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| Dr. Arruda Furtado |
Fonte: http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=282
De Fortaleza, Terra de Luz, capital da Terra de Sol banhada pelos “verdes mares bravios” cantados pelo magno poeta em prosa de Iracema,
chegou-nos, há já algum tempo, a notícia do falecimento do Dr.
Francisco de Assis de Arruda Furtado, nosso ilustre irmão de Fé e
companheiro de ideais tradicionalistas, patrióticos e sadiamente
nacionalistas.
Ainda que estejamos certos de que Arruda Furtado, exemplar cristão,
autêntico modelo das mais lídimas virtudes, gozará, no Paraíso, da
Eterna Bem-Aventurança, livre do exílio que é a vida do Ente Humano
neste “vale de lágrimas”, não podemos deixar de receber tal notícia com
certo pesar, posto que, com a partida deste bravo soldado de Deus, da
Pátria e da Família para o Outro Mundo ficaram o Ceará e o Brasil menos
nobres moral e intelectualmente.
Advogado, professor universitário, político, escritor e estudioso da
História, Arruda Furtado foi, antes e acima de tudo, um homem profunda e
sinceramente religioso, que se tornou não apenas um dos mais notáveis
vultos do Integralismo no Ceará, como também um dos grandes líderes
católicos da província de José de Alencar e de Gustavo Barroso, fazendo
parte da “plêiade de paladinos da fé que encontraram abrigo no Instituto
do Ceará”, [1] no qual ingressou no ano de 1975. Esta prestigiosa e
tradicional instituição cultural, voltada a estudos científicos,
sobretudo históricos, geográficos e antropológicos, fora fundada em 1887
pelo médico e historiador cearense Guilherme Chambly Studart,
Vice-Cônsul do Reino Unido em Fortaleza e católico militante e dedicado a
obras de caridade, a quem o Papa Leão XIII concedeu, em 1900, o título
de barão.
Nasceu Francisco de Assis de Arruda Furtado no Município de Senador
Pompeu, no sertão cearense, sendo o décimo quarto dos vinte e um filhos
do comerciante Luiz de Gonzaga Furtado e de sua esposa Maria Adelina de
Arruda Furtado. Aos cinco anos de idade já estava matriculado no
tradicional Colégio Imaculada Conceição, pertencente à sua tia paterna,
D. Maria Furtado. Em 1929, quando a família se mudou para Fortaleza,
continuou os estudos com uma professora particular contratada pelo pai.
A 09 de fevereiro de 1930, realizou a Primeira Comunhão, na Igreja de
Nossa Senhora do Patrocínio, na Capital Cearense, sendo oficiante o
Padre Germiniano Bezerra de Menezes, seu parente pelo lado paterno. Três
anos mais tarde, ingressou como aluno interno no Ginásio Salesiano
Domingos Sávio, na municipalidade cearense de Baturité, onde concluiu o
curso primário em 1935.
Em abril de 1936, ingressou Arruda Furtado no Liceu do Ceará,
tradicional instituição de ensino em que, anos antes, estudara Gustavo
Barroso, cujo segundo livro de memórias se intitula, aliás, Liceu do Ceará
[2]. A 15 de junho do mesmo ano, principiou a trabalhar na empresa
Ceará Tramway, Light & Power Co., na função de auxiliar de escrita,
labutando com bastante afinco a fim de se manter e ajudar os pais.
Havendo concluído o curso ginasial no ano de 1940, matriculou-se no
ano seguinte no curso pré-jurídico, concluído em 1943, mesmo ano em que
deixou a Ceará Tramway, Light & Power Co., no alto cargo de
secretário da gerência da seção de luz.
Ainda em 1943, ingressou Arruda Furtado na Faculdade de Direito do
Ceará e passou a trabalhar no Gabinete da Agricultura e Obras Públicas,
havendo deixado o emprego na Ceará Tramway, Light & Power Co. em
virtude de serem diurnas suas aulas na faculdade de Direito. Em
princípios de 1944, foi designado pelo Interventor do Ceará, Francisco
de Meneses Pimentel, para integrar a comissão que procedeu à
reorganização administrativa dos serviços públicos, origem do
Departamento do Serviço Público (DSP), em que foi admitido, na função de
Assistente de Pessoal, aos 02 de outubro do mesmo ano.
Em abril de 1945, fez concurso para o cargo de Técnico de
Administração do Estado, sendo classificado em terceiro lugar, mesmo
lugar, aliás, em que se situara na lista de aprovados do vestibular da
Faculdade de Direito do Ceará. Ainda em 1945, foi designado para, em
companhia do Técnico de Administração Germano de Carvalho Rocha,
apresentar ao governo cearense os planos para um aumento geral dos
vencimentos do funcionalismo público, civil e militar, aumento este que
ocorreu em outubro, sendo aos quatro dias do mês seguinte nomeado
Técnico de Administração.
