir, a rede, o bico, a mamadeira, o lençol, a canção de ninar, papai, mamãe e elas a nos embalar.

Tutu  Marambá, não venhas mais cá.
Que a mãe da menina te manda matar.

Boi, boi, boi.
Boi da cara preta.
Pega esta menina que tem medo de careta.

Dorme neném que eu tenho o que fazer.
Vou lavar vou engomar camisinha pra você.       
Ah! Ah! Ah! Oh! Oh! Oh!

Meu pai embalava os filhos a cantar:

Edgar chorou quando viu a Rosa, gingando toda prosa,
Com uma linda baiana que ele não deu
Coitado do Edgar (bis)

Chorou de dar pena
Chamou Madalena
Entregou o pandeiro
E desapareceu
Coitado do Edgar (bis)

Madalena disse que Edgar não tem razão
Aquela baiana não foi ninguém quem lhe deu.
Rosa trabalhou o ano inteiro e fez serão
Não sei porque Edgar se aborreceu.
Coitado do Edgar (bis)

Minha mãe cantava:
Roda pião, bombeia pião.
O pião entrou na roda pião.
Roda pião bombeia pião.
Sapateia no tijolo oh! Pião.
Roda pião, bombeia pião.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – SEGUNDA PARTE: A prole

Ana Margarida

Clêide

Edna

fátima

Goretti

Maninha

Raimundo Luiz

Vovó Adelina e Vovô Lulu, Lucia, Maninha, Edna, R. Luiz e Ana

Adelina e Edgy com Lúcia, Maninha e Edna



Adentrando a casa de meus pais, em Baturité, o primeiro quarto à direita era o deles. Tinha uma cama grande, um guarda-roupa, uma cômoda e um bercinho, ocupado por um recém-nascido, quase sempre. 

Minha mãe e suas barrigas anuais. Parideira incansável... pariu quinze filhos! Não abortou nenhum. Os gritos sufocados, a parteira aparando a criança, enfim, o choro, o filho, fruto do amor, nos braços. O momento sublime, tantas vezes experimentado. O paraíso, na terra vivido. 

Minha mãe embalando o recém-nascido, o sono leve, as noites mal-dormidas, porém feliz amamentando e cuidando da cria. O resguardo, a quarentena, a vovó Adelina, as canjas de galinha, o batizado no 7º dia. 

Os filhos multiplicando-se a cada ano. Um no colo, outro na barriga e outros mais a lhe puxar a saia. O amor transbordando, incondicional. A criançada alegrando o lar, correndo sem parar. 

Lúcia, a primogênita; Maninha, a sapequinha (seus cachinhos castanhos, o papai guardou) e a Edna, de tão gordinha foi apelidada de bolotinha. Enfim, um menino, Raimundo Luiz, para alegria de meu pai. Depois, quatro meninas. Eu; Goretti, de cachinhos dourados, era o meu par; Clêide; de tão loirinha parecia uma bonequinha holandesa e a Fátima, uma portuguesa. Novamente, outro menino para alívio de meu pai, era o Miguel Antônio. Em seguida, Teca e Ângela fazendo um par de bonecas; João José e a Carminha, um casal loirinho. Para completar os quinze, Carlinhos, bem gordinho e Isabel, a caçulinha, mas isso foi bem depois, em Fortaleza, nos idos anos sessenta. 

Minha mãe cuidando dos filhos doentes: sarampo, catapora, caxumba e outras viroses da infância. Nenhum de pólio, pois todos ela vacinou. As febres elevadas, as toalhas molhadas, as noites em claro, os zelos, os desvelos, os caldos, as compressas de angu de farinha para as dores de barriga. Foram tantos os cuidados... 

Minha mãe pudica. Sempre vestida! Sua fé indômita, a comunhão diária, a missa dominical, o terço, a mantilha e o missal. No oratório, em casa, a imagem da Sagrada Família. No Natal, a magia da lapinha. O menino Jesus na manjedoura (presente de sua avó), Maria e José de cada lado, os carneirinhos e os reis Magos. 

Na Sexta-feira Santa, o  jejum e a abstinência de carne, os filhos à sua volta e ela a nos contar o sofrimento de Jesus na cruz. As lágrimas correndo em nossos olhos, com pena de tanto padecer de Cristo para nos salvar. O silêncio sepulcral de meio dia às 3h da tarde, entre a crucificação e o último suspiro. 

Finalmente, o sábado, a aleluia, a alegria, o Jesus ressuscitado! Minha mãe rezando, rezando tanto um rosário sem fim, ensinando-nos a rezar de joelhos e mãos postas:


“Boa noite menino Jesus, eu vos dou o meu coração e prometo ser boazinha. Anjo da Guarda guiai-me, Nossa Senhora de Fátima protegei-me, São Luiz de Gonzaga conservai minha inocência. À benção papai do céu, à benção mamãe do céu, faça feliz sua filhinha. Protegei o papai, a mamãe, meus irmãos, meus avós, meus tios, meu padrinho e minha madrinha. À benção papai! À benção mamãe”


Abençoados, embalados e velados por eles, íamos dormir o sono profundo sem preocupações e pesadelos. Cada um em sua rede, cinco em cada quarto. O urinol, o xixi solto, a bacia e o candeeiro para espantar as almas do outro mundo.


