sexta-feira, 27 de março de 2026

A&M - Sumário 27.03.2026

 

Capa

Autor: Pierre André Brouillet (1857–1914)
Título: A Lição Clínica do Dr. Charcot - 
Une leçon clinique à la Salpêtrière
Data: 1887
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 290 × 430 cm
Localização: Musée d’Histoire de la Médecine
(Université Paris Descartes, Paris)
Imagem: Fotografia da autora – Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg


SUMÁRIO

 

ARTE & MEDICINA

 

Anatomia da dor e da beleza ao longo dos séculos


 

PARTE I — O NASCIMENTO DO CORPO NA ARTE

 

PRÉ-HISTÓRIA

(Surgimento do Homo sapiens até 4000 a.C.)

Capítulo 1 — O corpo primordial: entre o sagrado e o instinto

1) Vênus de Willendorf (Venus von Willendorf) — c. 28.000–25.000 a.C.
2) Cena do Poço da Gruta de Lascaux (Scène du Puits, Grotte de Lascaux) c. 17.000 a.C.
3) O Xamã Dançante (Le Chamane dansant, Grotte des Trois-Frères) — c. 13.000 a.C.
4) O Beijo (Pintura rupestre da Serra da Capivara) — c. 12.000–6000 a.C.
5) Caverna das Mãos (Cueva de las Manos) — c. 9.000 a.C.
6) Mulher Sentada de Çatalhöyük (Seated Woman of Çatalhöyük) — c. 6000 a.C.


PARTE II — ENTRE DEUSES E HOMENS

ANTIGUIDADE

(4000 a.C. – 476 d.C.)

PARTE II — ENTRE DEUSES E HOMENS -ENTRE DEUSES E HOMENS

ANTIGUIDADE

(4000 a.C. – 476 d.C.)

 

Capítulo 2 — Medicina, religião e eternidade

  1. Código de Hamurabi (Code de Hammurabi) — c. 1750 a.C.
    Autor: desconhecido
  2. Vaso com o símbolo do Olho de Hórus (Vase avec le symbole de l’œil d’Horus) — c. 1425–1353 a.C.
    Autor: desconhecido
  3. Papiro de Hunefer (Papyrus of Hunefer) — c. 1300 a.C.
    Autor: desconhecido
  4. Quatro vasos canopos de Horemsaf (Quatre vases canopes d’Horemsaf) — c. 664–332 a.C.
    Autor: desconhecido
  5. Cratera dos Nióbidas (Cratère des Niobides) — c. 460–450 a.C.
    Autor: Pintor dos Nióbidas (ativo c. 460–450 a.C.)
  6. Esculápio (Esculape) — c. 350 a.C.
    Autor: desconhecido
  7. Imhotep (estatueta votiva) — 332–30 a.C.
    Autor: desconhecido
  8. Hermafrodito dormindo (Hermaphrodite endormi) — séc. II d.C.
    Autor: desconhecido
  9. Cerâmicas do Vale do Moche (Moche Valley Ceramics) — c. 100–800 d.C.
    Autor: desconhecido

PARTE III — O CORPO SAGRADO

IDADE MÉDIA

(476–1453)

Capítulo 3 — IDADE MÉDIA

(476–1453)

Capítulo 3 — Entre a salvação e o sofrimento 

16) Criação com o Universo e o Homem Cósmico (Schöpfung und der Kosmische Mensch) c.1165- 1170
17) Pietà de Villeneuve-lès-Avignon (Pietà de Villeneuve-lès-Avignon) — c. 1455
18) Virgem amamentando o Menino Jesus cercada por anjos (Vierge allaitant l’Enfant Jésus entourée d’anges) — séc. XV
19) A Circuncisão do Menino Jesus (La Circoncision de l’Enfant Jésus) — c. 1480–1520
20) A Dama e o Unicórnio (La Dame à la Licorne) — c. 1500


PARTE IV — O CORPO REVELADO

 IDADE MODERNA

(1453–1789)