Nas eleições de 1947, figurou Arruda Furtado entre os candidatos do
Partido de Representação Popular (PRP) à Assembleia Legislativa do
Ceará. Fora ele, em 1945, um dos sócios fundadores do PRP, agremiação
política que defendia os princípios eminentemente cristãos,
tradicionais, nacionais e renovadores do Integralismo Brasileiro,
Movimento a que aderira quando ainda adolescente e ginasiano.
Em seus tempos de estudante, participara Arruda Furtado do Centro
Estudantil Cearense, do qual foi Secretário Interino, bem como do Clube
Liceal de Estudos, do Centro Literário Juvenal Galeno, do Centro
Literário Gustavo Barroso e do Grêmio de Estudantes Fenixtas,
colaborando ativamente nas revistas Folha Estudantil, A Ideia, 7 de Outubro e Fênix. Colaborou, ainda, no jornal O Nordeste, de que foi redator comercial de 1944 a 1945, e no semanário católico A Verdade, de Baturité.
Cidadão
mais moço que já tomara assento na Assembleia Legislativa Cearense,
Arruda Furtado, a despeito de ali haver permanecido por pouco mais de um
mês, realizou mais coisas do que muitos inpíduos que ali permaneceram
por vários anos. (Imagem: Arquivo/Assembléia Legislativa do Ceará)
Diplomado Segundo Suplente do Partido de Representação Popular a 20
de fevereiro de 1947, foi Arruda Furtado convocado aos vinte e seis dias
do mesmo mês para substituir o Deputado Raimundo Aristides Ribeiro, que
requerera licença de trinta e cinco dias a fim de participar, no Rio de
Janeiro, da III Convenção Nacional do PRP, da qual o Primeiro Suplente,
Dr. Assis Pereira, também participaria.
Cidadão mais moço que já tomara assento na Assembleia Legislativa
Cearense, Arruda Furtado, a despeito de ali haver permanecido por pouco
mais de um mês, realizou mais coisas do que muitos inpíduos que ali
permaneceram por vários anos. Teve ele, com efeito, como membro da
Comissão Constitucional, ativa participação na elaboração da
Constituição Cearense de 1947, havendo redigido três capítulos do
projeto que se transformou na referida Constituição. Um de tais
capítulos é aquele referente à Polícia Militar, que inexistia nas
constituições cearenses anteriores, sendo tal inovação uma proposta sua,
e outro o que diz respeito aos funcionários públicos. Neste capítulo,
foram consagrados, como regras constitucionais, persos institutos que
anteriormente constavam tão somente da legislação ordinária, a exemplo
das férias de trinta dias, da licença à gestante, do salário-família, da
gratificação adicional por tempo de serviço e da isenção de impostos
para aquisição da casa própria [3].
Dentre outras proposições de seu curto porém profícuo mandato na
Assembleia Legistalitva Cearense, podemos destacar, antes de qualquer
outra, aquela que mandava apor, no Plenário da Assembleia, a imagem do
Cristo Crucificado. Tal projeto foi aprovado, havendo sido feita a
entronização da imagem do pino Mestre Crucificado em sessão solene,
presidida por Dom Antônio de Almeida Lustosa, Arcebispo de Fortaleza.
O triunfo do requerimento de Arruda Furtado que determinava a
aposição da imagem de Cristo na sala das sessões da Assembleia
Legislativa Cearense foi, sem dúvida alguma, uma grande vitória do Ceará
e do Brasil Profundo, Autêntico e Verdadeiro e contra as hostes do
antiCeará e do antiBrasil, representadas, antes de tudo, pela bancada
comunista, que, composta pelos deputados José Marinho de Vasconcelos e
José Pontes Neto, votou, evidentemente, contra o referido projeto.
Um dos principais líderes do Partido de Representação Popular no
Ceará, foi Arruda Furtado, por vários anos, Secretário-Geral, em sua
província natal, desta agremiação política, que Plínio Salgado definiu
como “um grande Partido Nacional Democrático e Cristianíssimo,
profundamente enraizado no mais puro nacionalismo e altamente projetado
no mais luminoso dos espiritualismos” [4].
Casado em 1948 com D. Antônia Valburga de Araújo Arruda Furtado, teve
nosso homenageado os seguintes filhos: Maria de Fátima Furtado Chaves;
Juvenal Antônio Araújo Furtado; Maria Tereza Lumena Furtado Moreira;
Luiz de Gonzaga Furtado Neto (sacerdote); Maria Francelina Furtado
Chagas; Maria Mônica Furtado Rodrigues Lima e Francisco de Assis de
Arruda Furtado Júnior, já falecido.
