domingo, 28 de fevereiro de 2021

PINCELADAS DA VIDA DE PORTINARI

Autorretrato de Portinari - 1957

Publicado no Jornal do Médico online. link abaixo.

https://jornaldomedico.com.br/2021/02/28/pinceladas-da-vida-de-candido-portinari/


 “… uma pintura que não fala ao coração não é arte, porque só ele a entende. Só o coração nos poderá tornar melhores e é essa a grande função da arte.”

 Candido Portinari

 

PINCELADAS DA VIDA DE PORTINARI

Filho de Giovan Battista Portinari e Domenica Torquato (imigrantes italianos), Candido Portinari, de origem humilde, nasceu em 30/12/1903, na fazenda de café “Santa Rosa”, perto de Brodowski-São Paulo e faleceu no dia 06/02/1962, no Rio de Janeiro, aos 58 anos.

Candinho, o segundo dos 12 filhos do casal Battista e Dominga (como era conhecida), não completou o ensino primário. Em 1914, com 10 anos de idade, fez o retrato de Carlos Gomes, nome da banda que seu pai tocava. Em 1918, participou, durante vários meses, da restauração da Igreja de Brodowski, ajudando pintores e escultores intinerantes italianos.

Em 1920, no Rio de Janeiro, para onde tinha ido com 15 anos de idade, matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA). Participou de diversas exposições almejando a “Medalha de Ouro”, do salão da ENBA. Em 1928, ganhou a sonhada medalha e uma viagem à Europa, com a tela “Retrato de Olegário Mariano”.

Durante os dois anos que passou em Paris, Portinari teve contato com importantes artistas, frequentou museus e conheceu sua futura mulher, a uruguaia Maria Martinelli (1912-2006). Em Paris, vendo sua terra à distância, escreveu: “Vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor…”

Em 1931, Portinari retornou ao Brasil casado com Maria, que foi seu esteio, suporte e âncora por proporcionar-lhe total e exclusiva dedicação à pintura.

Em 1935, com a obra “Café”, importante marco de sua pintura social, Portinari conquistou menção honrosa e inúmeros elogios de críticos americanos, na Exposição Internacional de Arte Moderna do Instituto Carnegie, em Nova Iorque.

Portinari passou a retratar a história e a cultura do povo, revelando, assim, a alma do brasileiro. Sensível ao sofrimento de sua gente, mostrou, em cores fortes, os plantadores de café, os trabalhadores, a dor e a miséria dos retirantes nordestinos. Sua faceta lírica o fez pintar os meninos de Brodowski com suas brincadeiras, danças e cantos.

Em 1939, nasceu João Candido, filho único do casal Portinari.  João se dedica, desde 1979, ao “Projeto Portinari” e define o seu pai com a palavra “Amor”, pois em sua obra a luta por valores humanos e socais é permanente.

Portinari realizou exposição individual em Nova Iorque e em Paris; pintou os murais da Biblioteca do Congresso Americano, em Washington; do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro; decorou a Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, em Belo Horizonte, com os murais “São Francisco” e “Via Sacra”; pintou os painéis: “Tiradentes”, “A Primeira Missa no Brasil” e os da Igreja Matriz de Batatais-SP;  pintou, entre outras, as séries: “Meninos de Brodowski” e “Os Retirantes”(Criança Morta, Enterro na Rede e Retirantes) onde denuncia a profunda desigualdade social do Brasil.

Em 1941, demonstrando singelo amor por sua avó paterna Pellegrina, que doente não podia se locomover para ir à Igreja rezar, Portinari pintou, em um dos cômodos da residência da família, em Brodowski, a “Capela da Nonna”.  Para a decoração, Portinari pintou os santos prediletos de sua avó, em tamanho natural, usando como modelo os familiares e amigos.

Portinari foi um dos maiores pintores brasileiros de todos os tempos, deixando um legado de mais de cinco mil obras de arte. Participou de exposições em vários países do mundo. Foi consagrado em São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Nova Iorque, Montevidéu, Varsóvia, entre outras cidades. O governo francês o condecorou com a “Legião de Honra (1946).

Já doente, intoxicado pelo chumbo das tintas, aceitou, em 1952, a incumbência de pintar dois painéis para a ONU, “Guerra e Paz”, de 10 x 14m, cada, concluindo-os, em 1956. O tema da guerra foi inspirado por “Quatros Cavaleiros do Apocalipse”, da bíblia, e o da Paz, pela tragédia grega Eumênides, de Esquilo, em visão livre.

O artista Enrico Bianco disse que “Guerra e Paz” são as duas grandes páginas da emocionante comunicação, que o pintor entrega à humanidade. Segundo seu filho, João Cândido, esta grandiosa obra universal é um diálogo entre o trágico e o lírico, entre a fúria e a ternura, entre o drama e a poesia.