Capítulo 4 — O nascimento do olhar anatômico

  1. Retrato de um velho com seu neto (Ritratto di un vecchio con il nipote) — c. 1490
    Domenico Ghirlandaio (1448–1494)
  2. Homem Vitruviano (Uomo Vitruviano) — c. 1490
    Leonardo da Vinci (1452–1519)
  3. O coito (Studi anatomici sul coito) — c. 1492–1493
    Leonardo da Vinci (1452–1519)
  4. Estudos do embrião humano (Studi del feto nel grembo) — c. 1510–1513
    Leonardo da Vinci (1452–1519)
  5. Escravo Moribundo (Schiavo morente) — c. 1513–1516
    Michelangelo (1475–1564)
  6. A Transfiguração (La Trasfigurazione) — 1516–1520
    Rafael Sanzio (1483–1520)




Capítulo 5 — O corpo investigado: ciência e representação

27) Sobre a Estrutura do Corpo Humano (De humani corporis fabrica) — 1543
28) O Triunfo da Morte (De Triomf van de Dood) — c. 1562
29) Os Mendigos (De Kreupelen) — 1568
30) Retrato de um Flautista Caolho (Le Flûtiste borgne) — séc. XVI
31) Retrato de Antonietta Gonzales (Ritratto di Antonietta Gonzales) — c. 1595
32) A Lição de Anatomia do Dr. Tulp (De anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp) — 1632
33) O Doutor Examinando a Urina (De dokter die de urine onderzoekt) — c. 1650–1660
34) O Extrator de Dentes (L’Arracheur de dents) — c. 1650–1660
35) A Lição de Anatomia do Dr. Deijman (De anatomische les van Dr. Deijman) — 1656


Capítulo 6 — O corpo ferido: dor, milagre e realidade

Capítulo 6 — O corpo ferido: dor, milagre e realidade

  1. Baco Doente (Bacchino malato) — c. 1593–1594
    Caravaggio (1571–1610)
  2. Narciso (Narciso) — c. 1597–1599
    Caravaggio (1571–1610)
  3. A Morte da Virgem (La morte della Vergine) — 1606
    Caravaggio (1571–1610)
  4. A Incredulidade de São Tomé (Incredulità di San Tommaso) — c. 1601–1602
    Caravaggio (1571–1610)
  5. Os Milagres de Santo Inácio (De Mirakelen van Sint-Ignatius van Loyola) — c. 1617–1618
    Peter Paul Rubens (1577–1640)
  6. A Mulher Barbuda (La mujer barbuda) — 1631
    Jusepe de Ribera (1591–1652)
  7. O Pé Torto (El pie varo) — 1642
    Jusepe de Ribera (1591–1652)
  8. Sileno Bêbado (Sileno ebrio) — c. 1626
    Jusepe de Ribera (1591–1652)
  9. Judite Decapitando Holofernes (Giuditta che decapita Oloferne) — c. 1612–1613
    Artemisia Gentileschi (1593–1653)



Capítulo 7 — O corpo em cena: poder e diferença

45) A Peste de Asdode (La peste d’Asdod) — 1630–1631
46) Cristo Curando o Cego (Le Christ guérissant l’aveugle) — c. 1650

47) O Êxtase de Santa Teresa (L’Estasi di Santa Teresa) — 1647–1652
48) As Meninas (Las Meninas) — 1656
49) Príncipe Baltasar Carlos com um anão (El príncipe Baltasar Carlos con un enano) — c. 1631
50) Encontro de Fumantes e Bebedores (Rencontre de fumeurs et de buveurs) — 1626
51) Eugenia Martínez Vallejo (La Monstrua) — c. 1680
52) A Visita do Doutor (Het doktersbezoek) — c. 1660

53) O Garrotillo (El Garrotillo) — c. 1780



 

PARTE V — O OLHAR MÉDICO

 IDADE CONTEMPORÂNEA

(1789 até os dias atuais)

 

Capítulo 8 — Entre a dor e a grandeza

54) A Morte de Marat (La Mort de Marat) — 1793
55) Bonaparte visitando os pestíferos de Jaffa (Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa) — 1804

56) A Balsa da Medusa (Le Radeau de la Méduse) — 1819
57) Monomaníaco da inveja (Monomane de l’envie) — c. 1820
58) A Morte de Géricault (La Mort de Géricault) — 1824
59) Estudo do Homem Nu (Étude d’homme nu) — c. 1825
60) Retrato de Frédéric Chopin (Portrait de Frédéric Chopin) — 1838

61) O Banho Turco (Le Bain turc) — 1862
62) A Origem do Mundo (L’Origine du monde) — 1866