A despeito de afastado da vida parlamentar, continuou Arruda Furtado
ligado à história das Constituições cearenses, posto que participou, na
qualidade de representante do chamado Poder Executivo, da comissão
composta, além dele, por Mauro Benevides, Barros dos Santos, José
Napoleão e Weimar Silva Thé, para a redação do projeto da Constituição
Cearense de 1970 [5].
Em 1957, fundou, juntamente com outros intelectuais, expoentes da
política, da cultura e da educação de sua província natal, a Escola de
Administração do Ceará (EAC), de que foi um dos mais importantes
professores. No ano de 1975, quando a EAC se transformou no Curso de
Administração da Universidade Estadual do Ceará (UECE), tornou-se
professor titular desta instituição de ensino superior.
Pertenceu Arruda Furtado a entidades como a Academia Cearense de
Letras Jurídicas, a Academia Cearense de Retórica, o Instituto dos
Advogados do Brasil, a Associação Cearense de Imprensa, o Instituto
Cearense de Administração e o Instituto Latino Americano de Derecho del
Trabajo y Seguridad Social, com sede em Buenos Aires, Argentina, e, é
claro, o já aqui mencionado Instituto do Ceará.
No campo administrativo, ocupou nosso homenageado persos cargos e
funções de relevo, a exemplo de Procurador do Conselho de Contas dos
Municípios, de Consultor Geral do Estado e de Diretor Geral do Tribunal
Regional do Trabalho da 7ª Região, com sede em Fortaleza, havendo sido,
ademais, membro do Conselho Estadual de Educação e do Conselho Seccional
da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Participou Arruda Furtado de persos congressos, simpósios e
seminários nacionais e internacionais, dentre os quais podemos destacar o
V Congresso Nacional de Municípios (Recife, 1959), o Encontro de
Secretários de Administração dos Estados (Rio de Janeiro, 1969), o
Simpósio de História do Acre (Rio Branco, 1977), o Seminário
Latino-Americano de Direito do Trabalho (Fortaleza, 1978) e o Congresso
Latino-Americano de Direito do Trabalho (Lima, 1979).
Dentre as persas obras do escritor cearense, podemos pôr em relevo as seguintes: Acumulações remuneradas (1957); Direito Administrativo Municipal (1957); Aperfeiçoamento de servidores (1959); Regimento Interno da Câmara Municipal e prática de inquérito administrativo (1961); Crimes de responsabilidade de prefeitos municipais (1962); Ode às mães (Poesia, 1972); Pareceres como Consultor Geral do Estado (1974); Luiz de Gonzaga Furtado (notas biográficas, 1975); Emigração para o Acre (História, 1979); Agradável a Deus e por Ele amado (biografia, 1982), e Firmes na Fé, perseverantes nos mandamentos (biografias, 1987).
Dentre todas as obras de Arruda Furtado que acabamos de mencionar, infelizmente só tivemos a oportunidade de ler o livro Agradável a Deus e por Ele amado,
tocante obra que conta a vida de seu virtuoso filho Francisco de Assis
de Arruda Furtado Júnior, “vida brevíssima, porque findou aos dezessete
anos e meio, porém fecunda porque fez germinar frutos opimos de
espirituais valores” [6]. No magnífico prefácio de tal obra, Dom Manoel
Pestana Filho, saudoso e virtuoso Bispo de Anápolis, sublinhou o amor do
jovem biografado à Igreja; sua dedicação integral à Santíssima Virgem;
seu “entusiasmo pelos tesouros da tradição doutrinal e litúrgica; seu
discernimento de ancião em alma de jovenzinho; sua docilidade à voz do
magistério autêntico; sua delicadeza de consciência no trato” com
aqueles que lhe pareciam se desviar do caminho; seu coração aberto às
mais pequeninas necessidades dos outros, e, por fim, “sua acolhida à
irmã Morte que lhe punha fim a tantos sonhos para mergulhá-lo na grande
Realidade”. Isto posto, salientou o preclaro sacerdote patrício que tudo
isto o convencia de que “Cristo continua morando entre os homens, ainda
que às vezes pareça dormir no fundo da barca, em meio à tempestade”
[7].
Em seguida, ainda no referido prefácio à bela e comovente biografia
de Francisco de Assis de Arruda Furtado Júnior, afirmou Dom Pestana que
“a família Arruda Furtado ofereceu ao mundo e a Deus, pela sua fé e
testemunho evangélico, o maior de todos os presentes, um santo, pois é o
de que unicamente o mundo precisa”. Segundo o autor de Igreja doméstica, o que realmente está em falta na hora presente é a “santidade radical e heroica”, que Virgil Gheorghiu, o magno romancista de A 25ª hora, reputou ser a única instituição de autêntica utilidade pública [8].