Minha mãe chorando dentro da rede. Chorando a morte do vovô Lulu, seu pai, as lágrimas inundando seu rosto e o papai a consolá-la. Mais uma vez, em outra rede, chorando tanto a morte precoce do irmão querido! Chorando o filho doente (água na pleura), na época doença mortal, mas ela não se abateu e foi pra Fortaleza em busca de curá-lo. E assim, com tantos desvelos e cuidados os quinze filhos vingaram.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – PRIMEIRA PARTE: o Cine Beco

Minha mãe - Maria Adelina

Meu pai - Miguel Edgy


Sentados da E. pra D.: Ana Margarida, Goretti, R. Luiz, Clêide e Fátima. Em pé, da E. pra D.: Maninha, Lúcia e Edna

Da E. pra D.: Edna , Lúcia e Maninha


Da E. pra D.: Lúcia com a Fátima no colo, Goretti, Edna, Ana, R. Luiz e Maninha com a Clêide no colo.


Da E. pra D.: Lúcia, Maninha, Edna, R. Luiz, Ana e Goretti.

Da E. pra D.: Goretti, Ana, R. Luiz, Edna, Maninha e Lúcia.

Da E. pra D.: Goretti, Ana, R. Luiz, Edna, Maninha e Lúcia com a Clêide no colo.


Nos anos cinquenta do século XX, década de minha infância, morávamos em Baturité, na Rua 7 de Setembro.

 A nossa casa fazia esquina com um beco estreito (cine beco) que ligava a nossa rua à Rua 15 de novembro. Na frente da casa, duas jardineiras altas eram separadas por um batente e uma porta. Adentrando, três degraus, um corredor comprido que ia até à sala de jantar, três quartos à direita e três à esquerda, um pátio interno, uma cozinha com um fogão à lenha, um banheiro e um grande quintal com um tanque, nossa piscina.

O primeiro quarto à esquerda era o escritório de meu pai;  bureau, radiola, filmadora, projetor, máquina fotográfica, duas estantes repletas de livros, enciclopédias, revistas “O Cruzeiro”, “Seleções”, o jornal “A Verdade”, fotografias, rolos de filmes, discos e outros objetos adornavam-no.  Duas fotos grandes, separadas por um crucifixo de prata, ornavam as paredes. Meu pai, ainda bem moço, com sua farda de capitão do exército, quepe e seu olhar apaixonado e sonhador.  Minha mãe, linda, com  cachos dourados, vestido preto de renda e seus olhos verdes e serenos, transparecendo sua alma completamente apaixonada. Formavam um belo casal!

 Uma janela dava para a jardineira e a outra para o beco. Através da última, meu pai projetava na parede do outro lado do beco, para a alegria de todos, os mais maravilhosos filmes de nossa infância. Era o cine beco! Entrada franca!

Resquício do cine que meu pai possuiu na Rua 15 de Novembro e que, ao se eleger prefeito, vendeu para D. Emília, o cine beco fazia o maior sucesso! Nele, assistíamos alguns curtas metragens. Lembro-me dos filmes: os golfinhos e o balé aquático.  

Os melhores e mais esperados eram àqueles produzidos e dirigidos pelo meu pai. Nós e nossos primos e primas (Núbia, Liana, Vera, Regina, Níobe, Glória, Tetê, Ico, Luis Achilles etc), estrelas e astros de cinema, na tela projetados, nas ocasiões mais diversas: na cadeirinha de balanço, na cadeira alta, na bicicleta da Lúcia, no velocípede do Raimundo Luiz, correndo na praça, brincando de roda, nas festas de aniversários e nos batizados.  

O sucesso era total! Um dos filmes mudo, em preto e branco, mostrava, na cadeira alta, a Lúcia com um papel e um lápis escrevendo uma carta para a vovó. Pela leitura labial ela dizia: papai, mamãe e vovó. A Maninha, linda de cachinhos, com um lápis na boca repetia a mesma coisa e a Edna, também. Na pracinha dos Correios, a Maninha e a Lúcia abraçadas. Todos nós fomos filmados na cadeira alta. Em outro filme, a Lúcia tocando seu acordeon, o papai bem moço no escritório, em Fortaleza, falando ao telefone. Imagens na casa da vovó Adelina, mostravam a mamãe com as irmãs e irmãos. Em outro filme, a vovó Adelina, o vovô Lulu, filhos, genros e noras no Passeio Público, em Fortaleza. O noivado do tio Nelson com a tia Teresa, o casamento da tia Mazé e imagens no Colégio Salesiana, nas formaturas das tias: Juca, Tereza e Mazé foram feitas pelo meu pai. Aliás, o papai filmou e fotografou toda a família. 