Capítulo 9 — O teatro da ciência

63) A Clínica do Dr. Gross (The Gross Clinic) — 1875

64) Philippe Pinel libertando os alienados (Philippe Pinel délivrant les aliénés) — 1876
65) Dr. Jenner e a primeira vacinação (Edward Jenner performing vaccination) — 1879

66) Primeira cirurgia sob éter (First operation under ether) — 1882

67) A Miséria (La miseria) — 1886

68) A Menina Doente (Den syke piken) — 1885–1886

69) Caveira com Cigarro (Crâne avec cigarette allumée) — 1885–1886

70) Uma Lição Clínica na Salpêtrière (Une leçon clinique à la Salpêtrière) — 1887

71) A Primeira e Última Comunhão (La primera y última comunión) — 1888

72) A Clínica do Dr. Agnew (The Agnew Clinic) — 1889



 

Capítulo 10 — A intimidade da dor

73) Sala do Hospital de Arles (Salle de l’hôpital d’Arles) — 1889

74) Autorretrato com a orelha enfaixada (Autoportrait à l’oreille bandée) — 1889




75) Retrato do Dr. Gachet (Portrait du Dr Gachet) — 1890
76) Gota de Leite (La goutte de lait) — 1890

77) O Doutor (The Doctor) — 1891

78) Transfusão de sangue de cabra (Transfusion de sang de chèvre) — 1892

79) A Ambulância da Comédie-Française (L’Ambulance de la Comédie-Française) — 1892

80) A Morte no Quarto do Doente (Døden i sykeværelset) — 1893
81) O Grito (Skrik) — 1893



PARTE VI — MEDICINA, EMOÇÃO E REPRESENTAÇÃO

IDADE CONTEMPORÂNEA

(1789 até os dias atuais)

 

Capítulo 11 — Corpo, ciência e ruptura

 

Inspeção médica (Inspection médicale) — 1894

82) Ciência e Caridade (Ciencia y caridad) — 1897
83) A Celestina (La Celestina) — 1904
84) Hígia (Hygieia) — c. 1898–1907

85) O Beijo (Der Kuss) — 1907–1908
86) Hospital Henry Ford (Henry Ford Hospital) — 1932

 


PARTE VII — O CORPO INTERIOR

IDADE CONTEMPORÂNEA

(1789 até os dias atuais)

Capítulo 12 — Dor, identidade e existência

87) Os Retirantes (Retirantes) — 1944
88) Criança Morta (Criança morta) — 1944

89) As Duas Fridas (Las dos Fridas) — 1939

90) A Árvore da Esperança (Árbol de la esperanza) — 1946

91) A Cortisona (La Cortisone) — 1951

Programa Rapadura Cultura - Ana Margarida - gente que brilha na Terra da luz ldecescritra Rejane Costa Barros

 

Resumo biográfico – Ana Margarida Arruda Rosemberg 

Por: Rejane  Costa  Barros 

Ana Margarida Arruda Rosemberg nasceu em 7 de julho de 1950, na cidade de Baturité, sendo a quinta filha de Miguel Edgy Távora Arruda e Maria Adelina Furtado de Arruda. Sua formação escolar ocorreu em instituições católicas, iniciando no Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, em sua cidade natal, e prosseguindo em Fortaleza, onde concluiu o ensino ginasial e científico em colégios tradicionais.

Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará em 1969, graduando-se em 1974. Destacou-se como aluna dedicada, participando de estágios extracurriculares que enriqueceram sua formação.

Especializou-se em pneumologia e tisiologia no Sanatório de Maracanaú (1975) e, posteriormente, no Rio de Janeiro, realizou cursos pelo Ministério da Saúde nas áreas de pneumologia sanitária, combate ao tabagismo e aperfeiçoamento em tisiologia.

🩺 Atuação profissional

Construiu sólida carreira como:

• Médica perita e supervisora do INSS

• Pneumologista da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará

Teve papel de destaque em instituições como o Sanatório de Maracanaú e o Centro de Referência Dona Libânia. Entre suas principais contribuições estão:

• Supervisão do Programa de Controle da Tuberculose na macrorregião Nordeste

• Coordenação do Programa Estadual de Controle da Tuberculose

• Implantação e coordenação do Programa de Controle do Tabagismo no Ceará

• Criação do capítulo cearense do Comitê de Controle do Tabagismo

Participou intensamente de congressos, cursos e eventos científicos no Brasil e no exterior, além de ministrar aulas, conferências e publicar trabalhos científicos.