Assim como o filho, Francisco de Assis de Arruda Furtado sempre
buscou a santidade radical e heroica, tendo plena consciência de que,
como prelecionou Plínio Salgado, “não é digno de lutar pelo Cristo quem não erguer a bandeira da própria santificação” [9].
Oliveira Vianna nos falou, na obra Instituições políticas brasileiras,
dos homens de mil do Império Brasileiro, assinalados varões que tinham,
na expressão do insigne pensador fluminense, “inata vocação ao bem
comum” nacional. Alimentados pelo “sentimento do seu dever público”,
repletos “do desejo de bem servir” este País, colocando os lídimos
“interesses da Nação” e o cumprimento das “obrigações cívicas acima dos
seus interesses pessoais – e mesmo de partido”, absorvidos, enfim, pelas
“preocupações do patriotismo e do serviço público”, constituíram estes
homens políticos a nata daquilo a que o autor de Populações meridionais do Brasil denominou a “aristocracia do Império” e a “elite nacional” [10].
Nós, por nossa vez, seguindo o ínclito companheiro Gumercindo Rocha
Dorea, já por mais de uma vez falamos dos homens de mil do Integralismo,
varões ilustres e profundamente virtuosos, que, como aqueles do
Império, colocaram o bem da Nação Brasileira acima de seus interesses de
ordem pessoal, tudo fazendo em prol dos legítimos interesses deste
vasto Império da Terra de Santa Cruz sem nada pedir em troca e estando
sempre prontos a defender, segundo as palavras de Gustavo Barroso, “as
Sagradas Tradições Cristãs do Brasil”, regando-as, se necessário for,
com seu “próprio sangue para que melhor resplandeçam no futuro” [11].
Exemplo de beleza moral, de grandeza e nobreza de alma, de
desprendimento, de espírito de sacrifício e de capacidade de servir ao
Bem Comum, Francisco de Assis de Arruda Furtado foi, ou melhor, é um de
tais homens de mil, que, assim como aqueles do Império, permanecem e
permanecerão vivos, brilhando como faróis, a iluminar o futuro desta
Grande Nação do ontem e do amanhã.
Encerramos esta pequena homenagem póstuma a Arruda Furtado rogando a
Deus, Sumo e Eterno Príncipe, Criador e Regente do Universo, que
suscite, na atual geração e naquelas vindouras, homens da estirpe deste
bravo e valoroso paladino de Cristo Rei, do Brasil Profundo e da Família
Tradicional que acaba de partir deste Mundo, passando a fazer parte da
assim chamada Milícia do Além.
Por Cristo e pela Nação!
Victor Emanuel Vilela Barbuy,
Presidente Nacional da Frente Integralista Brasileira.
São Paulo, 11 de junho de 2014-LXXXI.
Notas:
[1] Cf. O NORDESTE, Enciclopédia Nordeste, verbete “Arruda Furtado”. Disponível em: http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Arruda+Furtado<r=a&id_perso=528. Acesso em 14 de abril de 2014.
[2] Liceu do Ceará, 1º edição, Rio de Janeiro, Getúlio Costa, 1940.
[3] Cf. Assembleia Legislativa do Ceará, Memorial Deputado Pontes Neto, Os constituintes de 1947, Fortaleza, Editora INESP, 2002, pp. 169-170.
[4] Discursos, 1ª edição, São Paulo, Companhia Editora Panorama, 1949, p. 18.
[5] Cf. Assembleia Legislativa do Ceará, Memorial Deputado Pontes Neto, Os constituintes de 1947, Fortaleza, Editora INESP, 2002, p. 170.
[6] Agradável a Deus e por Ele amado: biografia de um jovem, 1ª edição, Fortaleza, Imprensa Oficial do Ceará, 1982, p. 13.
[7] Prefácio, in Agradável a Deus e por Ele amado: biografia de um jovem, 1ª edição, Fortaleza, Imprensa Oficial do Ceará, 1982, p. 9.
[8] Idem, loc. cit.
[9] Primeiro, Cristo!, 4ª edição, in Obras completas. 2ª edição, vol .VI, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 212.
[10] Instituições políticas brasileiras, Primeiro volume, Fundamentos sociais do Estado (Direito Público e Cultura), 2ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1955, pp. 394-395.
[11] Comunismo, Cristianismo e Corporativismo, Rio de Janeiro, Empresa Editora ABC Limitada, 1938, p. 99.
11/06/2014, 23:28:30