 Não conheci o cine da Rua 15 de Novembro, mas a mamãe contava que o próprio papai manejava o projetor e dirigia a sessão. As crianças tinham entrada franca. Eram filmes de Cawboys, aventuras de Tarzan, Jim das Selvas, o Zorro, as comédias do gordo e do magro e os filmes de Charles Chaplin.  Carlitos, o genial palhaço, o eterno vagabundo, o inesquecível, o rei do riso, chegou à Baturité pelas mãos de meu pai. Os dramas eram  só para os adultos.  

Muitos clássicos foram projetados! Casablanca, com sua magia e bela história de amor, foi um deles. O vigário de Baturité, escandalizado com a fita, fez uma carta de protesto para a minha avó. Mal podia imaginar que casablanca tornar-se-ia um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos.


               Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
                              São Paulo, 2002.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O SÍTIO DO MEU TIO


Pedacinho do paraíso encravado no sopé da serra de Baturité, o sítio do  meu tio ficava atrás da casa de meus avós. Extensão de nosso quintal, era pra lá que fugíamos às tardes, depois do dever de casa, nos finais de semana e nas férias.

Havia uma casinha logo na entrada e, à esquerda, um caminho estreito e íngreme, com muitas pedras, que descíamos com cuidado. 

Malícia, uma plantinha abundante nas margens do caminho, fechava-se, automaticamente, quando, a tocando, dizíamos: “Malícia, o teu pai morreu”. Acreditávamos que ela morria de tristeza e ficávamos tristes. Porém, era uma tristeza fugaz, dada as nossas despreocupações e nosso encantamento constante.

Quando chegávamos embaixo, éramos recompensados pela visão fantástica do rio, dos mangueirais, das sirigueleiras, das goiabeiras, das bananeiras e da exuberante vegetação. 

Para completar o cenário, tínhamos a serra de Baturité com seus tons azulados que contrastavam com o verde das mangueiras e a pureza transparente do rio.

Ansiosos, subíamos no pé de siriguela que ficava logo à direita e que quase sempre, nos meses de safra, estava carregado.  

As mais cobiçadas eram as vermelhinhas. Depois, as amareladas (de vez) que comíamos com prazer. As verdes eram poupadas.

Aventurávamos nos galhos mais finos e altos com a destreza de quem os conhecia com familiaridade, só para atingir as mais cobiçadas. 

Os passarinhos concorriam conosco, pois muitas vezes elas estavam bicadas.  Quando não dava pra alcançá-las, tentávamos derrubá-las com um galho seco.

No sítio do meu tio, a vida florescia exuberante.  Era um verdadeiro viveiro de passarinhos: pintassilgos, tico-ticos, rolinhas, andorinhas, bem-te-vis, beija-flores, canários, sabiás, codornas, curiós e outros mais, viviam de galho em galho, livres, fazendo seus ninhos, bicando goiabas, siriguelas, mangas e bananas; bebendo água fresca e pura do rio e gorjeando sons maviosos que enchiam nossos ouvidos de prazer.  

As sinfonias dos passarinhos e o cantar das águas quebravam o silêncio daquele lugar.
Pássaros maiores sobrevoavam o rio e, com seus vôos rasantes, mergulhavam o bico para pegar peixes que eram abundantes nos meses de inverno, quando o leito do rio se fartava d’água. 

Nos meses de verão, refrescávamos nas suas águas puras, transparentes e límpidas que desciam da serra de Baturité e iam formar o Putiú e depois o Aracoiaba.

Conhecíamos todos os meandros daquele rio e os seus mistérios. Havia um poço encantado que nos metia medo e fascínio. Havia os locais mais rasos, os mais fundos, os pedregosos e os arenosos. Catávamos pedrinhas para brincar em casa. As redondinhas eram as melhores e, por isso, as mais procuradas.  

Pescávamos os peixinhos com as próprias mãos pra, depois, comê-los fritos. Eram piabinhas coloridas, mas quase sempre prateadas.

Pulando de pedra em pedra, alcançávamos a outra margem do rio coberta por um mangueiral tão grande que o sol não penetrava suas imensas copas. 

O chão repleto de folhas amareladas, como um tapete dourado, dava um toque especial de outono. As mangas caídas eram tantas que não precisávamos subir nas mangueiras. Elas já estavam ali, ao nosso alcance. Era só lavá-las no rio e depois sorver sua polpa por um pequeno buraco feito em uma das extremidades.

A paz e o silêncio reinantes nessa margem eram quebrados quando pisávamos nas folhas secas. Corríamos em todas as direções, livres, no mais puro contato com a natureza, como borboletas coloridas e esvoaçantes pousando de flor em flor. 

Lembro-me de uns balanços feitos de cordas e tábuas, presentes divinos,  que desciam das mangueiras. Era um fantástico parque de diversões. Balançávamos o mais alto possível sem medo de altura, pois a vida para nós era pura aventura.

O sítio do meu tio era o mundo paradisíaco das maravilhas da natureza que nos  embalava  em nossa sonhadora realidade.  

Lá vivíamos, eu, meus irmãos,  minhas primas e amigas, com a despreocupação infantil como se a vida não tivesse passado e nem futuro, mas somente a beleza do eterno presente.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
                                    
São Paulo, 30 de junho de 2003.