📚 Formação humanística e produção intelectual

Demonstrando inquietação intelectual constante, graduou-se em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 2005 e concluiu mestrado em 2008.

Aprofundou seus estudos na França, onde cursou História da Civilização Francesa, História da Arte e Língua Francesa na Escola  France Langue (2009) e Histoire de l’Art – France Langue (2012) e Louvre, instituição pela qual nutre especial fascínio.

É autora de diversos livros, entre eles:

• Clemente Ferreira

• Confissões de Amor - Marô & Rose

• Relembranças - Lampejos de Minha Memória - Miguel EdgyTávoraArruda - (organizadora)

Além disso, publicou centenas de artigos e participa ativamente de coletâneas literárias, com produção nos gêneros crônica, ensaio e poesia.

🖋️ Vida literária e institucional

• Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES)

• Integrante da Sociedade Brasileira de História da Medicina

• Participante da Academia Cearense de Medicina

• Conselheira do Jornal do Médico desde 2013

Mantém blogs e desenvolve intensa atividade cultural e literária, sendo frequentemente homenageada por sua atuação tanto na medicina quanto na literatura.

💭 Reflexões e pensamento

Durante a pandemia da COVID-19, produziu reflexões sobre:

• isolamento social

• fragilidade humana

• desigualdades sociais

• necessidade de solidariedade

• papel do Estado em crises

Destacou a importância da cooperação e da revisão de valores diante de grandes adversidades.

❤️ Vida pessoal

Foi casada com Mauro Régis Assunção Teixeira, com quem teve três filhos:

• Jana (pedagoga e fotógrafa)

• Daniel (médico)

• Liana (psicóloga)

Posteriormente, casou-se com o pneumologista José Rosemberg, com quem viveu uma relação marcada por profunda afinidade intelectual e afetiva.

É avó dedicada e valoriza intensamente os vínculos familiares.

✨ Dimensão humana

Além da carreira médica e acadêmica, Ana Margarida se destaca por sua sensibilidade artística e expressão poética, evidenciada em seus escritos, inclusive em poemas marcados por forte carga emocional, como o dedicado ao seu esposo.

✅ Síntese final

Ana Margarida Arruda Rosemberg é uma figura de grande relevância no Ceará, reunindo:

• excelência médica (especialmente na pneumologia e saúde pública)

• protagonismo no controle da tuberculose e do tabagismo

• produção intelectual consistente

• atuação destacada na literatura e na história

👉 Uma trajetória marcada por dedicação, cultura, sensibilidade e compromisso social, fazendo dela uma personalidade que “brilha na terra da luz”.


sábado, 14 de março de 2026

Documentário de Felipe Barroso - Prefeita - cineteatro São Luiz Fortaleza 13.03.2026

 














Anotações  da agenda de ana margarida,    escritas no ano de 1986,  referentes  à depoimentos  da prefeita  Maria Luiza,  publicados nos Jornais da época 











quinta-feira, 12 de março de 2026

ARTE & MEDICINA - Vaso com o símbolo do Olho de Hórus (c.1425 -1353 a.C.)

 


Vaso de cerâmica com o Olho de Hórus

Ficha técnica

Cultura: Egito Antigo
Artista: Desconhecido
Data: c.1425-1353 a.C.
Período: XVIII Dinastia do Egito – Novo Império do Egito
Material: Cerâmica pintada
Proveniência: Tumba de Khai, necrópole de Deir el-Medina
Localização atual: Museo Egizio -Turim

Inventário S.8619
Imagem: Wikimedia Commons (domínio público)

 

O Olho de Hórus: proteção, cura e simbolismo na medicina do Egito antigo

“Eu sou Hórus, que veio para proteger seu pai.
Eu curei o olho que foi ferido.”
tradição religiosa dos Textos das Pirâmides

Entre os muitos símbolos que atravessaram milênios da civilização do Egito Antigo, poucos possuem uma força simbólica tão duradoura quanto o Olho de Hórus. Mais do que um motivo decorativo, esse signo sintetiza ideias de proteção, integridade física e restauração da saúde — valores profundamente associados à concepção egípcia de equilíbrio entre corpo, cosmos e divindade.

