quarta-feira, 28 de junho de 2023

APRECIAÇÃO CRÍTICA DA OBRA DE ARTE – “La Tabagie”

 Publicado no Jornal do Médico

Link, abaixo

file:///C:/Users/ana%20margarida/Downloads/RD-Junho-2023-web%20(1).pdf


APRECIAÇÃO CRÍTICA DA OBRA DE ARTE – “La Tabagie”
Descrição Técnica
           

Autores

Os irmãos Le Nain (Louis e Mathieu)

Título  - “La Tabagie”

Outro Título - “Le Corps de Garde”

Data - 1643

Técnica – óleo sobre tela

Dimensões – Altura: 1,17m; Altura com acessório: 1,39 m; Largura: 1,37m; Largura com acessório: 1,58 m

École de France       

Localização - Louvre-Paris

“La Tabagie”, também conhecida como “Le Corps de Garde”, é uma das obras-primas da pintura noturna e a obra-prima dos irmãos Le Nain.


O quadro impacta por nos dar a impressão de ser uma cena de uma taberna repleta de fumadores de cachimbo, moda de consumir o tabaco no século XVII.


Entretanto, de perto, ele nos leva para dentro de uma "sala de guarda" no escuro da noite. Os rostos e as atitudes das personagens refletem a amizade que une esses soldados. Enquanto um soldado cochila os seus companheiros fumam seus enormes cachimbos em torno de uma vela.


A tela nos convida a entrar na cena pela expressividade dos olhares e a confidencialidade das conversas.


A paleta é de cores marrom, ocre e cinza. Porém, o tom vermelho da personagem em primeiro plano direciona o olhar do espectador.

 

Esta tela foi por muito tempo considerada a obra-prima de Louis Le Nain, o gênio dos três irmãos franceses. Hoje, os estudos mostram que a tela foi só iniciada por ele e, posteriormente, concluída por seu irmão Mathieu, que ampliou o tema do fumo. Mathieu acrescentou uma personagem fumando à esquerda e colocou um cachimbo na mão do homem no primeiro plano do lado direito.

Antoine Le Nain (c. 1600 - 1648), Louis Le Nain (c. 1603 - 1648) e Mathieu Le Nain (1607–1677), os três irmãos artistas, nasceram em ou perto de Laon, no norte da França.

Suas pinturas magistrais mostram que eles assinavam somente com o sobrenome Le Nain, ficando, assim, impossível distinguir a autoria das obras individualmente. Normalmente eles são referidos como uma única entidade “Le Nain”.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 12 de junho de 2023

segunda-feira, 5 de junho de 2023

MEDICINA NA PRÉ-HISTÓRIA E NA PROTO-HISTÓRIA


Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo.

 https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Maio-2023-app.pdf


MEDICINA NA PRÉ-HISTÓRIA E NA PROTO-HISTÓRIA

Esqueleto de uma mulher magdaleniana, provavelmente de 25 a 35 anos, encontrado no abrigo rochoso de Cap Blanc. Fonte:

https://fr.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9decine_dans_la_Pr%C3%A9histoire_et_la_Protohistoire

O passado é um fundo abismo onde não chegam nossas sondas

 Charles Baudelaire (1821-1867)

O conhecimento que temos das práticas médicas na pré-história e na proto-história (período que precede o surgimento da escrita e que coincide com a Idade dos Metais), é bastante limitado. 


As fontes disponíveis são dispersas (paleopatologia e etnoarqueologia) e oferecem apenas uma visão fragmentada. As hipóteses são precárias e as generalizações frágeis.


No período Paleolítico, os sapiens viviam em pequenos grupos móveis de caçadores-coletores, onde as epidemias eram raras e os traumas frequentes.

No Neolítico, com o aparecimento da agricultura, domesticação de animais, urbanização e crescimento populacional, surgiram novos riscos à saúde. 


Ao instalarem-se e reagruparem-se, os sapiens tiveram que enfrentar novas patologias. Se por um lado o armazenamento de alimentos permitiu evitar carências, por outro o estoque de cereais fez com que proliferassem os ratos, causando as pestes e doenças infecciosas. 


Essa forma de vida neolítica e proto-histórica fez com que surgissem práticas de cuidado com a saúde.


As fontes para o estudo dessas práticas são reduzidas. A principal disponível para os pesquisadores são os ossos fósseis. 


A análise dos referidos ossos permite conhecer as doenças que acometiam os homens pré-históricos, como: metástases ósseas, tuberculose, sífilis, além da detecção de redução de fraturas pelo calo ósseo, que não se forma se o movimento não for restringido. 


A ausência do calo ósseo pode, portanto, ser interpretada como ausência de procedimento médico. Por outro lado, algumas fraturas podem cicatrizar perfeitamente sem o uso de um dispositivo de imobilização.

Intervenções cirúrgicas, como trepanação ou amputações, também permitem tirar conclusões sobre as práticas médicas. 


É possível observar certos grupos étnicos na África Ocidental, e concluir sobre práticas médicas pré-históricas. Mesmo assim, essa abordagem etnoarqueológica apresenta várias dificuldades, como a diferença de clima e as grandes diferenças de práticas entre grupos étnicos.


Hoje, o uso de equipamentos sofisticados (radiologia, ressonância magnética etc.) ou novas técnicas (estudos de DNA etc.) levam a avanços notáveis ​​no conhecimento e facilitam as pesquisas de pré-historiadores especializados no estudo de patologias pré-históricas. 


Ao observarem restos ósseos de raras múmias, esses cientistas descobrem várias patologias que afetam os ossos e, em alguns casos, intervenções humanas destinadas a tratá-las.


Pierre Thillaud, professor emérito de história da medicina na faculdade de Paris-Descartes, frisou: as doenças de que padeceram nossos ancestrais são as mesmas que as nossas. 


Nada surpreendente, aliás, já que nada distingue o humano Cro-Magnon do humano do século XXI: seu organismo sofre as mesmas agressões e encontra as mesmas respostas para combatê-las. 


Obviamente, o clima e o ambiente socioecológico dos humanos pré-históricos favoreciam certas patologias em detrimento de outras, mas uma queda em um barranco sempre causava fraturas e a exposição ao parasita Plasmodium falciparum apresentava o mesmo risco de malária. 


Se as doenças fossem as mesmas, eles já sabiam como curá-las? Eles foram capazes de analisar os sintomas para identificar uma doença e tratá-la? Eles tinham médicos?


Essas são perguntas que os paleopatologistas se fazem para entender as doenças do passado e seus tratamentos.

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 13 de maio de 2023