Sua faceta de poeta o levou a escrever poemas, com temas sociais, traduzindo poeticamente sua obra plástica. Em um texto, Portinari escreveu:

“Impressionavam-me os pés dos trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés sofridos com muito e muitos quilômetros de marcha. Pés que só os santos têm. Sobre a terra, difícil era distingui-los. Os pés e a terra tinham a mesma moldagem variada. Raros tinham dez dedos, pelo menos dez unhas. Pés que inspiravam piedade e respeito. Agarrados ao solo eram como os alicerces, muitas vezes suportavam apenas um corpo franzino e doente. Pés cheio de nós que expressavam alguma coisa de força, terríveis e pacientes.”

Portinari ilustrou, através da “Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil”, as obras literárias: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1944) e “O Alienista” (1948).

Atuante no movimento político-partidário, Portinari candidatou-se, pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), a deputado federal (1945) e a senador (1947), sem conseguir eleger-se.

Perseguido no Brasil, por ser comunista, exilou-se durante algum tempo, no Paraguai. Portinari nunca se afastou de suas convicções ideológicas. Sua militância política é absolutamente fiel e coerente com sua pintura. Ironicamente, Portinari foi proibido de participar da inauguração dos painéis “Guerra e Paz”, ao ter o visto de entrada nos EEUU negado, por pertencer ao PCB, e faleceu sem vê-los expostos na ONU.

Em 1960, quando nasceu sua neta Denise, ele escreveu: – “Minha neta me libertará da solidão”. Denise foi retratada pelo avô dezenas de vezes, em telas líricas.

Intoxicado pelo chumbo das tintas (saturnismo), faleceu em 6 fevereiro de 1962, aos 58 anos.  Presentes no velório: Juscelino Kubitschek, Hermes Lima, representando o Presidente João Goulart, os líderes comunistas na clandestinidade, Luís Carlos Prestes e Carlos Marighela, e o líder anticomunista e governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. A Presidência da República emitiu nota de pesar e foi decretado luto oficial de três dias no Estado da Guanabara.

Portinari, ícone do modernismo brasileiro, ao colocar o homem como tema central de sua arte, nos lega uma mensagem de humanismo universal. 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 21 e 22 de fevereiro de 2021

MARIE CURIE - Flashes de sua vida e seu legado contra o câncer



 

 

 





Publicado no site do Jornal do Médico . Veja abaixo.

 

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Apreciação Crítica - Os Retirantes - Portinari


Descrição Técnica

Título Os Retirantes

Autor – Cândido Portinari (1903-1962)

Ano – 1944

Técnica óleo sobre tela

Dimensões – 190 x 180 cm

Localização – Museu de Arte de São Paulo (MASP) – Brasil 

“Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos. Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos doloridos como fagulhas de carvão aceso” 

Cândido Portinari

Na tela “Os Retirantes”, que faz parte de uma série composta por mais duas telas: “Criança Morta” e “Enterro na Rede”, Portinari retrata uma família anônima de retirantes nordestinos, composta de nove pessoas: três adultos, uma adolescente e cinco crianças.

Analisando o quadro observamos dois planos: o primeiro e o de fundo. 

No primeiro plano temos duas unidades. Do lado esquerdo, uma unidade menor composta de três figuras: um velho com um bastão e uma adolescente com uma criança nos braços. Do lado direito, uma unidade maior composta de seis figuras: uma mulher com uma trouxa na cabeça e um recém-nascido nos braços e um homem ladeado por três crianças.

No plano do fundo temos duas áreas: uma superior que ocupa 2/3 da tela e outra inferior, ocupando 1/3 da tela. 

Na parte superior observamos um degradê da cor azul que, de cima pra baixo, parte do azul escuro e vai clareando até chegar na cor branca. 

Na parte branca observamos esboços de montanhas, do lado esquerdo, e, em cima, na parte azul, do lado direito, vemos a lua.

 No terço inferior vemos um degradê da cor marrom recheado de pedregulhos e carcaças de animais.

As personagens desnutridas, frágeis vítimas da seca, apresentam a pele queimada pelo sol inclemente. 

A aridez da paisagem desértica, ressaltada pelos tons cinza, azul e preto, evidencia o clima fúnebre da pintura, com urubus sobrevoando o grupo e espreitando a morte.

A mulher com uma trouxa na cabeça e um recém-nascido embrulhado em um pano branco, tem longos cabelos pretos e fácies de angústia e dor. 

O homem, mais a frente, maltrapilho, com remendos na roupa, olhar espantado, usa chapéu de palha, carrega uma trouxa no ombro esquerdo e segura um menino pela mão.

 Duas crianças estão à sua esquerda. O menino mais à frente apresenta esquistossomose, doença evidenciada pela barriga distendida (barriga d’água), provocada pelo verme schistosoma. 

Do lado esquerdo, um pouco atrás, um velho segurando um cajado apresenta desnutrição e um fácies de horror. 

Na frente dele, vemos uma adolescente segurando uma criança nua e extremamente raquítica.