Na mitologia egípcia, Hórus é uma das mais antigas e veneradas divindades do panteão faraônico. Associado ao céu e à realeza, ele representava também a ordem restaurada após o caos.

Segundo a tradição mítica, Hórus era filho de Ísis e de Osíris. O deus Seth, irmão de Osíris, assassinou-o e esquartejou seu corpo, espalhando os fragmentos pelo Egito. Ísis percorreu o país em busca das partes do marido, reunindo-as uma a uma e restituindo-lhe a forma. Em um gesto que unia magia, luto e esperança, a deusa transformou-se em ave e, ao pairar sobre a múmia de Osíris, concebeu o filho que vingaria sua morte.

Quando adulto, Hórus enfrentou Seth numa série de combates que simbolizavam a luta entre ordem e desordem. Após longas disputas, venceu o adversário e tornou-se o legítimo soberano do Egito, enquanto Osíris passou a governar o reino dos mortos.

Um antigo hino dedicado a Ísis, preservado em inscrições do Egito faraônico e lembrado em monumentos hoje conservados no Museu do Louvre, celebra o papel da deusa na restauração da vida:

Ó benevolente Ísis,
que protegeu o seu irmão Osíris,
que o procurou incansavelmente,
que atravessou o país em luto
e não descansou até encontrá-lo.
Ela que lhe deu sombra com suas asas
e ar com suas penas,
que se alegrou e trouxe seu irmão de volta.
Ela reviveu aquele que, para o desesperançado, estava morto;
recebeu sua semente e concebeu um herdeiro,
e o alimentou na solidão,
quando ninguém sabia quem ele era.

Durante a luta contra Seth, segundo o mito, Hórus perdeu um de seus olhos. O olho teria sido arrancado e dividido em fragmentos. Coube então ao deus Thoth — divindade da escrita, da sabedoria e da ciência — restaurá-lo. Ao recompor o olho ferido e devolver a visão a Hórus, Thoth transformou esse episódio em um poderoso símbolo de regeneração.

Desse episódio nasceu o Olho de Hórus, também conhecido como wedjat, que passou a representar saúde restabelecida, proteção divina e integridade do corpo. Desde o Antigo Império do Egito (c. 2575–2135 a.C.), o símbolo aparece em amuletos, joias, sarcófagos e objetos funerários.

O vaso de cerâmica proveniente da tumba de Kha, decorado com a imagem do Olho de Hórus, é um exemplo eloquente dessa tradição. Em contextos funerários, tais símbolos não tinham apenas função ornamental. Eram concebidos como instrumentos mágicos de proteção, destinados a preservar o corpo, afastar doenças e garantir a integridade do indivíduo na travessia para a vida após a morte.

Para alguns historiadores o símbolo médico , utilizado nas prescrições médicas tem uma origem remota nesse antigo signo egípcio de proteção e restabelecimento da saúde. Embora essa hipótese permaneça debatida, a semelhança gráfica entre ambos é lembrada como um eco simbólico que liga a medicina contemporânea às antigas tradições curativas do Egito.


Referências

ASSMANN, Jan. La mort et l’au-delà dans l’Égypte ancienne. Paris: Éditions du Rocher, 2003.

AUFRÈRE, Sydney; GOYON, Jean-Claude; CARDIN, Christiane. L’Égypte restituée. Paris: Éditions Errance, 1991.

BARD, Kathryn A. Introduction à l’archéologie de l’Égypte ancienne. Paris: Éditions du Rocher, 2010.

DONADONI, Sergio. L’homme égyptien. Paris: Seuil, 1992.

GRIMAL, Nicolas. Histoire de l’Égypte ancienne. Paris: Fayard, 1988.

SAUNERON, Serge. La médecine dans l’Égypte pharaonique. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1956.

SHAW, Ian; NICHOLSON, Paul. The British Museum Dictionary of Ancient Egypt. London: British Museum Press, 2008.

ZIEGLER, Christiane. L’Égypte ancienne au Louvre. Paris: Hachette / Musée du Louvre, 1997.

WILKINSON, Richard H. The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt. London: Thames & Hudson, 2003.

ARTE & MEDICINA - O Papiro de Hunefer (Julgamento de Hunefer no Tribunal de Osíris)

 


O Julgamento de Hunefer
Cena do Livro dos Mortos

Ficha técnica

Título: O julgamento de Hunefer no tribunal de Osíris
Obra: Livro dos Mortos de Hunefer

Data: c. 1275 a.C. – XIX Dinastia, Novo Império
Civilização: Egito Antigo
Material: Papiro com tinta preta e vermelha e pigmentos minerais
Técnica: Escrita hieroglífica e pintura sobre papiro
Dimensões do rolo original: aprox. 5,50 m × 39 cm
Proveniência: Tebas (provavelmente Deir el-Medina), Egito
Descoberta: século XIX
Localização atual: Museu Britânico
Número de inventário: EA 9901
Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

Descrição:
Fragmento ilustrado do Livro dos Mortos pertencente ao escriba real Hunefer. A cena representa o julgamento do morto no tribunal de Osíris, no qual o coração de Hunefer é pesado em uma balança contra a pena de Maat, símbolo da verdade, da ordem e da justiça cósmica. Se o coração se revelar leve, o falecido é admitido na vida eterna; caso contrário, será devorado por Ammit, o “Devorador dos Mortos”.

Essa imagem possui uma notável ressonância com a tradição médica. Desde a Antiguidade, o exercício da medicina esteve associado não apenas ao conhecimento técnico, mas também à responsabilidade moral diante da vida humana. Assim como no julgamento egípcio, a prática médica implica um constante equilíbrio entre saber, consciência e ética.

Nesse sentido, o julgamento de Hunefer pode ser interpretado como uma poderosa alegoria: o verdadeiro peso do coração é o peso das ações humanas.

O Papiro de Hunefer, uma cópia do Livro dos Mortos datada da XIX dinastia (c. 1275 a.C.), preservado no Museu Britânico, em Londres, possuía, originalmente, cerca de 5,50 metros de comprimento por 39 centímetros de largura, mas foi posteriormente cortado em oito fragmentos para fins de conservação. A cena do julgamento de Hunefer constitui apenas um desses segmentos.

O Papiro de Hunefer

O julgamento de Hunefer no tribunal de Osíris

“Eu não cometi injustiça contra os homens.
Não fiz sofrer ninguém.
Não pesei meu coração com o mal.”
Livro dos Mortos, Confissões Negativas

(Fórmulas funerárias do Egito Antigo)

A cena do julgamento de Hunefer revela uma das mais profundas metáforas morais da civilização egípcia: o coração como sede da consciência.

Diferentemente de muitas tradições posteriores, nas quais o cérebro passou a ser considerado o centro do pensamento, para os egípcios o coração era o lugar da memória, da vontade e da moralidade. Durante a mumificação, o cérebro era removido, mas o coração permanecia no corpo, pois seria necessário no julgamento final.

No tribunal de Osíris, o coração do morto era colocado em uma balança diante da pena de Maat, símbolo da verdade, da ordem e da justiça universal. O resultado dessa pesagem não dependia de riquezas ou posição social, mas da conduta ética durante a vida.

Os rituais funerários acompanham os seres humanos há milênios. Na sociedade do Egito Antigo, eles eram complexos e tinham como finalidade permitir que o morto revivesse em uma existência além-túmulo. Para isso, o corpo deveria ser preservado por meio de técnicas de embalsamamento e mumificação.

Osíris, deus da fertilidade e da ressurreição, por ter vencido a morte, representava o renascimento. Segundo uma das versões do mito, Osíris foi assassinado e esquartejado por seu irmão Seth, que espalhou as partes de seu corpo pelo Egito. Ísis, esposa de Osíris, com a ajuda de Anúbis, Thoth e Néftis, conseguiu reunir os fragmentos e devolver-lhe a vida.

Osíris é considerado a primeira múmia do Egito. Após ressuscitar, não voltou a habitar o mundo dos vivos, passando a reinar no mundo dos mortos, onde presidia o tribunal que julgava os egípcios após a morte. Durante o julgamento, o coração do morto era colocado em uma balança juntamente com uma pena da deusa Maat. Se o coração fosse mais leve que a pena, o morto receberia a vida eterna. Caso contrário, seria devorado por um ser monstruoso com partes de leão, hipopótamo e crocodilo, desaparecendo para sempre — uma espécie de morte dentro da morte.