As pessoas são todas desnutridas, em maior ou menor grau, com expressão de tristeza em suas faces, denotando profundo sofrimento. 

Portinari retrata um momento de migração dos nordestinos, fugindo da seca, em busca de sobrevivência nas cidades do sul e sudeste do Brasil.

Cândido Portinari, um dos maiores pintores brasileiros de todos os tempos, usou, nesta tela, a linguagem do expressionismo e do cubismo, para denunciar a profunda desigualdade social do Brasil.

ana margarida furtado arruda rosemberg 

Fortaleza, 18 de fevereiro de 2021


Publicado no Jornal do Médico.

Link, abaixo

 https://jornaldomedico.com.br/2021/02/21/apreciacao-critica-da-obra-os-retirantes/

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Apreciação crítica - A Criança Doente - Munch

 


 

https://jornaldomedico.com.br/2021/02/07/apreciacao-critica-da-obra-a-crianca-doente-ii/

 

 

 

 

 

  

 

Descrição Técnica

Título – A Criança Doente II

Autor – Edvard Munch (1863-1944)

Ano – 1896

Técnica – óleo sobre tela

Dimensões – 121,5 x 118,5 cm

Coleção –  Museu de Belas Artes de Gotemburgo

Localização – Museu de Arte, Gotemburgo, Suecia

 

 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

PARABÉNS, BOLOTA. FELIZ ANIVERSÁRIO!

 


Bolota, hoje, 10.02.2021, vc completa  39 voltas em torno do astro-rei. 

Acordei recordando  o dia em que vc nasceu. Foi nesse mesmo horário, em torno de 5h. Vc chegou  de mansinho, sem alardes. Foi um dia feliz... 

Hoje, 39 anos depois, sinto a mesma sensação indescritível de paz e felicidade ao  recordá-lo. 

Há  pouco, a deusa Aurora  anunciou,  entre nuvens alaranjadas, que  é  o seu aniversário. 

Na mitologia romana, Aurora  é  a deusa do amanhecer. Na mitologia grega, Aurora é Eos, filha de Hiperião e Teia e irmã da lua e do sol. Aurora renovava-se  todas as manhãs e  voava pelos  céus anunciando  a chegada  do amanhecer. 

Que a deusa lhe traga muitas alegrias ao lado das pessoas  que vc ama. Que seu dia seja belo e colorido  como a Aurora Boreal  que podemos  contemplar nos polos. 

Que essa beleza  seja renovada a cada dia. 

FELIZ ANIVERSÁRIO!
Com  meu amor materno

ana

POR ROGÉRIO CERQUEIRA LEITE - DESVENDANDO MORO



    Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
     
    DEDESVENDANDO MORO

    O húngaro George Pólya, um matemático sensato, o que é uma raridade, nos sugere ataques alternativos quando um problema parece insolúvel.

    Um deles consiste em buscar exemplos semelhantes paralelos de problemas já resolvidos e usar suas soluções como primeira aproximação. Pois bem, a história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sérgio Moro e seus sequazes da Promotoria Pública.

    Dentre os exemplos se destaca o dominicano Girolamo Savanarola, representante tardio do puritanismo medieval. É notável o fato que Savanarola e Leonardo da Vinci tenham nascido no mesmo ano. Morria a Idade Média estrebuchando e nascia fulguramente o Renascimento.

    Educado por seu avô, empedernido do moralista, o jovem Savanarola agiganta-se contra a corrupção da aristocracia e da Igreja. Para ele ter existido era absolutamente necessário o campo fértil da corrupção que permeou o início do Renascimento.

    Imaginem só como Moro seria terrivelmente infeliz se não existisse corrupção para ser combatida. Todavia existe uma diferença essencial, apesar de muitas conformidades, entre o fanático dominicano e o juiz do Paraná – não há indícios de parcialidade nos registros históricos da exuberante vida de Savanarola, como aliás aponta o jovem Maquiavel, o mais fecundo pensador do Renascimento italiano.

    É preciso, portanto, adicionar, um outro componente à constituição da personalidade de Moro – o sentimento aristocrático, isto é, a sensação, inconsciente por vezes, de que se é superior ao resto da humanidade e de que lhe é destinado um lugar de dominância sobre os demais, o que poderíamos chamar de “síndrome do escolhido”.

    Essa convicção tem como consequência inexorável o postulado de que o plebeu que chega a status sociais elevados é um usurpador e, portanto, precisa ser caçado. O PT no poder está usurpando o legítimo poder da aristocracia, ou melhor, do PSDB.

    A corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT.

    Savanarola, após ter abalado o poder dos Médici em Florença, é atraído ardilosamente a Roma pelo papa Alexandre 6º, o Borgia, corrupto e libertino, que se beneficiara com o enfraquecimento da ameaçadora Florença.

    Em Roma, Savanarola foi queimado. Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.
    Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não.

    FSP: 11/10/2016.