No Egito Antigo, o que hoje chamamos de Livro dos Mortos era conhecido como Livro para Sair à Luz do Dia (Reu nu pert em hru) ou ainda como Fórmulas para Voltar à Luz. Colocados junto às múmias, esses “livros” eram rolos de papiro contendo hinos, encantamentos, orações e fórmulas mágicas destinadas a ajudar os mortos em sua jornada pelo além.

Os Livros dos Mortos eram escritos por escribas experientes e ilustrados por habilidosos desenhistas. Supõe-se que Hunefer, por ser escriba real, possa ter encomendado — ou mesmo escrito — o seu próprio exemplar.

O trecho aqui retratado apresenta a vinheta do julgamento no tribunal de Osíris. Na parte superior esquerda, vemos Hunefer, vestido com uma túnica branca, ajoelhado em adoração diante de diversas divindades: Rá, Atum, Shu, Tefnut, Geb, Nut, Hórus, Ísis, Néftis, Hu e Sia, além das personificações das estradas do Sul, do Norte e do Oeste.

Na parte inferior esquerda, Hunefer aparece novamente, com a mesma túnica branca, sendo conduzido por Anúbis — deus com cabeça de chacal — até a balança do julgamento. Anúbis segura em sua mão esquerda um ankh, símbolo da vida eterna, que será concedida a Hunefer caso ele seja aprovado no julgamento.

Mais ao centro, Anúbis ajoelha-se para ajustar o prumo da balança. No prato esquerdo encontra-se o coração de Hunefer e, no direito, a pena de Maat, deusa que personifica a verdade, a ordem e a justiça. Maat aparece representada no topo da balança, com uma pena sobre a cabeça. Abaixo da balança encontra-se Ammit, o “Devorador dos Amaldiçoados”, acompanhado por uma pequena inscrição: “Sua frente é um crocodilo, seu traseiro um hipopótamo e seu meio um leão”.

À direita, o deus Thoth, com cabeça de íbis, segura uma paleta e um cálamo de escriba para registrar o resultado da pesagem. Neste caso, o coração de Hunefer revelou-se mais leve do que a pena.

Por fim, Hórus, filho de Osíris e Ísis, conduz o triunfante Hunefer até um santuário onde Osíris está entronizado, acompanhado pelas deusas Ísis e Néftis. Diante do trono encontram-se os quatro filhos de Hórus, dispostos sobre um grande lírio (ou lótus) que brota de uma piscina de água abaixo do trono de Osíris. A composição é emoldurada, na parte superior e inferior, por linhas vermelhas e amarelas. Todo o texto que acompanha a cena está escrito em hieróglifos.

Referências Comentadas

Raymond O. Faulkner. The Ancient Egyptian Book of the Dead. London: British Museum Press, 1972.
Tradução moderna e amplamente utilizada do Livro dos Mortos. A obra apresenta versões comentadas dos principais feitiços funerários egípcios e constitui uma das referências fundamentais para o estudo do julgamento do morto diante de Osíris.

Erik Hornung. The Ancient Egyptian Books of the Afterlife. Ithaca: Cornell University Press, 1999.
Estudo clássico sobre os textos funerários egípcios e suas representações iconográficas. Hornung analisa o significado religioso e simbólico das imagens do além-mundo, incluindo a cena da pesagem do coração.

Jan Assmann. Death and Salvation in Ancient Egypt. Ithaca: Cornell University Press, 2005.
Uma das interpretações mais influentes sobre a religião funerária egípcia. O autor discute a relação entre ética, julgamento e vida após a morte no pensamento religioso do Egito Antigo.

Salima Ikram. Death and Burial in Ancient Egypt. London: Longman, 2003.
Obra acessível e detalhada sobre práticas funerárias egípcias, incluindo mumificação, vasos canópicos e o papel simbólico dos órgãos do corpo na religião egípcia.

British Museum. Papyrus of Hunefer (EA 9901).
Catálogo e documentação da peça preservada no museu, incluindo informações históricas, iconográficas e técnicas sobre o papiro pertencente ao escriba Hunefer.

Disponível em: https://www.britishmuseum.org

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Wikimedia Commons.
Judgement of Hunefer before Osiris.
Imagem em domínio público.